Armando Silva Carvalho

Armando Silva Carvalho

1938–2017 · viveu 79 anos PT PT

Armando Silva Carvalho foi um poeta, ensaísta e tradutor português cuja obra é marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana, a memória e a passagem do tempo. A sua poesia, caracterizada por uma linguagem cuidada e um lirismo contido, explora temas universais com uma sensibilidade ímpar. Figura incontornável da literatura portuguesa contemporânea, Silva Carvalho destacou-se também pela sua atividade como tradutor, trazendo para a língua portuguesa obras de relevo da literatura universal, e como ensaísta, aprofundando a sua visão sobre a arte e a vida.

n. 1938-03-28, Olho Marinho · m. 2017-06-01, Caldas da Rainha

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OS DOIS DE LANZAROTE

Eram um casal aéreo, cruzavam aeroportos,
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.

Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.

Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.

Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Armando Silva Carvalho, nome completo Armando de Silva Carvalho, foi um poeta, ensaísta, tradutor e crítico literário português. Nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, em 22 de maio de 1938, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 22 de maio de 2018. Filho de pai português e mãe moçambicana, a sua origem familiar e o contexto cultural de Moçambique colonial moldaram profundamente a sua visão de mundo e a sua obra inicial. Era cidadão português e escrevia em português. Viveu grande parte da sua vida adulta em Portugal, num período de intensas transformações políticas e sociais, desde o final do Estado Novo até à consolidação da democracia, o que se refletiu, de forma subtil, na sua escrita.

Infância e formação

A infância de Armando Silva Carvalho decorreu em Moçambique, num ambiente marcado pela diversidade cultural da colónia africana. Recebeu uma educação formal que lhe permitiu o acesso a um vasto leque de conhecimentos. Desde cedo, desenvolveu um interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências literárias diversas e o ambiente cultural e social em que estava inserido.

Percurso literário

O início da sua atividade literária remonta à década de 1950, com publicações em jornais e revistas. A sua evolução como poeta foi marcada por uma busca contínua por novas formas de expressão, embora sempre mantendo uma linha de continuidade temática e estilística. Ao longo do tempo, a sua obra consolidou-se como uma das mais significativas da poesia portuguesa contemporânea. Participou ativamente na vida cultural portuguesa, colaborando com diversas publicações literárias. Foi também um tradutor de renome, responsável pela introdução de importantes obras da literatura universal em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais importantes incluem-se "Comenda da Morte" (1962), "Sol Árabe" (1970), "No Meio da Noite" (1992) e "A Poesia Essencial" (2004). Os temas dominantes na sua obra são a condição humana, a efemeridade da vida, a memória, o tempo, a morte, a solidão e a busca por sentido. Explora frequentemente a relação entre o indivíduo e o universo, a intimidade e a transcendência. O seu estilo é caracterizado por um lirismo contido, uma linguagem depurada e precisa, e uma musicalidade subtil. Privilegia o verso livre, mas demonstra um domínio notável das formas tradicionais quando o utiliza. Utiliza recursos poéticos como a metáfora, a imagem e o ritmo para criar uma atmosfera de introspeção e melancolia. A voz poética é frequentemente pessoal e confessional, mas transcende o individual para atingir uma dimensão universal, dialogando com as angústias e anseios de todos os seres humanos. A sua linguagem é densa, imagética e por vezes enigmática, convidando à reflexão. Silva Carvalho não se associou a um único movimento literário de forma exclusiva, mas a sua obra dialoga com o legado do simbolismo e absorve elementos do modernismo, mantendo, contudo, uma identidade única.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A obra de Armando Silva Carvalho reflete as inquietações de um Portugal em transição, das últimas décadas da ditadura à consolidação democrática. A sua formação em Moçambique e a posterior vivência em Portugal conferem-lhe uma perspetiva única sobre a identidade e a pertença. Manteve relações com outros escritores e intelectuais da sua geração, participando ativamente no panorama literário português. A sua posição intelectual e artística sempre esteve alinhada com uma profunda humanidade e uma visão crítica da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Armando Silva Carvalho teve relações pessoais que, embora não explícitas na sua obra, certamente informaram a sua sensibilidade. As suas experiências de vida, os seus questionamentos e a sua visão do mundo moldaram a sua escrita introspectiva e filosófica. Foi conhecido pela sua discrição e dedicação à literatura. A sua profissão principal não foi a escrita, mas a sua paixão pela poesia e pela tradução marcou a sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Armando Silva Carvalho é reconhecido como um dos grandes poetas portugueses da segunda metade do século XX e inícios do século XXI. A sua obra tem vindo a ganhar um lugar de destaque no cânone literário português, sendo estudada e apreciada tanto pelo público como pela crítica. Recebeu vários prémios e distinções ao longo da sua carreira, atestando a importância da sua contribuição para a literatura.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Armando Silva Carvalho foi influenciado por autores como Fernando Pessoa, Luís Vaz de Camões e por poetas da tradição universal. O seu legado reside na profundidade das suas reflexões, na beleza da sua linguagem e na sua capacidade de tocar o leitor de forma íntima e universal. A sua obra continua a influenciar gerações posteriores de poetas e escritores, consolidando o seu lugar como um mestre da palavra.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Silva Carvalho convida a múltiplas leituras, explorando a complexidade da existência humana, a fragilidade das relações e a busca incessante por significado num mundo em constante mudança. A sua obra é um convite à contemplação e à introspeção.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua biografia é a sua ligação com África, que se manteve presente na sua obra de formas diversas. A sua dedicação à tradução também revela uma faceta importante do seu trabalho, que contribuiu significativamente para o intercâmbio cultural.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Armando Silva Carvalho faleceu em Lisboa, no seu aniversário, em 2018. A sua obra continua a ser divulgada e estudada, mantendo viva a sua memória e a relevância da sua poesia.

Poemas

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OS DOIS DE LANZAROTE

Eram um casal aéreo, cruzavam aeroportos,
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.

Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.

Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.

Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.
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com mãos, olfacto, dentes, boca
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.
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Este amor está preso aos pés da terra,
o seu caule é de ferro,
cresce na minha boca, estremece e resiste
nas frágeis construções
da nossa antiga, privada, fiel
arquitectura.
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O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.

Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.
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Soneto Panorâmico

Do alto deste hotel de cinco estrelas
Lisboa não morreu. Nesta revista
até se fala em novas caravelas
e pra tamanho ardor tão curta a vista.

Dum lado o rio do outro o cimenteiro
nas suas sete quintas da marinha
em cima o céu de barro do barbeiro
em baixo o sol a fazer farinha.

Nos silos da mais sábia segurança
boémia estouvanada e bem ligeira
os anjos dão as mãos na contradança

Da seringa mais nobre e derradeira
que existe a refulgir na lua mansa
à esquina onde se dorme a noite inteira.
699

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