Lista de Poemas

Ansiedade

Tenho sede de palavras quentes
desgarradas dos limites formais.
Tenho fome da pureza
que a "diplomacia" da vida roubou.
Tenho saudade dos luares
que a simetria da cidade retalhou.

Sinto a tristeza e o frio dos cimentos
que fizeram dos homens aves sem vôo;
das crianças, criaturas sem jardins;
dos decênios, estações sem primaveras,
impingindo um formalismo e limitando
os seres em si.

Tenho a premência coletiva
de impor os sonhos à vida;
e, do artifício de viver,
fazer da vida a delícia
que as artes vivas
procuram viver.

Tenho ansiedade
de não ficar ansiando
o que estou buscando,
na busca que busco,
antes que a busca
me possa tragar.


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 042

Menino de Hirochima

Hoje, que o sol raiou mais otimista,
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.

Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:

— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 000

Mocambo

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".

Mocambo
não é macumba do destino,
é teimosia de pobre,
é maldade de rico.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".

Mocambo,
semente brava
rolando do sertão
— flor ardente e ativa
brotando em lameirão.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga,
— "Ordem e Progresso".

Mocambo
tem menino barrigudo,
tem velho indolente
dos tempos coloniais,
que a civilização mocambeou,
pois, de novo,
o estrangeiro se aproveitou.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo" —

Mocambo
tem mãe de prenhez fácil,
de amor sem preconceito,
onde tudo cresce
sem urbanização,
sem asfalto, sem livro,
sem jardim, sem timão.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".

Mocambo
de amor bem agarrado,
de família comprimida,
com fácil união
de pele jambo e preta,
sob desembestado sol de tição.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".

Mocambo,
casa de anão,
cabendo brasileiro grande,
mulata de corpo bom,
que, sem charque, sem feijão,
tem busto bonito e oco pulmão.

Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 167

Metamorfose de Minha Anatomia

Na espiral heterogênea da vida,
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.

Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.

Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.

Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
965

Asfalto

Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...

Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.

Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.

(...)

Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.

Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.

Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.

(...)

Imagem - 00700004


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 031

Garoa em Pequim

Cai uma lânguida chuva em Pequim,
igual às nostálgicas chuvas que já vi;
vagarosa como o tédio,
dentro de um sombrio cinzento,
mergulhando em dúvida
a colorida alegria,
deixando meus olhos indecisos,
que procuram rever e fixar
a nítida silhueta milenar,
com a alma se debatendo para não ficar
entre as recordações da garoa paulista
e a envolvente realidade chinesa.

Debate-se meu ser apaixonado
entre o saudoso chuvisco paulista
e o véu úmido, cinzento e contínuo,
cobrindo a silhueta velha, nova e divina.

Cai lenta e persistente em Pequim
uma bruma afogando na abstração
minh'alma suspensa entre dois mundos,
atonando um desconhecido passado.
me afastando do indelével presente,
me levando a "Paulicéia Desvairada",
me trazendo a Pequim encantada.

Cai lenta uma chuva em Pequim,
pesando positivamente dentro de mim.

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
943

Martelo-Pilão

Malha, malhando,
malhando está,
o pilão não cessa,
não pode cessar.

Pão, pão,
martelo-pilão
Pão com pão
com fome é bom.

Motores, engrenagens,
correias, roldanas,
bancadas unidas
por eixos gerais.

Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.

Só param,
só cessam
quando convém
tocar
a sirene,
pela mão
do patrão.

Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.

Que apito estridente!
Estridente apito
no coração da gente
em cada um ecoou.

Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.

Malha, malhando,
malhando está.
Pesadas tonelagens
de milhões e milhares,
passando no malho,
que não cessa,
não pára,
não pode parar.

Pão, pão
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.

(...)


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 362

Questionário

Meus ávidos olhos fotografam sentimentos;
minhalma, porém, nem sempre os revela com exatidão
O certo é que sou um barco,
carregando uma crescente carga humana e ativa,
densa e colorida.
Trago evidente um contínuo horizonte,
embora proibido de aportar nos portos da sofreguidão.
(...)

