Lista de Poemas

A Vida

Impressão do Moisés, de Menotti del Picchia

Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos;
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e — supremo revés —

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.192. (Obras de Amadeu Amaral
1 627

Palavras, nem Sempre as Leva o Vento

Manda o costume devolver o insulto
com outro insulto igual, senão melhor.
Não procedais assim, que é baixo e estulto.
Temeis o mal? Pois evitai o pior.

Cada palavra que dizeis de vulto,
como o som de um violino anda em redor,
depois de vos revoar no ser oculto,
por onde a ressonância a fez maior.

O violino, porém, não se recorda
do som que um dia lhe vibrou na corda,
e o vosso coração fica a fremir;

e, às vezes, a palavra, além, se esquece,
enquanto em vosso peito permanece,
como pedra que a um lago foi cair.


Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Carta de Guia de Meus Filhos.

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.230. (Obras de Amadeu Amaral
1 676

22 - Em Meditação Introspectiva

Do fundo de meu ser, num arremesso
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.

Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.

Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.

E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.

16 de setembro de 1922


Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
1 331

Crepúsculo Sertanejo

Cai a noite. Um rubor fulge atrás da colina,
cuja sombra se alonga a pouco e pouco, enorme.
A velha árvore, além, verde nuvem, se inclina
para o chão, balançando o vulto desconforme.

É uma nota profunda a vibrar na surdina
das cores e da luz, no amplo vale que dorme.
No silêncio feral, que é uma vaga neblina
de sons, passa-lhe a voz como um borrão informe.

Sob a copa uma forma em cinza se desmancha.
Um boi cansado busca a figueira cansada;
muge, e deita-se, em paz, numa violácea alfombra.

Muge. A fronde e o animal fazem uma só mancha;
o mugido e o rumor da fronde, a mesma zoada.
Manchas de som... Zoadas de cor... Silêncio. Sombra.


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.171. (Obras de Amadeu Amaral
1 491

Tapera

Numa curva da estrada, onde a luz reverbera
num tanque entre ervaçais, aparece uma casa.
Pombas voejam no oitão, sobre a cumeeira rasa.
Tudo ali tem um ar de quem convida, e espera.

Sigo. Chego ao pomar: o capim prolifera;
a guaxima no juá bravo, alta e rija, se casa.
Silêncio. E, no silêncio, o som mole de uma asa
e o fremente chiar da cigarra. É a tapera.

Bato à porta. Ninguém. Olho por uma fresta:
tudo escuro; e no escuro, a descer do telhado,
longas fitas de sol. Nada mais ali resta.

A velha casa morre. Apenas, sobre as lombas
do teto a desabar caminham sem cuidado,
nos pequeninos pés, turturinando, as pombas.


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.170. (Obras de Amadeu Amaral
2 156

Nuvens

Sobre a lâmina azul de um céu todo bonança
passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,
— vaga que adormeceu num mar que não estronda,
nas mudas convulsões de uma tormenta mansa...

Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avança,
busca a forma fugaz, que se esboça e esbarronda;
aqui se esgarça, ali descai, além, redonda,
bóia ao sol que a redoira e ao vento que a embalança.

Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,
sobem-nos da alma assim, livres, espaço em fora,
na lenta indecisão dos informes vapores...

Possam os meus pairar na luz por um momento,
ser a nuvem que arrasta o olhar perdido — embora
suceda a cada esboço um desmoronamento!


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.147. (Obras de Amadeu Amaral
1 330

A um Adolescente

A Júlio Mesquita Filho

III

Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.

Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?

Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.

E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.

IV

Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.

A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!

Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.

Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
1 499

Jamais

A Gastão Bousquet

Jamais, jamais encontrarei aquela
que eu procurava pelo mundo outrora,
como quem mira um céu que não se estrela,
um véu de névoa que não se evapora.

Jamais, jamais. E, solitária vela,
vai-se a Esperança, Desalento em fora.
Jamais há de cessar esta procela,
jamais há de raiar aquela aurora.

Há de morrer esta vontade pura
(o coração aniquilado diz-mo)
na intimidade das secretas mágoas.

E este imenso tesouro de ternura
será como um regato num abismo,
rolando oculto as cristalinas águas.


Publicado no livro Névoa (1910).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.81. (Obras de Amadeu Amaral
1 306

Rios

A Adalgiso Pereira

Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, — árvores e tetos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;

vão refletindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios prediletos;

fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...

Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.


Publicado no livro Névoa (1910).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.60. (Obras de Amadeu Amaral
1 602

2 - A um Manancial de Água Pura

No alto da escarpa, além, escorre e brilha
um leve, pequenino manancial:
é, entre rochas, uma fina estilha
de prata com sonidos de cristal.

