Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

1926–1997 · viveu 70 anos US US

Allen Ginsberg foi um poeta americano, figura proeminente da Geração Beat e um dos mais influentes poetas do século XX. Sua obra é marcada pela liberdade formal, pela crítica social e política, e pela exploração de temas como a homossexualidade, o misticismo oriental e a contracultura. Ginsberg era conhecido por suas leituras performáticas fervorosas e por seu ativismo, tornando-se um ícone da contracultura dos anos 1960.

n. 1926-06-03, Paterson · m. 1997-04-05, Nova Iorque

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Uivo

“Soltem as fechaduras das portas!
Soltem também as portas dos seus batentes!”

Dedicado a Jack Kerouac, novo Buda da prosa americana, que borrifou inteligência em onze livros escritos na metade deste número de anos (1951-1956) – On the Road, Visions of Neal, Dr. Sax, Springtime Mary, The Subterraneans, San Francisco Blues, Some of the Dharma, Book of Dreams, Wake Up, Mexico City Blues e Visions of Gerard –, criando uma prosódia bop espontânea e uma literatura clássica original. Várias frases e o título de Uivo são tirados dele.
William Seward Burroughs, autor de Naked Lunch, uma novela sem fim que deixará todo mundo louco.
Neal Cassady, autor de The First Third, uma autobiografia (1949) que iluminou Buda.
Todos esses livros estão publicados no Céu.


Uivo
para Carl Solomon


I
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o
Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos polos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada à rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões-postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários,
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra de suas calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais em suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespassá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão, que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão da boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N. C. herói secreto destes poemas, garanhão e Adónis de Denver –
prazer ao lembrar das suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam até as agências de desemprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos do Hudson à luz azul de holofote antiaéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht
& tortillas sonhando com o puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças por
todos os dias da década seguinte,
que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanela em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido dos batalhões de ferro da moda & os guinchos de nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta,
que se jogaram da Ponte de Brooklyn, isso realmente aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros de Chinatown, nem uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se da janela do metrô,
saltaram no imundo rio Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30
na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília de cadeia do Gólgota de carro envenenado de cada um ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver & esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está com saudades dos seus heróis, que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando por sua salvação e luz e peito até que a alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se arrebentaram nas suas mentes na prisão aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada e o encanto da realidade em seus corações que entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave Buda ou Tânger para os garotos ou Pacífico Sul para a locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o túmulo, que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e em seguida se apresentaram nos degraus de granito do manicômio com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrasol choque elétrico hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue & amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica de pingue-pongue, mergulhando logo a seguir na catatonia, voltando anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue e
lágrimas e dedos para a visível condenação de louco nas celas das cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores fétidos, brigando com os ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão à meia-noite dos domínios de mausoléu druídico do amor, o
sonho da vida um pesadelo, corpos transformados em pedras tão pesadas quanto a lua,
com a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela do cortiço e a última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação –
Ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo –
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro & do plano vibratório,
que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens visuais e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque de consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento em
sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com que as cidades tremessem até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado de seus corpos bom para comer por mais mil anos.


II
Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias!
Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!
Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!
Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!
Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus
jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz
escorrendo do céu!
Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! subúrbios invisíveis! tesouros de esqueletos! capitais cegas! indústrias demoníacas! nações espectrais!
invencíveis hospícios! caralhos de granito! bombas monstruosas!
Eles quebraram suas costas levantando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!
Visões! profecias! alucinações! milagres! êxtases! descendo pela correnteza do rio americano!
Sonhos! adorações! iluminações! religiões! o carregamento todo de bosta sensitiva!
Desabamentos! sobre o rio! saltos e crucifixões! descendo a correnteza!
Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! jogados nos
rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! o olhar selvagem! os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! rumo à solidão!
acenando! levando flores! Rio abaixo! rua acima!


