Lista de Poemas

Poema

Um cão ladrou
na noite obscura
tremores frios
de inanição
A mulher magra
esperou cansada
que a carne exausta
fosse chamariz
Poucos sexos jovens
se investigaram
muitos não conseguiram
fugir à frustração
Alguns descansaram
outros se diluíram
o caixote de lixo
esperou esperou
Depois rompeu
a madrugada.

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Romanceiro da cidade de São Luís

PRÉ-HISTÓRIA

Na solidão do chão sem tempo
há uma ilha de expectativa,
entre dois rios, como braços,
suavemente recolhida.
Verdes copas e o vento nelas
e os cachos das frutas nativas
e as alvas coxas de suas praias
ao sol do trópico estendidas.

Vizinho o mar com sua espuma,
seu horizonte imaculado,
com sua raiva e sua ânsia,
com seu verde pulmão salgado,
misturando sua maresia
com o acre cheio do mato.
Vizinho o mar com seu mistério
e o além por ser desvendado.

o mar de onde, por milênios,
tudo que vem é rumor longo,
surdo ou cavo, manso ou severo,
cantochão grave, som redondo

contra pedras, conchas, areias,
interminável apelo em som do
horizonte que não revela
o mistério profundo e abscôndito.

3 460

1927 - 1977

Como poeta, ele se consagrou o mais
alto valor de sua geração e um dos
mais altos do panorama artístico
nacional.

Pergentino Hollanda

Reconhece Ferreira Gullar que somente com a chegada (de Portugal) de José Tribuzi Pinheiro Gomes ao Maranhão, tomou conhecimento de um novo tipo de linguagem poética, já um tanto longe das tradições romântico-parnasiano-simbolistas. De fato, tendo estudado em Coimbra e naturalmente lido poetas do quilate de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e José Régio, trouxe para a província brasileira uma nova mentalidade, o lado poético do homem sensível e o interesse social do ser engajado em seu tempo.
Ainda menino, Bandeira Tribuzi foi com os pais para Portugal, regressando em 1946 a São Luís, cujos poetas, veteranos ou moços, ainda não tinham tomado conhecimento da revolução estética (Semana da Arte Moderna) de 1922. Ele, naturalmente, já trazia pronto ou por acabar seu primeiro livro de poemas, "Alguma Existência", que, publicado em 1948, criou estranheza entre os tradicionalistas e certo entusiasmo entre os jovens.
O que de fato deve ter causado maior espanto foi a forma de seus sonetos, sem rima, sem métrica, com o sabor livre das composições de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Por outro lado, o lirismo deixa de ser piegas, subjetivo. Assim como Bandeira Tribuzi, o modernismo brasileiro parece ter dado um salto, passou direto para a chamada "Geração de 45" (os críticos no Maranhão situam o seu grupo na década de 50), num tardio mas proveitoso reapanhar da nova poesia. E é nessa geração, chamada por Tristão da Ataíde de pós-modernista, que Milton de Godoy Campos alinha Bandeira Tribuzi, ao lado de Ferreira Gullar, Lago Burnett e Oswaldino Marques.
Companheiro de Lago Burnett e José Sarney, Bandeira Tribuzi teve ativa participação jornalística em São Luís, além da propriamente literária, participando de entidades culturais. Como teórico do modernismo, influenciou decididamente a sua geração, como destaca Jomar Moraes: "Exagerado não seria afirmar que igualmente Alguma Existência tornou-se pedra angular da nova poesia maranhense, imediatamente revelada por diversos livros, a exemplo de "Um Pouco Acima do Chão", de Ferreira Gullar, ou de "Estrela do Céu Perdido", de Lago Burnett, ambos de 1949.
Ao completar Bandeira Tribuzi 50 anos de idade, o Maranhão lhe presta grandes homenagens, com a presença da intelectualidade local e nacional. A consagração em vida da obra poética de Bandeira Tribuzi, que, como disse Domingos Carvalho da Silva, cada vez mais "se destina à valorização do tempo". Em setembro desse mesmo ano, o poeta morre, no dia 8, num surpreendente e dramático acontecimento.
Com a publicação de sua "Poesia Reunida" e "Poesias Completas" (com muitos inéditos), o poeta naturalmente não ficou apenas restrito a pequenas amostragens de sua obra, como desejava:

"Não quero meus versos
numa antologia.
Quero-os rolando
caminhos e dias
na boca do povo:
rosa da esperança
vermelha e florida".

3 197

Ordem do dia

Há que remover a neve desta folha de papel!

Breve escutaremos o motor dos sentimentos
enchendo a manhã com sua algazarra. Eis a máquina se
movimentando! Da esquerda para a direita vão surgindo
os sulcos onde caem as sementes
da Emoção.

Na vasta planície
desvirginada
germina já o pólen da lírica.

Um vento de humana condição
(oh arte, coisa social!) faz voar até tuas mãos
esta lavoura mental.
Como bom descendente de um povo de camponeses
medes o rigor da semeadura,
sonhas as chuvas na raiz, o futuro pão...
Pão sonoro!

De repente,
as aves da poesia, que se alimentavam no campo semeado,
rompem vôo para o céu de tua inteligência
e desfecham seu canto maravilhoso
contra tua surpresa.

Teu coração é a corda do violino!
Eis a geração do poema:
sua mecânica, seu plantio,
sua colheita.
Estás diante de uma safra eterna!

(Safra / 1960)

2 395

Imagem

Vista do mar, a cidade,
subindo suas ladeiras,
parece humilde presépio
levantado por mãos puras:
nimbada de claridade,
ponteia velhos telhados
com as torres das igrejas
e altas copas de palmeiras.
Seus dois rios, como braços
cingem-lhe a doce figura.

