Lista de Poemas

Meu primeiro contato com a bola foi no saco.

 

50

Bisturi na fimose dos outros é anestésico.

 

9

Quem cita fonte é água mineral.

 

13

Baile de Formatura

Para Mari Lúcia

Eu não sonhei
que você estava linda.
Eu realmente fui ao baile
e vi você de relance, linda,
de uniforme de normalista,
e seus olhos eram olhos
de uma mulher enamorada,
parecida com a Malu Mader.
Sentindo frio em minhalma,
procurei o bar
pra tomar cuba-libre e coragem.
Quando voltei pro salão
você não estava.
Tinha casado e mudado.
Ainda havia flamingos,
viagens sentimentais,
encantamentos, convites,
damas apaixonadas,
sofisticadas e vagabundas,
a quem amei, mesmo sabendo
que isso não pode ser amor.
Não adianta me chamar
de irresponsável.
Eu estava me sentindo um tolo
por querer você.

Ainda assim, tive luas azuis,
luas pálidas,
luas brilhando sobre
cidades desconhecidas
e um caso para relembrar
e esquecer,
e novo tempo de partir
e o que será, será,
as luzes da cidade
refletindo
um sorriso na lembrança,
um certo sorriso de verão,
cerca de meia-noite,
um sorriso de velhos amigos
embora estranhos no paraíso,
e esse sorriso reacendeu
minha velha chama:
eu dançaria a noite inteira
de rosto colado,
dançando no escuro
canções de setembro,
dançando na chuva,
nas areias da maré baixa,
mas você ainda não estava
dançando a melodia imortal,
você era uma estrela
piscando acima do arco-íris,
e de repente havia fumaça
em seus olhos,
amores clandestinos,
minha garota melancólica,
até nosso reencontro,
mas depois daquela última dança,
corpo e alma,
nunca mais seremos os mesmos.

Hoje a canção é você
e eu estou feliz
por ser infeliz nessa fascinação
entre folhas mortas,
gardênias azuis,
serenatas ao luar,
canções da Índia,
cartas de amor...
With a song in my heart
eu te esperei vinte anos,
acordado e triste,
no salão silencioso e apagado.
Você mudou, noite e dia,
mudou suave e adoravelmente,
e ainda tem os mesmos olhos,
olhos de mulher apaixonada,
olhos de Malu Mader,
e agora, por causa de você,
por tudo que você é,
eu posso finalmente sonhar
que durante todo esse tempo
você não flertou com ninguém,
e que olha só para mim,
meu amor,
meu par.

1 846

Lamas

Da série "Árias para folha de fícus" - II

Ter coragem de olhar
pela última vez
e mentir calmamente:
quem sabe?... Talvez...
como se a última vez
ficasse pra outra vez

1 375

Desencontro Marcado

Da série "Árias para folha de fícus" - I

É, não vem,
não vou.
Deixa pra lá,
depois se vê.
Você queima
e eu não ponho
a mão no fogo por você.

1 564

Angústia de Influência

A mulher e o toureiro
têm em comum o cheiro
de sangue no esmero da roupa

têm em comum a graça
com que transpassam
a besta com a capa e a espada

têm em comum o estro
poético do gesto antes da
morte, os olhos de martírio

o homem-fera
babuja a bainha da Valquíria
quando
o infinito
lavra no lacre
seu sinete:
a besta expira, atônita
diante da verônica
de Manolete

1 301

Hefesto

Um dia inteiro
para
em queda livre
beijar o solo.

No tempo mitológico
o dia é a vida.

Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.

1 614

Você

Da série "Árias para folha de fícus" - III

...foi mais ou menos isso:
um susto louco
ao dobre do crepúsculo,
como se meu corpo
fosse todo-olvidos.

1 429

Clima-X

Quando, agonizantes, gozamos,

transcendemos

essa históriade ser mulher
ou ser marido:

É como se você fosse terra
e eu tivesse chovido.

