Bocage

Bocage

1765–1805 · viveu 40 anos PT PT

Bocage, cujo nome verdadeiro era Manuel Maria Barbosa du Bocage, foi um dos mais importantes poetas portugueses do final do século XVIII. Sua obra, marcada por um lirismo intenso e, por vezes, irreverente, explorou temas como o amor, a paixão, a fugacidade do tempo e a melancolia. Conhecido por sua vida boêmia e personalidade forte, Bocage deixou um legado poético que transcende seu tempo, influenciando gerações posteriores de escritores pela sua maestria formal e expressividade.

n. 1765-09-15, Setúbal · m. 1805-12-21, Lisboa

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Camões, grande Camões, quão semelhante

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co sacrílego gigante.

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao céo, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Manuel Maria Barbosa du Bocage, amplamente conhecido pelo seu apelido Bocage, nasceu em Setúbal, Portugal, em 25 de setembro de 1765, e faleceu em Lisboa, em 21 de outubro de 1805. É considerado um dos maiores poetas portugueses do período neoclássico, embora sua obra antecipe muitas características do Romantismo. Viveu num período de profundas mudanças sociais e políticas em Portugal, marcadas pela influência do Iluminismo e pelos eventos da Revolução Francesa. Era filho de José Barbosa da Silva e de D. Maria Madalena Muge, de origem modesta, mas com aspirações sociais.

Infância e formação

Bocage teve uma infância marcada por dificuldades económicas e uma relação complexa com a família. Aos 14 anos, ingressou na Marinha, onde serviu por um período, demonstrando desde cedo um espírito inquieto e rebelde. A sua formação foi, em grande parte, autodidata, alimentada por uma vasta leitura de autores clássicos e contemporâneos, incluindo os poetas árcades portugueses e os iluministas franceses. A sua juventude foi caracterizada por paixões intensas, desilusões amorosas e um desregramento de costumes que o acompanharia pela vida.

Percurso literário

O percurso literário de Bocage iniciou-se cedo, com a produção de sonetos que já revelavam um talento invulgar. A sua obra mais significativa foi escrita e publicada entre os 20 e os 30 anos. Apesar de ter vivido uma vida curta e atribulada, Bocage produziu uma obra vasta e diversificada, que inclui sonetos, odes, éclogas, epístolas e sátiras. Publicou "Rimas" em 1791 e um volume complementar em 1799. Colaborou em diversas publicações periódicas da época, onde frequentemente publicava poemas e epigramas satíricos. Foi também tradutor de obras clássicas e modernas, demonstrando uma grande erudição.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Bocage é marcada por um lirismo profundo e uma expressividade ímpar. Explorou temas como o amor idealizado e sensual, a fugacidade do tempo, a melancolia, a natureza e a crítica social. O soneto foi a forma poética preferida de Bocage, na qual demonstrou uma mestria técnica excecional, combinando a rigidez da forma com a liberdade do pensamento. O seu estilo é caracterizado pela intensidade emocional, o uso de vocabulário rico e, por vezes, inovador, a musicalidade do verso e a presença de antíteses e paradoxos que refletem a complexidade do seu "eu" poético. A sua voz poética é confessional, apaixonada e, frequentemente, irónica e satírica, antecipando o espírito romântico.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bocage viveu num período de transição entre o Neoclassicismo e o Romantismo. O Iluminismo, com sua ênfase na razão e no progresso, coexistia com um crescente sentimento de individualismo e subjetividade. A sociedade portuguesa da época era conservadora e dogmática, o que contrastava com o espírito livre e rebelde de Bocage. Ele dialogou com contemporâneos como Tolentino de Almeida, mas sua obra se distingue pela originalidade e pela intensidade emocional, que o afastam em parte dos cânones árcades.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Bocage foi intensa e turbulenta. Marcada por desilusões amorosas, como o amor por D. Eugénia, e por uma relação conturbada com a família, que não aprovava seu estilo de vida boêmio. As suas frequentes disputas com as autoridades e a sua tendência para o desregramento levaram-no a ser preso e deportado para a Índia Portuguesa, onde passou um período. A sua saúde frágil e a constante luta contra as dificuldades financeiras também marcaram a sua existência. As suas crenças filosóficas inclinavam-se para o ceticismo e a crítica às instituições religiosas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Bocage teve um reconhecimento limitado e controverso. Era admirado por muitos pela sua genialidade poética, mas também criticado pelo seu comportamento socialmente inadequado e pelas suas ideias consideradas subversivas. Foi apenas postumamente que a sua obra ganhou a dimensão e o reconhecimento que hoje lhe são devidos, sendo considerado um dos pilares da poesia em língua portuguesa. A sua entrada no cânone literário foi um processo gradual, mas hoje é unanimemente celebrado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bocage foi influenciado por Camões, Horácio e Virgílio, mas também por poetas pré-românticos e iluministas franceses. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações posteriores de poetas portugueses e brasileiros, nomeadamente os românticos e os simbolistas. A sua maestria formal, a intensidade lírica e a ousadia temática abriram novos caminhos para a expressão poética em língua portuguesa. A sua obra continua a ser estudada e celebrada pela sua relevância artística e pela sua capacidade de tocar as emoções humanas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bocage tem sido objeto de inúmeras interpretações. As leituras críticas destacam a dualidade do seu "eu" poético, dividido entre o ideal e o real, o amor puro e a paixão carnal, a busca pela transcendência e a consciência da finitude. A sua poesia pode ser vista como um reflexo das tensões existenciais e culturais do seu tempo, um grito de liberdade e de angústia perante a condição humana. A ironia e o humor, muitas vezes presentes, convidam a uma análise mais complexa do seu lirismo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bocage era conhecido pelo seu temperamento explosivo e pelas suas tiradas espirituosas. Uma anedota famosa conta que, ao ser criticado por um defeito físico (um olho estrábico), teria respondido: "Se eu tivesse o teu olho, teria o teu olho". Era também um observador atento da sociedade, cujos vícios e hipocrisias satirizava frequentemente. Os seus manuscritos e cartas revelam um homem atormentado, mas também dotado de uma inteligência e sensibilidade notáveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Bocage faleceu precocemente, aos 40 anos, vítima de tuberculose, numa Santa Casa da Misericórdia, em grande pobreza. A sua morte foi rodeada de tristeza e de um crescente reconhecimento póstumo. As suas "Rimas" e outros poemas foram publicados e reeditados diversas vezes, consolidando a sua posição como um dos maiores vultos da literatura portuguesa. A memória de Bocage é a de um poeta genial, um espírito livre e um rebelde que, através da sua arte, expressou a complexidade da alma humana.

