Angela Santos

Angela Santos

n. 1967 PT PT

Escritora, professora de filosofia e atualmente dedicada por inteiro à divulgação de filosofia oriental Chinesa. Professora de Tai Chi Chuan e Qigong, dirige uma escola onde divulga a cultura oriental, ensinando as artes marciais internas, e a sua filosofia, como via para o desenvolvimento global do individuo.

n. 1967-01-01, Lisboa

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Crepúsculo

A
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim

Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.

O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.

Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.

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Poemas

257

Nega-Entropia

O
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.

Parada fico a olhar o inevitável!

Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.

E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.

Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.

Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.

Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
1 515

Mil Sóis

De
noites de mil sóis

se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego

835

Aliança

Perscruto
os labirintos e os desertos
as palavras que rasgam
o fundo do silencio
em busca de uma centelha
apenas

vislumbre de noites
de estrelas veladas
onde emerge o sonho
teimando a opacidade
de horas desfiadas

e isso que agrilhoa
o gesto, a palavra, o querer
assoma à tona
de um mar de sargaços,
restos perdidos
vogam na memória
como exaustos náufragos.

Sim, ò Vida
quisera eu dizer-te
o sim da aliança,
coração, corpo, razão
todos os tempos
e lugares
onde me faço e fiz,
uma palavra só
eu nela inteira
e ela toda em mim.

1 008

Os Nomes das Coisas

Inventamos
nomes que se colam às coisas
e para tudo coisa é nome,
palavras que são coisas,
as coisas nas palavras

Rasgamos o ser imprimindo sentido
àquilo que é,
como quem espalha
sinais pelos caminhos
para não se perder

Sons são as palavras
sentido e busca também
e coisificamos para tornar palpável
aquilo vemos, isso que sentimos
e o que somos até

Mas é no silêncio
no ficar atento , perscrutando o que vem,
que de manso chega a elemental voz
eterno exercício desnudando as coisas
de vestes e adornos
para ficar diante da total nudez.

Se o silêncio chega
o que nele buscamos é, quem sabe, ainda
o sentido fundado no inexpressivo
ao reinventar o nome das coisas
que nos desafiam a descer
ao âmago de tudo o que é.

Será na fundura ou na superfície
que desocultamos a razão de ser ?

1 027

Às Vezes

Às
vezes
eu fico sentada à espera
joelhos bem rentes à boca
mergulhada não sei em que águas
levemente agitadas

E ali , assim fico parada
na imensidão do vazio
que me acolhe amigo
e me estende a mão

E fico à espera de alguma coisa
vaga ou difusa
como se eu fosse corpo em gestação

E o que chega vem
sem dizer que vem é um vago torpor
que se agarra à alma…
e tremula a mão cinzela a palavra
na página branca
que sempre a aguardara.

707

Histórias

de Ninar

Belas
histórias de ninar, arrumadas, esquecidas
nos velhos baús da memória.
abrir os baús, desempoeirar as histórias
e à roda da fogueira voltar a contá-las
aos crescidos, aos pequenos…

Crescidos que esqueceram histórias
que ouviram um dia e não souberam guardar
nos baús do tempo
pequenos que encherão seus dias
seus olhos e sonhos de contos e maravilhas
rasgando caminhos nas dobras da memória

Levantem-se os contadores de histórias
abra-se o coração ao sonho e à magia
que nas poeiras e gangas soterrados
não vemos já
o que os olhos da alma vislumbraram um dia.

Nossos tempos de ilusão….. frios de solidão

Ergam-se os velhos contadores de histórias
brilhem os olhos que se deixaram dormir
abram-se as comportas do tempo
e de novo crianças
tudo olhar à luz de uma estrela - guia

Estrela que nos leve de volta ao lugar
onde os sonhos brotam e o maravilhoso emerge,
ponte que nos liga a um caminho esquecido
onde à luz do sonho rodamos no tempo…

E no que ontem foi inteiros nos vemos,
vivendo histórias de pura magia
sem deixar de ser o que hoje somos
nas florestas densas que imaginamos,
esse lugar mágico onde se abrigam
o Gato das Botas, Peter- Pan e os Gnomos.

