Lista de Poemas

Recordação de uma noite de verão

Do alto do céu um anjo enraivecido
tocou o alarme para a terra triste.
Endoidaram cem jovens pelo menos,
caíram pelo menos cem estrelas,
pelo menos cem virgens se perderam:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Nossa velha colméia pegou fogo,
nosso potro melhor quebrou a pata,
os mortos, no meu sonho, estavam vivos
e Burkus, nosso cão fiel, sumiu,
nossa criada Mári, que era muda,
esganiçou de pronto uma canção:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Os ninguéns exultavam de ousadia,
os justos encolhiam-se e o ladrão,
mesmo o mais tímido, roubou então:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Sabíamos da imperfeição dos homens,
de suas grandes dívidas de amor:
mas era singular, ainda assim,
o fim de um mundo que chegava ao fim.
Jamais tão zombeteira esteve a lua
e nunca foi menor o ser humano
do que foi nessa tal noite em questão:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Perversamente em júbilo, a agonia
sobre todas as almas se abatia,
os homens imbuíram-se do fado
recôndito de cada antepassado
e, rumo a bodas de um horror sangrento,
seguia embriagado o pensamento,
o altivo servidor do ser humano,
este, por sua vez, mero aleijão:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Pensava então, pensava eu, todavia,
que um deus negligenciado voltaria
à vida para me levar à morte,
mas eis que vivo e ainda sou o mesmo
no qual me converteu aquela noite
e, à espera desse deus, recordo agora
uma só noite mais que aterradora
que fez um mundo inteiro soçobrar:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
(tradução de Nelson Ascher, publicada originalmente na revista Dicta & Contradicta).
:
Emlékezés egy nyár-éjszakára
Az Égbol dühödt angyal dobolt
Riadót a szomoru Földre,
Legalább száz ifjú bomolt,
Legalább száz csillag lehullott,
Legalább száz párta omolt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt,
Kigyúladt öreg méhesünk,
Legszebb csikónk a lábát törte,
Álmomban élo volt a holt,
Jó kutyánk, Burkus, elveszett
S Mári szolgálónk, a néma,
Hirtelen hars nótákat dalolt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
Csörtettek bátran a senkik
És meglapult az igaz ember
S a kényes rabló is rabolt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
Tudtuk, hogy az ember esendo
S nagyon adós a szeretettel:
Hiába, mégis furcsa volt
Fordulása élt s volt világnak.
Csúfolódóbb sohse volt a Hold:
Sohse volt még kisebb az ember,
Mint azon az éjszaka volt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
Az iszonyúság a lelkekre
Kaján örömmel ráhajolt,
Minden emberbe beköltözött
Minden osének titkos sorsa,
Véres, szörnyu lakodalomba
Részegen indult a Gondolat,
Az Ember büszke legénye,
Ki, íme, senki béna volt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
Azt hittem, akkor azt hittem,
Valamely elhanyagolt Isten
Életre kap s halálba visz
S, íme, mindmostanig itt élek
Akként, amaz éjszaka kivé tett
S Isten-várón emlékezem
Egy világot elsülyeszto
Rettenetes éjszakára:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
.
.
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Identificação e contexto básico

Endre Ady nasceu em Érmindszent (atualmente Cămin, Romênia), em 1877, e faleceu em Budapeste, Hungria, em 1919. Utilizou o seu nome de batismo como pseudónimo principal. A sua origem familiar era de pequena nobreza rural, mas em contexto de dificuldades financeiras, e a sua formação inicial ocorreu numa Hungria em transformação, sob o Império Austro-Húngaro, um período de fortes tensões sociais, políticas e culturais, com um crescente nacionalismo e debates sobre a identidade húngara.

Infância e formação

Ady passou a infância numa família modesta, mas com aspirações. Frequentou o ensino secundário em Debrecen e Zilah, onde começou a manifestar interesse pela literatura e pelo jornalismo. Estudou Direito em Budapeste, mas a sua verdadeira paixão era a escrita. As suas leituras iniciais foram influenciadas pela literatura clássica húngara e europeia, bem como pelas ideias sociais e políticas do seu tempo. Absorveu influências do simbolismo francês e de outras correntes modernistas europeias.

