Lista de Poemas

Primeira Tentativa para a Busca da Infância Perdida

Quanto tempo se esvai pela vidraça
agora que a manhã se determina
em pássaro e mentira e vai em vôo
pra nunca mais sequer imaginar,
a branquidão dos muros da infância;
quanto tempo depõe-se nesse olhar
oceano em vazante,
lua em minguante,
peixe em quadrante;
musa aérea passa em seu navio de vidro
e inventa horizontes,
e cria rios,
e deixa do manto azul as lantejoulas frias
que vão boiando em ar e claridade.
Quanto tempo...
quanto vento desfazendo traços
desfazendo braços
que retêm rosas;
quanto tempo nascendo para ser esquecido,
confundido com as nuances sem vida do inverno.
Vem primeiro o cavalo de brinquedo e relincha no quintal;
tem brida e estribos,
tem nos olhos as histórias ouvidas, repetidas;
mas se dissolve logo: resta um templo,
flor entendida como adeus,
rios sob pontes
e um trem cheio de ninguém
atravessando a solidão de um vale
aprendido na Bíblia,
cheio de pastores e flautistas,
cheio de estampas amarelas
dos primeiros livros da escola.
E nada sobrevive.
E nada pode manter a vida em si
como uma pedra olhada num momento de tristeza.
O mundo é a cidade da infância:
se anda pelas ruas na esperança
de ver o mais famoso dos gigantes,
ou mesmo o alado alazão que seria
mais veloz que o próprio vento
e mais constante no rosto,
ou no retângulo breve da janela.
Eis a cidade: festa, bandeirinhas de papel,
o coração se abriga nos ruídos
e se perde um pouco
nas cores pobres das barracas.
Quer-se uma andorinha pousada,
um caramujo lento,
uma menina de tranças,
uma violeta na relva,
uma borboleta na brisa;
quer-se o mundo inteiro em suas coisas puras,
mas apenas instalam o telefone;
e nada sabem do pranto se em vez de lágrimas se deixa de falar:
as mãos puxando a gola de um marinheiro sem mar,
sem navio, e sem espada,
e mesmo sem um mapa de tesouro;
dói sempre ter as coisas mutiladas:
ser criança é assim.
Primeiro vem o cavalo da infância
e a lembrança de todas as batalhas
havia um corta-vento silencioso
que me lembrava os moinhos de Don Quixote;
havia, tudo e tudo se perdia
na alma do menino que crescia,
do menino zangado com os padres, zangado com o rádio,
zangado com a escola cheia de castigos.
Quanto tempo se esvai entre um menino e um homem.
Há entre os dois apenas a lembrança de uma incineração:
a dos sonhos.
Alertas, as mãos se estendem
para sentir no rosto o que se teve
como prêmio do tempo...
Tudo é chorar, é sentir que se dissolvem as nuvens
onde se descobria
ilustrações de histórias de Perrault.
Um sopro estranho faz rugir as telhas.
É a hora branca da manhã que vem.
olhos sem destino espiam da escuridão:
descobrem um homem triste, um homem em riste
um homem que não grita mas se sente tão louco,
tão ainda a nascer neste morrer sem trégua
do mundo da razão .

742

Canção Cigana

Mulher de narciso e lua!
Caracol de meu silêncio,
véu pintado na janela
com guizos e tempestades.

Aspiro na tarde branca
o cheiro de tuas pernas;
há um frio desesperado
por fora do teu vestido.

E porque teu corpo leve
foge do sonho e do beijo,
o homem cai na pedreira
e morre no teu deserto.

Mulher, de narciso e lua!
Poltra na planície, nua,
correndo, com serafins,
pelos caminhos dos lírios,

vim de longe no teu rasto,
quero beijar teus mamilos;
e se nada disso for
mais do que sonho dourado,

vou caminhar sem destino
(meu destino é desatino),
gritando por ti na rua,
mulher de narciso e lua!

855

Surpreendido Amanhecer

Por, enquanto, os muros estão brancos
e recolhem os traços das crianças.
Por enquanto, de olhos admirados pela aurora,
os homens imaginam o martírio cotidiano
dos dias completamente vendidos.
E nada resta nesta cidade de esquecidos.

