Figurativa
O pai cavando o chão mostrou pra nós,
com o olho da enxada, o bicho bobo,
a cobra de duas cabeças.
Saía dele o cheiro de óleo e graxa,
cheiro-suor de oficina, o brabo cheiro bom.
Nós tínhamos comido a janta quente
de pimenta e fumaça, angu e mostarda.
Pisando a terra que ele desbarrancava aos socavões,
catava tanajuras voando baixo,
na poeira de ouro das cinco horas.
A mãe falou pra mim: ‘vai na sua avó buscar polvilho,
vou fritar é uns biscoitos pra nós’.
A voz dela era sem acidez. ‘Arreda, arreda’,
o pai falava com amor.
As tanajuras no sol, a beira da linha,
o verde do capim espirrando entre os tijolos
da beirada da casa descascada, a menina embaraçada
com a opressão da alegria, o coração doendo,
como se triste fosse.
A Poesia
Recita “Eu tive um cão”, depois “Morrer dormir”, ele dizia.
Eu recitava toda poderosa.
‘Eh trem!’, ele falava, guturando a risada, os olhos
amiudados de emoção, e começava a dele:
“Estrela, tu estrela, quando tarde, tarde, bem tarde,
brilhaste e volveste o teu olhar para o passado,
recordas-te e dirás com saudade: sim, fui mesmo ingrato.
Mas tu lembrarás que a primavera passa e depois volta
e a mocidade passa e não volta mais”.
A última palavra, sufocada. O que estava embaçado
eram seus óculos. Ó meu pai, o que me davas então?
Comida que mata a fome e mais outras fomes traz?
Eu hoje faço versos de ingrato ritmo.
Se os ouvisses por certo me dirias com estranheza e amor:
‘Isso, Delão, isso!’ O bastante para eu começar
[recompensada:
Agora as boas, pai, agora as boas:
“Eu tive um cão”, “Estrela, tu estrela”.
“Morrer dormir, jamais termina a vida”,
jamais, jamais, jamais.
O Sonho
O reconheci na fração do meu nome,
me chamou como em vida,
a partir da tônica:
‘Délia, vem cá’.
Peguei nos pés do catre,
onde jazia sã sua cara doente,
e o fui arrastando por corredores cheios
de médicos, seringas e uniformes brancos.
Depois foi o dia inteiro o peito comprimido,
sua voz no meu ouvido, seus olhos
como só os dos mortos olham
e a esperança, em puro desconforto
e ânsia.
Ruim
Me apanho composta:
as vísceras, o espírito,
meu ânima em dispneia.
Nem uma seta consigo pintar na estrada.
Ô tristeza, eu digo olhando meu livro.
Ô bobagem.
Ô merda,
polivalentemente, eu digo.
De que me adiantou pegar na mão do poeta
e mandar pra frente da batalha feminista
a mulher do meu amado,
se o que me sobra é um nó,
uma ruga nova,
a lembrança da gafe abominável?
Tudo para encruado.
Nem ao menos o rabo da poesia,
o fedor de vida
que às vezes deixa no ar
seu intestino grosso.
Ô Deus, eu digo enraivada,
esmurrando o ar com meu murrinho de fêmea.
Ó. Ai. Ai ai ai...
Se chovesse ou eu ficasse grávida,
quem sabe?
Na saída da cidade desconhecida
duas placas altas apontavam:
IBES.................ARIBIRI
Um preto no cruzamento
olhava atentamente para o fim dos tempos.
Eu olho meu olho fixo.
Como se não houvesse cantochão nem monges.
A Fala Das Coisas
Desde toda vida
descompreendi inteligentemente
o xadrez, o baralho,
os bordados nas toalhas de mesa.
O que é isto? eu dizia
como quem se ajeita pra melhor fruir.
Fruir o quê? Eu sei. A mensagem secreta,
o inefável sentido de existir.
Tia Clotilde está desesperada:
‘para a minha família Deus não olha’.
Meu amor, quando tira o dia pra chorar,
não quer saber de mim, até que fala:
‘abri a porta da rua, achei três bilhas azuis,
como um recado da alegria’.
É sonho, eu sei,
mas nesse dia ele não chora mais.
Se a senhora quiser, depois do almoço,
vamos no ribeirão buscar argila,
areia fina pra arear as panelas.
Olha o céu que se estende sobre nós,
seu manto cor de anil,
sua capa de veludo negro
cravejado de estrelas.
A flor-de-maio, a cravina,
viçam na terra estercada
sobre Totônio bebe,
Válter não para no emprego,
Noêmia quer casar mas não tem sorte.
