Antonio Risério

Antonio Risério

n. 1953 BR BR

Antonio Risério é um poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário brasileiro. Sua obra poética é marcada por uma profunda reflexão sobre a identidade, a memória e a cultura, com um estilo que transita entre o lirismo e a erudição. É reconhecido por sua vasta produção intelectual e seu engajamento na discussão sobre a diversidade cultural e a história do Brasil.

n. 1953-11-21, Salvador

6 577 Visualizações

Um Poema é um poema é um poema?

Saudades de Mario Faustino. Não temos hoje uma crítica textual
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.

Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.

De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.

Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.

Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.

Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.

Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.

Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.

Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.

Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?

Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.

E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.

Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.

Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.

E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.

Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).

(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)

Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!

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Biografia

Identificação e contexto básico

Antonio Risério é um poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário brasileiro, nascido em Salvador, Bahia. Sua obra se insere no contexto da literatura brasileira contemporânea, dialogando com as questões de identidade nacional, ancestralidade africana e a diversidade cultural do país. Sua escrita é marcada pela erudição e por uma profunda reflexão sobre a história e a memória.

Infância e formação

Nascido em Salvador, Bahia, Risério teve contato desde cedo com a riqueza cultural da região, influenciado pelas tradições afro-brasileiras e pela atmosfera intelectual da cidade. Sua formação acadêmica em Comunicação Social e sua atuação como jornalista moldaram sua visão crítica e seu interesse pela análise cultural. Absorveu influências da literatura brasileira e universal, bem como de pensadores que abordam a identidade e a interculturalidade.

Percurso literário

O início da sua trajetória literária se deu com a publicação de poemas em jornais e revistas. Ao longo do tempo, sua obra poética evoluiu, consolidando um estilo que une lirismo e densidade conceitual. Além da poesia, Risério destacou-se como ensaísta e crítico literário, publicando artigos e livros que abordam temas como a identidade negra no Brasil, a obra de Jorge Amado e a cultura baiana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas destacam-se "Eros & Psique" e "O Sonho de Ulisses". Seus temas centrais incluem a identidade, a memória, o tempo, a ancestralidade africana, a cultura brasileira e a relação entre o indivíduo e o coletivo. Risério utiliza uma linguagem rica e elaborada, explorando recursos como a metáfora e a alusão cultural. Seu estilo é erudito, mas acessível, combinando lirismo com um forte componente ensaístico. É frequentemente associado ao modernismo tardio e a uma poesia de cunho metapoético e reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Antonio Risério produziu sua obra em um período de intensas discussões sobre a identidade nacional brasileira, o racismo estrutural e a valorização da cultura afro-brasileira. Sua obra dialoga com o trabalho de outros intelectuais e artistas que buscavam reinterpretar a formação cultural do Brasil. Participou ativamente de debates sobre a questão racial e a diversidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida pessoal esteve intrinsecamente ligada à sua produção intelectual. A experiência como baiano e a vivência da cultura afro-brasileira foram fontes primordiais de inspiração. Sua atuação como jornalista e crítico literário o colocou em contato com diversos círculos intelectuais, permitindo o intercâmbio de ideias e a construção de uma rede de colaboração e debate.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Antonio Risério é um nome respeitado na literatura brasileira contemporânea. Sua obra tem sido objeto de estudos acadêmicos, e ele é reconhecido por sua contribuição para a reflexão sobre a cultura e a identidade do Brasil. Sua poesia e seus ensaios são valorizados pela profundidade analítica e pela qualidade estética.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra é influenciada por poetas como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, bem como por pensadores que discutem a identidade e a cultura. Risério, por sua vez, influenciou gerações posteriores de escritores e intelectuais que se debruçam sobre as questões da afrodescendência, da memória e da identidade cultural brasileira. Seu legado reside na forma como articulou poesia, crítica e reflexão social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Risério convida a múltiplas leituras, explorando a complexidade da identidade brasileira. Suas análises sobre a ancestralidade africana e a formação cultural do país são fundamentais para a compreensão da literatura e da sociedade brasileira. Críticos destacam a sua capacidade de entrelaçar o pessoal e o universal, o lírico e o ensaístico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora seja conhecido por sua erudição, Risério também demonstra um lirismo profundo em sua poesia. Sua capacidade de transitar entre diferentes gêneros e campos do saber é um dos seus traços distintivos. A pesquisa sobre a obra de Jorge Amado e a cultura baiana é um exemplo de seu profundo envolvimento com o universo cultural de sua terra natal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Antonio Risério faleceu em 2023. Sua obra continua a ser estudada e reverenciada, consolidando seu lugar como um dos importantes intelectuais brasileiros do século XX e XXI.

Poemas

2

Um Poema é um poema é um poema?

Saudades de Mario Faustino. Não temos hoje uma crítica textual
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.

Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.

De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.

Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.

Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.

Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.

Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.

Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.

Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.

Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?

Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.

E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.

Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.

Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.

E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.

Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).

(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)

Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!

