Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

1892–1938 · viveu 46 anos AR AR

Alfonsina Storni foi uma poeta, jornalista e ativista argentina. Pioneira na literatura escrita por mulheres na América Latina, destacou-se pela sua poesia que aborda temas como o amor, a maternidade, a solidão, a condição feminina e a crítica social, muitas vezes com um tom de revolta e desafio às convenções da época. Sua vida e obra são marcadas por uma forte consciência social e por uma busca incansável pela liberdade e pela igualdade de gênero, deixando um legado importante para o feminismo e a literatura contemporânea.

n. 1892-05-29, Capriasca · m. 1938-10-25, Mar del Plata

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Palavras a um habitante de Marte

Será verdade que existes sobre o vermelho planeta,
que, como eu, possuis finas mãos prêensíveis,
boca para o riso, coração de poeta,
e uma alma administrada pelos nervos sutis?

Mas no teu mundo, acaso, se erguem as cidades
como sepulcros tristes? As assolou a espada?
Já tudo tem sido dito? Com o teu planeta acrescentas
a vasta harmonia outra taça vazia?

Se fores como um terrestre, que poderia importar-me
que o teu sinal de vida desça a visitar-me?
Busco uma estirpe nova através da altura.

Corpos bonitos, donos do segredo celeste
da alegria achada. Mas se o teu não é este,
se tudo se repete, cala triste criatura!

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Biografia

Identificação e contexto básico

Alfonsina Storni foi uma poeta, escritora e jornalista argentina, nascida na Suíça e falecida na Argentina. É considerada uma das vozes mais importantes da literatura latino-americana do século XX, com uma obra marcada pela força expressiva, pela crítica social e pela defesa dos direitos das mulheres.

Infância e formação

Nascida na Suíça, Storni mudou-se com a família para a Argentina ainda criança. Sua infância e juventude foram marcadas por dificuldades econômicas, o que a levou a trabalhar precocemente. Essa experiência de vida influenciou profundamente sua visão de mundo e sua obra, dotando-a de uma sensibilidade especial para as questões sociais e a condição feminina. Sua formação foi tanto autodidata quanto marcada pela necessidade de conciliar estudos e trabalho.

Percurso literário

O percurso literário de Alfonsina Storni iniciou-se com a publicação de poemas em jornais e revistas. Rapidamente, sua obra ganhou destaque pela originalidade e pela força de sua voz. Publicou diversos livros de poesia e prosa, consolidando-se como uma figura central na cena literária argentina. Sua atividade como jornalista também foi relevante, utilizando a imprensa como veículo para suas ideias e críticas.

Obra, estilo e características literárias

As obras principais de Storni incluem "La inquietud del rosal" (1916), "El dulce daño" (1918), "Ocre" (1920), "Mundo de siete pozos" (1934) e "Mascarilla y trébol" (1938). Seus temas dominantes são o amor, a maternidade, a liberdade feminina, a crítica à hipocrisia social, a natureza e a morte. Caracteriza-se pelo uso do verso livre, por uma linguagem direta e por uma forte musicalidade. Sua voz poética é frequentemente confessional, mas sempre ressoando com questões universais. Storni inovadoramente trouxe para a poesia temas e uma perspectiva feminina que eram, até então, marginalizados. Sua obra dialoga com a tradição, mas a reinventa com uma sensibilidade moderna e engajada.

Contexto cultural e histórico

Storni viveu em um período de grandes transformações sociais e políticas na América Latina e no mundo. Sua obra reflete as tensões e os debates da época, especialmente no que diz respeito à emancipação feminina e aos direitos das mulheres. Ela foi uma participante ativa dos movimentos feministas e literários, dialogando com outros escritores e intelectuais de seu tempo e defendendo posições políticas progressistas.

Vida pessoal

A vida pessoal de Alfonsina Storni foi marcada por desafios, incluindo maternidade solo e dificuldades financeiras. Essas experiências moldaram sua escrita, conferindo-lhe uma autenticidade e uma profundidade notáveis. Suas relações afetivas, suas crises e suas reflexões sobre a existência humana são temas recorrentes em sua poesia.

Reconhecimento e receção

Alfonsina Storni obteve reconhecimento em vida por sua obra poética, tornando-se uma figura respeitada na literatura argentina e latino-americana. Sua poesia foi amplamente difundida e lida, conquistando tanto o público quanto a crítica. Seu legado perdura como um marco na literatura escrita por mulheres.

Influências e legado

Storni foi influenciada por poetas como Rubén Darío, mas desenvolveu um estilo próprio e inovador. Sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de escritoras e poetas na América Latina, abrindo caminhos para a expressão da subjetividade feminina e para a crítica social na poesia. É considerada uma precursora do feminismo literário na região.

Interpretação e análise crítica

A obra de Alfonsina Storni é frequentemente analisada sob a ótica do feminismo, da crítica social e da exploração da condição humana. Suas poesias oferecem ricas possibilidades de interpretação, abordando a complexidade das relações humanas, a busca por identidade e a revolta contra as opressões.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Um aspeto curioso de sua vida foi sua paixão pela natureza e seu fascínio pelo mar, que aparece frequentemente em sua obra. Sua morte, por suicídio por afogamento, é um evento trágico que, para muitos, dialoga com a melancolia e os temas existenciais presentes em seus versos.

