Lista de Poemas

Aqui morava um rei

"Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado."

19 135

O Mundo do Sertão

(com tema do nosso armorial)

Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.

11 269

A Morte — O Sol do Terrível

Com tema de Renato Carneiro Campos

Mas eu enfrentarei o Sol divino,
o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
Saberei porque a teia do Destino
não houve quem cortasse ou desatasse.

Não serei orgulhoso nem covarde,
que o sangue se rebela ao toque e ao Sino.
Verei feita em topázio a luz da Tarde,
pedra do Sono e cetro do Assassino.

Ela virá, Mulher, afiando as asas,
com os dentes de cristal, feitos de brasas,
e há de sagrar-me a vista o Gavião.

Mas sei, também, que só assim verei
a coroa da Chama e Deus, meu Rei,
assentado em seu trono do Sertão.

7 923

Lápide

Com tema de Virgílio, o Latino,
e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

6 208

O Amor e a Morte

Com tema de Augusto dos Anjos

Sobre essa estrada ilumineira e parda
dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra.
Tua nudez na minha se desdobra
— ó Corça branca, ó ruiva Leoparda.

O Anjo sopra a corneta e se retarda:
seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra.
Ao toque do Divino, o bronze dobra,
enquanto assolo os peitos da javarda.

Vê: um dia, a bigorna desses Paços
cortará, no martelo de seus aços,
e o sangue, hão de abrasá-lo os inimigos.

E a Morte, em trajos pretos e amarelos,
brandirá, contra nós, doidos Cutelos
e as Asas rubras dos Dragões antigos.

13 315

A Moça Caetana a morte sertaneja

Com tema de Deborah Brennand

Eu vi a Morte, a moça Caetana,
com o Manto negro, rubro e amarelo.
Vi o inocente olhar, puro e perverso,
e os dentes de Coral da desumana.

Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel,
os peitos fascinantes e esquisitos.
Na mão direita, a Cobra cascavel,
e na esquerda a Coral, rubi maldito.

Na fronte, uma coroa e o Gavião.
Nas espáduas, as Asas deslumbrantes
que, rufiando nas pedras do Sertão,

pairavam sobre Urtigas causticantes,
caules de prata, espinhos estrelados
e os cachos do meu Sangue iluminado.

6 460

O homem nasceu para a imortalidade. A morte foi um acidente de percurso

 

32

Não troco o meu “Oxente” pelo “o.k.” de ninguém

 

18

O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso

 

31

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Brilhante... que agora no céu assiste.<br />ademir

Identificação e contexto básico

Ariano Vilar Suassuna foi um escritor, romancista, dramaturgo, poeta e professor brasileiro. Nascido em João Pessoa, Paraíba, em 16 de junho de 1927, e falecido no Recife, Pernambuco, em 23 de julho de 2014. Ele utilizou seu próprio nome em sua obra literária. Sua origem familiar era de uma família tradicional e politicamente influente da Paraíba. Foi um dos mais importantes representantes da literatura brasileira, especialmente ligado à cultura nordestina. Sua nacionalidade era brasileira e a língua de escrita, o português.

Infância e formação

Ariano Suassuna passou sua infância e adolescência entre a Paraíba e Pernambuco, em meio a uma família de tradição política e intelectual. A violência política em sua região marcou sua juventude, levando sua família a se mudar para o Recife. Foi no Recife que ele teve contato mais intenso com a cultura popular nordestina, que se tornaria a fonte de inspiração para toda a sua obra. Sua formação intelectual foi marcada tanto pela educação formal quanto pelo autodidatismo, absorvendo a riqueza da cultura popular, a literatura de cordel, a música e as artes visuais do Nordeste.

