Lista de Poemas

Objecto-Casa

O objecto deste poema é aquela casa em frente
           6 meses
           3 meses
           um telhado para colocar.

O objecto são umas quatro paredes
           lentas
           penosas
           6 meses ou mais – quem sabe?

           Pelas quartas-feiras
           Uma carga de tijolo,
uma caixa grande de vidros de cor,
três centos de pregos,
para um homem lentamente habitar.

O objecto deste poema
           é a lentidão sagrada do construir
           da casa sita em frente da minha janela.

O objecto é o mistério da renovação do tempo.

O objecto é a quase realização
           um telhado para colocar
           6 meses
           3 homens
           uma habitação para cá do infinito.


Antologia para Iniciantes, Porto, Editora Ausência, 2003

702

Hermafrodita

De Hermes e de Afrodite o filho esbelto e amado,
de Salmacis oscula o corpo melodioso,
e a ninfa treme e ondeia o moço deslumbrado,
com um prazer que chega até a ser doloroso...

Ela – dócil, a arfar, como, ao vento, as searas...
Ele – forte, a arquejar, como, com cio, um touro...
O cabelo da ninfa inunda as duas caras,
e há beijos musicais sob essa chuva de ouro...

Enleandos um ao outro, a asa de uma mosca
não caberia não! entre esses corpos belos,
que se enroscam, sensuais, febris, como se enrosca
no tronco a vide em flor, e a hera nos castelos.

Dos dois corpos a união, entre lascivos ais,
cada vez, cada vez se torna mais completa,
e aquelas coxas cada vez se agitam mais:
uma brancas, de luar, outras rijas, de atleta...

Num doido frenesi, entrar parecem querer
ela – no corpo dele, ele – no corpo dela!
Choram, gemem, dão ais... e no auge do prazer,
começam a gritar para o céu que se estrela:

– «Ó deuses! atendei esta súplica ardente:
se é verdade que ouvis as vozes que vos chamam,
os nossos corações, fundi-os num somente,
fundi num corpo só nossos corpos que se amam!»

Chegou ao vasto Olimpo a rogativa louca;
e Zeus, o grande Zeus, cuja força é infinita,
as duas bocas transformou numa só boca,
e dos dois corpos fez um só: HERMAFRODITA!

1 780

Mais difícil é falo

mais difícil é falo
que falá-lo

mais difícil é língua
do que lua

mais difícil é dado
do que dá-lo

mais difícil vestida
do que nua

mais fácil é o aço
do que achá-la

mais fácil é dizê-la
que contê-la

mais fácil é mordê-la
que comê-la

mais fácil é aberta
do que certa

nem difícil nem fácil

nem aó nem licor
nem dito nem contacto
nem memória de cor

só mordido só tido
só moldado só duro
só molhada de escuro
só louca de sentido

fácil de falá-lo
difícil de contê-lo
o melhor é calá-lo
o melhor é fodê-lo

1 505

Cara lh ama

amam-no todos
uns porque o têm
bem colocado e ereto
outros porque a foda
sem ele não bate certo

e se o nariz não chega
e os dedos se dispersam
só ele é que é capaz
de entrar todo na toda
discreto e bom rapaz

e os tristes que o não têm
amam-no doutra maneira
distantes e macios
não sabem se se vêm
ou se é só caganeira

1 157

Orgassema

de semântica sêmea
se insinua o sêmen
na lacona lagoa lacunar
e da sádica sede se ressente
o sentido
no sentido cunar.

se sádica ou sábia
quem o saberá?
Se salubre salgado
o teu sabor a odre
é a onda do útero
é terra que remorde
a espera de esperma
nas ásperas paredes.

e o significado vem
da fricção rítmica e formal
entre as mucosas rubras
do pênis, da vulva, da boca
ou da anal.

1 314

Cometa

cometa
meta no cu
a treta
da baioneta
na teta
ponha o peru
na
porra preta
punheta
meta no cu
o cometa

1 358

Enquanto um dedo esmaga

enquanto um dedo esmaga
uma curva ou um aro
outros dedos distendem
os tendões que entendem

no súbito na água
a luz vértice faro
os membros que se fendem
lábios que dizem rendem

quem diz cu diz a cona
em masculino estilo
as procuradas fendas afluentes

que no homem se excluem
na fêmea se completam
delta logo de lagos mijo nilo

1 056

Os erros de Eros

Eros olha o espelho e vê narciso arder
nas tetas insufladas um diabo qualquer
prolonga a se fusão do orgasmo

meus erros são meus erros
aqui presentes todos
nesta escrita de pernas
os penetro de fodas
circulares

que inadequados ais
ou dúvidas se alinham
nas sevícias venais
dos polícias que tinham

1 145

Colhe os colhões a boca

colhe os colhões a boca
o barco a flor o mastro
a língua louca louca
o astro glande monstro

que a água que mostro
laiva o sabor do ouro
álcool que vem do mosto
leite que sabe a louro

pêlo de pele colhida
jeito informe que pica
alga onda comprida
que treme e foge e fica

colhe no ar e foge
a árvore da vida

1 489

Autobiografia fenómeno-F(re)udiana

fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro

só não fui é paneleiro

fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro

só não fui é paneleiro

fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro

só não fui é paneleiro

fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro

só não fui é paneleiro

trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro

só não fui é paneleiro

e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro

só não sou é paneleiro.