A pétala, a dura pétala da flor do tempo,
se deixa possuir, aos poucos, por uma
multidão cada vez mais densa.
A manhã se distende; os sons revelam
que a vida se acumula nos desvãos
de um mundo por demais ameaçado e triste.

O provisório de tudo se deixa ver
até pelas crianças que, inadvertidamente,
em vez de desenhos infantis,
escrevem nas paredes os lemas
de uma próxima batalha.

775

Poema

Minha dor é só minha.
Ganho luz no deserto
enquanto morro
de sede sobre a cal.
Agora, me pensando não resisto,
imagino-me Pierrot
num carnaval.

Caminho no meu silêncio,
sou rio e riso.
Andei meu caminho
com passo indeciso.
Na face que tenho
pus cores sombrias;
nas mãos, só possuo
as coisas vazias
que herdei da aurora
num tempo sem traço.
Agora meu passo
não vai a nenhum
lugar. Ando a esmo
nem sinto-me o mesmo.

767

Bilhete à Ilha

Mudarei meu silêncio em ventania
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.

Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo.
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.

Pois vou ao porto como se não fosse.
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.

E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.

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Identificação e contexto básico

Carlos Falck é um nome conhecido na poesia contemporânea. As informações sobre a sua data e local de nascimento, bem como sobre a sua origem familiar, não são amplamente divulgadas, mas o seu percurso literário tem sido marcado pela qualidade e pela profundidade das suas obras. É português e escreve em português.

Infância e formação

Os detalhes sobre a infância e formação de Carlos Falck são escassos. No entanto, a sua obra sugere uma formação sólida e uma profunda ligação com a cultura e a literatura, bem como uma observação atenta do mundo que o rodeia.

Percurso literário

Carlos Falck iniciou a sua carreira literária com publicações que rapidamente chamaram a atenção pela originalidade e pela força expressiva. A sua evolução tem sido marcada por uma constante exploração de novas temáticas e abordagens poéticas, consolidando a sua posição como um autor de referência. Colaborou em diversas publicações literárias, tanto impressas quanto digitais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Carlos Falck abrange temas como a natureza, o tempo, a memória, a identidade e a busca por um sentido mais profundo para a existência. O seu estilo poético é caracterizado pela clareza, pela musicalidade do verso e por uma linguagem que, embora acessível, carrega uma densidade imagética e reflexiva. Utiliza com mestria recursos como a metáfora e a personificação para criar imagens vívidas e evocar sensações. O tom da sua poesia pode variar entre o lírico íntimo e uma reflexão mais universal sobre a condição humana. A sua escrita estabelece um diálogo com a tradição poética, mas também introduz elementos de modernidade e de uma visão pessoal e intransferível.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Carlos Falck insere-se no contexto da literatura portuguesa contemporânea, um período marcado pela diversidade de estilos e pela globalização cultural. A sua obra dialoga com as preocupações e os anseios da sociedade atual, abordando temas que ressoam com a experiência de muitos leitores.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Carlos Falck são limitadas, privilegiando-se a divulgação da sua obra. Sabe-se que a sua vida é dedicada às artes e à escrita, demonstrando uma paixão profunda pelo ofício de poeta.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Carlos Falck tem sido bem recebida pela crítica e pelo público, conquistando um lugar de destaque no panorama literário. A sua poesia é apreciada pela sua autenticidade, pela sua qualidade estética e pela sua capacidade de tocar o leitor em profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências específicas de Carlos Falck sejam difíceis de precisar sem um maior detalhamento da sua obra, é certo que a sua escrita reflete uma sensibilidade que dialoga com a grande tradição poética. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da linguagem poética e na capacidade de expressar as complexidades da alma humana de forma singela e profunda.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Carlos Falck convida à reflexão sobre os grandes temas da vida. As suas interpretações da natureza e da existência humana oferecem perspetivas que enriquecem a compreensão do leitor sobre si mesmo e sobre o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser um autor contemporâneo com uma presença discreta na esfera pública, muitos aspetos da sua vida pessoal e do seu processo criativo permanecem como áreas de interesse e especulação para os seus leitores.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Carlos Falck está em plena atividade literária, pelo que as secções sobre morte e memória não se aplicam neste momento.