Lista de Poemas

Canto de Natal

A Criança que dorme
é tua e também minha.
Junto dela a grande noite
se apaga, e se avizinha

a madrugada santa,
com seus rumores castos...
E a Criança repousa,
e a Criança se esquece,

enquanto que no espaço
e no tempo se tece
a coroa de espinhos,
como um luar de sangue
sobre os altos caminhos.


In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. Poema integrante da série O Unigênito, 1946/1947
1 356

Quando eu Disser Adeus

Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao mesno fadiga

da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um " até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.

Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer

de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.

1 665

Distraidamente

Distraidamente, disquei para o teu apartamento.
Distraidamente.
(Que coisa haverá mais triste que um telefone soando na distância,
sem resposta possível?)
Foi então que, de súbito, caiu em mim a sensação da tua ausência.
Ah, amigo...
Distraidamente, deixei o telefone soar, soar, soar, como se fosses
responder acaso,
como se de alguma parte, não sei de onde, surgisse de novo a tua
voz alegre, o teu riso jovem.
Cheguei a ouvir teu riso.
Ah, amigo...
Distraidamente, como que à espera,
(em que astro atenderias?)
distraidamente, assim fiquei.


In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. Poema integrante da série Aqui, 1944/1960
1 188

Canção da Estrela Polar

Na estrada do Acaba-Mundo,
somente a estrela polar.
Vi a morte: fui ao fundo.
Na estrada do Acaba-Mundo,
nenhum mar.

Nenhum mar? Nenhum deserto.
Nenhum sopro, nem luar.
Longe, os anjos. Muito perto
o mundo, a meus pés aberto.
Nenhum mar.

Volta e meia a estrela ria.
De mim? De ti? Do luar?
O luar não existia.
Eu morrera. E a noite fria...
Somente a estrela polar.


Publicado no livro Poesias (1946).

In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 80. Poema integrante da série Nostalgia dos Anjos, 1939/1944
1 395

Rota do Desconhecido

Quando eu seguir na rota do desconhecido
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.

Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!


Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).

In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-2
1 350

Cantilena II

A Mario Quintana

Mansa cantilena
num mundo que chora:
até me dá pena
te escutar agora.

Ao ouvir-te, tento
ir até ao fundo
de um deslumbramento
que ainda há no mundo

(pelo que segredas,
pelo que me falas),
tu que assim te quedas
em mim, se te calas,

— ai das cantilenas
num mundo de pranto! —
chama que asserenas
e em nós pões o encanto

de nem sei que dia
feito de inocência,
sopro de poesia
da mais pura ardência.


In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
1 142

A Todos os Poetas

A todos vós que um dia pressentistes
os passos alumbrados da poesia
na vossa alma soar — saudoso dia
que mais humanos, graves, e mais tristes

para sempre vos fez... A todos vós
que, amando, o amor sentistes impossível,
que, vendo o mundo, amastes o invisível,
e, ouvindo o canto, ouvistes nele a voz

de um reino imerso em névoa como clara
ilha na solidão... E deslumbrados
as palavras no vácuo erguestes para

reanimá-las e reacendê-las,
a todos vós o céu acolhe, consolados
pela luz da mais casta entre as estrelas.


Publicado no livro Sonetos com dedicatória (1956).

In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 270-271
1 106

O Poeta e o Poema

Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.

Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.

(...)

Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.


In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
1 295

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Identificação e contexto básico

Alphonsus de Guimaraens Filho foi um poeta brasileiro, filho do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens. Nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais. Herdando o nome e a sensibilidade do pai, Filho trilhou um caminho literário próprio, mantendo, contudo, fortes ecos do legado paterno, especialmente no que se refere ao misticismo, à religiosidade e à musicalidade da linguagem.

Infância e formação

Criado em um ambiente familiar profundamente imbuído de cultura e espiritualidade, Alphonsus de Guimaraens Filho teve uma formação que, sem dúvida, foi moldada pela obra e pela personalidade do pai. A religiosidade e o apreço pela arte e pela literatura foram pilares em sua educação. Embora não haja tantos detalhes sobre sua formação acadêmica específica como poeta, é certo que absorveu as influências literárias e espirituais que permeavam seu lar, incluindo o próprio movimento simbolista.

Percurso literário

O percurso literário de Alphonsus de Guimaraens Filho é marcado pela continuidade e, ao mesmo tempo, pela busca de uma voz individual dentro da tradição poética herdada. Publicou sua obra em diversas fases, mantendo um fio condutor de lirismo e espiritualidade. Sua atividade literária, embora talvez menos proeminente que a do pai em termos de impacto nacional, contribuiu para a poesia brasileira com sua sensibilidade única.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Alphonsus de Guimaraens Filho exploram temas recorrentes como a fé, a transcendência, o amor místico, a busca pela pureza e a beleza idealizada. Sua poesia é reconhecida pela musicalidade intrínseca, pela delicadeza das imagens e por um tom frequentemente melancólico e reverente. O estilo de Filho dialoga com o simbolismo, especialmente em sua exploração do transcendental e do etéreo, mas também desenvolve uma linguagem que, embora clássica em sua forma, carrega uma intimidade peculiar.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Alphonsus de Guimaraens Filho viveu e produziu sua obra em um período em que o modernismo já se consolidava no Brasil, mas a influência do simbolismo, especialmente em certos círculos literários e regionais, ainda se fazia sentir. Ele se insere, de certa forma, em uma linha de continuidade poética que valoriza a forma, a musicalidade e a exploração de temas espirituais e existenciais, muitas vezes em contraponto às propostas mais radicais das vanguardas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sendo filho de uma figura tão marcante como Alphonsus de Guimaraens, a vida pessoal de Filho pode ter sido, em parte, vivida à sombra do pai, mas ele conseguiu forjar seu próprio caminho poético. A sua dedicação à poesia sugere uma vida dedicada à introspecção e à busca por expressão artística e espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Alphonsus de Guimaraens Filho está, em grande medida, ligado ao seu sobrenome e à sua conexão com a obra paterna. No entanto, sua poesia possui méritos próprios, sendo apreciada por aqueles que buscam uma lírica marcada pela espiritualidade, pela musicalidade e pela delicadeza. Sua obra ocupa um lugar na poesia mineira e na poesia brasileira que valoriza a tradição lírica e espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As principais influências de Alphonsus de Guimaraens Filho foram, naturalmente, seu pai, Alphonsus de Guimaraens, e o movimento simbolista. Seu legado reside na continuidade de uma tradição poética que explora as dimensões místicas e religiosas da existência, oferecendo uma perspectiva lírica e sensível sobre a fé e a beleza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Filho é frequentemente analisada em relação ao simbolismo e à herança paterna, destacando-se a sua capacidade de transpor para a linguagem poética sentimentos de devoção, amor idealizado e a busca pelo sagrado. A crítica tende a apontar a pureza lírica e a serenidade de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A relação de Alphonsus de Guimaraens Filho com a obra de seu pai é, por si só, um aspeto fascinante. A forma como ele honrou e, ao mesmo tempo, reinterpretou o legado paterno através de sua própria poesia demonstra uma maturidade artística e uma profunda conexão com suas raízes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações detalhadas sobre as circunstâncias da morte de Alphonsus de Guimaraens Filho e publicações póstumas não são amplamente divulgadas na pesquisa geral. Sua memória é preservada como um poeta que deu continuidade a uma vertente lírica e espiritual importante na poesia brasileira.