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1 803

Invenção do Brasil

Um aspecto da obra de Gregório, relacionado com a aldeia curotupinambá que se reuniu na Bahia quinhentista em torno das figuras hoje lendárias de Caramuru e Paraguaçu, tem-me voltado à mente, puxado pela proximidade do aniversário em que vamos completar meio milênio do encontro entre portugueses e índios, nos arredores de Porto Seguro.
É claro que, no ano 2000, assistiremos a uma espécie de repeteco do que aconteceu anos atrás, com a passagem do 5º Centenário da arribada de Colombo. Num extremo, os radicais que vão celebrar o grande feito lusitano, a "descoberta" etc. No outro, os radicais, que vão discursar em nome dos índios, quem sabe exigindo a devolução do litoral carioca aos tupinambás. Nos dois extremos _a mistificação. E a crítica gregoriana me ocorre no momento em que, na soleira do ano 2000, concentro-me nas primeiras luzes do processo histórico-cultural brasileiro.
Simples. No século 17, quando a consolidação da empresa colonizadora lusitana deixara já para trás o período de colonização assistemática e extra-estatal promovida pelos diversos "caramurus" do Brasil, a elite dirigente quis definir a sua fisionomia de nobreza tropical. Para isso, maquiou-se branca e européia. Gregório foi em cima, recorrendo ao signo "caramuru" (que usa pejorativamente) para apontar o enraizamento daquela gente na aldeia mestiça, espaço de hibridizações genéticas e simbólicas entre ameríndios e desgarrados de além-mar.
Gregório aviva a ascendência ameríndia que aquela fidalguia pretendia abolir ou, ao menos, sublimar. Mas não só. Ao dado genético, acrescenta um traço fundamental do mundo indígena.
Além do sangue "impuro", a nobreza traz a alma maculada, manchada por um pecado pavoroso, do ponto de vista europeu: é filha, em linha direta, de canibais. "Que é fidalgo nos ossos, cremos nós,/ Que nisso consistia o mor brasão/ Daqueles que comiam seus avós". E a sua visão da figura matriz desse "fidalgo caramuru" é politicamente esplêndida: "Um calção de pindoba a meia porra,/ camisa de urucu, mantéu de arara,/ em lugar de cotó, arco e taquara,/ penacho de guarás em vez de gorra". Este é o "Adão de Marapé" (região onde começavam as terras de Mem de Sá, por sinal), do qual, segundo o poeta, "procedem os fidalgos dessa terra".
Como se vê, Gregório usa o vocabulário tupi e a referência ao Caramuru para _trazendo à cena o processo de miscigenação, iniciado desde o momento em que o primeiro europeu pisou aquela que seria a futura Terra do Brasil_ ridicularizar pretensões da nobreza baiana. O que o poeta desanca (de uma perspectiva racista e etnocentrista), num texto linguisticamente miscigenado, é a mistura racial e o fato de a genealogia da aristocracia local recuar em direção a um povo não-cristão _aqui retratando numa moldura de irracionalidade, fereza, feiúra, irreligiosidade e canibalismo. Sim, o Boca do Inferno dispara contra todos, numa época em que netos de Diogo Caramuru ocupavam "posições-de-relevo" na sociedade colonial. Mas o que é mesmo que isso tem a ver com os "500 Anos"?
Tudo. O que chamo "período caramuru" da história do Brasil vai voltar à baila, na esquina entressecular que nos espera. Numa conjuntura curiosa, aliás. Até recentemente, os estudiosos do processo brasileiro afirmavam que a colonização do Brasil só começou, de fato, com a vinda da armada de Martim Afonso de Souza, estabelecendo em São Vicente as bases daquela "vida conversável" de que fala o diário perolopino. Ali teria iniciado a história do Brasil. Veio então a guinada brusca. A afirmação categórica de que a nossa história começa com os índios, tendo seu ponto de partida, presumo, em remotas migrações paleoasiáticas. São dois equívocos.
O que começa _com Martim, as capitanias, Thomé de Souza_ é a colonização estatal do Brasil. O avanço do Estado lusitano nos trópicos. Mas, antes disso, tivemos a colonização marginal, não-oficial, de caramurus, como Diogo Álvares e João Ramalho. De outro lado, a história ameríndia _assim como as histórias portuguesa e africana_ faz parte de nossa pré-história. É lá, em nossa pré-história, que ficam antigas movimentações indígenas, lutas de Viriato ou do Mestre de Avis. O processo brasileiro propriamente dito é outra coisa. Tem início na encruzilhada em que se mesclam e se atritam vertentes histórico-culturais dessemelhantes. No encontro entre a onda extra-estatal dos caramurus e as sociedades não-estatais de nossos antepassados indígenas. É aí que principia a nossa trama biossemiótica.
É claro que emprego a expressão "caramuru" de modo amplo _e sem preconceitos. "Caramuru" é, por assim dizer, toda coisa, signo ou pessoa que se imiscuiu na antemanhã da vida brasílica, por conta de uma vicissitude qualquer, mas sempre fora da órbita das determinações do Estado. Daí que, como disse, a faceta caramurua da obra gregoriana tenha chamado de novo a minha atenção.
Relendo-a, em função dos 500 anos, podemos constatar resumidamente que: Gregório nos previne e nos prepara contra mistificações de elite; nos previne e nos prepara, igualmente, contra idealizações do índio; e, ainda mais, pela sua própria unilateralidade e por seus preconceitos, pelo caráter tantas vezes caricatural e agressivo de seus textos, nos previne e nos prepara, também, contra ele mesmo.
Os "500 Anos" convidam _incitam_ a uma releitura do Brasil. E aqui, entre outras coisas, iremos recorrer a nossa madrugada histórica, sociocultural. Eclipsado tanto pelos defensores da tese de que a vida brasileira começa com o desembarque do capitão Martim quanto pelos defensores de que o lance se inicia no estreito de Bering, o "período caramuru" deve vir à luz. A visada gregoriana é um índice poético de sua natureza fundante. E o que penso é que, antes que celebrar ou atacar a "descoberta", teremos que repensar a invenção do Brasil.

Antonio Risério é poeta e ensaísta, autor, entre outros, de "Oriki Orixá" (Perspectiva).

(in Folha de São Paulo)

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