Almada Negreiros

Almada Negreiros

1893–1970 · viveu 77 anos PT PT

José de Almada Negreiros foi um multifacetado artista português, figura central do Modernismo em Portugal. Escritor, pintor, desenhista e coreógrafo, sua obra é marcada por uma profunda inquietude, por uma constante busca pela renovação e pela experimentação em diversas áreas artísticas. Ele transitou com maestria entre a literatura e as artes plásticas, deixando um legado singular. Sua produção literária é caracterizada pela ousadia formal, pelo humor, pela sátira social e por uma visão crítica da realidade portuguesa. Em suas pinturas, destacam-se as linhas vibrantes, as cores intensas e a representação do movimento e da identidade nacional. Almada Negreiros é uma das figuras mais importantes e representativas da cultura portuguesa do século XX.

n. 1893-04-07, Ilha de São Tomé · m. 1970-06-15, Lisboa

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Encontro

Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?

Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe

antigamente ou lá para o futuro.

É bem certo que existo:

chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo

que fica no alto das montanhas

e não desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas

se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas

torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo

deixaram-me a memória envenenada

e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre

que dá para donde vim.

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Biografia

Identificação e contexto básico

José de Almada Negreiros, conhecido simplesmente como Almada Negreiros, nasceu em 7 de abril de 1893, em Trancoso, Portugal, mas passou a maior parte de sua vida em Lisboa. Utilizou frequentemente o pseudônimo "Maria" em seus primeiros escritos. Foi uma figura central e polifacética do Modernismo português, atuando como escritor, pintor, desenhista, bailarino e coreógrafo. Sua obra abrangeu diversas manifestações artísticas, sempre com um espírito inovador e experimental.

Infância e formação

Almada Negreiros teve uma infância marcada por uma família de origem humilde, com ascendência africana por parte de mãe. Perdeu a mãe muito cedo e foi criado pelo pai, que era administrador de uma herdade. Estudou em colégios religiosos e, posteriormente, frequentou o curso de Engenharia na Universidade de Coimbra, que abandonou para se dedicar às artes. Sua formação autodidata e sua intensa vivência cultural foram cruciais para seu desenvolvimento artístico.

