António Maria Lisboa

António Maria Lisboa

1928–1953 · viveu 25 anos PT PT

António Maria Lisboa foi um poeta português, figura proeminente do movimento surrealista em Portugal. Sua obra poética é caracterizada por uma linguagem inovadora, pela exploração do inconsciente e pela forte carga onírica e imagética. Foi um dos fundadores da revista "Orfeu", marco inicial do modernismo em Portugal, e teve uma atuação intensa no grupo surrealista.

n. 1928-08-01, Lisboa · m. 1953-09-11, Lisboa

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Poema Do Começo

Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objecto estranho na algibeira
-trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

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Biografia

Identificação e contexto básico

António Maria Lisboa foi um poeta português, conhecido principalmente por sua ligação ao movimento surrealista. Nasceu em Lisboa e foi um dos nomes fundamentais na introdução do surrealismo em Portugal, participando ativamente dos grupos e publicações que definiram essa corrente literária no país.

Infância e formação

Sua formação intelectual ocorreu em um ambiente propício às novas ideias artísticas e literárias que circulavam em Lisboa. O contato com a vanguarda europeia, especialmente o surrealismo, foi decisivo para o desenvolvimento de sua obra.

Percurso literário

António Maria Lisboa iniciou sua trajetória literária em contato com o movimento modernista português. Foi um dos colaboradores da emblemática revista "Orfeu", que marcou o início do modernismo em Portugal. Posteriormente, tornou-se uma figura central no grupo surrealista português, contribuindo com poemas que exploravam os princípios da escrita automática e do universo onírico. Sua produção poética, embora concentrada em um período, deixou uma marca significativa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de António Maria Lisboa é profundamente marcada pelo surrealismo. Sua poesia caracteriza-se pela liberdade formal, pela exploração do inconsciente, pela imagética poderosa e muitas vezes desconcertante, e pela quebra da lógica racional. Utilizou a escrita automática como recurso criativo, buscando acessar um fluxo de consciência mais puro e revelador. Temas como o amor, o desejo, o mistério, o irracional e o subversivo permeiam seus versos. A linguagem é frequentemente surpreendente, com associações inusitadas e uma musicalidade própria, ainda que não convencional.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico António Maria Lisboa insere-se no contexto das vanguardas artísticas europeias do início do século XX. Em Portugal, sua atuação coincide com o desenvolvimento do modernismo e, posteriormente, do surrealismo, movimentos que buscavam romper com a tradição e propor novas formas de expressão artística e literária. O grupo surrealista português, do qual fez parte, teve um papel crucial na renovação da cultura do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes da vida pessoal de António Maria Lisboa são menos conhecidos, mas sua dedicação às ideias surrealistas e à produção poética é evidente em sua obra e em seu engajamento com os movimentos literários de sua época.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora sua produção tenha sido intensa em um período específico, António Maria Lisboa é reconhecido como um dos nomes importantes do surrealismo em Portugal. Sua obra contribuiu para a renovação da poesia portuguesa e para a consolidação do surrealismo como uma força estética no país.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado pelas correntes surrealistas europeias, António Maria Lisboa, por sua vez, influenciou poetas posteriores com sua abordagem inovadora da linguagem e do imaginário. Seu legado está na ousadia de sua poesia e em sua contribuição para a história do surrealismo em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de António Maria Lisboa é objeto de estudo por sua riqueza simbólica e por sua capacidade de acessar o universo do inconsciente. A análise crítica de sua obra foca na originalidade de sua linguagem e na força de suas imagens, que desafiam as convenções e convidam a múltiplas interpretações.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua ligação ao movimento surrealista e sua participação em publicações vanguardistas demonstram um espírito inquieto e uma busca constante por novas formas de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Maria Lisboa faleceu precocemente, mas sua obra deixou um impacto duradouro na poesia portuguesa, sendo lembrado como um dos expoentes do surrealismo no país.

Poemas

5

Poema Do Começo

Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objecto estranho na algibeira
-trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

2 795

Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

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Que Pensar destes Poemas

Que pensar destes poemas: mundo sem classificações, esquemas, meios diversos e opostos de ser e conhecer, de se comportar e fazer comportar, de amar e ser amado, pulverizando as escalas, aparências, arbitrariedades dialécticas do Bem e do Mal, da sua reversibilidade, da sua interconexão? - Porque funde num só corpo: porque contém a Lei e contém o que destrói a Lei, é o Paradoxo a forma do Saber Oculto.

1 787

Comutador

Ergo-me de ti no zimbório
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn

Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício

Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada

OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.

1 822

Conjugação

A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio e coberta de bolor
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha

A construção dos poemas

A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS

é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente

NUM TÚMULO EXAUSTIVO.

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