Transmutação
Deixo-me
ficar na quietude
que invade o dia
e abandono-me à corrente dos sons
que assomam à flor de mim
No seio do silencio que chega
escuto teus passos,
tua voz , teu rir
tua presença inteira
suavemente me invadindo
Eu não estou só....
Eu não sou apenas eu,
todos os lugares em mim
corpo, memória alma
abrigam os teus sinais,
te amo como respiro
E vivo
ao compasso do meu eu
transfigurado em nós
Estrada de Luz
Depois do assombro daqueles dias
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
Confissão
Quando do
cansaço
é a hora
e ganha voz o grito
amordaçado
quando na mesmidade
se esgotam os dias
e o coração
pede que o solte
quando o que em mim
não tem tamanho
busca asas e o tempo
onde vive permanente
eu procuro
a tua voz
as tuas mãos
a tua boca
o teu abraço
a tua presença
em mim....
Mas nada,
nada acalma já
este meu ser pela metade
a vida à margem da vida
a vida à mingua
de ti.
Origens
Gravadas
na alma as marcas
desse emergir lento da terra de ninguém:
e no corpo réstias do sal
que aflora no sangue e nas lágrimas,
amnióticas águas nascentes da mãe.
O primeiro vislumbre de luz,
O som do primeiro grito
O medo do salto pra vida
o saber secreto de que nascemos à vez
e um a um partimos,
primordial e derradeira forma
de estarmos inteiramente a sós.
Um distinto sinal em nossas vidas,
O desenho único na anatomia da mão
a irrepetivel impressão digital
e outras distintas marcas impressas:
a resistência sobre-humana
quantas vezes impensada,
a teimosia do sonho
de outros cumes alcançar,
o permanente sentido dado
ao que se faz e é
Ousadia de criar asas
e levantar-se do chão,
de recriar e persistir
natureza que se desnatura,
afã e busca,
a cada novo golpe a cada novo voo
a indomável vontade de ser mais
e ir mais além
Anima, Animus,
e contudo sopro
humana fragilidade em nossa sina inscrita
quando veloz é a corrente que submerge
e bruta a força da vida,
irmanando na mesma química
homens, bichos, estrelas, pedras
as entranhas da terra
e as águas marinhas.
Ténues fios seguram o cálice da vida
onde sôfregos bebemos cada gota consentida,
isso que leva adiante e torna maiores
ante a inexorável forma que nos determina,
o sobre-humano gesto
que em si mesmo inscreve distintos sinais
Sinais é o que somos
nem deuses , nem demónios
humanos tão só humanos,
humanos até na desumanidade
ou antes de mais e depois de tudo
frágeis seres inacabados
buscando razões para erguer a ponte
que nos leve além
e nos faça chegar mais perto de Ser
que ainda não fomos.
Alquimia
Das
dobras dos lençóis
me chega a sensação morna
e o som de corpos agitando-se
na noite
onde se mesclam cheiros e suor
corpos que se prendem e entrelaçam
raízes ou heras,
corpos imersos
nas águas fundas de tanto querer,
abandonados à corrente
rumam à foz
onde em explosões no mar dos sentidos
desaguam.
Ser e sentir-me no sentir da amada
que me atravessa inteira,
não sei onde começa o meu sentir
se me sinto nas ondas do corpo que me invade
misteriosa alquimia dos corpos.
Amo o teu corpo
que me leva ao fundo do sentir,
corpo e além do corpo
sou em ti
no reencontro, na descida às profundezas
que nos mistura e devolve
ao centro do nós mesmas.
Travessia
Duvidas
devoram a lava derramada
e sulcos há agora no lugar por onde
ainda ontem jorravam
rios de incandescências
Leio-me nas marcas
impressas pela torrente
e saudade é o que eu sinto já
Entre as duas margens
sente-se a corrente e atravessa-la
está ainda inscrito
no ímpeto que me lança à margem de lá.
Vejo-me de branco imprimindo as marcas
dos meus pés na areia de um outro lugar…
mas é tão fugaz essa imagem branca
de pés caminhando ao longo da praia
como se uma onda invadindo a orla
de manso levasse as marcas e o trilho
desenhado em sonhos que eu quis sonhar.
Aqui, nesta margem
onde a sós me deito com o que sonhei
propaga-se em ondas o tremor do um vulcão
que invade em silencio o chão que é o meu
e deixo-me ficar quieta à escuta do que agora
vibra e ecoa em mim.
Duvidas e vontades, escavam meu peito,
lanço o meu olhar lá para outra margem
esperando um sinal, o derradeiro aceno
que não sei se virá, e não sei se o quero
e se vier não sei o que me trará,
sei que vou ficar e imprimir
pegadas nas areias finas do meu frio mar.
Regresso
Gritámos por liberdade,
exigimos sua vivência,
e quando nos encontramos no centro desse imenso território,
quantas vezes não somos prisioneiros
da liberdade que não sabemos fruir...
a liberdade dos outros
esse umbral onde sempre paramos( ou deveríamos parar)
nos assusta mais ainda, quando do amor falamos...
mais do que a liberdade do outro
tememos que seu voo seja demasiado ousado,
como ave que vai e não regressa ao mesmo lugar.
É na verdade que se desenha nesse voo,
que vale a pena embarcar,
sentir e saber
que a ave, reconhecendo o caminho,
livre regressa ao beiral.
Sinais
Nas
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
Cristais do Tempo
Agora
quero apenas ser daqui...
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso
sinto e fruo por inteiro
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol
Aqui e agora
Ser
chão rude e àspero
anjo sem asas
brisa que passa
poeira de estrelas....
e até lodo ser
se a beleza de um Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pantano
teimosamente se erguer.
Os Olhos do Tempo
Espraiam-se
meus gestos
insinuando desejos que se calam à passagem
do tempo em mim,
mas teimo ainda ser e acreditar
Desfio esperas e no meu regaço
silencio suspiros,
e é na brancura de um certo vazio
que ensaio abraços
perdidos na noite
que se deita a meu lado
E fico pensando
num pássaro que risca
breve o imenso espaço,
quisera eu planar
e voar assim também…
Mas meu coração,
hoje agrilhoado
prende-me a este instante…
quero o que me enche,
quero o que me falta
tenho o que não quero
tenho o que me farta
Olho o tempo e sinto-me
ser a fiandeira do irrepetível
momento que passa
e sinto crescer dentro do meu peito
como prenhe ventre
a imensa a saudade
que não sei se mata
ou aviva a alma