III
Carl Solomon! Eu estou com você em Rockland
onde você está mais louco do que eu
Eu estou com você em Rockland
onde você deve sentir-se muito estranho
Eu estou com você em Rockland
onde você imita a sombra da minha mãe
Eu estou com você em Rockland
onde você assassinou suas doze secretárias
Eu estou com você em Rockland
onde você ri deste humor invisível
Eu estou com você em Rockland
onde somos grandes escritores na mesma abominável máquina de escrever
Eu estou com você em Rockland
onde seu estado se tomou muito grave e é noticiado pelo rádio
Eu estou com você em Rockland
onde as faculdades do crânio não aguentam mais os vermes dos sentidos
Eu estou com você em Rockland
onde você bebe o chá dos seios das solteironas de Utica
Eu estou com você em Rockland
onde você bolina os corpos das suas enfermeiras as hárpias do Bronx
Eu estou com você em Rockland
onde você grita dentro de uma camisa de força que está perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo
Eu estou com você em Rockland
onde você martela o piano catatônico a alma é inocente e imortal e nunca poderia morrer impiamente num hospício armado,
Eu estou com você em Rockland
onde com mais cinquenta eletrochoques sua alma nunca mais
retornará a seu corpo de volta da sua peregrinação rumo a uma cruz no vazio
Eu estou com você em Rockland
onde você acusa seus médicos de loucura e prepara a revolução socialista hebraica contra o Gólgota nacional e fascista
Eu estou com você em Rockland
onde você rasga os céus de Long Island e faz surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo sobre-humano
Eu estou com você em Rockland
onde há mais vinte e cinco mil camaradas loucos todos juntos cantando os versos finais da Internacional
Eu estou com você em Rockland
onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos sob nossas cobertas os Estados Unidos que tossem a noite toda e não nos deixam dormir
Eu estou com você em Rockland
onde despertamos eletrocutados do coma pelos nossos próprios aeroplanos da mente roncando sobre o telhado eles vieram jogar bombas angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora Ó choque de misericórdia
salpicado de estrelas a guerra eterna chegou Ó vitória esquece tua roupa de baixo estamos livres
Eu estou com você em Rockland
nos meus sonhos você caminha gotejante de volta de uma viagem marítima pela grande rodovia que atravessa a América em lágrimas até a porta do meu chalé dentro da Noite Ocidental
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Biografia

Identificação e contexto básico

Allen Ginsberg foi um poeta americano, amplamente reconhecido como uma das figuras centrais da Geração Beat, um movimento literário e cultural que emergiu nos Estados Unidos na década de 1950. Nascido em Newark, Nova Jersey, Ginsberg explorou em sua obra uma vasta gama de temas, incluindo a condição humana, a espiritualidade, a política, a sexualidade e a crítica ao materialismo americano. Sua poesia é caracterizada por uma linguagem crua, direta e frequentemente profética, com forte influência de Walt Whitman e William Blake. A sua obra é escrita em língua inglesa.

Infância e formação

Allen Ginsberg nasceu em 3 de junho de 1926, em Newark, Nova Jersey, e cresceu em Paterson, também em Nova Jersey. Filho de pais judeus, sua infância foi marcada pela preocupação da mãe com a saúde mental, uma questão que o assombraria e influenciaria profundamente sua obra. Ginsberg estudou na Universidade de Columbia, onde desenvolveu seu interesse pela literatura e pelo ativismo político. Foi lá que conheceu outros futuros membros da Geração Beat, como Jack Kerouac e William S. Burroughs.

Percurso literário

Ginsberg iniciou sua carreira literária ainda na universidade, mas sua obra ganhou notoriedade com a publicação de "Howl and Other Poems" (Uivo e Outros Poemas) em 1956. Este livro, que incluía o poema épico "Howl", tornou-se um marco da literatura americana e um símbolo da contracultura. "Howl" foi objeto de um famoso julgamento por obscenidade, do qual Ginsberg saiu vitorioso, solidificando sua reputação como poeta rebelde e inovador. Ao longo de sua carreira, publicou inúmeros livros de poesia, ensaios e correspondências, mantendo uma produção constante e engajada.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ginsberg é vasta e diversificada, mas "Howl" permanece como sua obra mais emblemática. O poema, com sua estrutura de longa respiração e linguagem visceral, é um lamento contra a destruição da geração "mais brilhante de sua mente" pelas forças conformistas da sociedade americana. Seus temas recorrentes incluem a crítica ao capitalismo e ao imperialismo, a celebração da diversidade sexual, a busca por iluminação espiritual através do budismo e outras tradições orientais, e a denúncia da opressão social. O estilo de Ginsberg é marcado pelo verso livre, pela oralidade, pela repetição e pela intensidade emocional. Ele buscava uma poesia que fosse ao mesmo tempo pessoal e universal, capaz de expressar a experiência coletiva de sua época. Outras obras importantes incluem "Kaddish" (sobre a morte de sua mãe), "America" e "Planet News".