Sobre a paz de sua imagem
flui a música do tempo,
cresce o musgo dos telhados
e a umidade das paredes
escorre pelos sobrados
o amargo sal dos invernos.
Tudo é doce e até parece
que vemos só o animado
contorno de iluminura
e não a realidade:
vista do mar, a cidade
parece humilde presépio
levantado por mãos puras
e em sua simplicidade
esconde glórias passadas,
sonha grandezas futuras.
...............................................

(In Poesias Completas / 1979)

3 044

A mesa

A mesa tem somente o que precisa
para estar, circundada de cadeiras,
fazendo parte da vida familiar
entre alimentos, flores e conversa.

Escura mesa gravemente muda
que, parecendo alheia a quanto a cerca,
encerra no silêncio toda a ciência
da idade desdobrando gerações.

olho de cerne, comovido e frio!
indiferente coração parado
entre o grito infantil e o olhar cansado.

Mistério de madeira rodeado
por cadeiras, lembranças, utensílios,
e um leve odor de tempo alimentício.

(Rosa de Esperança / 950)

4 259

O homem em pele e osso

A pele é superfície,
os ossos são entranha.
A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.
A pele é uma casca,
os ossos uma safra.
A pele é entrega,
o osso é arma.
A pele é palma,
o osso é clava.
A pele é a pintura,
os ossos são a casa.
A pele é o acidente,
o osso o permanente.
A pele são as nuvens,
os ossos são a água.
A pele são os musgos,
os ossos são as montanhas.
A pele é o agora,
os ossos são milênios.
A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.

(Pele & Osso / 1970)

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DIEGO NUNES BOAES
DIEGO NUNES BOAES

Aqui na cidade de Peri-Mirim, o autor e poeta Bandeira Tribuzi tem uma escola em sua homenagem, fica no povoado São Lourenço.

Identificação e contexto básico

Manuel Bandeira Tribuzi foi um poeta, ensaísta, professor universitário e crítico literário brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, consolidou-se como uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea, com uma obra marcada pela erudição e pela profundidade reflexiva.

Infância e formação

Desde cedo demonstrou interesse pela leitura e pela escrita. A sua formação académica foi sólida, tendo-se dedicado ao estudo da literatura, filosofia e artes, áreas que viriam a influenciar profundamente a sua obra poética e ensaística. O ambiente cultural do Rio de Janeiro, onde viveu, também moldou a sua visão de mundo.

Percurso literário

O seu percurso literário começou com a publicação de poemas em diversas revistas e antologias, ganhando gradualmente reconhecimento pela originalidade e pela força da sua expressão. Ao longo do tempo, a sua obra evoluiu, explorando novas abordagens temáticas e estilísticas, mas sempre mantendo uma linha de continuidade na sua preocupação com a linguagem e a condição humana. Além da poesia, destacou-se como ensaísta, analisando a obra de outros poetas e escritores e refletindo sobre a própria natureza da arte.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Bandeira Tribuzi é marcada por uma profunda reflexão sobre a experiência humana, a relação entre o indivíduo e a cidade, a natureza, o tempo e a memória. A sua poesia transita entre o lirismo e a erudição, com um vocabulário rico e preciso, e uma construção formal cuidada. Explora a linguagem como matéria-prima, questionando os seus limites e as suas possibilidades de expressar a complexidade do real. Os temas da identidade, da solidão, da passagem do tempo e da busca por sentido são recorrentes. O seu estilo é caracterizado pela densidade imagética, pela ironia subtil e por um tom ora contemplativo, ora incisivo. A sua poesia dialoga com a tradição, mas também com as inquietudes da modernidade.

Contexto cultural e histórico

Bandeira Tribuzi inseriu-se no contexto cultural brasileiro da segunda metade do século XX e início do século XXI, um período de grandes transformações sociais, políticas e tecnológicas. A sua obra reflete estas mudanças, abordando a relação do homem com o espaço urbano e a sociedade contemporânea. Foi contemporâneo de importantes escritores e intelectuais com quem partilhou debates e reflexões sobre a literatura e a cultura.

Vida pessoal

Para além da sua atividade como poeta e professor, Tribuzi manteve uma vida intelectual ativa, participando em debates culturais e contribuindo para a formação de novas gerações de escritores e leitores. A sua dedicação ao estudo e à reflexão sobre a arte e a vida foi uma constante.

Reconhecimento e receção

A sua obra poética e ensaística granjeou um sólido reconhecimento no meio literário e académico brasileiro. É considerado um dos poetas importantes da sua geração, admirado pela originalidade do seu pensamento e pela qualidade da sua escrita.

Influências e legado

Bandeira Tribuzi foi influenciado por diversas correntes literárias e filosóficas, desde os clássicos da poesia a pensadores contemporâneos. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia brasileira, pela sua capacidade de articular a experiência existencial com a reflexão crítica sobre a linguagem e a arte, abrindo novas perspetivas para a poesia contemporânea.

Interpretação e análise crítica

A crítica tem salientado a profundidade existencial da poesia de Tribuzi, a sua capacidade de captar as nuances da experiência urbana e a sua reflexão sobre a própria natureza da criação poética. A sua obra é um convite à meditação sobre a condição humana no mundo moderno.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Conhecido pela sua erudição e pela sua rigorosa abordagem à linguagem, Bandeira Tribuzi dedicou-se intensamente ao estudo e à prática da poesia, explorando as suas múltiplas facetas.

Morte e memória

Faleceu no Rio de Janeiro, deixando uma obra vasta e um legado significativo para a literatura brasileira. A sua memória é preservada através dos seus livros e do impacto da sua obra nas gerações futuras.