David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

1927–1996 · viveu 69 anos PT PT

David Mourão-Ferreira foi um proeminente poeta, escritor e crítico literário português. A sua obra poética, marcada por uma profunda sensibilidade lírica e um rigor formal apurado, explorou temas como o amor, o tempo e a efemeridade da existência, muitas vezes com uma linguagem depurada e musicalidade ímpar. Além da sua vasta produção literária, David Mourão-Ferreira dedicou-se ativamente à crítica e à promoção da cultura, deixando um legado significativo no panorama literário português.

n. 1927-02-24, Lisboa · m. 1996-06-16, Lisboa

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E por vezes as noites duram meses

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
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Biografia

Identificação e contexto básico

David Mourão-Ferreira (pseudónimo de David de Mouro e Ferreira) foi um poeta, contista, dramaturgo, crítico literário e ensaísta português. Nasceu em Lisboa e faleceu na mesma cidade. Era filho de David Ferreira e de Maria da Assunção Mourão. Foi casado com Maria Teresa de Noronha de Menezes. A sua obra insere-se no contexto da literatura portuguesa do século XX, marcada por diversas correntes estéticas e pelas transformações sociais e políticas do país.

Infância e formação

Realizou os seus estudos secundários no Liceu Gil Vicente, em Lisboa. Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em 1949. Desde cedo demonstrou interesse pela literatura, sendo influenciado por leituras que iam desde os clássicos da poesia portuguesa até aos movimentos de vanguarda europeus. A sua formação intelectual foi robusta, combinando o estudo do Direito com uma paixão crescente pelas artes e letras.

Percurso literário

Iniciou a sua atividade literária cedo, publicando os seus primeiros poemas em revistas académicas e literárias. A sua obra evoluiu ao longo de décadas, mantendo uma coerência temática e estilística, embora com diferentes ênfases. Publicou poesia, prosa e teatro, além de uma extensa obra crítica. Colaborou em diversas publicações de renome, como a "Revista de Portugal" e "O Tempo e o Modo".

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A sua obra poética mais conhecida inclui "Os Amantes Sem Dinheiro" (1950), "A Secreta L Biên" (1958), "Obra Poética" (1981), e "A Poesia Essencial de David Mourão-Ferreira" (1999). Os temas centrais são o amor (muitas vezes com a dimensão do desejo e da ausência), o tempo e a sua passagem, a memória, a efemeridade da vida e a busca por um sentido. Em termos de forma, demonstrou um grande domínio técnico, recorrendo frequentemente ao soneto e a formas poéticas tradicionais, mas também explorando o verso livre. O seu estilo caracteriza-se pela depuração, pela musicalidade, pela densidade imagética e por um tom lírico, por vezes melancólico, mas sempre equilibrado e contemplativo. A sua linguagem é cuidada, erudita mas acessível, com um vocabulário preciso e elegante.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico David Mourão-Ferreira viveu e escreveu num período de intensas mudanças em Portugal, incluindo a ditadura do Estado Novo e a transição para a democracia. Embora não tenha tido uma postura abertamente contestatária, a sua obra reflete uma sensibilidade atenta às inquietações humanas e existenciais. Esteve próximo de importantes figuras intelectuais da sua época e participou ativamente em debates culturais. Fez parte da "geração de 50" ou "geração de Orpheu redivivo", que procurou renovar a poesia portuguesa, mantendo um diálogo com a tradição.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além da sua carreira literária, David Mourão-Ferreira exerceu funções públicas e diplomáticas. Foi diretor-geral das Relações Culturais do Ministério dos Negócios Estrangeiros e membro do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian. A sua vida pessoal foi marcada pelo casamento e pela dedicação à família, elementos que, de forma subtil, por vezes se refletem na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção David Mourão-Ferreira obteve amplo reconhecimento em vida, tanto em Portugal como no estrangeiro. Recebeu diversos prémios literários, incluindo o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1980) e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1991). A sua obra é estudada em universidades e a sua poesia é frequentemente antologiada e traduzida.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Luís de Camões e por autores simbolistas. O seu legado reside na elegância formal, na profundidade lírica e na capacidade de abordar temas universais com uma voz distinta e apurada. Influenciou gerações posteriores de poetas pela sua mestria técnica e pela sua abordagem contida, mas intensa, dos sentimentos humanos. A sua obra continua a ser um referencial na poesia contemporânea de língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mourão-Ferreira é frequentemente analisada sob a perspetiva da sua contenção lírica, da sua capacidade de explorar a complexidade do amor e do tempo, e da sua relação com a tradição poética portuguesa. Os críticos destacam a sofisticação formal e a profundidade existencial que emana dos seus versos, muitas vezes evitando a retórica excessiva em favor de uma expressividade mais contida e meditativa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos David Mourão-Ferreira era conhecido pela sua discrição e elegância. Para além da poesia, teve também interesse pelas artes plásticas. A sua casa em Lisboa era um local de encontro para muitos artistas e intelectuais. A sua capacidade de conciliar uma intensa atividade literária com uma carreira diplomática e administrativa é notável.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Lisboa, deixando uma obra vasta e aclamada. Após a sua morte, continuaram a ser publicadas obras e estudos sobre a sua vida e obra, consolidando a sua posição como um dos grandes poetas portugueses do século XX.