1 270

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Identificação e contexto básico

Ernesto de Melo e Castro (1932-2019) foi um poeta, professor e ensaísta português, uma figura central na renovação da poesia em Portugal, especialmente no campo da poesia visual e concreta. Pseudónimo: E.M.C. Nasceu em São Romão de Arões, Vale de Cambra. A sua obra é escrita em português.

Infância e formação

Nascido em 1932, Melo e Castro teve uma infância marcada pelas experiências comuns a muitos portugueses da época. A sua formação académica incluiu estudos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e na Universidade de Lisboa. Desde cedo, demonstrou um interesse profundo pela linguagem e pelas artes, o que o levaria a explorar caminhos menos convencionais na poesia.

Percurso literário

O percurso literário de Ernesto de Melo e Castro começou a ganhar forma a partir da década de 1950, mas foi nas décadas seguintes que a sua experimentação se consolidou. Foi um dos fundadores do movimento Poesia 61, um marco na modernização da poesia portuguesa. Mais tarde, destacou-se como pioneiro da poesia visual e concreta em Portugal, explorando a dimensão gráfica e espacial da palavra. Colaborou ativamente em diversas publicações e antologias, tanto nacionais como internacionais, e também exerceu a crítica literária e artística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Melo e Castro é vasta e diversificada, abrangendo poesia, prosa, ensaio e crítica. As suas obras principais incluem "Obra Poética" (1972), "Poesia Concreta" (1973), "O Fio da Palavra" (1981) e "Poesia Visual" (1996). Os temas abordados são variados, indo da reflexão sobre a linguagem e a comunicação à crítica social e existencial. A sua característica mais distintiva é a experimentação com a forma poética, utilizando a palavra como elemento visual e sonoro. O verso livre e a exploração de novas estruturas são recorrentes, assim como o uso da metáfora e do ritmo para criar efeitos singulares. O tom da sua poesia pode variar entre o lírico, o conceptual e o lúdico. A sua linguagem é inovadora, muitas vezes desconstruindo a sintaxe e o significado tradicional. Melo e Castro introduziu em Portugal as tendências da poesia concreta e visual, influenciado por movimentos internacionais. Está associado ao Modernismo e a correntes de vanguarda.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ernesto de Melo e Castro viveu e produziu a maior parte da sua obra num período de grandes transformações em Portugal, incluindo o final da ditadura do Estado Novo e a transição para a democracia. Foi um dos intelectuais que impulsionou a renovação cultural e artística do país. Fez parte de uma geração de poetas que procurava romper com as tradições literárias e abraçar as novas linguagens artísticas do século XX. A sua posição política e filosófica era, em geral, progressista e voltada para a liberdade de expressão e a experimentação.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ernesto de Melo e Castro foi também professor universitário, dedicando parte da sua vida ao ensino e à divulgação da literatura e da arte. As suas relações pessoais e os seus contactos com outros artistas e escritores foram fundamentais para a troca de ideias e para a consolidação dos movimentos artísticos em que esteve envolvido. A sua paixão pela arte e pela palavra moldou profundamente a sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Ernesto de Melo e Castro como um dos grandes inovadores da poesia portuguesa cresceu consideravelmente ao longo do tempo. Recebeu diversos prémios e distinções pela sua obra literária e artística. A sua poesia visual e concreta é estudada em universidades e centros de arte, consolidando o seu lugar no cânone da literatura portuguesa e internacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Melo e Castro foi influenciado por poetas concretos internacionais como Eugen Gomringer e pelos movimentos de vanguarda do século XX. Por sua vez, o seu trabalho influenciou gerações de poetas, artistas visuais e designers em Portugal e no estrangeiro. O seu legado reside na abertura de novos caminhos para a poesia, mostrando que a palavra pode ser explorada para além das suas fronteiras convencionais. A sua obra é objeto de estudo académico e tem sido difundida internacionalmente.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Melo e Castro convida a uma análise crítica que explore a intersecção entre literatura e artes visuais, a desconstrução da linguagem e a crítica aos sistemas de comunicação. As suas reflexões sobre a polissemia da palavra e a sua capacidade de evocar múltiplos sentidos são centrais nas interpretações da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Melo e Castro é a sua habilidade em transitar entre diferentes disciplinas artísticas, demonstrando uma visão integrada da arte. Os seus poemas visuais frequentemente contêm mensagens ocultas ou críticas sociais subtis, que só se revelam numa observação atenta.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ernesto de Melo e Castro faleceu em 2019, deixando um legado imenso para a arte e a literatura portuguesas. A sua memória é celebrada através de exposições, publicações e estudos que continuam a explorar a sua obra inovadora e o seu impacto duradouro.