Percurso literário

O início da sua carreira literária deu-se no jornalismo, onde trabalhou como repórter e editor. A sua poesia começou a ganhar destaque com a publicação de "Új versek" (Novos Poemas) em 1906, um marco na poesia húngara moderna. A sua obra evoluiu ao longo de várias fases, refletindo as suas experiências pessoais, as suas crises e a sua visão do mundo. Colaborou ativamente com diversas revistas literárias e culturais, tornando-se uma figura central no círculo modernista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Ady incluem "Új versek" (1906), "Vér és arany" (Sangue e Ouro, 1907), "Az Illés szekerén" (No Carro de Elias, 1908), "Szeretném, ha szeretnének" (Gostaria de ser Amado, 1909), "A Minden-Titkok Verselője" (O Poeta de Todos os Segredos, 1910) e "A halottak élén" (Na Frente dos Mortos, 1918). Os temas dominantes na sua poesia são o amor (frequentemente atormentado e apaixonado), a morte (vista como uma presença constante e inexorável), a pátria (com um sentimento complexo de amor e crítica), a espiritualidade (uma busca atormentada por Deus e pelo sentido da vida), a decadência, a solidão e o eu lírico. Em termos de forma, Ady inovou radicalmente a poesia húngara. Abandonou muitas das formas métricas tradicionais em favor do verso livre, explorando uma musicalidade própria e um ritmo intenso. Os seus recursos poéticos incluem metáforas ousadas e muitas vezes chocantes, imagens poderosas e um uso expressivo do simbolismo. O tom da sua voz poética é frequentemente confessional, apaixonado, elegíaco, mas também profético e por vezes irónico. A linguagem é densa, imagética e carregada de uma forte carga emocional. Introduziu inovações temáticas e formais que romperam com a tradição, abrindo caminho para o modernismo. Ady é frequentemente associado ao simbolismo e ao modernismo húngaro, sendo considerado um dos seus maiores expoentes. As suas obras menos conhecidas incluem poemas dispersos e manuscritos que foram publicados postumamente.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ady viveu e escreveu num período de grande efervescência cultural e política na Hungria, marcado pelo nacionalismo, pela questão das minorias e pelas tensões sociais que precederam a Primeira Guerra Mundial. A sua obra dialogou intensamente com estes acontecimentos, refletindo a angústia e as contradições do seu tempo. Foi uma figura central no círculo intelectual conhecido como "Nyugat" (Oeste), um movimento literário modernista fundamental. A sua posição política era complexa, tendendo para o liberalismo e criticando a rigidez do sistema aristocrático e conservador. A sua poesia capturou a alma de uma nação em crise de identidade, confrontando-a com as suas próprias contradições.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Ady foi marcada por paixões intensas, crises existenciais e problemas de saúde. As suas relações amorosas, nomeadamente com a sua musa e companheira Léda (Adél Brüll), foram uma fonte crucial de inspiração e tormento para a sua poesia. As suas amizades no círculo "Nyugat" foram importantes, embora também houvesse rivalidades. Sofreu de sífilis, doença que contribuiu para a sua deterioração física e mental, e que também se reflete na sua obra. Não viveu apenas da poesia, tendo tido uma carreira jornalística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Ady foi uma figura controversa, admirado por uns e criticado por outros pela sua modernidade e pela sua ousadia. Após a sua morte, o seu lugar como um dos maiores poetas húngaros foi solidificado. Recebeu algum reconhecimento, mas foi o reconhecimento póstumo que o consagrou como um pilar da literatura húngara moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ady foi influenciado por poetas simbolistas franceses como Baudelaire e Verlaine, e pela poesia alemã. Por sua vez, influenciou profundamente as gerações posteriores de poetas húngaros, abrindo novos caminhos para a expressão poética e a exploração da subjetividade. A sua entrada no cânone literário húngaro é inquestionável. A sua obra foi traduzida para várias línguas, contribuindo para a sua difusão internacional.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ady tem sido objeto de inúmeros estudos e interpretações, abordando a sua complexidade temática, a sua inovação formal e a sua profundidade psicológica. As suas reflexões sobre a identidade húngara e a condição humana continuam a ser temas de debate e análise crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ady era conhecido pelo seu temperamento impulsivo e apaixonado. A sua relação com Léda foi uma das mais intensas e dramáticas da sua vida. Seus hábitos de escrita envolviam longas horas de trabalho, muitas vezes noturnas. Seus manuscritos e correspondência são valiosos para o estudo da sua obra e vida.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Endre Ady faleceu em Budapeste em 1919, aos 42 anos, vítima de pneumonia, agravada pela sífilis. As suas publicações continuaram após a sua morte, com a recolha e edição dos seus poemas e escritos. A sua memória é celebrada como a de um poeta revolucionário que transformou a literatura húngara.