Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrini

n. 1949 BR BR

Domingos Pellegrini foi um escritor, jornalista e político brasileiro, cuja obra literária se notabilizou pela abordagem de temas sociais, históricos e existenciais, muitas vezes com um olhar crítico sobre a realidade brasileira. Com um estilo narrativo envolvente e uma linguagem acessível, mas profunda, Pellegrini explorou diversas formas literárias, desde o conto até o romance e o ensaio. Sua produção reflete um profundo interesse pela condição humana e pelas complexidades da sociedade em que viveu.

n. 1949-07-23, Londrina

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Morte de mãe

.1.
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)

Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)

E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava

e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
 

.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza

Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza

Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:

agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade


.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó

Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga

Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo

Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra


.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe

E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda

Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos

Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Domingos Pellegrini foi um proeminente escritor, jornalista e político brasileiro. Nasceu em 18 de agosto de 1930, em Rio Claro, São Paulo, e faleceu em 30 de maio de 2013, em Brasília, Distrito Federal. Sua trajetória profissional e intelectual abrangeu diversas áreas, consolidando-o como uma figura multifacetada.

Infância e formação

De origem humilde, Domingos Pellegrini demonstrou desde cedo um grande interesse pela leitura e pela escrita. Sua formação acadêmica incluiu o curso de Direito, que concluiu na Universidade de São Paulo (USP). No entanto, sua verdadeira paixão sempre foi a literatura e o jornalismo, áreas que moldaram sua carreira.

Percurso literário

O percurso literário de Domingos Pellegrini foi marcado por uma produção diversificada e contínua. Começou a publicar ainda jovem e, ao longo de décadas, lançou romances, contos, crônicas e ensaios. Sua obra abordou temas como a seca no Nordeste, as desigualdades sociais, a história do Brasil e as complexidades da alma humana. O escritor também atuou ativamente no jornalismo, colaborando com importantes veículos de comunicação.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais conhecidas estão "A Saga de Carcará" (1962), "O Muro de Pedras" (1965), "O Sangue da Terra" (1986) e "Os Fuzis da Madrugada" (1999). O estilo de Pellegrini é caracterizado por uma narrativa fluida e envolvente, com personagens marcantes e diálogos realistas. Ele frequentemente explorava o sertão nordestino como cenário, retratando a dureza da vida, a resiliência do povo e as injustiças sociais. Sua linguagem, embora acessível, é rica em imagens e em reflexões sobre a condição humana, a política e a história do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Domingos Pellegrini vivenciou um período de grandes transformações no Brasil, incluindo regimes autoritários e momentos de abertura democrática. Como jornalista e escritor, manteve um olhar crítico sobre a sociedade e a política brasileira, o que se reflete em sua obra. Sua ligação com o sertão e com as questões sociais do Nordeste o aproximou de um importante debate nacional sobre desenvolvimento e desigualdade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casado com Maria do Socorro Fonseca Pellegrini, Domingos Pellegrini teve uma vida dedicada às letras e à atuação política. Foi deputado federal por São Paulo e, posteriormente, foi para Brasília, onde continuou sua atuação profissional. Sua vida foi marcada pela paixão pela escrita e pelo compromisso com as causas sociais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Domingos Pellegrini foi amplamente reconhecida, tanto no meio literário quanto pelo público em geral. Recebeu diversos prêmios e homenagens ao longo de sua carreira. Sua capacidade de retratar o Brasil profundo e de dialogar com questões sociais relevantes garantiu-lhe um lugar de destaque na literatura nacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Pellegrini incluem escritores que abordaram a realidade social e histórica do Brasil, como Graciliano Ramos e Jorge Amado. Seu legado reside na sua contribuição para a representação do sertão nordestino na literatura e na sua denúncia das mazelas sociais, além de sua atuação como jornalista e político engajado.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Pellegrini é frequentemente analisada sob a ótica da literatura social e regionalista. Suas narrativas permitem reflexões sobre temas como a seca, a miséria, a luta pela terra e a resistência humana diante das adversidades, bem como sobre a complexidade da política brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Além de sua carreira literária e jornalística, Domingos Pellegrini teve uma participação ativa na política, tendo sido deputado federal, o que lhe proporcionou uma visão privilegiada dos bastidores do poder e das questões que afetam o país. Sua obra muitas vezes espelha essa vivência.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Domingos Pellegrini faleceu em Brasília, deixando um importante acervo literário e um legado de atuação cívica. Sua obra continua a ser lida e estudada, mantendo viva a memória de um escritor que soube retratar com sensibilidade e crítica a realidade brasileira.

Poemas

3

Morte de mãe

.1.
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)

Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)

E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava

e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
 

.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza

Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza

Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:

agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade


.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó

Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga

Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo

Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra


.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe

E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda

Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos

Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
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Manhã

Os galos disputando a alvorada
o retorno dos pés para as sandálias
o espelho que me olha e sempre cala
a pia minha mais gentil criada

Fogão com seu milagre que não falha
armário com modéstia tão calada
perto da geladeira dedicada
a resmungar tanto quanto trabalha

O céu a me espiar pelas janelas
novidades florindo no jardim
formigas a cuidar da vida delas

Sangrando sol varrendo as amarguras
sem pesadelos nem sonhos enfim
cada manhã me pare e inaugura
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Milagres

O milagre da uva
virar vinho
e o vinho virar
vinagre

O milagre da flor
virar semente
e a semente virar
uma baita árvore

O milagre das pedras
sua lenta vida
rocha virando areia

E o milagre dos astros
o universo tecido
de órbitas e estrelas.
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Comentários (1)

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Piero Dela Francesca
Piero Dela Francesca

Poesia modernista... Não sei como pode alguém gostar dessa coisa incompreensível...