Lista de Poemas

NUMA CARTA NÃO ESCRITA

Por um formigueiro de auroras, por uns poucos
arames em que se prende
a lá da vida e se enrola
em horas, anos, hoje os golfinhos aos pares
cabriolam com as crias? Oh que eu não ouça
nada de ti, que eu fuja ao fulgor
da tua fronte. É diferente na terra.

Desaparecer não sei, nem tornar a olhar; tarda
a fornalha vermelha
da noite, a tarde se faz longa,
a súplica é suplício e não ainda
entre as rochas que afloram te chegou
a garrafa do mar. A onda vazia
quebra-se contra o cabo em Finisterra.

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VENTO NO CRESCENTE

A grande ponte não levava a ti.
Procurar-te-ia mesmo navegando
pelos esgotos a uma ordem tua.
Mas com o sol nos vidros das varandas
a minha força declinava já.

Um homem que prègava no Crescente
pergunta: Sabe onde está Deus? Sabia,
logo lhe disse. Abanou a cabeça,
mas foi no turbilhão que homens e casas
levava e levantava no negrume.

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Identificação e contexto básico

Eugenio Montale foi um poeta, jornalista, tradutor e crítico literário italiano. Nasceu em Génova, Ligúria, Itália, e faleceu em Milão. É amplamente considerado um dos maiores poetas italianos do século XX e um dos principais representantes da poesia europeia daquele período. Foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1975. Escreveu em língua italiana.

Infância e formação

Montale teve uma infância marcada pela saúde frágil e por uma educação que lhe permitiu desenvolver um amor precoce pela literatura e pela natureza. Recebeu uma educação humanística, embora tenha abandonado os estudos formais em filosofia aos 14 anos, dedicando-se ao autodidatismo, especialmente em literatura e línguas estrangeiras. Foi fortemente influenciado pela paisagem da Ligúria, pela filosofia e pela música.

Percurso literário

O seu percurso literário começou a ganhar forma na década de 1920, com a publicação do seu primeiro livro de poemas, *Ossi di seppia* (Ossos de sépia), em 1925. Este livro marcou o início da sua voz poética distintiva. Ao longo das décadas, publicou outras obras importantes como *Le occasioni* (As ocasiões) e *La bufera e altro* (A tempestade e outras coisas), consolidando o seu estilo e a sua visão do mundo. Além da poesia, foi um ativo jornalista, crítico literário e tradutor, colaborando com diversas publicações.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Montale incluem *Ossi di seppia*, *Le occasioni*, *La bufera e altro*, e *Satura*. Os temas dominantes na sua poesia são a incomunicabilidade, o mal de viver, a passagem do tempo, a memória, a natureza (especialmente a paisagem agreste da Ligúria), a ausência de sentido e a procura por um "milagre" ou uma epifania que possa revelar um significado oculto. O seu estilo é caracterizado pela objetividade das imagens, pelo uso de "correlativos objetivos" (coisas concretas que evocam estados de espírito), pela musicalidade contida e por um tom frequentemente elegíaco e anti-retórico. Utiliza tanto o verso livre como formas mais tradicionais. A sua linguagem é precisa, densa e ambígua, exigindo uma leitura atenta. Montale é frequentemente associado ao Hermetismo, um movimento literário italiano que valoriza a linguagem poética densa e evocativa, embora a sua obra transcenda esta classificação.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Montale viveu num período turbulento da história italiana, incluindo o fascismo, a Segunda Guerra Mundial e a reconstrução pós-guerra. A sua poesia reflete a angústia existencial e a desilusão de um homem perante um mundo em crise. Foi um intelectual crítico em relação ao regime fascista, tendo assinado o "Manifesto degli intellettuali antifascisti" de Benedetto Croce. Integrou-se em círculos literários e intelectuais, mas manteve sempre uma postura de independência e distanciamento.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Montale teve uma vida marcada pela discrição. As suas relações afetivas, especialmente o amor por Drusilla Tanzi (que viria a ser sua esposa e a quem chamava "Mosca"), tiveram um papel importante na sua poesia. A sua profissão como jornalista e crítico permitiu-lhe manter-se economicamente, embora a poesia fosse a sua verdadeira vocação. A sua postura política foi sempre de antifascismo discreto mas firme.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Montale foi gradual, mas consolidou-se ao longo das décadas, culminando com o Prémio Nobel da Literatura em 1975. Em vida, foi amplamente celebrado como um dos grandes poetas da sua geração, com a sua obra a ser estudada e admirada pela sua profundidade e originalidade. A sua popularidade não foi a de um poeta de massas, mas sim a de um mestre da palavra e do pensamento.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Montale foi influenciado por poetas como Dante, Leopardi e por autores franceses como Baudelaire e Mallarmé. A sua obra, por sua vez, influenciou profundamente gerações posteriores de poetas italianos e europeus, que encontraram na sua poesia um modelo de rigor estético e de profundidade existencial. É um poeta incontornável no cânone literário italiano e mundial. A sua obra tem sido extensivamente traduzida e estudada.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Montale é frequentemente analisada como uma exploração da condição humana na modernidade, marcada pela incerteza, pela dor e pela dificuldade de comunicação. As suas "correlativos objetivos" são vistos como chaves para desvendar as suas inquietações existenciais. Os críticos debatem a sua relação com o Hermetismo e o seu papel como "poeta civil" ou "poeta metafísico".

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Montale era conhecido pela sua elegância discreta e pelo seu humor subtil. Tinha um grande apreço pela música, especialmente por compositores como Bach. Era também um observador atento do mundo à sua volta, capturando detalhes da vida quotidiana que se tornavam matéria poética. A sua relação com os animais, em particular com os seus cães, era também um aspeto da sua vida privada.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Eugenio Montale faleceu em Milão em 1981. Após a sua morte, a sua obra continuou a ser publicada, estudada e admirada. A memória de Montale é a de um dos pilares da poesia moderna, um mestre da palavra que soube expressar as complexidades do espírito humano num dos períodos mais difíceis da história.