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ginsberg viveu e escreveu em um período de profundas transformações nos Estados Unidos e no mundo. Foi um crítico ácido da Guerra do Vietnã, do macartismo e do conformismo da sociedade americana dos anos 1950 e 1960. Sua poesia e seu ativismo o colocaram no centro da contracultura, dialogando com movimentos como o pacifismo, os direitos civis e a revolução sexual. Ele era amigo de figuras como Bob Dylan, Timothy Leary e William S. Burroughs, e sua obra refletiu as inquietações e os ideais de uma geração que buscava romper com as convenções estabelecidas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ginsberg era abertamente homossexual em uma época em que isso era socialmente reprimido. Sua vida pessoal foi profundamente marcada pelo relacionamento com Peter Orlovsky, seu companheiro por muitos anos, e pela sua luta com questões de saúde mental, tanto suas quanto de sua família. Ele adotou práticas budistas, buscando na meditação e na filosofia oriental uma forma de lidar com o sofrimento e encontrar sentido na vida. Sua casa em Nova York tornou-se um ponto de encontro para artistas e intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha enfrentado controvérsias e processos legais no início de sua carreira, Allen Ginsberg conquistou um lugar de destaque na literatura americana. Recebeu diversos prêmios e honrarias ao longo de sua vida, e sua obra é amplamente estudada em universidades. Ele é considerado um dos poetas mais importantes do século XX, cuja influência se estende para além da literatura, impactando a música, o cinema e as artes visuais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ginsberg foi influenciado por poetas como Walt Whitman, William Blake e Arthur Rimbaud. Sua obra, por sua vez, influenciou gerações de poetas e artistas, especialmente aqueles ligados a movimentos de vanguarda, à contracultura e à poesia performática. Ele é visto como um precursor da poesia confessional e da poesia de protesto. Seu legado reside na sua coragem em abordar temas tabus, na sua defesa da liberdade de expressão e na sua capacidade de dar voz aos marginalizados e oprimidos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ginsberg tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que exploram seus aspectos autobiográficos, políticos, espirituais e estéticos. Críticos destacam a sua originalidade formal, a força de sua imaginação e a relevância de suas críticas sociais. Houve debates sobre a sua abordagem da religião e sobre a intensidade de sua linguagem, mas o consenso geral é que Ginsberg foi um poeta de imenso talento e impacto.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ginsberg era conhecido por sua personalidade excêntrica e carismática. Ele era um defensor fervoroso dos direitos dos animais e um vegetariano convicto. Em suas leituras de poesia, frequentemente se envolvia em improvisações e interações com o público. Ele também se interessou por outras formas de arte, colaborando com músicos e cineastas. Sua busca por iluminação espiritual o levou a viajar extensivamente pelo mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Allen Ginsberg faleceu em 29 de abril de 1997, em sua casa em East Village, Nova York, de câncer de fígado. Sua morte foi amplamente noticiada, e ele é lembrado como um dos poetas mais importantes e influentes da literatura americana, cujo espírito rebelde e visão poética continuam a inspirar.