Percurso literário

O início da escrita de Ariano Suassuna remonta à sua juventude, com peças de teatro e contos. Seu primeiro grande reconhecimento veio com a peça 'A Forja', premiada em um concurso de teatro em 1956. Logo em seguida, em 1957, publicou o romance 'A Pedra do Reino', que viria a se tornar sua obra mais emblemática e a base para o Movimento Armorial. Ao longo de sua carreira, sua escrita se consolidou na representação da cultura popular nordestina, com um estilo único que misturava elementos eruditos e populares. Colaborou com diversas publicações e foi um importante articulador cultural, promovendo eventos e debates sobre a arte e a identidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras principais destacam-se os romances 'A Pedra do Reino' (1957) e 'O Doutor da Lei' (1963), além de peças teatrais como 'O Auto da Compadecida' (1957), que se tornou um clássico do teatro brasileiro e foi adaptada para o cinema e televisão. Seus temas dominantes incluem a fé, a morte, o sertão, a vida camponesa, o amor e a luta entre o bem e o mal, muitas vezes permeados por um humor cáustico e pela sagacidade popular. Ele se notabilizou pelo uso do 'romance-folhetim' e pela incorporação de elementos da literatura de cordel e do cancioneiro popular em suas narrativas. Sua linguagem é rica, vibrante e repleta de neologismos e expressões regionais, criando uma sonoridade única. O tom de sua obra é frequentemente épico, lírico e satírico, com uma voz poética que emula a sabedoria popular. Suassuna introduziu uma renovação na literatura brasileira ao valorizar a cultura popular como fonte de inspiração e material estético, associando-se ao Movimento Armorial, que buscava uma arte com raiz na cultura brasileira. Obras menos conhecidas incluem outras peças teatrais e contos, mas 'A Pedra do Reino' e 'O Auto da Compadecida' são as mais proeminentes.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ariano Suassuna viveu em um período de intensas transformações no Brasil, incluindo o regime militar. Sua obra se insere em um contexto de busca por uma identidade nacional autêntica, distanciando-se de modelos europeus. Ele se associou a outros intelectuais e artistas que buscavam valorizar a cultura popular brasileira, como o Movimento Armorial, fundado por ele em 1970. Suas posições eram de defesa da cultura popular e da identidade nordestina, o que por vezes o colocava em tensão com correntes mais modernizadoras ou academicistas. Sua obra dialoga com a tradição da literatura oral e com a cultura popular, ao mesmo tempo em que se insere no panorama da literatura brasileira do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ariano Suassuna foi casado com Zélia Suassuna, com quem teve seis filhos. Sua vida pessoal foi profundamente marcada por suas convicções e pelo amor à cultura nordestina. Ele era conhecido por sua generosidade, seu bom humor e sua profunda espiritualidade. Suas crenças religiosas e sua fé católica permearam sua obra e sua visão de mundo. Foi também professor universitário, dedicando-se ao ensino e à disseminação da cultura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ariano Suassuna obteve grande reconhecimento nacional e internacional por sua obra. Recebeu inúmeros prémios e distinções ao longo de sua carreira. Sua obra é amplamente estudada nas universidades e sua influência é inegável na literatura e na cultura brasileira. 'O Auto da Compadecida' é um dos textos mais populares e encenados do teatro brasileiro, e sua recepção crítica, tanto em vida quanto postumamente, sempre foi muito positiva, consolidando-o como um dos maiores escritores do país.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Suassuna foi influenciado por autores como Guimarães Rosa, Machado de Assis, e pela rica tradição da literatura de cordel e da cultura popular nordestina. Ele, por sua vez, influenciou gerações de escritores, artistas e intelectuais com sua visão única da cultura brasileira e seu compromisso com a valorização das raízes populares. Seu legado está intrinsecamente ligado ao Movimento Armorial e à consolidação de uma estética genuinamente brasileira. Sua obra continua a ser estudada e difundida, mantendo sua relevância na literatura nacional.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Suassuna é rica em interpretações, frequentemente analisada sob a ótica da identidade cultural brasileira, da religiosidade popular, da crítica social e da busca por um sentido existencial. Seus personagens e narrativas permitem leituras que abordam a condição humana, a fé, a esperança e a resistência diante das adversidades. A dualidade entre o sagrado e o profano, o popular e o erudito, é um ponto constante de análise crítica em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ariano Suassuna era conhecido por sua excentricidade e seu estilo peculiar, sempre usando roupas que remetiam à tradição nordestina. Ele possuía uma profunda sabedoria popular e um humor contagiante, que transpareciam em suas palestras e entrevistas. Uma curiosidade é que ele era um exímio contador de histórias, capaz de prender a atenção de qualquer plateia. Seus manuscritos e diários revelam um processo criativo meticuloso, mas também aberto à inspiração e à improvisação.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ariano Suassuna faleceu aos 87 anos, devido a complicações cardíacas e respiratórias, após um mal-estar. Sua morte gerou grande comoção nacional. Publicações póstumas e homenagens diversas mantêm viva sua memória e seu legado na cultura brasileira, reafirmando sua importância como um dos maiores nomes da nossa literatura.