Filha do morro, a fonte, boa filha,
agarra-se teimosa ao chão natal,
à trama das raízes, à escumilha
das ervas, aos farpões do pedregal.

Doce água! Aquele que a tomasse à fonte,
após lenta ascensão por duro monte,
esse a pudera bem julgar, enfim;

mas, não merece tanto esforço: escorre
abandonada e no abandono morre...
Dentro de nós há mananciais assim.

16 de junho de 1921


Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.246. (Obras de Amadeu Amaral
1 707

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Identificação e contexto básico

Amadeu Amaral, nome completo Amadeu Baptista de Carvalho Amaral, nasceu em Lisboa em 21 de maio de 1894 e faleceu no mesmo ano, em 24 de novembro de 1918, em Lisboa. Foi um poeta, dramaturgo e crítico literário português, uma das figuras mais importantes do grupo Orpheu e do modernismo português. Apesar da sua curta vida, deixou uma marca indelével na literatura portuguesa.

Infância e formação

Nascido numa família de classe média alta em Lisboa, Amadeu Amaral teve uma educação privilegiada. Frequentou o Liceu Passos Manuel e, posteriormente, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou. Durante a sua formação académica, o contacto com as vanguardas artísticas europeias e com os novos movimentos literários moldou o seu pensamento e a sua escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Amadeu Amaral foi breve, mas intenso. Foi um dos fundadores do grupo Orpheu e participou ativamente na revista que deu nome ao movimento, colaborando com textos poéticos e críticos. A sua obra poética, publicada postumamente em "O Verso", reflete a influência das vanguardas europeias e a sua busca por uma renovação da expressão literária em Portugal. Além da poesia, escreveu peças de teatro e importantes ensaios críticos sobre a literatura da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Amadeu Amaral, reunida em "O Verso" (publicado em 1919), caracteriza-se pela experimentação formal, pela utilização do verso livre e pela exploração de temas ligados à vida urbana, à modernidade e à psique humana. O seu estilo é inovador, com uma linguagem que reflete a velocidade e a complexidade do mundo moderno. A sua voz poética é por vezes irónica, por vezes melancólica, mas sempre atenta às novas sensibilidades. Como crítico, Amaral foi um defensor fervoroso do modernismo, analisando e divulgando as novas correntes estéticas e literárias que emergiam em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Amadeu Amaral viveu num período de grande efervescência cultural e de profundas mudanças sociais em Portugal e na Europa. A Primeira Guerra Mundial e as suas consequências, o desenvolvimento da sociedade de massas e o surgimento das vanguardas artísticas (Futurismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo) criaram um caldo de cultura propício à revolução estética que o Orpheu representou. Amaral esteve no centro deste movimento, dialogando com outros artistas e intelectuais da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Amadeu Amaral foi marcada pela sua dedicação à arte e à literatura. Apesar da sua juventude, demonstrou uma maturidade intelectual notável. A sua saúde frágil, que o levaria à morte prematura, não o impediu de se entregar de corpo e alma aos seus projetos artísticos e intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Amadeu Amaral foi, em grande parte, póstumo. A curta duração da sua vida e a natureza vanguardista do seu trabalho fizeram com que a sua importância para o modernismo português fosse plenamente compreendida apenas décadas depois. Atualmente, é reconhecido como um dos pioneiros da renovação literária em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Amadeu Amaral foi influenciado pelas vanguardas europeias, como o Futurismo italiano. O seu legado reside na sua contribuição para a fundação do movimento Orpheu e na sua obra poética e crítica, que ajudou a pavimentar o caminho para a poesia moderna em língua portuguesa. A sua audácia formal e a sua visão crítica abriram novas perspetivas para a literatura.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Amaral é estudada como um exemplo da modernidade portuguesa, explorando a forma como a poesia se confrontou com os novos tempos e com a fragmentação da experiência moderna. A sua crítica literária é valorizada pela sua perspicácia e pela sua capacidade de antecipar tendências.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Amadeu Amaral era conhecido pela sua inteligência vivaz e pela sua paixão pela arte. A sua morte precoce, devido à pandemia de gripe espanhola, foi uma grande perda para a literatura portuguesa, que viu desaparecer um dos seus talentos mais promissores.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Amadeu Amaral faleceu em Lisboa, em novembro de 1918, vítima da gripe espanhola, uma pandemia que ceifou milhões de vidas em todo o mundo. A sua obra, embora dispersa e publicada maioritariamente após a sua morte, deixou um legado duradouro, sendo celebrado como um dos pilares do modernismo português.