Lista de Poemas

Cultura

O girino é o peixinho do sapo.
O silêncio é o começo do papo.

O bigode é a antena do gato.
O cavalo é o pasto do carrapato.

O cabrito é o cordeiro da cabra.
O pescoço é a barriga da cobra.

O leitão é um porquinho mais novo.
A galinha é um pouquinho do ovo.

O desejo é o começo do corpo.
Engordar é tarefa do porco.

A cegonha é a girafa do ganso.
O cachorro é um lobo mais manso.

O escuro é a metade da zebra.
As raízes são as veias da seiva.

O camelo é um cavalo sem sede.
Tartaruga por dentro é parede.

O potrinho é o bezerro da égua.
A batalha é o começo da trégua.

Papagaio é um dragão miniatura.
Bactéria num meio é cultura.

(Arnaldo Antunes in "Nome" São Paulo.BMG Ariola Discos,1993)

8 516

O Buraco do Espelho

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

(in o carioca - revista de arte e cultura nº 2/ julho e agosto 1996)

2 501

Pensamento vem de fora

Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.


In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 199
2 830

Tudo

Todas as coisas
do mundo não
cabem numa
idéia. Mas tu-
do cabe numa
palavra, nesta
palavra tudo.


In: ANTUNES, Arnaldo. As coisas. Il. Rosa Moreau Antunes. 2.ed. São Paulo: Iluminuras, 1993. p.2
4 808

As Coisas

As coisas têm peso,
massa, volume, tama-
nho, tempo, forma, cor,
posição, textura, dura-
ção, densidade, cheiro,
valor, consistência, pro-
fundidade, contorno,
temperatura, função,
aparência, preço, desti-
no, idade, sentido. As
coisas não têm paz.


In: ANTUNES, Arnaldo. As coisas. Il. Rosa Moreau Antunes. 2.ed. São Paulo: Iluminuras, 1993. p.91

NOTA: Música gravada por Gilberto Gil e Caetano Veloso (vocal) no disco Tropicália 2 (São Paulo: BMG Ariola, 1993
7 589

Boceta

da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba

entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba o tempo

3 809

Seja o que for


                              SEJA O QUE FOR
                              QUE SEJA O QUE
                              FOR QUE SEJA O
                              QUE FOR QUE SEJA
                              O QUE FOR QUE
                              SEJA O QUE FOR
1 547

Estou cego a todas as músicas

Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.


In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 199
2 633

Lavar as Mãos

Uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma
Mão
Lava outra, lava uma
Mão
Lava outra, lava uma
Depois de brincar no chão de areia
a tarde inteira
Antes de comer, beber, lamber,
pegar na mamadeira
Lava uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma
A doença vai embora junto com a
sujeira
Verme, bactéria, manda embora
embaixo da torneira
Água uma
Água outra, água uma
Água outra, água uma
Na segunda, terça, quarta, quinta
e sexta-feira
Na beira da pia, tanque, bica,
bacia, banheira
Lava uma
Mão
Mão
Mão
Mão
Água uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma


In: Texto fornecido pelo Departamento Infanto-Juvenil da TV Cultura

NOTA: Canção do programa Castelo Rá-Tim-Bu
5 386

Dorme

PÁRA-RAIO, DORME
TEMPORAL, DORME

VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME

AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME

TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME

LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME

SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME

CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME

CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME

CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME

PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME

AMANHÃ, DORME


In: Canções de ninar. Santo André: Cameratti, 1994

NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
2 438

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Identificação e contexto básico

Arnaldo Antunes é um poeta, cantor, compositor e artista visual brasileiro. Nasceu em São Paulo. É conhecido por sua obra que mescla poesia, música e artes visuais, marcada pela experimentação.

Infância e formação

Arnaldo Antunes cresceu em São Paulo, num ambiente que lhe proporcionou o contato com diversas formas de arte. Sua formação artística é autodidata em grande parte, mas teve contato com o meio cultural vibrante da cidade.

Percurso literário

O início da escrita de Arnaldo Antunes se deu em paralelo à sua carreira musical. Publicou seus primeiros poemas em jornais e revistas, e posteriormente reuniu-os em livros. Sua obra poética evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma constante experimentação.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais conhecidas estão "XXI Poemas" e "Psicopaisagens". Seus poemas frequentemente exploram a sonoridade das palavras, o jogo semântico e a visualidade, utilizando recursos como a repetição, a fragmentação e a criação de neologismos. O tom de sua poesia pode variar entre o lírico, o irônico e o contemplativo. Sua linguagem é densa, imagética e muitas vezes desafia as convenções gramaticais e sintáticas, aproximando-se de movimentos como o concretismo e o experimentalismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Arnaldo Antunes insere-se no contexto cultural brasileiro das últimas décadas do século XX e início do século XXI, um período de efervescência artística e de experimentação em diversas áreas. Sua obra dialoga com a música popular brasileira, a poesia concreta e outras manifestações da arte contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida pessoal, embora reservada, reflete sua dedicação às artes. A relação com outros artistas e a participação em diferentes coletivos artísticos foram importantes para o desenvolvimento de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Arnaldo Antunes é amplamente reconhecido tanto na música quanto na literatura. Recebeu diversos prêmios e sua obra é objeto de estudo acadêmico e de interesse do público.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra é influenciada por poetas concretistas, dadaístas e surrealistas, bem como por elementos da música popular e experimental. Seu legado reside na sua capacidade de inovar e de expandir as fronteiras entre diferentes linguagens artísticas, influenciando novas gerações de artistas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Arnaldo Antunes é frequentemente analisada sob a ótica da intersemiose, da exploração da linguagem como matéria plástica e sonora, e da reflexão sobre a condição humana na contemporaneidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Além de poeta e músico, Arnaldo Antunes também se dedica às artes visuais, com trabalhos em fotografia e instalações.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Arnaldo Antunes é vivo e continua sua produção artística.