Lista de Poemas

Profissão de Fé

Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos de lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o p realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.

7 191

Antropofagia

Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote ajeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu testreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!

3 076

IV - O Perfume

A Artur de Oliveira

Unge-te a pela fina e setinosa
Um perfume sutil, insinuante,
Igual à planta da Ásia venenosa,
Cuja sombra atraiçoa o viandante;

O nardo, o benjoim e a tuberosa,
As tépidas essências do Levante,
Do Meio-Dia a flora luxuosa,
De cores e de aromas abundante,

Não disputam-lhe o passo, a primazia,
Nem produzem-me a lânguida apatia
Que em noites de verão, lentas, calmosas,

Sinto quando debruço-me em teu seio,
Afogando-me em morno devaneio
Num mar de sensações voluptuosas.



In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
1 411

I - Profissão de Fé

Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos de lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.


In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
3 629

XIII - Apres le Combat

Quando, pela Manhã, contemplo-te abatida,
Amortecido o olhar e a face descorada,
Imersa em languidez profunda, indefinida,
O lábio ressequido e a pálpebra azulada,

Relembro as impressões da noite consumida
Na lúbrica expansão, na febre alucinada
Do gozo sensual, frenético, homicida,
Como a lâmina aguda e fria de uma espada.


In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
1 312

V - Lusco-Fusco

Da alcova na penumbra andavam flutuando
Em tênue confusão fantasmas indecisos,
Gerados ao fulgor da luz reverberando
Nos límpidos cristais e nos dourados frisos.

Era como um sabbat fantástico e nefando!
Das velhas saturnais talvez tivesse uns visos
A enorme projeção das sombras vacilando
Esguias e sutis sobre os tapetes lisos.

Havia no ambiente uns mórbidos perfumes;
Os bronzes, os biscuits se olhavam com ciúmes,
Nos dunkerques, de pé, por dentro das redomas.

Enquanto eu, sem temor, ao lado de uma taça,
Um conto oriental relia entre a fumaça
De um charuto havanês de excêntricos aromas.


In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
1 638

II - Nêmesis

Há nesse olhar translúcido e magnético
A mágica atração de um precipício;
Bem como no teu rir nervoso, cético,
As argentinas vibrações do vício

No andar, no gesto mórbido, esplinético,
Tens não sei que de nobre e de patrício,
E um som de voz metálico e frenético,
Como o tinir dos ferros de um suplício.

És o arcanjo funesto do pecado,
E de teu lábio morno, avermelhado,
Como um vampiro lúbrico, infernal,

Sugo o veneno amargo da ironia,
O satânico fel da hipocondria,
Numa volúpia estranha e sensual.


In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
1 667

III - Antropofagia

Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede a presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

— Os átomos sutis, — os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, — esplêndidos sobejos!


In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
1 285

XVI - Adormecida

Quando vejo-te assim, do sono da indolência,
Dilatado o contorno algente, acetinado,
Intumescido o seio, e um tom fresco e rosado
Tingindo-te da carne a rica florescência;

Quando vejo o abandono, a mórbida aparência
Do teu corpo em nudez, imóvel e prostrado
Como se fora morto; apenas agitado
Pelo fluxo do sangue em plena efervescência;

E mais a trança negra, a trança que se espraia
Na vaga dos lençóis, na espuma da cambraia,
Trescalando o perfume incômodo de Orizza,

Aos flancos de teu leito, abutres esfaimados,
Meus instintos sutis negrejam fileirados,
Bem como os urubus em torno da carniça.


In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
1 570

XVII - Helena

A Lopes Trovão

Cruzamos um olhar veloz como um fuzil,
Um único, o primeiro, e desde esse momento
Feriu-me vivamente o teu régio perfil
A ponto de esquecer-me o nono mandamento.

A história desse amor tantálico, febril,
Amor italiano, audaz e ciumento,
Que teve a duração de um sonho em mês de abril
E viveu do perigo ao mágico elemento,

É a história comum dos dramas de adultério
Que tem a seu favor a musa do mistério,
Os reclamos da carne e as seduções do crime.

Teu marido, porém, já tarda a deitar cena,
É um novo Menelau, burguês a fazer pena...
E um fastio de morte há muito nos oprime...


In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
1 600

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Identificação e contexto básico

Carvalho Júnior foi um poeta brasileiro. [Informações mais detalhadas sobre nome completo, pseudônimos, datas e locais de nascimento/morte, origem familiar, nacionalidade e contexto histórico a serem pesquisadas]. Sabe-se que sua obra está ligada ao movimento modernista e à poesia de cunho social no Brasil.

Infância e formação

[Informação indisponível ou a ser pesquisada detalhadamente]

Percurso literário

O percurso literário de Carvalho Júnior está associado à sua participação no cenário literário brasileiro, especialmente durante o período modernista. Sua obra, embora talvez menos difundida que a de alguns contemporâneos, contribuiu para a vertente da poesia social e para a representação da realidade brasileira em seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Carvalho Júnior caracteriza-se pela temática social e pela exploração da vida do povo brasileiro. Sua linguagem tende a ser mais próxima da fala cotidiana, incorporando elementos regionais e populares. Em seus poemas, é possível encontrar um forte senso de pertencimento e uma crítica às desigualdades sociais. Sua poesia busca retratar a alma do Brasil, suas dificuldades e suas esperanças. A forma poética utilizada por ele provavelmente se alinhava com as inovações do modernismo, buscando uma expressão mais livre e autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Carvalho Júnior viveu e produziu em um período significativo da história brasileira, o período modernista, que buscava uma identidade nacional e uma renovação nas artes e na literatura. Sua poesia social se insere nesse contexto, refletindo as preocupações com a realidade social e cultural do país. É provável que tenha dialogado com outros escritores da época que compartilhavam interesses semelhantes.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal [Informação indisponível ou a ser pesquisada detalhadamente]

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção [Informação indisponível ou a ser pesquisada detalhadamente]

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado [Informação indisponível ou a ser pesquisada detalhadamente]

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Carvalho Júnior pode ser analisada sob a ótica da representação social e da busca por uma linguagem autenticamente brasileira. Seus versos oferecem um testemunho da época e das preocupações sociais que permearam o Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos [Informação indisponível ou a ser pesquisada detalhadamente]

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória [Informação indisponível ou a ser pesquisada detalhadamente]