Percurso literário

O início de sua carreira literária deu-se com a publicação de textos em jornais e revistas. Sua primeira obra de relevo foi o romance "A Engomadeira" (1910), ainda sob o pseudônimo de Maria. Contudo, foi com a participação ativa no movimento modernista, especialmente após o "Semana de Arte Moderna" de 1922 (apesar de não ter participado diretamente), que sua obra ganhou maior projeção. Colaborou em importantes publicações como a revista "Orpheu" e "Portugal Futurista". Almada foi também um atuante crítico de arte e um promoter cultural.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras literárias mais conhecidas de Almada Negreiros incluem o romance "A Mulher Obstinada" (1922), "Belo, Belo, Belo" (1926), o manifesto "Manifesto Anti-Dantas" (1915), "A Cena do Ódio" (1915) e os "Novos Contos" (1929). Sua escrita é marcada pela irreverência, pelo humor, pela sátira social e pela crítica aos costumes e à intelectualidade de seu tempo. Experimentou com a linguagem, utilizando o verso livre, a prosa poética e formas narrativas inovadoras. Temas recorrentes incluem a identidade portuguesa, a crítica à burguesia, a condição humana e a busca pela liberdade criativa. Em suas artes plásticas, Almada Negreiros é conhecido por seus retratos, pelas pinturas de grande formato (como os painéis da Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa) e pelos desenhos de figuras em movimento. Seu estilo visual é caracterizado por linhas fortes e expressivas, cores vibrantes e uma busca pela síntese formal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Almada Negreiros foi um dos expoentes máximos do Modernismo português, movimento que buscou romper com as tradições acadêmicas e redefinir a identidade artística e cultural de Portugal. Viveu em um período de profundas transformações sociais e políticas, incluindo a Primeira República, a Ditadura Militar e o Estado Novo. Sua postura crítica e contestadora o colocou em conflito com os regimes autoritários e com a intelectualidade conservadora.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Almada Negreiros foi uma figura carismática e controversa. Teve duas esposas: Sarah Affonso, pintora com quem se casou em 1919 e que o acompanhou em sua trajetória artística, e Maria Adelaide Moreira, com quem se casou em 1952. Sua personalidade vibrante e seu espírito inquieto o levaram a explorar diversas formas de expressão artística, incluindo a dança, onde atuou como coreógrafo e bailarino em espetáculos inovadores.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha enfrentado resistência e incompreensão em parte de sua carreira, Almada Negreiros é hoje amplamente reconhecido como um dos maiores artistas portugueses do século XX. Sua obra, tanto na literatura quanto nas artes plásticas, é celebrada pela originalidade, pela ousadia e por sua capacidade de capturar o espírito de seu tempo. Recebeu diversas honrarias, como o Prêmio Aquisição da Bienal de São Paulo em 1957.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Almada Negreiros foi influenciado por movimentos de vanguarda europeus como o Futurismo e o Cubismo, mas soube criar uma linguagem artística pessoal e profundamente portuguesa. Seu legado é vasto e abrange a renovação da pintura, do desenho e da literatura em Portugal. Influenciou gerações de artistas e escritores, consolidando a modernidade na cultura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Almada Negreiros é rica em interpretações. Sua crítica social e política, o humor e a experimentação formal em suas obras literárias, bem como a energia e a representação da alma portuguesa em suas pinturas, são temas constantes de análise. A dualidade entre o artista e o homem, o vanguardista e o tradicional, é um dos pontos de interesse crítico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Almada Negreiros era um performer nato e adorava a polêmica. Chegou a realizar um "Voo sobre o Tejo" em 1924, utilizando um aparelho que ele mesmo desenhara, em uma demonstração de seu espírito inventivo e de sua ousadia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José de Almada Negreiros faleceu em 7 de julho de 1970, em Lisboa, aos 77 anos. Sua morte foi sentida como a perda de um dos pilares da cultura portuguesa moderna. Seu legado é mantido vivo através de exposições, publicações e estudos de sua obra, que continua a inspirar e a provocar o público.

Poemas

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Encontro

Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?

Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe

antigamente ou lá para o futuro.

É bem certo que existo:

chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo

que fica no alto das montanhas

e não desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas

se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas

torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo

deixaram-me a memória envenenada

e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre

que dá para donde vim.

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A Flor

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis.A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
:Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

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A Cena do ódio

(excerto final)

(... ) Larga a cidade masturbadora, febril,

rabo decepado de lagartixa,

labirinto cego de toupeiras,

raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,

anêmicos, cancerosos e arseniados!

Larga a cidade!

Larga a infâmia das ruas e dos boulevards,

esse vaivém cínico de bandidos mudos,

esse mexer esponjoso de carne viva,

esse ser-lesma nojento e macabro,

esse S ziguezague de chicote autofustigante,

esse ar expirado e espiritista,

esse Inferno de Dante por cantar,

esse ruído de sol prostituído, impotente e velho,

esse silêncio pneumônico

de lua enxovalhada sem vir a lavadeira

Larga a cidade e foge!

Larga a cidade!

Vence as lutas da família na vitória de a deixar.

Larga a casa, foge dela, larga tudo!

Nem te prendas com lágrimas que lágrimas são cadeias!

Larga a casa e verás — vai-se-te o Pesadelo!

A família é lastro: deita-a fora e vais ao céu!

Mas larga tudo primeiro, ouviste?

Larga tudo!

— Os outros, os sentimentos, os instintos,

e larga-te a ti também, a ti principalmente!

Larga tudo e vai para o campo

e larga o campo também, larga tudo!

— Põe-te a nascer outra vez!

Não queiras ter pai nem mãe,

não queiras ter outros nem Inteligência!

A Inteligência é o meu cancro:

eu sinto-A na cabeça com falta de ar!