688

Cântico

Sinto-me,
e sou
em todos os lugares,
todos os tempos
Húmus.. matriz, Isis..

anfíbio largando os mares
animal comendo raízes
mão que se abre para colher frutos
corpo ainda não erecto
que se levanta do chão...

Shiva, Kali, incensos orientais....
arca, diluvio, sargaça ardente
no cume de uma montanha,
eco de uma voz longínqua
mandamentos, mar vermelho
de sangue

Esfinge dos desertos
brisa marinha no rosto.
barco fenício sulcando mares,
pórtico grego, ´"Ágora", coluna romana,
crueldade, circo de Nero.
catacumbas, carne rasgada
cruz exposta, agnus dei

Oração de santo monástico
acesa violência de bárbaros,
"Trevas", medieva luz, busca de eremita.

Navio das descobertas, mares e monstros
dentes podres de escorbuto,
Índias longínquas, astrolábio, estrela polar
marinheiro português

Copérnico, Galileu, metódica dúvida
sem método
ardendo na fogueira dos medos Inquisitoriais
Iluminada revolução, igual, fraterna, liberta,
libertária., sanguinária , Bonnapart
fuga de Bach, Sabat "matter"

Redondela, dança de roda ..campo
seara, camponesa tosca
inocente sagração da vida,

10 de Outubro, sol da terra, Tosltoi, Lenine
amanhãs que não cantaram
ruas de neve vestindo
a morte …. ideologias

Cidade Luz , euforia,
Garçonettes,
Gorges de Sande
Wilde, Monet, Picasso, Gaugin
Comte, Nietsche,
infinito crer, vontade,
Homem, Humanidade
Poder

Cruz gamada, fuzil, horror
Estrela de David, rasgando o peito
Auchewitz...trem humano
rosto da desumanidade.
crematório,
vergonha
culpa
dor

Manhã de Fevereiro,
meu grito recém-nascido.
infância, dor, descoberta
trevas ,luz, alvorecer
caminhada, construção, desconstruçãoeu
a caminho de o ser

1 076

Pedaços

São
vários os pedaços espalhados
por dentro e por fora de mim

São vários os pedaços dispersos
sem pontes ou laços

E a ténue visão de me desdobrar
na multiplicidade tangente e vaga

Tantos os pedaços tanta a dispersão
que eu já não sei
qual deles sou mais
qual deles mais sinto

1 164

Oikos

Oiço,
quedo-me serena
buscando decifrar as vozes
que emergem do fundo da terra
dos abismos do mar

O mistério …o obscuro
na transparência possível
vozes que emergem…
de onde?

Terra-mãe
mar, berço original
arvore sagrada verde serenidade
serena e erecta matriz do ser
na vertical.

1 171

Entrelinhas

Ali
naquele instante em que não paramos,
não vimos
que não há dias iguais
no seu aparente igual suceder

Um banco de jardim
um sol morno
a tarde que lenta cai,
rodopiando em correrias
uma criança, um cão
e lá longe a linha do horizonte
fundindo tons de azul

Aqui, fixando um sol laranja
dois amantes se entreolham
e tocam num gesto subtil,
seus dedos se enlaçam
e de repente o corpo respira desejo.

E enchem a vida
os quotidianos, vulgares, ínfimos sinais
passamos, e passamos adiante
sem decifrar na superfície do acontecer
que nada se repete,
que não há dias iguais.

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Angela Santos

Doy especiales gracias a la gran artista y escritora Angela Santos por colorear este inconmensurable universo con sus majestuosas palabras. Sus poemas y escritos cristalizan la auténtica luz que ella trasporta en su espíritu. Un enorme abrazo y mi eterno cariño, desde Viena, Miriam M. Vargas