Poemas

47

O Fim

Eu sou Eu, velho Pai Olho de Peixe que procriou o oceano, o verme no meu próprio ouvido, a serpente enrolada na árvore,
Sento-me na mente do carvalho e me oculto na rosa, sei se alguém desperta, ninguém a não ser minha morte,
vinde a mim corpos, vinde a mim profecias, vinde a mim agouros, vinde espíritos e visões,
Eu recebo tudo, morro de câncer, entro no caixão para sempre, fecho meu olho, desapareço,
caio sobre mim mesmo na neve de inverno, rolo numa grande roda pela chuva, observo a convulsão dos que fodem,
carros guincham, fúrias gemem sua música de fagote, memória apagando-se no cérebro, homens imitando cães,
gozo no ventre de uma mulher, a juventude estendendo seus seios e coxas para o sexo, o caralho pulando para dentro
derramando sua semente nos lábios de Yin,129 feras dançam no Sião, cantam ópera em Moscou, meus garotos excitados ao crepúsculo nas varandas, chego a Nova York, toco meu jazz num Clavicêmbalo de Chicago,
Amor que me engendrou retorno a minha Origem sem nada perder, flutuo sobre o vomitório
empolgado por minha imortalidade, empolgado por essa infinitude na qual aposto e a qual enterro,
vem Poeta, cala-te, come minha palavra e prova minha boca no teu ouvido.

NY, 1960
1 144

Morte à orelha de Van Gogh!