Poemas

43

Escolha

Entre vento e navalha escolho o vento

entre verde e vermelho aquele azul

que até na morte servirá de espelho

ao vento que por dentro me deslumbra

Entre ventre e cipreste escolho o Sol

Entre as mãos que se dão a que se oculta

Entre o que nunca soube o que já sobra

Entre a relva um milímetro de bruma.

4 336

Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamnete preso!

5 413

Nocturno

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martirio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...

4 820

O silêncio

Dos corpos esgotados que silêncio
tão apaziguador se levantava!

(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)

Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.

(Que apertados anéis nos braços nus!)

Mas o silêncio vinha desprendê-los.

4 380

Canção primaveril

Anda no ar a excitação
de seios subito exibidos
à torva luz de um alçapão,
por onde os corpos rolarão,
mordidos!

Ou é um deus, oi foi a Morte
que nos vestiu este torpor;
e a Primavera é um chicote,
abrindo as veias e o decote
ao meu amor!

Esqueço que os dedos têm ossos:
é só de sangue esta caricia;
apenas nervos os pescoços...
Mas nos teus olhos, nos meus olhos,
a luz da morte brilha.

2 993

Grito

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.

São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo que é nosso
é excessivo.

E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a spádua.
São os teus olhos.
Depois, o grito.

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
do outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.

E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa!

4 051

Segredo

Nem o tempo tem tempo
Para sondar as trevas
Deste rio correndo
Entre a pele e a pele
Nem o Tempo tem tempo
Nem as trevas dão tréguas
Não descubro o segredo
Que o teu corpo segrega.
4 503

Grito

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que e nosso.

São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.

E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.

E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.

3 642

As últimas vontades

Deixa ficar a flor,

a morte na gaveta,

o tempo no degrau.

Conheces o degrau:

o sétimo degrau

depois do patamar;

o que range ao passares;

o que foi esconderijo

do maço de cigarros

fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures.Deixa

o tempo no degrau,

a morte na gaveta.

Conheces a gaveta:

a primeira da esquerda,

que se mantém fechada.

Quem atirou a chave

pela janela fora?

Na batalha do ódio,

destruam-se,fechados,

sem tréguas,os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.

Bem sei.Nem eu.Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada.Ouve.

Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?

Como vem devagar!

Tão devagar que sobe...

Não digas nada.Ouve:

é com certeza alguém,

alguém que traz a chave.

Deixa ficar a flor.

4 422

Inscrição estival

Ó grande plenitude!

E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.

Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...

Este cacho de curvas que é o teu corpo.

3 721

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Comentários (5)

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Helena
Helena

É verdade! Os poetas têm esse poder!

Bolas lover
Bolas lover

Fucking lag

cema raizer
cema raizer

Ás vezes suave, ás vezes intenso ás vezes breve, às vezes quilométrico... mas sempre poeta!

raquel
raquel

ta mt bom. obrigado pela ajuda

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ajudou bastante no meu trabalho obrigada!!