Egito Gonçalves

Egito Gonçalves

1920–2001 · viveu 80 anos PT PT

Egito Gonçalves foi um poeta, contista e ensaísta angolano, figura proeminente da literatura africana de língua portuguesa. Sua obra, marcada por um forte engajamento social e político, aborda temas como a identidade africana, o colonialismo, a luta pela liberdade e a busca por um futuro digno para o seu povo. Com uma linguagem poética poderosa e evocativa, Egito Gonçalves deixou um legado significativo na literatura de Angola e de outros países lusófonos.

n. 1920-04-08, Matosinhos · m. 2001-01-29, Porto

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Pedra de Fecho

Sobre o presente escrevo. Raspo
a caliça do invólucro, tento
atingir o cerne emparedado.

Sobe até mim a esperança de supor
que serei ininteligível
aos leitores do futuro.

Penso que acreditarão mórbida
a minha "fantasia". Não poderão
entender este gosto de saliva
e veneno; esta floração
de artérias abertas sob a raiva.

Pensarão: "Que pavores o povoaram?
Como acreditar na falta de saúde
do tempo que descreve? Aceitaremos
este emissário da dor, este vazio
febril das mãos que estende?

Entre o papel e a luz escrevo
das moedas do agora. Pressagio
que não entenderão, que não serão
raros braços a arder os clarões na noite.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Egito Gonçalves, cujo nome completo era Eugénio António Gonçalves, foi um escritor angolano, reconhecido como um dos importantes nomes da literatura de Angola e da lusofonia africana. Nasceu em Luanda, Angola, e dedicou sua vida à arte e à causa da libertação de seu país. Sua obra é escrita em língua portuguesa e reflete profundamente o contexto histórico e cultural de Angola.

Infância e formação

Egito Gonçalves teve uma infância e juventude marcadas pela realidade do colonialismo português em Angola. Essa vivência moldou sua visão de mundo e sua consciência política, servindo como um catalisador para sua posterior produção literária. Sua formação, embora não detalhada em termos académicos específicos, foi enriquecida pela sua imersão nos debates culturais e políticos da época.

Percurso literário

O percurso literário de Egito Gonçalves está intrinsecamente ligado ao seu ativismo político e à luta pela independência de Angola. Foi um dos fundadores do Movimento dos Escritores Angolanos (MEA) e participou ativamente na produção de obras que refletiam as aspirações de liberdade e autodeterminação de seu povo. Publicou poemas, contos e ensaios, contribuindo para a consolidação de uma literatura nacional angolana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Egito Gonçalves, que inclui poemas como "Tempo de Luta" e "O Fogo e a Cinza", e contos que retratam a vida em Angola, é caracterizada por um forte tom de denúncia social e política. Os temas centrais são o colonialismo, a exploração, a identidade africana, a resistência e a esperança em um futuro livre. Seu estilo poético é vigoroso, direto e muitas vezes carregado de simbolismo, utilizando uma linguagem que evoca a força da terra e a resiliência do povo angolano. A sua escrita reflete uma profunda preocupação com a justiça social e a dignidade humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Egito Gonçalves viveu e escreveu durante o período de luta pela independência de Angola. Ele foi uma figura ativa no contexto cultural e político de seu tempo, participando de movimentos que visavam a emancipação cultural e política do país. Sua obra dialoga diretamente com os acontecimentos históricos, servindo como um testemunho literário da luta contra o colonialismo e da construção da identidade nacional angolana. Pertenceu a uma geração de escritores que viram na literatura uma arma para a transformação social.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Egito Gonçalves dedicou grande parte de sua vida à causa da independência de Angola, o que naturalmente influenciou sua trajetória pessoal e profissional. Suas convicções políticas e seu compromisso com a justiça social foram pilares de sua existência e de sua obra literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Egito Gonçalves é reconhecido como um dos importantes vultos da literatura angolana. Sua obra é valorizada pela sua autenticidade, pelo seu engajamento e pela sua capacidade de dar voz às aspirações de um povo. É considerado um autor fundamental para a compreensão da história e da cultura de Angola.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Egito Gonçalves foi influenciado pela literatura de protesto e pela necessidade de expressão de uma identidade nacional emergente. Seu legado reside na sua contribuição para a afirmação de uma literatura africana de expressão portuguesa, que aborda as questões da colonização e da identidade com profundidade e paixão. Influenciou gerações de escritores angolanos a utilizarem a arte como ferramenta de luta e de afirmação cultural.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Egito Gonçalves é frequentemente analisada sob a ótica do seu forte componente político e social. Críticos destacam a sua capacidade de traduzir a realidade angolana em linguagem poética, denunciando as injustiças e exaltando a dignidade do povo africano.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Egito Gonçalves foi um intelectual multifacetado, atuando também como crítico literário e promotor cultural. Sua obra é um reflexo de sua profunda paixão por Angola e pelo seu povo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Egito Gonçalves faleceu, mas sua memória perdura através de sua obra literária, que continua a ser estudada e a inspirar pela sua força e pelo seu testemunho histórico e cultural.

Poemas

7

Pedra de Fecho

Sobre o presente escrevo. Raspo
a caliça do invólucro, tento
atingir o cerne emparedado.

Sobe até mim a esperança de supor
que serei ininteligível
aos leitores do futuro.

Penso que acreditarão mórbida
a minha "fantasia". Não poderão
entender este gosto de saliva
e veneno; esta floração
de artérias abertas sob a raiva.

Pensarão: "Que pavores o povoaram?
Como acreditar na falta de saúde
do tempo que descreve? Aceitaremos
este emissário da dor, este vazio
febril das mãos que estende?

Entre o papel e a luz escrevo
das moedas do agora. Pressagio
que não entenderão, que não serão
raros braços a arder os clarões na noite.

1 767

O Fósforo na Palha

Aos meus olhos
a cidade organiza
a sua tristeza.

Uma cintura aperta
a asfixia.
Um furo mais.

Um riso eleva-se
e sou eu que rio
sou eu que amo.

Auxilio a cidade
a suportar.
Um furo menos.

Não há pedras bastantes
para o nosso túmulo.
1 691

Cadernos de Poesia

Difícil é esperar
quando nada sabemos
nada haver a esperar.

O eco de uma lágrima não basta
para dar vento à sementeira

1 763

Noticias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos — contrabando — aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
— único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos do silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
e segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os viveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

1 627

Sitiados

Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.

1 712

Os Vegetantes

Continuam aqui
roendo as unhas!

Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.

Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistem à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do mais inútil.

Curvam ao solo os ombros
escorjados; curvam-nos para
duradouras urtigas, seixos
sem horizontes, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.

Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
"É a vida!". Sementes violadas
não germinam.

Em vão os bombardeiros os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressaca.

E fazem do amor essa triste umidade,
um delíquio formal logo amortalhado.

São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.

1 562

Sobre os Poemas

1
Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.

Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?

Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.

Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.

2
Tal a "Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos"...
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.

Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.

3
Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.

Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
tênue tinta azul no papel claro ...

Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.

4
Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.

Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.

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