Antônio Maria

Antônio Maria

1921–1964 · viveu 43 anos BR BR

Antônio Maria foi um poeta, compositor e jornalista brasileiro, notabilizado pela sua obra lírica e pelas suas canções que marcaram época na música popular brasileira. A sua poesia, muitas vezes transfigurada em letras de samba e outros gêneros musicais, revela uma sensibilidade ímpar para os temas do amor, da saudade e do cotidiano. Com uma carreira multifacetada, Antônio Maria deixou um legado significativo, sendo lembrado tanto pela sua contribuição para a literatura quanto para a música. A sua capacidade de fundir a poesia com a melodia criou um estilo único, acessível e profundamente tocante, que ecoa até os dias de hoje.

n. 1921-03-17, Recife · m. 1964-10-15, Rio de Janeiro

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Uma velhinha

Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália! É uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".

Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Por último o prato, a única peça que não é de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa.

O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável, mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação.

Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata. Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão.

16/10/1964

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Biografia

Identificação e contexto básico

Antônio Maria (pseudónimo de Antônio Maria Pereira de Magalhães) foi um proeminente poeta, compositor e jornalista brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro e faleceu na mesma cidade. É uma figura central na história da música popular brasileira e da literatura de canção.

Infância e formação

Antônio Maria nasceu numa família de posses e recebeu uma educação esmerada. Desde cedo demonstrou aptidão para a escrita e para a música. A sua formação intelectual e artística foi influenciada pelo ambiente cultural vibrante do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.

Percurso literário

O percurso literário de Antônio Maria iniciou-se com a publicação de poemas em jornais e revistas. No entanto, a sua fama consolidou-se através das letras de canções que compunha, muitas delas interpretadas por grandes nomes da música brasileira. A sua escrita poética, embora frequentemente associada à música, possui mérito literário próprio, caracterizado pela lirismo e pela profundidade das emoções expressas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Antônio Maria incluem um vasto repertório de canções que se tornaram clássicos da MPB, como "Manhã de Carnaval" (em parceria com Luiz Bonfá), "Valsa de uma Cidade", "Tudo de Mim", "Se Todos Quisessem", entre muitas outras. A sua poesia lírica aborda temas universais como o amor, a saudade, a beleza da cidade do Rio de Janeiro e as complexidades das relações humanas. O estilo de Antônio Maria é caracterizado pela melodia e pela musicalidade dos versos, pela linguagem acessível e emotiva, e por uma grande capacidade de criar imagens poéticas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Antônio Maria viveu e produziu a maior parte da sua obra em um período de grande efervescência cultural no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, então capital federal. Ele foi contemporâneo e, por vezes, colaborou com outros grandes nomes da música e da literatura brasileira, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi e Ary Barroso. Fez parte da chamada "Geração do Rádio", um período em que a música popular brasileira atingiu grande popularidade através desse meio.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Antônio Maria teve uma vida social intensa e foi conhecido pelo seu charme e pela sua inteligência. Manteve relações próximas com o meio artístico e literário, frequentando os círculos boémios do Rio de Janeiro. Foi um dândi, um intelectual cosmopolita, e a sua vida pessoal, embora não extensivamente documentada em detalhes íntimos, refletia o seu estilo e a sua paixão pelas artes.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Antônio Maria obteve grande reconhecimento em vida, tanto pela sua obra poética quanto pelas suas composições musicais. As suas canções foram sucessos estrondosos, interpretadas por artistas de renome nacional e internacional. É considerado um dos grandes letristas da música popular brasileira, com um lugar de destaque no panteão dos compositores do país.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Antônio Maria foi influenciado pela poesia romântica e pela tradição da canção popular brasileira. Por sua vez, influenciou gerações de compositores e poetas pela sua habilidade em unir a poesia à melodia de forma tão orgânica e expressiva. O seu legado é imenso, com as suas canções a serem revisitadas e celebradas continuamente, mantendo viva a sua arte.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Antônio Maria é frequentemente analisada pela sua capacidade de evocar sentimentos de forma direta e sincera. A sua poesia, aliada à música, cria uma atmosfera de nostalgia e lirismo que ressoa profundamente com o público. Críticos destacam a mestria com que construía melodias vocais e a universalidade dos temas que abordava.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Antônio Maria era conhecido pelo seu humor refinado e pela sua elegância. Foi um dos primeiros artistas brasileiros a obter sucesso internacional, especialmente com a canção "Manhã de Carnaval", que se tornou um standard do jazz em todo o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Antônio Maria faleceu precocemente, vítima de um câncer. A sua morte deixou uma lacuna no cenário cultural brasileiro. A sua memória é mantida viva através da permanente execução das suas canções e do estudo da sua obra como um marco na história da música e da poesia do Brasil.

Poemas

2

Uma velhinha

Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália! É uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".

Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Por último o prato, a única peça que não é de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa.

O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável, mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação.

Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata. Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão.

16/10/1964

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Despedida

Permite que eu deseje, agora, tomado e vencido pelas urgências que de mim exigem, um canto de sono e preguiça onde ainda não se tenham inventado o telefone e o relógio. Deixa que eu seja pessoal em mais uma crônica para, ao medo das tarefas que se me impõem, querer, ardentemente, que não tirem do rol das pessoas úteis, que me esqueçam e que me abandonem, que me larguem, enfim, onde seja lícito viver ignorado e despercebido. Sinto-me vazio de poesia, esgotado de um resto de doçura que tanto prezava e, coagido pelos que revendem minhas idéias, dói-me o tempo e o esforço gastos, os ardis e os truques que emprego para arrumar palavras e construir frases de efeito. Lamento enganar a todas. Permite que eu deseje, agora, um silêncio que me contagie de tristeza, uma calma boa e definida para, num momento espontâneo e sossegado, escrever as grandes definições, as palavras que me envaideçam, os versos e as cantigas que me elevem, querida, à glória e à resolução do teu desmesurado amor. Através dessa janela vejo coisas que, antigamente, eram poderosas e fecundas. O céu repete o azul de tantas tardes acontecidas em maio, as últimas quaresmeiras do verão agonizam na saia do morro, os homens martelam a pedreira... e eu não sinto vontade de rir ou de chorar. Na rua, arrastando uma corrente eterna e incompreensível, passa mais um caminhão da Standard Oil... e eu não sinto nenhum vexame político, nenhuma revolta social. Por isso e pela descrença que em meu espírito se acentua, permite que eu deseje ser só — ou teu somente — num lugar do mundo onde os gritos não tenham eco, onde a inveja não ameace, onde as coisas do amor aconteçam sem testemunhas. Livrem-me da pressa, das datas, dos salários e das dívidas e a todos serei agradecido, num verso submisso. Livrem-me de mim, de uma certa insaciabilidade que apavora e de todos serei escravo numa humilde canção. Permite que eu só queira, agora, esse canto de sono e preguiça, onde não necessite dos atletas, onde o céu possa ser céu sem urubus e aviões, onde as árvores sejam desnecessárias, porque os pássaros se sintam bem em cantar e dormir em nossos ombros.

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