O Poeta é Sacerdote
0 dinheiro contabilizou a alma da América
O Congresso desabou no precipício da Eternidade
O Presidente construiu uma máquina de guerra que vomitará e varrerá a Rússia para fora do Kansas
O Século Americano foi traído por um Senado louco que não dorme mais com sua mulher
Franco assassinou Lorca o filho queridinho de Whitman
assim como Maiakovski se suicidou para evitar a Rússia
Hart Crane Platônico insigne se suicidou para soterrar a América errada
assim como milhões de toneladas de cereal humano foram queimadas em porões secretos sob a Casa Branca
enquanto a índia morria de fome e gritava e comia cachorros loucos encharcados de chuva
3 montões de ovos eram reduzidos a pó branco nos corredores do Congresso
nenhum homem temente a Deus andará de novo por lá por causa do fedor dos ovos podres da América
e os índios de Chiapas continuam a mastigar suas tortillas sem vitaminas
aborígenes da Austrália talvez resmunguem na selva sem ovos
e raramente eu tenho um ovo para o café da manhã embora meu
trabalho precise de infinitos ovos para nascer de novo na Eternidade
ovos deviam ser comidos ou então devolvidos a suas mães
e o desespero das incontáveis galinhas da América é expressado pela gritaria dos seus comediantes no rádio
Detroit fabricou um milhão de automóveis de seringueiras e fantasmas
porém eu caminho, eu caminho e o Oriente caminha comigo e toda a África caminha
e mais cedo ou mais tarde a América do Norte também caminhará
pois assim como expulsamos o Anjo Chinês da nossa porta, ele também nos expulsará da Porta Dourada do futuro
nós não mostramos piedade para Tanganica
Einstein em vida recebeu zombarias por sua política celestial
Bertrand Russel expulso de Nova York por trepar
e o imortal Chaplin foi expulso das nossas praias com a rosa entre os dentes
uma conspiração secreta da Igreja Católica nos mictórios do
Congresso negou anticoncepcionais às incessantes massas da índia
Ninguém publica uma palavra que não seja o delírio covarde de um robô com mentalidade depravada
o dia da publicação da verdadeira literatura do corpo americano será o dia da Revolução
a revolução do cordeiro sexual
a única revolução incruenta que distribuirá cereais
pobre Genet iluminará os que trabalham nas colheitas de Ohio
Maconha é um narcótico benigno mas J. Edgar Hoover prefere seu mortífero scotch
E a heroína de Lao-Tsé &do Sexto Patriarca é punida com a cadeira elétrica
porém os pobres drogados não têm onde pousar suas cabeças
canalhas em nosso governo inventaram um tratamento torturante
para o vido tão obsoleto quanto o Sistema Defensivo de Alarme pelo Radar
eu sou o sistema defensivo de alarme pelo radar
Nada vejo a não ser bombas
não estou interessado em impedir que a Ásia seja Ásia
e os governos da Rússia e da Ásia se erguerão e cairão mas a Ásia e a Rússia não cairão
o governo da América também cairá mas como pode a América cair
duvido que mais alguém venha a cair alguma vez a não ser os governos
felizmente todos os governos cairão
os únicos que não cairão serão os bons
e os bons governos ainda não existem
Mas eles precisam começar a existir eles existem nos meus poemas
eles existem na morte dos governos da Rússia e da América
eles existem nas mortes de Hart Crane e de Maiakovski
Esta é a hora da profecia sem morte como conseqüência
o universo acabará desaparecendo
Hollywood apodrecerá nos moinhos de vento da Eternidade
Hollywood cujos filmes estão atravessados na garganta de Deus
Sim Hollywood receberá o que merece
Tempo
Infiltração ou gás paralisante pelo rádio
A História tomará profético este poema e sua horrível estupidez será uma hedionda música espiritual
Eu tenho o arrulhar das pombas e a pluma do êxtase
O Homem não pode agüentar mais a fome da abstração canibal
A guerra é abstrata
o mundo será destruído
mas eu só morrerei pela poesia que salvará o mundo
Monumento a Sacco e Vanzetti ainda não patrocinado para dignificar Boston
nativos do Quênia atormentados pelos imbecis criminosos da Inglaterra
a África do Sul nas garras do branco alucinado
Vachel Lindsay Ministro do Interior
Poe Ministro da Imaginação
Pound Ministro da Fazenda
e Kra pertence a Kra e Pucti a Pucti
cruzamento de Blok e Artaud
a Orelha de Van Gogh estampada no dinheiro
chega de propaganda de monstros
e os poetas devem ficar fora da política ou se tornarão monstros
tornei-me monstruoso por causa da política
o poeta russo indiscutivelmente monstruoso no seu diário íntimo
o Tibet deve ser deixado em paz
Estas sao profecias óbvias
A América será destruída
os poetas russos lutarão contra a Rússia
Whitman preveniu contra essa “maldita fábula das nações”
Onde estava Theodore Roosevelt quando ele mandou ultimatos do seu castelo em Camden
Onde estava a Câmara dos Deputados quando Crane leu seus livros proféticos em voz alta
Onde estava tramando Wall Street quando Lindsay anunciou o destino final do Dinheiro
Estariam escutando meus delírios nos vestiários do Departamento de Pessoal de Bickford’s?
Deram ouvidos aos gemidos da minha alma enquanto eu lutavacom estatísticas de pesquisas de mercado no Forum de Roma?
Não eles estavam brigando em reluzentes escritórios, sobre carpetes de parada cardíaca, berrando e negociando com o Destino
brigando com o Esqueleto com sabres, mosquetões, dentes
arreganhados, indigestão, bombas de roubo, prostituição, foguetes, pederastia,
de costas para a parede por causa das suas mulheres, apartamentos, gramados, subúrbios, contos de fada,
Portoriquenhos amontoados para o massacre por causa de uma geladeira de imitação chinesa-moderna
Elefantes da misericórdia trucidados por causa de uma gaiola elizabetana de pássaros
milhões de fanáticos agitados no hospício por causa do estridente soprano da indústria
O canto de dinheiro das saboneteiras - macacos de pasta de dentes nos televisores - desodorantes em cadeiras hipnóticas -
atravessadores de petróleo no Texas - aviões a jato riscando as nuvens -
escritores do céu mentirosos diante da Divindade - açougueiros de afiados dentes com chapéus e sapatos, todos Proprietários! Proprietários! Proprietários! com obsessío de propriedade e Ego evanescente!
e seus longos editoriais tratando friamente do caso do negro que berra atacado por formigas pulando para fora da primeira página!
Maquinaria de um sonho elétrico das massas! A Prostituta da Babilônia criadora de guerras vociferando com Capitólios e Academias!
Dinheiro! Dinheiro! Dinheiro! dinheiro celestial da ilusão berrando loucamente! Dinheiro feito de nada, fome, suicídio! Dinheiro do fracasso! Dinheiro da morte!
Dinheiro contra a Eternidade! e os fortes moinhos da eternidade trituram o imenso papel da Ilusão!