Poemas

79

Das terras a pior tu és, ó Goa,

Das terras a pior tu és, ó Goa,
Tu pareces mais ermo que cidade,
Mas alojas em ti maior vaidade
Que Londres, que Paris ou que Lisboa.

A chusma de teus íncolas pregoa
Que excede o Grão Senhor na qualidade;
Tudo quer senhoria; o próprio frade
Alega, para tê-la, o jus da croa!

De timbres prenhe estás; mas oiro e prata
Em cruzes, com que dantes te benzias,
Foge a teus infanções de bolsa chata.

Oh que feliz e esplêndida serias,
Se algum fusco Merlim, que faz bagata,
Te alborcasse a pardaus as senhorias!

2 424

Arrimado às duas portas

Arrimado às duas portas
Pingue boticário estava,
E brandamente acenou
A um doutor que passava.

Mal que chega o bom Galeno,
Diz o outro com ar jocundo:
"Unamo-nos, meu doutor,
E demos cabo do Mundo!"

1 766

A um célebre mulato Joaquim Manuel,

A um célebre mulato Joaquim Manuel,
grande tocador de viola e improvisador de modinha.

Esse cabra ou cabrão, que anda na berra,
Que mamou no Brasil surra e mais surra,
O vil estafador da vil bandurra,
O perro, que nas cordas nunca emperra:

O monstro vil que produziste, ó Terra
Onde narizes Natureza esmurra,
Que os seus nadas harmônicos empurra,
Com parda voz, das paciências guerra;

O que sai no focinho à mãe cachorra,
O que néscias aplaudem mais que a "Mirra",
O que nem veio de prosápia forra;

O que afina inda mais quando se espirra,
Merece à filosófica pachorra
Um corno, um passa-fora, um arre, um irra.

1 623

Um procurador de causas

Um procurador de causas
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.

Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".

1 198

O Cão e a Cadela

Em verso alexandrino

Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em
vão.
Dando no chichisbéu dentada e maisdentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão
desabridas,
Era coum torpe cão fagueira às
escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.

3 739

O Macaco Declamando

Um mono, vendo-se um dia
Entre brutal multidão,
Dizem que lhe deu na cabeça
Fazer uma pregação.

Creio que seria o tema
Indigno de se tratar;
Mas isto pouco importava,
Porque o ponto era gritar.

Teve mil vivas, mil palmas,
Proferindo à boca cheia
Sentenças de quinze arrobas,
Palavras de légua e meia.

Isto acontece ao poeta,
Orador, e outros que tais;
Néscios o que entendem menos
É o que celebram mais.

2 087

Quer ver uma perdiz chocar um rato,

Quer ver uma perdiz chocar um rato,
Quer ensinar a um burro anatomia,
Exterminar de Goa a senhoria,
Ouvir miar um cão, ladrar um gato;

Quer ir pescar um tubarão no mato,
Namorar nos serralhos da Turquia,
Escaldar uma perna em água fria,
Ver um cobra castiçar coum pato;

Quer ir num dia de Surrate a Roma,
Lograr saúde sem comer dois anos,
Salvar-se por milagre de Mafoma;

Quer despir a bazófia aos Castelhanos,
Das penas infernais fazer a soma,
Quem procura amizade em vis gafanos.

1 604

Já sobre o coche de ébano estrelado

Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que está mihalma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

3 261

A um mau médico

Doutor, até do hospital
Te sacode enfermo bando.
Qual será disto a causal?
É porque, em tu receitando,
Qualquer doença é mortal.

2 412

A Macaca

Em verso alexandrino

Nos serros do Brasil diz certo autor que
havia
Uma namoradeira, uma sagaz bugia.
Milhões de chichisbéus pela tafulguinchavam,
E por não terem asa, o rabo lhe arrastavam.
Qual, caindo-lhe aos pés de amores cego e
louco,
Nas cabeludas mãos lhe apresentava umcoco;
Qual do açúcar brilhante a sumarenta cana;
E qual um ananás, e qual uma banana.
Ela com riso astuto, ela com mil caretas,
Lhe entretinha a paixão, lhe ia doirando as
petas;
Os olhos requebrava ao som de um
suspirinho:
A todos prometia o mais fiel carinho,
E, se algum lhe rogava especial favor,
À terna petição dizia: "Sim, senhor."
Mas com muita esperança o fruto eranenhum,
E os pobres animais ficavam em jejum.
Leitores, há mulher tão destra e tão velhaca,
Que nisto não ganha inda a melhor macaca.

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Comentários (2)

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Alguem que intende mais história que você
Alguem que intende mais história que você

Se você não sabe ele se converteu no leito de morte(onde ele ditou esssa poesia) e se tornou católico, coisa que a nação portuguesa é e com muito amor.

Alguem que intende de história mais que você
Alguem que intende de história mais que você

Estude realmente a história de portugal e pare de falar besteira