Morte e memória

Alfonsina Storni faleceu em 1938, por suicídio, lançando-se ao mar. Sua morte prematura marcou profundamente o meio literário. Publicações póstumas continuaram a divulgar e a celebrar sua obra, garantindo sua permanência na memória e no cânone da literatura em língua espanhola.

Poemas

16

Palavras a um habitante de Marte

Será verdade que existes sobre o vermelho planeta,
que, como eu, possuis finas mãos prêensíveis,
boca para o riso, coração de poeta,
e uma alma administrada pelos nervos sutis?

Mas no teu mundo, acaso, se erguem as cidades
como sepulcros tristes? As assolou a espada?
Já tudo tem sido dito? Com o teu planeta acrescentas
a vasta harmonia outra taça vazia?

Se fores como um terrestre, que poderia importar-me
que o teu sinal de vida desça a visitar-me?
Busco uma estirpe nova através da altura.

Corpos bonitos, donos do segredo celeste
da alegria achada. Mas se o teu não é este,
se tudo se repete, cala triste criatura!

1 473

Sou essa flor

Tua vida é um grande rio, vai caudalosamente,
a sua beira, invisível, eu broto docemente.
Sou essa flor perdida entre juncos e achiras
que piedoso alimentas, mas acaso nem olhas.

Quando cresces me levas e morro em teu seio,
quando secas morro pouco a pouco no lodo;
Mas de novo volto a brotar docemente
quando nos dias belos vais caudalosamente.

Sou essa flor perdida que brota nas tuas margens
humilde e silenciosa todas as primaveras.

1 532

Sou

Sou suave e triste se idolatro, posso
abaixar o céu até minha mão quando
a alma do outro à alma minha enredo.
Pena alguma não acharás mais branda.

Nenhuma como eu as mãos beija,
nem se acomoda tanto em um sonho,
nem convém outro corpo, assim pequeno,
uma alma humana de maior ternura.

Morro sobre os olhos, se os sinto
como pássaros vivos, um momento
voar baixo meus dedos brancos.

Sei a frase que encanta e que compreende,
sei calar quando a lua ascende
enorme e vermelha sobre os barrancos.

1 295

Tu que nunca serás

Sábado foi caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.

Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado...

Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio

E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.

1 565

Luz

Andei na vida pergunta fazendo
Morrendo de tédio, de tédio morrendo.

Riram os homens de meu desvario...
É grande a terra! Se riem... eu rio...

Escutei palavras; demasiadas palavras!
Umas são alegres, outras são macabras.

Não pude entende-las; pedi as estrelas
Linguagem mais clara, palavras mais belas.

As doces estrelas me deram tua vida
E encontrei em teus olhos a verdade perdida

Oh! teus olhos cheios de verdades tantas,
Teus olhos escuros onde o universo meço!

Segura de tudo me jogo a teus pés:
Descanso e esqueço.

1 373

Inútil sou

Por seguir das coisas o compasso,
às vezes, quis neste século ativo,
pensar, lutar, viver com o que vivo,
ser no mundo algum parafuso a mais.

Mas, atada ao sonho sedutor,
do meu instinto voltei ao escuro poço,
pois, como algum inseto preguiçoso
e voraz, eu nasci para o amor.

Inútil sou, pesada, torpe, lenta,
meu corpo, ao sol estendido, se alimenta
e só vivo bem no verão,

quando a selva cheira e a enroscada
serpente dorme em terra calcinada;
a fruta se abaixa até minha mão.

1 267

Quando cheguei à vida

Vela sobre minha vida, meu grande amor imenso.
Quando cheguei à vida trazia em suspense,
na alma e na carne, a loucura inimiga,
o capricho elegante e o desejo que açoita.

Encantavam-me as viagens pelas almas humanas,
a luz, os estrangeiros, as abelhas leves,
o ócio, as palavras que iniciam o idílio,
os corpos harmoniosos, os versos de Virgílio.

Quando sobre teu peito minha alma foi tranqüilizada,
e a doce criatura, tua e minha, desejada,
eu pus entre tuas mãos toda minha fantasia

e te disse humilhada por estes pensamentos:
Vigiai-me os olhos! Quando mudam os ventos
a alma feminina se transtorna e varia...

1 424

Dorme tranqüilo

Falaste a palavra que enamora
meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranqüilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.

Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.

Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar em duelo.

Cobre de belas vítimas o solo!
Mais dano ao mundo fez a espada fátua
de algum bárbaro rei e tem estátua.

919

O rogo

Senhor, Senhor, faz já tanto tempo, um dia
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora
A vida toda, toda a poesia...
E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor: minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O açoite que sangra aos perversos!
Que está a tarde já sobre minha vida,
E esta paixão ardente e desmedida,
A hei perdido, Senhor fazendo versos.

1 087

Diante do mar

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.

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