Lista de Poemas

Banquete Ilúdico

Quando me chegam, subitamente,
quarenta inspirações atropelando-se
descubro que meus ombros são tão frágeis,
tão frágeis são meus ombros:
mas não destroça de todo esse meu corpo
e espírito a avalanche de imagens, não destroça
— tão frágil sou. mas humilde.
E recomeço,
sábio como os que sabem, recomeço. E caio.

Toda a vida é inovação e surpresa, aí de nós.

1 243

Tempo

1.
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.

Quero cantar.

2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?

Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.

3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.

4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.

Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.

5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!

Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.

Duras vergastas na cara.

6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.

Escutemos!!

1 022

Resquício

As horas feitas de flandre
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.

Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.

No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.

980

Canto de Flor e de Ódio

Em vossos campos de flores
muitos mortos brotarão:
chegado é o tempo do ódio.

(vasto ódio líquido inundando,
escorrendo pelas frestas,
povoando os tetos, os telhados;

tempo do ódio recolhido
nas corolas, como orvalho;

tempo do ódio conciso)

Façam-se horas de bronze
façam-se vozes em vossos
campos de flores, caladas.

Marcharemos contra o sol!

Restarão convosco as praças
sobre as calçadas — partidas.

962

Estudo 30

1.
Uma cidade não é feita de sonhos,
mas de remorsos. E doem.
Não contarei pois um tempo onde
cavalos marinhos, tramas da noite.

Nosso tempo é assim: seco e compulsório.

2.
A morte dos dias nos
rastros que os olhos cultivam
as lições do acrílico.

O acrílico:
brando golpe de morte
colorido.

3.
Os homens não falam: blablam.
(a boca livre de qualquer minério
ou pedra traumatória —
não há mais bridas, houve. Agora:
hábito)

Nenhuma palavra esquerza: elas ardem.
(não, agora não ardem mais —
a boca livre: o hábito
adocicado)

864

Mágoa

1.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.

(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)

2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.

Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.

3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.

Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.

1 058

As Chamas Passionais

Eu sou o que sonhava as mil estrelas.
As mil estrelas no peito, uma paixão de fogo
a irromper do peito. Eu sou os sonhos
dos homens, sou as galáxias dos homens
que uma noite se reconheceram.
Não me tragam essas vidas sem assombros:
porque não há sossego.
As chamas passionais — como são fortes!
Ai, como são fortes!
Não, não esperem por mim — que vou morrer,
bebendo a luz da estrela Aidebarã entre uma taça e outra
de agonias.

1 054

Os Instrumentos e Ofícios

Este poema talvez não seja feito
para seu ouvido
acostumado às delícias
do pôr-do-sol, dos botões de rosa,
das palavras flácidas.

Este poema anda descalço
veste farrapos
xinga nomes horríveis.
Talvez seu ouvido se recuse
a captar coisas
tão ríspidas, não importa.

Ele ecoará com seus trapos
sua rispidez sua
imundícia.
Ecoará bem alto
sobre as calçadas, os edifícios
sobre o mar —
e continuará ecoando em
cada onda nas praias
em cada pedra nas praças
em cada lâmina de faca.

918

Estudo 11

Os homens me fizeram assim.
Assim permaneço, assim,
uma constante negação de mim dentro de mim.

Jamais eu fui eu mesmo, eu mesmo,
porque foram os homens que me fizeram,
sempre foram os homens que me fizeram.

Eu sou assim, negando-me negando-me,
— outro irão eu alimentando-se de mim —
porque jamais Eu Mesmo teria sido assim.

Os homens me fizeram o que eu não seria
se eu fosse eu próprio.
Mas sou assim.

Milhões de vozes falam milhões de olhos vêem
milhões de braços clamam milhões de lábios tremem
milhões de peitos sofrem milhões de vozes

calam dentro de mim.
— Outro não eu alimenta-se de mim —
Eu lutarei eu lutarei eu lutarei eu lutarei.

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Identificação e contexto básico

Antônio Brasileiro foi um poeta brasileiro, com uma obra que se destaca pela sua originalidade e pela sua inserção num período de renovação literária no Brasil. O seu nome e obra estão associados à exploração de novas vertentes poéticas.

Infância e formação

Não há informações detalhadas disponíveis sobre a sua infância e formação específica, mas é de supor que a sua educação tenha sido permeada pelas influências culturais e literárias do Brasil.

Percurso literário

O percurso literário de Antônio Brasileiro é marcado pela sua produção poética. Embora os detalhes cronológicos e as colaborações específicas possam não ser amplamente documentados, a sua obra indica uma participação ativa na cena literária do seu tempo, com uma preocupação em inovar e explorar novas formas de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Antônio Brasileiro é caracterizada pela sua linguagem poética e pela abordagem de temas relevantes para a condição humana e a sociedade. O seu estilo pode ser associado a uma busca por renovação estética, com uma sensibilidade que capta as nuances do mundo contemporâneo. A sua voz poética procura transmitir uma visão particular sobre a vida e a experiência.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Antônio Brasileiro produziu num período em que a literatura brasileira passava por diversas transformações, com a emergência de novas correntes e a busca por uma identidade literária nacional. A sua obra insere-se nesse contexto de efervescência e experimentação.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações específicas sobre a vida pessoal de Antônio Brasileiro não são amplamente divulgadas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Antônio Brasileiro pode ser mais restrito a círculos especializados ou a um conhecimento mais aprofundado da história literária brasileira. A sua importância reside na sua contribuição para a diversidade e inovação da poesia nacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra, embora possa não ter tido um impacto massivo, contribui para o panorama da poesia brasileira, influenciando, possivelmente, outros poetas com a sua abordagem temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A interpretação da obra de Antônio Brasileiro pode envolver a análise das suas temáticas, da sua linguagem e da sua posição dentro das correntes literárias brasileiras do seu tempo. A crítica foca-se na originalidade e na expressividade da sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da sua vida não são facilmente encontradas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Detalhes sobre a morte de Antônio Brasileiro e publicações póstumas não são amplamente documentados.