Daniel Faria

Daniel Faria

1971–1999 · viveu 28 anos PT PT

Daniel Faria foi um poeta português de intensa dimensão espiritual, cuja obra alia contemplação, silêncio e procura do sagrado. Nascido em 1971, ingressou na vida monástica beneditina e faleceu prematuramente em 1999. A sua poesia, marcada por uma linguagem depurada e profunda, é hoje considerada uma das mais importantes da literatura portuguesa contemporânea.

n. 1971-04-10, Baltar · m. 1999-06-09, Porto

82 547 Visualizações

Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Ler poema completo
Biografia

Daniel Faria nasceu em Baltar, pequena vila portuguesa, em 1971. Estudou Teologia na Universidade Católica, licenciando-se mais tarde em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Após os estudos, optou pela vida monástica e ingressou no Mosteiro Beneditino de Singeverga, onde iniciou seu noviciado. Publicou em vida os livros Uma Cidade com Muralha (1991), Oxálida (1992), A Casa dos Ceifeiros (1993), Explicação das Árvores e de Outros Animais (1998) e Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998), aos quais se seguiram, de publicação póstuma, Legenda para uma casa habitada e Dos Líquidos, ambos no ano 2000. O poeta morreu após um acidente doméstico em 1999, pouco antes de terminar seu noviciado, ainda no mosteiro de Singeverga.

Ao falecer, Daniel Faria tinha 28 anos, mesma idade com que morreu, por exemplo, o poeta brasileiro Torquato Neto (clique AAQQUUII). Deixara alguns livros, nos quais demonstra seu talento em vários belos poemas, com uma pesquisa interessante das possibilidades, no fim do século, de uma lírica pura, pesquisa que liga sua poesia à linhagem de alguns dos primeiros modernistas, como Juan Ramón Jiménez, Henriqueta Lisboa ou Anna Akhmátova.

A poesia em língua portuguesa está marcada, como tantas outras, por passagens meteóricas de poetas que não tiveram ou não se deram o tempo para construir aquilo que editores e historiadores literários tão facilmente chamam mais tarde de Obra. Uns deixam poucos poemas muito bonitos e ainda estimulantes, como o próprio Torquato Neto ou Pedro Kilkerry (morto aos 32 anos), outros o arco incompleto de um trabalho que se esboçava, como Mário Faustino (morto também aos 32 anos) ou Ana Cristina César (morta aos 31 anos).

Nada mais distante da poesia atormentada pela dúvida de um Torquato Neto, do que a poesia lírica de uma personalidade estóica como a que Daniel Faria parece demonstrar nestes textos. Mas nós sabemos que há tempo para tudo sob o sol, como diz o Livro de Eclesiastes, ou, parafraseando os versos de Robert Browning, que há os que levam uma vida de fé, pontilhada pela dúvida, e os que levam uma vida de dúvida, pontilhada pela fé.

Poemas

34

Ando um pouco acima do chão

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

2 740

Há muitos metros

Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita


1 571

Um pássaro em queda mesmo

Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena
Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos
Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem
É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade
Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la
1 331

Magoa ver a magnólia cair Acredita

O relâmpago vem

sobre ela.A tempestade.

As plantas são tão frágeis como as cabanas dos homens.

Somos muito frágeis os dois neste poema

com o relâmpago,a cabana,com a magnólia aos ombros

sem nenhum terreno pulmonar intacto

para depois de nos olharmos um de nós dizer
plantêmo-la aqui-aqui

é o meu pulso,a minha boca

é a retina com que procuras,é a madeira da porta

com que te fechas em casa.Prometo-te

eu nunca vou fechar os olhos

as mãos.

de Dos Líquidos (2000)

2 244

Calculo uma doença difícil e definitiva

Calculo uma doença difícil e definitiva
Um sono que não se apaga no sono,ou melhor
Um verso parado no meio de um poema.
Imagino o poeta sem dormir e parado como um verso
No meio do poema.Imagino o poema sem dormir.
Tenta explicá-lo,compará-lo a Noé na arca
Saudoso de colocar de novo os pés descalços sobre a terra.
Penso que os animais saem de dentro das palavras
E vêm ter comigo
Que querem ter um nome como no princípio
Que querem beber.
Tu não sabes como te chamas,não sabes o nome das plantas
Esqueceste o nome dos teus irmãos
E nem mesmo a tua mãe te traz uma palavra á boca.
faço a inclinação de quem encosta o rosto ao focinho dos bichos
Com saudades do calor de uma voz que chama.
Nem mesmo eu sei dizer que terra firma lhes peço
Que alicerces fundos cavam quando pousam
As patas muito mansas sobre mim.

de Dos Líquidos (2000)
1 611

Há uma palavra pessoa

Há uma palavra pessoa
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive
Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar

E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar.

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
1 906

É por isso que adormeço numa luz em movimento

É por isso que adormeço numa luz em movimento
E escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma maneira quieta de estar nele tranquilo
Há nesse espaço uma fonte ,um animal que desperta
Uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.
Há uma voz que bebo.Há um espaço entra as mãos mas não perco
A sede.A água multiplica-se porque o tiro do coração
Que escuta.
Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo
E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
1 932

Quando eu era uma criança de muletas

Quando eu era uma criança de muletas
Estudei o alicerce de coisas paradas
Observei as coisas que se moviam
No olhar estático das coisas que meditam.Era cirúrigico
Como o homem que opera nas pupilas as artérias do seu próprio coração.
Estudei um peregrino e outro e outro.Estavam parados
Contemplavam os passos percorridos
No perímetro da meditação.
anotei que os alicerces do movimento são líquidos
Constantes.
Primeiro líquido:a água,nas coisas altas as nuvens
E penso também nos rios.Segundo líquido: a saliva
Que curou os cegos.Terceiro líquido: a saliva
Do relâmpago,da velocidade das coisas que caem.O sétimo líquido:
o sangue do cordeiro.
Quando eu era uma criança parada
Quando não andava numa cadeira de rodas a empurrar o corpo com as mãos
Estudei o movimento dos líquidos
Segui o derrame da semente ao morrer
Caminhasse eu porém e seguiria
O fio de água no olhar de quem amei.

de Dos Líquidos (2000)
1 815

Portanto farei uma escada no coração

Portanto farei uma escada no coração
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavra
Em silêncio,portanto,pisando o coração.

de Dos Líquidos (2000)
2 333

Chamavas os bois com a mão

Chamavas os bois com a mão

Mais mansa. A mão

Com que adubavas a terra

Com que puxavas o banco

Para a frente da lareira

Com que me mediste

Palmo a palmo na infância.

de Dos Líquidos (2000)
1 675

Livros

9

Videos

50

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
agostinho sousa
agostinho sousa

extraordinário, com uma visão muito para além das palavras que são verdadeiros sentimentos que com a sua leveza nos tocam no coração