1 247

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Identificação e contexto básico

Aldir Blanc foi um poeta, compositor e instrumentista brasileiro. Sua obra é vasta e multifacetada, marcada por uma profunda conexão com a cultura popular e uma crítica social contundente. Sua escrita, tanto na música quanto em poemas, revela um olhar aguçado sobre o Brasil e suas contradições.

Infância e formação

Nascido no Rio de Janeiro, Aldir Blanc teve uma infância marcada pela efervescência cultural da cidade. Desde cedo, demonstrou interesse pelas artes, especialmente a música e a literatura, que se tornariam pilares de sua produção artística. Sua formação, embora não formalmente ligada a cursos de artes, foi intensamente moldada pela vivência e pela absorção da rica tapeçaria cultural brasileira.

Percurso literário

O percurso literário de Aldir Blanc está intrinsecamente ligado à sua carreira musical. Como compositor, suas letras frequentemente transcendiam a estrutura de canção, apresentando uma poesia elaborada, com forte carga semântica e imagética. Essa habilidade lírica o posicionou como um poeta relevante no cenário da música brasileira, cujos versos ganharam vida nas vozes de diversos intérpretes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Aldir Blanc é autor de centenas de canções que se tornaram clássicos da MPB, muitas delas em parceria com João Bosco. Seus temas abordam o cotidiano, a política, o amor, a crítica social e a identidade brasileira, muitas vezes com um tom irônico e subversivo. Seu estilo é caracterizado pela linguagem coloquial, pela criatividade rítmica e melódica e pela profunda brasilidade. Ele utilizava recursos como a metalinguagem, a intertextualidade e a personificação para construir narrativas ricas e envolventes. O verso livre era sua forma preferencial, permitindo-lhe explorar a musicalidade da língua de maneira fluida e expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Aldir Blanc emergiu na cena cultural brasileira durante um período de intensa efervescência e, ao mesmo tempo, de repressão política, com a ditadura militar. Sua obra dialoga diretamente com esse contexto, muitas vezes utilizando a alegoria e a ironia para contornar a censura e expressar críticas sociais e políticas. Ele se insere na rica tradição da MPB, ao lado de grandes nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, contribuindo para a consolidação de uma identidade artística brasileira em meio a turbulências históricas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Aldir Blanc, embora discreta, refletia seus valores e sua visão de mundo. Sua parceria com João Bosco foi fundamental em sua carreira, gerando uma das mais prolíficas e aclamadas duplas da música brasileira. Sua dedicação à arte e ao Brasil era evidente em sua obra, que buscava retratar e questionar a realidade do país.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Aldir Blanc sempre gozou de grande reconhecimento por parte do público e da crítica especializada. Suas canções foram gravadas por inúmeros artistas e se tornaram trilhas sonoras de gerações. A profundidade de suas letras e a originalidade de suas composições o consolidaram como um dos maiores letristas e compositores da música brasileira. Sua obra é estudada e reverenciada, atestando seu legado duradouro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Aldir Blanc foi influenciado pela rica tradição da música popular brasileira, pela literatura de cordel e pela poesia popular. Seu legado é imenso, estendendo-se para além da música, impactando a forma como a poesia brasileira é concebida e apreciada. Ele influenciou gerações de compositores e letristas, que encontraram em sua obra um modelo de criatividade, crítica social e profunda brasilidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Aldir Blanc tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que destacam a inteligência de seus versos, a crítica social implícita e a capacidade de capturar a essência da cultura brasileira. Seus poemas e canções convidam à reflexão sobre a condição humana, a política e a identidade nacional, oferecendo múltiplas camadas de significado.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aldir Blanc era conhecido por seu humor ácido e sua irreverência. Uma curiosidade é sua habilidade em criar rimas e jogos de palavras surpreendentes, muitas vezes em meio a conversas cotidianas. Seu processo criativo frequentemente envolvia observações aguçadas do cotidiano, que ele transformava em obras de arte.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Aldir Blanc faleceu em 2020, deixando uma lacuna na música e na poesia brasileira. Sua memória, no entanto, permanece viva através de sua obra atemporal, que continua a emocionar, a inspirar e a provocar reflexão em todos que a escutam e a leem.