Paris 1958
1 633

Patna-Benares Express

O que quer que seja quem quer que seja
O homem sanguíneo todo cantante todo justo
Como quer que ele morra
Ele viajou em vagões de trem
Ele acordou à alba, na luz branca de um novo universo
Ele não poderia fazer diferente
Ele o esqueleto com olhos
levantou-se de um banco de madeira
sentiu-se diferente olhando os campos e palmeiras
sem dinheiro no banco de pó
sem nação além de inexpressivas nuvens cinza antes da aurora
perdeu sua identidade cartões em sua carteira
no riquixá careca próximo ao Maidan na seca Patna
Mais tarde olhou sem esperança levantando de um sono bêbado
boca seca na RR Station
entre engraxates adormecidos de tanga no concreto sujo
Corpos demais lotando estas cidades agora

Benares, 1 de maio de 1963.
560

Atrás das almas mortas

Para onde Oh América
é que guias o teu
glorioso automóvel,
a que acidentes te inclinas
rodovia abaixo,
nos profundos canyons
das Montanhas do Oeste,
acelerando ao sol-se-pondo
sobre o Golden Gate
no rastro de que rusga
atiras o teu jazz
sobre o oceano Pacífico!

Primavera, 1951
636

Garatuja

Rexroth, seu rosto refletindo a cansada
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo
1 096

Para um velho poeta no Peru

Porque nos encontramos ao escurecer
Debaixo da sombra do relógio
da estação
Quando minha sombra visitava Lima
E seu espectro morria em Lima
rosto velho precisando fazer a barba
E minha barba juvenil brotando
magnífica como os cabelos dos mortos
nas areias de Chancay
Porque por engano pensei que você estava
melancólico
Saudando seu pé de 60 anos de idade
com o cheiro de morte
das aranhas no assoalho
E você saudando meus olhos
com sua voz de anisete
Por engano aChando-me genial
por eu ser tffo moço
(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-o na sua gorda bochecha (mais uma vez amanhã
Debaixo do esplêndido relógio de Disaguaderos)
Antes de eu partir para minha morte num desastre aéreo
na América do Norte (há muito tempo)
E você partir para seu ataque do coração numa rua
indiferente da América do Sul
(Ambos rodeados pelos gritos
de comunistas com flores
enfiadas no cu)
—você muito antes de mim —
ou numa longa noite só num quarto
no velho hotel do mundo
observando uma porta negra
...rodeado de pedaços de papel
MORRE COM GRANDEZA NA TUA SOLIDÃO
Velho ,
Eu profetizo a Recompensa
Mais vasta que as areias de Pachacamac
Mais brilhante que uma máscara de ouro batido
Mais doce que o gozo dos exércitos nus
fodendo no campo de batalha
Mais rápida que um tempo passado entre
a velha noite de Nasca e a nova Lima
ao anoitecer
Mais estranha que nosso encontro junto ao Palácio
Presidencial em um café
fantasmas de uma velha ilusSo, fantasmas
do amor indiferente —
A OFUSCANTE INTELIGÊNCIA
Emigra da morte
Para oferecer-te novamente um sinal da Vida
Bravia e bela como uma trombada de automóveis
na Plaza de Armas
Eu juro que vi essa Luz
Não deixarei de beijar sua horrenda bochecha
quando seu caixão for fechado
E os carpidores humanos partirem
para seu velho e cansado
Sonho.
E você despertar no Olho do
Ditador do Universo.
Outro milagre estúpido! Estou
enganado mais uma vez!
Sua indiferença! meu entusiasmo!
Eu insisto! Você tosse!
Perdidos no vagalhão de Ouro que
escorre através do Cosmos.
Argh, estou cansado de insistir! Até logo,
eu vou para Pucalpa
para ter visões.
Seus límpidos sonetos?
Eu quero ler seus mais sujos
e secretos rascunhos,
sua Esperança,
na Sua mais obscena Magnificência. Meu Deus!

19 de Maio de 1960
956

Europa! Europa!