Hoje, quando volto ao mundo do egoísmo,
ao mundo do medo e do fetichismo,
te peço, encantadora aeromoça,
de nebulosa e inconsequente expressão,
que respondas meu questionário informal,
proposto por meu conturbado coração:

Como apreciar-te,
Neste sorriso multi-adestrado?
Como encontrar-te,
nesta fosforescência do grande nada?
Como será tua meiguice
em tua bondade-assalariada?
Como será o brilho dos teus olhos
sem o reflexo dos "neons"
das más intenções?
Que dirás ao teu noivo,
ao teu marido, ao teu amante,
depois de multifazer tuas atenções,
depois de estudar
um mundo de feições,
depois de viver
tantas efêmeras aproximações?
Ainda tens noção profunda do que é a firmeza
em tua profissionalidade aérea?

Como sabes o que preferem;
se um sorriso sensual ou teu olhar de pureza?
Estarás feliz na rota íntima que vôas?
Poderás voar ao além do pão de cada dia,
ao além dos "nylons" que te amaciam,
ao além dos cosméticos que te escondem?
....................................................
Venho voando dum mundo
de curtas asas para ilusões
e encontro teus olhos
perdidos em "neons".

Aeroporto de Zurich, 22/10/1962


In: Nossa Voz, São Paulo, 29 nov. 196
1 016

Chuvisco Espanhol

Para Priscila Marie Netto Soares

Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.

Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.

Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.

Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.

Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.

Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.

Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.


In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
955

Cascata

O chiado das águas
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.

Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.

O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.

Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas...


In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 577

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Identificação e contexto básico

Carlos Frydman é um poeta brasileiro. Sua obra se insere no panorama da poesia contemporânea em língua portuguesa.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Carlos Frydman são escassas na esfera pública. Presume-se uma formação cultural que o levou a desenvolver sensibilidade para a linguagem poética.

Percurso literário

O percurso literário de Carlos Frydman é caracterizado por uma produção poética que tem vindo a ser divulgada, com foco em temas introspectivos e existenciais.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Carlos Frydman caracteriza-se por uma abordagem lírica e reflexiva sobre a condição humana. Os temas recorrentes incluem o amor, a passagem do tempo, a saudade e a busca por significado. A linguagem poética de Frydman é marcada pela sutileza, pela riqueza de imagens e por uma musicalidade intrínseca, que confere aos seus versos uma atmosfera contemplativa. Utiliza frequentemente metáforas e recursos retóricos que convidam à introspecção do leitor.

Contexto cultural e histórico

Carlos Frydman insere-se no contexto da poesia contemporânea brasileira, um período marcado pela diversidade de estilos e pela exploração de novas formas de expressão poética. A sua obra dialoga com as preocupações existenciais e sociais do seu tempo.

Vida pessoal

Detalhes sobre a vida pessoal de Carlos Frydman não são amplamente divulgados, o que reforça o caráter introspectivo e centrado na obra de sua trajetória pública.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Carlos Frydman advém da sua produção poética que tem encontrado eco junto de leitores que apreciam uma poesia sensível e reflexiva. A sua obra circula em antologias e publicações literárias.

Influências e legado

Embora influências específicas não sejam detalhadas, a poesia de Frydman partilha afinidades com a tradição lírica da língua portuguesa, adaptando-a a sensibilidades contemporâneas. O seu legado reside na contribuição para a poesia que explora a profundidade da experiência humana.

Interpretação e análise crítica

A obra de Carlos Frydman convida a uma análise crítica focada na sua capacidade de articular sentimentos complexos de forma acessível e emotiva. Os temas filosóficos subjacentes à sua poesia oferecem material para reflexão sobre a existência.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Sendo uma figura discreta, aspectos menos conhecidos da vida e processo criativo de Carlos Frydman permanecem no domínio do privado, contribuindo para um certo mistério em torno da sua figura.

Morte e memória

Informações sobre a morte de Carlos Frydman não estão disponíveis, indicando que o autor permanece ativo ou que a sua ausência não é marcada por eventos públicos conhecidos.