Lista de Poemas
Alma-Gémea
que não oiço, não vejo
só pressinto
és o pedaço que pode refazer
minha alma mutilada
Tu por quem desfio esperas
Deus sabe,
se a este encontro virás.
Deus sabe
se um dia ao acordar,
tua alma sentirá o frémito
de um outro pedaço,
o meu
gémea-alma
nela a vibrar.
Estrada de Luz
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
O acordar dos sentidos
ante a nudez da alma que o corpo espelha,
sigo os meus olhos
na busca de cada movimento, ou arquejo do peito
sigo o ouvido
atenta ao sussurro e ao suspiro
sigo a minha boca
em busca do sal de cada maré viva que sobe à orla do desejo
sigo as minhas mãos
que em cada esquina do teu corpo reencontram o tempo
que um dia foi de todos os sentidos
que de novo emergem à tona dos meus dias.
Poema Azul
cambaleando, eu, entre escombros, foi
que os teus olhos azul safira, surgindo do nada,
se ofereceram aos meus
E agora o teu nome enche a minha boca
com o sabor de maduras pitangas
colhidas na invernia destes dias
quando nada a colheita anunciava
falo o teu nome e lembro os teus olhos
quando o deserto se me afigura,
nada pergunto, saber para quê..
se o sentido obscuro do acontecer,
ágil se esgueira e dilui de razões...
vivo a descompasso e de adiamentos
não sei do lugar
tão pouco de um tempo para o vivermos,
e dos fios que a vida tecem, eu não sei...
sei do brilho diamantino de um olhar
sei do lume que o nosso peito acalenta
sei dos passos pouco a pouco
no chão riscando um caminho...
tão pouco é o que sei e por ora é bastante
saber que por esse tão pouco existimos.
Em Nome do Pai
nomes inominável
te colam ao rosto, como se fosses forma,
corpo mesuravel, e tornam-te espelho
de impasses e limites, os nossos,
e chamam-te a grande presença
como se pudesses, sendo-o, caber nos estreitos
domínios onde tolhidos nos movemos
e pedem-te a benção na sagração
da guerra e na miragem de vitórias que a honra
lave, ante os escombros da civilização em ruínas
às mãos da barbárie que o rosto cobre...
saiem por aí nas armaduras espelhantes
ribombando tiradas moralistas
invocando protecções, ondulando bandeiras
que são suas, exibindo os dentes lavados
depois do canibalismo
são pútridos os restos que trazem agarrados
e desfilam pela história dos mortos
que esqueceram ou apagaram como riscos de giz
e discursivos acenam máximas aos vivos
que a memória dos seus mortos são agora ...
Manchados hoje os chãos de Nova York.....
os da Palestina, Hiroshima, Auschwitz e Guernica,
o chão exangue de África, quem lembra ainda?
Marcada a ferro e brasa a terra toda,
em teu nome, inominável, quantas vezes...
a soldo de quem não estás urge que o digas,
que não o sabem os que te dão rosto
os que te armam pra que mates em seu nome
os que se benzem com a mesma mão que esgana
os que erguem obeliscos e esculpem frases póstumas
os que se prostram ante o deus das míseras vitórias.
esses que nada sabem e pouco crêem
na estultícia de razões invocam o deus da inumanidade
e num voo ágil de águias
sobrevoam o espectáculo do mundo como Neros frios
cobrindo a terra com asas de anjo negro
em nome da liberdade que é a deles,
em nome duma pátria que é deles
em nome de um deus que é o deles.
Enquanto isso, apocalípticos sinais
desnudam o ventre imundo
onde germina a besta cega e bruta
em nome do pai!
Senda
os caminhos,
risco-os em cada muro que se ergue...
e sigo o rasto da voz que se alteia
cada manhã de custo e diligente teima
Se não mais me abraçam as palavras doces,
resta-me a ponte que lancei no dia
em que a tempestade me abeirou do abismo
dou o enlace amante ao desconhecido
onde se afigura uma estrela guia
surgindo do breu , do inominável espaço,
onde sinto o eco dos meus próprios passos....
Sei que há-de ser lá - onde quer que seja-
o lugar, o abrigo, casa a que regresso
reatando, enfim, invisíveis fios
que à vida me trazem presa pelo umbigo.
Ressonâncias
um tremor se anuncia nas profundezas
lateja nas veias, em cada fibra, em cada músculo
e emerge à terra de ninguém onde me abandonei....
subitamente um rio galga as margens,
vou na corrente indo onde me leva,
não sou de mim, mesmo que me saiba e sinta
nasço de cada maré, em todos os ciclos lunares
e a cada manhã regresso desse lugar
onde sempre irei na senda do que houver perdido....
Carrego, as sombras e a alva, sou o caos que se ordena
a cada instante que respira,
e nenhuma outra voz ecoa nas labirínticas dobras da memória
que não essa que vem de um lugar e tempo inexplicitos.
Sou no eterno retorno onde me descubro e refaço,
E vivo do inaudito
raiz de mim onde asas ganho,
lugar do desatino onde me acerto
a cada erro, a cada dor, a cada passo, a cada rasgo de infinito.
Gume do Ser
gesto e signo
para adentrar as razões
deste caminho a fazer-se
de perplexidades, desatinos, descaminhos...
Acredito chegar ainda
ali, onde possa vislumbrar ou pressentir
o sentido mais além deste tudo aqui
A paz que desce nestes dias
afronta-me e até o amor florescido
se me torna estranho
Por que caminhos chega esta quietude
se me sei só na vaga alterosa
no ruído surdo do mundo ?
Da paz não sei senão
a palavra onde habita
e não sei se quero a paz
de que não sou....
O mundo convulsivo chama...
como não ir seu encontro,
se a voz do sangue soa em mim,
irreprimível.
Enquanto a tarde
Ao meu lado,
na placidez da tarde que finda
Num quarto qualquer , de uma qualquer cidade
Dormes, serenamente, esquecida de tudo
(quiça de mim também)....
Fico atenta aos resquícios de claridade
Que não me deixam cair nesse torpor
Que desce até ti, decifro os ruídos
Que invadem o quarto, onde me sinto estrangeira
Não durmo, mergulho nos sinais
Que chegam do lado de fora ...
Neles procuro as coisas pequenas
Que afastam de mim os fantasmas
Que invadem a vigília
Prefiro a vida, os minúsculos
Sinais da vida, a qualquer não
no teu silencio, nas minhas omissões...
salvar a vida nesse gesto inoportuno
de rir até da tristeza que escorre das ausências.
A Caminho
à passagem do desejo todas as vozes
que ontem insinuavam ficar aqui, e eram
sonhos inacabados ou nado-mortos, os que me detinham,
a vida, essa, acenava do lado de cá de si mesma
enquanto eu me perdia ao largo ....
insuspeitas, ressurgem as sementes
aos primeiros sinais de um outono anunciado
e em clarões se espalham rente ao âmago
onde se acoita secreta a vida.
Risco em todos os muros "não - proibir! ",
rasgo todos os códigos
onde a palavra vida seja ausente,
a cada instante do acontecer me encontro
dobrando a esquina a caminho do que vier...
olho-me, em viagem me descubro,
não sei esperar,
mais tarde é só metáfora...
reescrevo a palavra futuro
com a tinta fresca do presente!
Comentários (1)
Doy especiales gracias a la gran artista y escritora Angela Santos por colorear este inconmensurable universo con sus majestuosas palabras. Sus poemas y escritos cristalizan la auténtica luz que ella trasporta en su espíritu. Un enorme abrazo y mi eterno cariño, desde Viena, Miriam M. Vargas
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