A Inteligência é a febre da Humanidade

e ninguém a sabe regular!

E já há Inteligência a mais: pode parar por aqui!

Depois põe-te a virar sem cabeça,

vê só o que os olhos virem,

cheira os cheiros da Terra,

come o que a Terra der,

bebe dos rios e dos mares,

— põe-te na Natureza!

Ouve a Terra, escuta-A.

A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!

Depois põe-te à coca dos que nascem

e não os deixes nascer.

Vai depois pla noite nas sombras

e rouba a toda a gente a Inteligência

e raspa-lhes a cabeça por dentro

coas tuas unhas e cacos de garrafas,

bem raspado, sem deixar nada,

e vai depois depressa, muito depressa,

sem que o sol te veja,

deitar tudo no mar onde haja tubarões!

Larga tudo e a ti também!

Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,

Crápula do Egoísmo, cartola despanta-pardais!

Mas hás de pagar-Me a febre-rodopio

novelo emaranhado da minha dor!

Mas hás de pagar-Me a febre-calafrio

abismo-descida de Eu não querer descer!

Hás de pagar-Me o Abismo e a Morfina!

Hei de ser cigana da tua sinal

Hei de ser a bruxa do teu remorso!

Hei de desforra-dor cantar-te a buena-dicha

em águas fortes de Tróia

e nos poemas de Poe!

Hei de feiticeira a galope na vassoura

largar-te os meus lagartos e a Peçonha!

Hei de vara mágica encantar-te arte de ganir!

Hei de reconstruir em ti a escravatura negra!

Hei de despir-te a pele a pouco e pouco

e depois na carne viva deitar fel,

e depois na carne viva semear vidros,

semear gumes,

lumes,

e tiros,

Hei de gozar em ti as poses diabólicas

dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!

Hei de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,

e desfraldar-te nas canelas mirradas

o negro pendão dos piratas!

Hei de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!

Hei de bóia do Destino ser em brasa

e tu náufrago das galés sem horizontes verdes!

E mais do que isto ainda, muito mais:

Hei de ser a mulher que tu gostes,

hei de ser Ela sem te dar atenção!

Ah! que eu sinto claramente que nasci

de uma praga de ciúmes.

Eu sou as sete pragas sobre o Nilo

e a Alma dos Bórgias a penar!

13 173

Esperança

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.

Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.
11 145

CANÇÃO DA SAUDADE

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha
irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha
edade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e
eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas
rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres
são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos.

Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

(Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1)
7 807

A SOMBRA SOU EU

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!
10 377

Rondel do Alentejo

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

Meia-noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitava
com preparos
de luar.

Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são de fitas
desafogo
de luar.

Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos
girassóis
os bonés,
os braços
estes dois
iram laços
o luar.

colete
esta virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem
de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

6 227

Canção

A pastorinha morreu, todos estão a chorar. Ninguém a conhecia e todos estão a chorar.

A pastorinha morreu, morreu de seus amores. A beira do rio nasceu uma árvore e os braços da árvore abriram-se em cruz.

As suas mãos compridas já não acenam de além. Morreu a pastorinha e levou as mãos compridas.

Os seus olhos a rirem já não troçam de ninguém. Morreu a pastorinha e os seus olhos a rirem.

Morreu a pastorinha, está sem guia o rebanho. E o rebanho sem guia é o enterro da pastorinha.

Onde estão os seus amores? Há prendas para lhe dar. Ninguém sabe se é ele e há prendas para lhe dar.

Na outra margem do rio deu à praia uma santa que vinha das bandas do mar. Vestida de pastora pra se não fazer notar. De dia era uma santa, à noite era o luar.

A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha morta é a Senhora dos Milagres.

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Junin Cura Lesbica
Junin Cura Lesbica

Parece um Pug De Olhos Esbugalhados

Rita Almeida
Rita Almeida

Almada Negreiros não nasceu em Lisboa mas sim em São Tomé e Príncipe