Mundo mundo mundo
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol

Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede

Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra

a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol

Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios

Paris, 1958
1 682

Improviso em pequim

Eu escrevo poesia porque a palavra Inglesa Inspiração vem do Latim Spiritus, respiração, eu quero respirar livremente.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman deu permissão mundial para falar com candor.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman abriu os versos da poesia para a respiração desobstruída.
Eu escrevo poesia porque Ezra Pound viu uma torre de marfim, apostou num cavalo errado, deu aos poetas permissão para escrever no idioma vernacular falado.
Eu escrevo poesia porque Pound indicou aos jovens poetas do Ocidente que observassem as palavras da escrita pictográfica chinesa.
Eu escrevo poesia porque William Carlos Williams que vivia em Rutherford escreveu o Novajerseyês “I kick yuh eye”, perguntando, qual a medida disso em pentâmetro iâmbico?
Eu escrevo poesia porque meu pai era poeta minha mãe vinda da Rússia que falava Comunista, morreu numa casa de loucos.
Eu escrevo poesia porque meu jovem amigo Gary Snyder sentou-se para olhar seus pensamentos como parte dos fenômenos do mundo exterior exatamente como numa mesa de conferência em 1984.
Eu escrevo poesia porque eu sofro, nascido que sou para morrer, pedras nos rins e pressão alta, todo mundo sofre.
Eu escrevo poesia porque eu fico confuso por não saber o que as outras pessoas pensam.
Eu escrevo porque a poesia pode revelar os meus pensamentos, curar minha paranóia e também a paranóia de outras pessoas.
Eu escrevo poesia porque minha mente vagueia entre assuntos de sexo política meditação Buddhadharma.
Eu escrevo poesia para fazer boa imagem da minha própria mente.
Eu escrevo poesia porque tomei os Quatro Preceitos do Bodhisattva: a sensibilidade a ser liberada das criaturas é inumerável no universo, minha própria ignorância gananciosa corta a infinitude da verdade, as situações em que encontro a mim mesmo enquanto o céu está bonito são incontáveis, e o caminho da mente desperta não tem fim.
Eu escrevo poesia porque essa manhã eu acordei tremendo com medo o que é que eu iria dizer na China?
Eu escrevo poesia porque os poetas Russos Maiakóvski e Iessênin cometeram suicídio, alguém mais precisa falar.
Eu escrevo poesia por causa do meu pai que recitava o poeta Inglês Shelley e o poeta americano Vachel Lindsay em voz alta dando exemplo grande alento de inspiração.
Eu escrevo poesia porque escrever sobre sexo é censurado nos Estados Unidos.
Eu escrevo poesia porque milionários de Leste a Oeste dirigem Limousines Rolls-Royce e pobres não têm dinheiro nem para ir ao dentista.
Eu escrevo poesia porque meus genes e cromossomas se apaixonam por garotos e não por garotas.
Eu escrevo poesia porque não tenho responsabilidades dogmáticas de um dia para o outro.
Eu escrevo poesia porque eu quero estar sozinho e quero falar para as pessoas.
Eu escrevo poesia para me voltar e falar com Whitman, jovens aos dez anos falam com velhas tias e tios que vivem ainda nas proximidades de Newark, Nova Jersey.
Eu escrevo poesia porque ouvi negro blues no rádio em 1939, Leadbally e Ma Rainey.
Eu escrevo poesia inspirado pela alegre juventude das canções envelhecidas dos Beatles.
Eu escrevo poesia porque Chuang-Tzu não podia dizer se era homem ou borboleta, Lao-Tzu disse que a água flui montanha abaixo, Confúcio disse para honrar os mais velhos, eu quis honrar Whitman.
Eu escrevo poesia porque ovelhas e gado superalimentados vindos da Mongólia para o Ocidente Selvagem dos Estados Unidos destroem a grama nova e a erosão cria desertos.Eu escrevo poesia calçando sapatos com pele de animal.
Eu escrevo poesia “Primeira idéia, melhor idéia” sempre.
Eu escrevo poesia porque não-idéias são compreensíveis exceto se manifestadas em determinados minutos: “Não-idéias mas nas coisas”.
Eu escrevo poesia porque o Lama Tibetano diz, “As coisas são símbolos delas mesmas”.
Eu escrevo poesia porque as manchetes de jornal são um buraco negro em nossa galáxia-central, nós somos livres para noticiar isto.
Eu escrevo poesia por causa da Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, a bomba nuclear e a Terceira Guerra Mundial se queremos isto, eu não preciso disto.
Eu escrevo poesia porque meu primeiro poema Uivo não precisou ser publicado para ser perseguido pela polícia.
Eu escrevo poesia porque meu segundo longo poema Kaddish homenageava o parinirvana da minha mãe num hospital psiquiátrico.
Eu escrevo poesia porque Hitler matou seis milhões de judeus, eu sou judeu.
Eu escrevo poesia porque Moscou, segundo Stalin, exilou 20 milhões de Judeus e intelectuais na Sibéria, 15 milhões deles nunca voltaram para o Café Stray Dog de São Petersburgo.
Eu escrevo poesia porque eu canto quando sinto que estou sozinho.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman disse “Eu me contradigo? Muito bem, então eu me contradigo (Sou vasto, contenho multidões.)”
Eu escrevo poesia porque minha mente se contradiz, um minuto em Nova York, o próximo minuto nos Alpes Dináricos.
Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém 10.000 pensamentos.
Eu escrevo poesia porque sem razão sem porquê.
Eu escrevo poesia porque é o melhor caminho para dizer tudo o que penso dentro de 6 minutos ou uma vida inteira.
1 210