Tua dor de cabeça tem origem psíquica;
tantos comprimidos à mão,
nenhum para o esquecido calor de entre as pernas,
ai, papai, me deixa namorar,
tem duas borboletas voando agarradinhas!
Meu corpo de velha quer salmodiar.
Quer ter um menino e tece,
faz tachos de doce e borda,
tapa com buchas de pano
as frestas da janela e canta
em meio de tanta dor.
Tendo orvalhado tudo,
a madrugada orvalhou a pimenteira,
cuja flor estremeces, ó minha pobre tia.
Deus mastiga com dor a nossa carne dura,
mas nem por chorar estamos abandonados.
A água do regador alçado sobre as couves
alvoroça os insetos.
A larva na hortaliça nos distrai.
Não inventamos nada.
O ponto de cruz é iluminação do Espírito;
o rei, a dama, o valete, são sérios farandoleiros.
Se nos mastiga com dor,
é por amor que nos come.
Vamos rezar as matinas.
A Profetisa Ana No Templo
As fainas da viuvez trabalham uma horta nova.
Quem me condenará por minhas vestes claras?
O recém-nascido vai precisar de faixas.
É um tal amor o que prepara os unguentos
que obriga a divindade a conceder-se.
Até que esmaeçam,
velo as coruscantes estrelas.
Corridinho
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
A Menina do Olfato Delicado
Quero comer não, mãe
(no canto do fogão o caldeirão esmaltado)
quero comer não, mãe
(arroz com feijão, macarrão grosso)
quero comer não, mãe
(sem massa de tomate)
quero comer não, mãe
(com gosto de serragem)
quero comer não, mãe
(com cheiro de carbureto)
quero comer não,
(vi um gato no caminho, fervendo de bicho)
quero comer não, mãe
(quando inaugurar a luz elétrica e o pai
consumir com o gasômetro, eu como).
Vamos ficar no escuro, mãe. Põe lamparina,
põe gasômetro não, o azul dele tem cheiro,
o cheiro entra na pele, na comida, no pensamento,
toma a forma das coisas. Quando a senhora tem
raiva sem xingar é igual a ruindade do gasômetro,
a azuleza dele. Vomito mãe. Vou comer agora não.
Vou esperar a luz elétrica.
Folhinha
A morte do escritor
não se quer resolver dentro de mim.
Mas não tenho gosto na infelicidade
e por isso busco meu caminho
como um verme sabe do seu, dentro da terra.
Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho
e do que é mínimo, às vezes,
vem o desejado consolo.
Informativo Popular Coração de Jesus
é o nome de um calendário de parede.
ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele.
O coração sangra na estampa,
mas o rosto é doce, próprio a enternecer
as mulheres da cozinha, feito eu.
Toquem mal o piano, vou me deliciar
— nada é mesmo perfeito —,
uma gota de mel desce em minha garganta.
No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:
A FÉ GUIOU OS MAGOS — LUA NOVA AMANHÃ.
Lua nova,
que nome mais bonito pra um consolo.
Eh!
Têm cheiro especial
as bolas de carne cozinhando.
O cachorro olha pra gente
com um olho piedoso,
mas eu não dou.
Comida de cachorro é muxiba,
resto de prato.
Se lembro disto de noite
e estou sozinha no quarto
acho muito engraçado
e rio com estardalhaço:
a vida é mesmo uma pândega!
Dona Ló costurou pra dona Corina
que até hoje não pagou.
E bem que pode, já que exibe no lixo
papel higiênico Sublime,
que é do melhor e mais caro.
Mas os meninos se vingam:
có có có có có corina
có có có có có corina
sua roupa de baixo
tem catinga de urina.
O sol se põe intocado
atrás do morro onde ninguém nunca foi.
É brasa sua viva cor. Tem roxos,
uma angústia pendente
que sorvo em goles de antecipada saudade.
Quando a noite fechar,
dona Corina vai dormir com seu Lula,
homem sem fantasia,
que só faz as coisas de um jeito.
Dona Ló é viúva e dorme com Santa Bárbara,
“fulgente margarita que com melodia agradável
segues ao Esposo Cordeiro”.
Se não estou compassiva, boto as mãos nas cadeiras
e grito para o Radar: É DEVERA!
Ele bota o rabo entre as pernas
e vai dormir na coberta.
Ai, Deus, minha virgindade se consome
entre precisar de feijão,
pó de café e açúcar.
Tem piedade de mim.