Lista de Poemas

O rogo

Senhor, Senhor, faz já tanto tempo, um dia
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora
A vida toda, toda a poesia...
E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor: minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O açoite que sangra aos perversos!
Que está a tarde já sobre minha vida,
E esta paixão ardente e desmedida,
A hei perdido, Senhor fazendo versos.

1 063

Frente al mar

Frente al mar

Oh mar, enorme mar, corazón fiero

De ritmo desigual, corazón malo,

Yo soy más blanda que ese pobre palo

Que se pudre en tus ondas prisionero.

Oh mar, dame tu cólera tremenda,

Yo me pasé la vida perdonando,

Porque entendía, mar, yo me fui dando:

"Piedad, piedad para el que más ofenda".

Vulgaridad, vulgaridad me acosa.

Ah, me han comprado la ciudad y el hombre.

Hazme tener tu cólera sin nombre:

Ya me fatiga esta misión de rosa.

¿Ves al vulgar? Ese vulgar me apena,

Me falta el aire y donde falta quedo,

Quisiera no entender, pero no puedo:

Es la vulgaridad que me envenena.

Me empobrecí porque entender abruma,

Me empobrecí porque entender sofoca,

¡Bendecida la fuerza de la roca!

Yo tengo el corazón como la espuma.

Mar, yo soñaba ser como tú eres,

Allá en las tardes que la vida mía

Bajo las horas cálidas se abría...

Ah, yo soñaba ser como tú eres.

Mírame aquí, pequeña, miserable,

Todo dolor me vence, todo sueño;

Mar, dame, dame el inefable empeño

De tornarme soberbia, inalcanzable.

Dame tu sal, tu yodo, tu fiereza,

¡Aire de mar!... ¡Oh tempestad, oh enojo!

Desdichada de mí, soy un abrojo,

Y muero, mar, sucumbo en mi pobreza.

Y el alma mía es como el mar, es eso,

Ah, la ciudad la pudre y equivoca

Pequeña vida que dolor provoca,

¡Que pueda libertarme de su peso!

Vuele mi empeño, mi esperanza vuele...

La vida mía debió ser horrible,

Debió ser una arteria incontenible

Y apenas es cicatriz que siempre duele.

1 754

Homem pequenino

Homem pequenino, homem pequenino,
Solta o teu canário que quer voar...
Eu sou o canário que quer voar...
Eu sou o canário, homem pequenino,
Deixa-me escapar.
Estive na tua gaiola, homem pequenino,
Homem pequenino que gaiola me dás.
Digo pequenino porque não me entendes,
Nem me entenderás.
Tampouco te entendo, mas enquanto isso
Abre-me a gaiola que quero escapar;
Homem pequenino, amei-te meia hora.
Não me peças mais.



1 638

O Engano

Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.

1 486

Diante do mar

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.

1 368

A carícia perdida

Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?

1 844

A Carícia Perdida

Sai-me dos
dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?
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Identificação e contexto básico

Alfonsina Storni foi uma poeta, escritora e jornalista argentina, nascida na Suíça e falecida na Argentina. É considerada uma das vozes mais importantes da literatura latino-americana do século XX, com uma obra marcada pela força expressiva, pela crítica social e pela defesa dos direitos das mulheres.

Infância e formação

Nascida na Suíça, Storni mudou-se com a família para a Argentina ainda criança. Sua infância e juventude foram marcadas por dificuldades econômicas, o que a levou a trabalhar precocemente. Essa experiência de vida influenciou profundamente sua visão de mundo e sua obra, dotando-a de uma sensibilidade especial para as questões sociais e a condição feminina. Sua formação foi tanto autodidata quanto marcada pela necessidade de conciliar estudos e trabalho.

Percurso literário

O percurso literário de Alfonsina Storni iniciou-se com a publicação de poemas em jornais e revistas. Rapidamente, sua obra ganhou destaque pela originalidade e pela força de sua voz. Publicou diversos livros de poesia e prosa, consolidando-se como uma figura central na cena literária argentina. Sua atividade como jornalista também foi relevante, utilizando a imprensa como veículo para suas ideias e críticas.

Obra, estilo e características literárias

As obras principais de Storni incluem "La inquietud del rosal" (1916), "El dulce daño" (1918), "Ocre" (1920), "Mundo de siete pozos" (1934) e "Mascarilla y trébol" (1938). Seus temas dominantes são o amor, a maternidade, a liberdade feminina, a crítica à hipocrisia social, a natureza e a morte. Caracteriza-se pelo uso do verso livre, por uma linguagem direta e por uma forte musicalidade. Sua voz poética é frequentemente confessional, mas sempre ressoando com questões universais. Storni inovadoramente trouxe para a poesia temas e uma perspectiva feminina que eram, até então, marginalizados. Sua obra dialoga com a tradição, mas a reinventa com uma sensibilidade moderna e engajada.

Contexto cultural e histórico

Storni viveu em um período de grandes transformações sociais e políticas na América Latina e no mundo. Sua obra reflete as tensões e os debates da época, especialmente no que diz respeito à emancipação feminina e aos direitos das mulheres. Ela foi uma participante ativa dos movimentos feministas e literários, dialogando com outros escritores e intelectuais de seu tempo e defendendo posições políticas progressistas.

Vida pessoal

A vida pessoal de Alfonsina Storni foi marcada por desafios, incluindo maternidade solo e dificuldades financeiras. Essas experiências moldaram sua escrita, conferindo-lhe uma autenticidade e uma profundidade notáveis. Suas relações afetivas, suas crises e suas reflexões sobre a existência humana são temas recorrentes em sua poesia.

Reconhecimento e receção

Alfonsina Storni obteve reconhecimento em vida por sua obra poética, tornando-se uma figura respeitada na literatura argentina e latino-americana. Sua poesia foi amplamente difundida e lida, conquistando tanto o público quanto a crítica. Seu legado perdura como um marco na literatura escrita por mulheres.

Influências e legado

Storni foi influenciada por poetas como Rubén Darío, mas desenvolveu um estilo próprio e inovador. Sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de escritoras e poetas na América Latina, abrindo caminhos para a expressão da subjetividade feminina e para a crítica social na poesia. É considerada uma precursora do feminismo literário na região.

Interpretação e análise crítica

A obra de Alfonsina Storni é frequentemente analisada sob a ótica do feminismo, da crítica social e da exploração da condição humana. Suas poesias oferecem ricas possibilidades de interpretação, abordando a complexidade das relações humanas, a busca por identidade e a revolta contra as opressões.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Um aspeto curioso de sua vida foi sua paixão pela natureza e seu fascínio pelo mar, que aparece frequentemente em sua obra. Sua morte, por suicídio por afogamento, é um evento trágico que, para muitos, dialoga com a melancolia e os temas existenciais presentes em seus versos.

Morte e memória

Alfonsina Storni faleceu em 1938, por suicídio, lançando-se ao mar. Sua morte prematura marcou profundamente o meio literário. Publicações póstumas continuaram a divulgar e a celebrar sua obra, garantindo sua permanência na memória e no cânone da literatura em língua espanhola.