Malest Cornifici tuo Catullo

Estou feliz, Kerouac, seu louco Allen
finalmente conseguiu: achou um cara novo
e minha imagem de um garoto eterno
passeia pelas ruas de San Francisco,
lindo, e me encontra nas cafeterias
e me ama. Ah, não pense que estou maluco.
Você está zangado comigo. Pelos meus amantes?
É duro comer merda, sem ter visões;
quando eles me olham, para mim é o Paraíso.
1 460

Pesquisas

Pesquisas mostram que as pessoas negras têm complexo de inferioridade ao ver famílias brancas
Pesquisas mostram que os Judeus se preocupam exclusivamente com a sua lascívia financeira
Pesquisas mostram que o Socialismo é um fracasso universal onde quer que seja praticado pela polícia secreta
Pesquisas mostram que a Terra foi criada 4.004 anos a.C, um Divino Bang
Pesquisas mostram que pardais, abelhas, lagartas, galinhas, porcos e vacas exibem sinais de comportamento homossexual quando aprisionados
Pesquisas mostram que a Confissão da Inerrância Batista do Sul é a mais virulenta forma da Verdade Cristã
Pesquisas mostram que 90% das pessoas que vão ao Dentista têm dentes ruins
escovar seus dentes violentamente três vezes ao dia após as refeições estraga as raízes
Pesquisas mostram que Hollywood continua fazendo os melhores filmes, a sexualidade degenerada
que as Nações Unidas é Boa [ ] Ruim [ ] Indiferente [ ] para os interesses americanos
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Pesquisas mostram que a homossexualidade Reconstrucionista Cristã é Pecado, Lesbianismo crime contra a natureza,
AIDS uma praga enviada para punir papa-Anjos gays bissexualidade desaprovada por 51% dos Americanos
Pesquisas mostram que jovens metaleiros que assistem TV alcançam maior QI do que os nativos dos rios Amazonas e Ucayali que não têm antenas
Pesquisas mostram que as orcas e as baleias apresentam Inteligência Mais Alta
Pesquisas mostram que a Corrupção Espiritual do Individualismo Elitista & a Arte Degenerada foram as causas de Ditaduras na União Soviética China e Alemanha
que a posse de pornografia no Instituto da Família Americana resultou em um aumento de 35% dos crimes sexuais entre as bibliotecárias do instituto
ver comportamento assassino em besteiróis de TV aumentou em 100% o comportamento de linguagem violenta pelos Chefes de Estado intercontinentais
Para concluir pesquisas mostram que o universo material não existe

May 20, 1992
567

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