Lista de Poemas

XXVI

Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.

(...)

Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
596

LENÇO DE DISTÂNCIAS

Batem contra o solo os cascos dos alazões.
Impacientes, querem retesar mais uma vez
as cordas do corpo desse alferes,
o tal de Tiradentes. Amanheceu.
O verdeprimo pio do nambu madureceu
sob o ronco aterrador do trovão.
Choveu e estiou na estação. Qual?
Alguém lavrou e plantou. Nada se colheu?
Há tempo e não há tempo em teus átrios,
tua rude canção, tua faina nas auroras,
tua indizível, absconsa inquietação.
Uma casa, um pote de água fresca,
um coração. Eu te mando este cartão postal
e te aceno com meu lenço de distâncias,
branco de adeus e resignação.
Eu parto e permaneço. Estás e estiveste.
É na marra que me desvencilho
de tuas saúvas, de tuas cigarras,
de tuas lavras, de teu gado nubente,
de tuas águas trancadas, de tuas coivaras de milho.

Pátena e cálix, diamante, melro, arrozal.
Estão submersos os teus homens,
as dadivosas, graciosas e florais mulheres,
os prestos meninos e as pudicas meninas.
Emersos, para teu uso exclusivo, só os adjetivos.

Nas águas abissais desse teu mar
inda florescem oiro e cafezais; há séculos
um estigma de dor rui e rói o teu futuro.
Entanto, tu te ofertas à eternidade, condenada
a ficar cifrada em teu próprio ato de inquisição.

Milenar, vetusta, defesa à invasão
e à morada, ó minha Minas sitiada!
São Paulo, Boston, Lisboa, Tóquio,
aí vão os teus filhos evadidos.
De tuas vidas, de teus óbitos,
não existe assento nos tabeliães.
Tuas possessões atestam que em ti
ninguém morre e nada medra.

Na pedra que tu és a vida se anulou
com medo.
Esse o teu único segredo.
727

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Erorci Santana é um poeta brasileiro cuja obra se insere no panorama da poesia contemporânea. A sua nacionalidade e língua de escrita é o português.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Erorci Santana não estão amplamente disponíveis na esfera pública, mas o seu percurso literário sugere uma forte inclinação para a reflexão filosófica e a sensibilidade estética.

Percurso literário

O percurso literário de Erorci Santana é marcado pela publicação de obras que exploram a profundidade da experiência humana. A sua escrita evolui num diálogo constante com as grandes questões existenciais, utilizando a poesia como veículo para a introspeção e a expressão lírica.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Erorci Santana caracteriza-se por um lirismo introspectivo e uma linguagem cuidada. Os temas predominantes incluem o amor, a efemeridade da vida, a solidão e a busca por significado. Utiliza frequentemente o verso livre, explorando a musicalidade e o ritmo para criar uma atmosfera contemplativa. A voz poética é, muitas vezes, confessional e universal, tocando em sentimentos que ressoam com a experiência humana em geral. O seu estilo pode ser associado a uma sensibilidade contemporânea, que dialoga com a tradição mas se aventura por caminhos de reflexão pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Erorci Santana insere-se no contexto cultural brasileiro contemporâneo, um período marcado por rápidas transformações sociais e tecnológicas, que inevitavelmente se refletem nas sensibilidades artísticas. A sua poesia dialoga com as inquietações de uma época de incertezas e questionamentos existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Erorci Santana que possam ter moldado a sua obra não são de conhecimento público generalizado. No entanto, a introspecção presente nos seus versos sugere uma forte ligação com o mundo interior e as suas complexidades.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Erorci Santana advém da qualidade lírica e da profundidade temática da sua obra, conquistando leitores que se identificam com a sua exploração da condição humana. A receção crítica tende a destacar a maturidade poética e a singularidade da sua voz.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam explicitamente detalhadas, a obra de Santana sugere uma familiaridade com a tradição lírica e uma sensibilidade para com os poetas que exploram a interioridade e a dimensão existencial. O seu legado reside na capacidade de tocar o leitor com a beleza e a sinceridade dos seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Erorci Santana convida a uma análise crítica que se debruça sobre a sua exploração da melancolia, da finitude e da beleza efémera da existência. As suas reflexões sobre o amor e a passagem do tempo oferecem um espelho para as próprias inquietações do leitor.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida ou do processo criativo de Erorci Santana não são amplamente divulgadas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até ao momento, não há registos de falecimento de Erorci Santana, indicando que a sua produção literária continua ativa ou que a sua memória é preservada através das suas obras publicadas.