Joseph Brodsky

Joseph Brodsky

1940–1996 · viveu 55 anos RU RU

Joseph Brodsky foi um poeta e ensaísta russo-americano, laureado com o Prémio Nobel da Literatura. A sua obra é marcada pela erudição, pela complexidade formal e pela profunda reflexão sobre temas como a exilância, o tempo, a memória e a condição humana. A sua poesia, frequentemente densa e desafiadora, dialoga com a tradição literária russa e ocidental, explorando as ambiguidades da linguagem e a busca por significado num mundo em constante mutação. A sua vida, atravessada pelo exílio e pela oposição ao regime soviético, confere uma dimensão autobiográfica e de resistência à sua produção literária.

n. 1940-05-24, São Petersburgo · m. 1996-01-28, Brooklyn

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A Urânia

para I.K.
Tudo tem limite, inclusive a mágoa.
O olhar esbarra na vidraça como a folha na grade.
Podes engolir em seco. Agitar tuas chaves.
A solidão é o homem ao quadrado.
O dromedário franze o cenho ao farejar os trilhos.
O vazio se estende como uma perspectiva infinita.
E afinal o que é o espaço, senão
a ausência de um corpo a cada ponto dado?
Por isso é que Urânia é mais velha que Clio.
De dia, ou à luz de sebosos candeeiros,
veja: ela nada oculta
e, se olhares fixo para o globo, é a sua nuca que verás.
Ei-los, os bosques carregados de mirtilos,
os rios, onde se pode pescar esturjões com a mão,
e as cidades cujos catálogos telefônicos
já não te incluem. Mais para o sul,
melhor dizendo, para sudeste, erguem-se as escuras montanhas,
éguas selvagens correm entre as bétulas
e os rostos amarelecem. Mais adiante, singram os cruzadores
e a amplidão fica azul clarinho como roupa de baixo rendada.
Tradução de Lauro Machado Coelho.Poesia Soviética (São Paulo: Algol Editora, 2007)
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Biografia

Identificação e contexto básico

Joseph Brodsky (em russo: Иосиф Александрович Бродский, Iosif Aleksandrovich Brodsky) foi um poeta e ensaísta russo, naturalizado americano. Nasceu em Leningrado (atual São Petersburgo), União Soviética, a 24 de maio de 1940, e faleceu em Nova Iorque, Estados Unidos, a 28 de janeiro de 1996. Filho de pais judeus de origem russa, cresceu num ambiente marcado pelas memórias da Segunda Guerra Mundial e pela atmosfera cultural e política da União Soviética. Escreveu predominantemente em russo, mas também produziu ensaios e poemas em inglês após o seu exílio. Foi uma figura central na poesia do século XX, distinguindo-se pela sua profunda erudição e pela sua visão crítica da realidade.

Infância e formação

Joseph Brodsky passou a sua infância em Leningrado, numa família de intelectuais. O seu pai, Alexander Brodsky, era fotógrafo e jornalista, e a sua mãe, Maria Volpert, era revisora de textos e atriz. A guerra e o cerco de Leningrado deixaram marcas profundas na sua memória e na sua obra. Brodsky frequentou a escola secundária, mas abandonou os estudos aos 15 anos para trabalhar em empregos precários, como estivador e operador de fábrica, enquanto se dedicava à leitura autodidata e à aprendizagem de línguas (inglês e polaco). Foi influenciado por poetas como T.S. Eliot, W.H. Auden, Konstantín Balmont e Osip Mandelstam, bem como pela filosofia e pela música clássica.

Percurso literário

Brodsky começou a escrever poesia na adolescência. A sua obra inicial já demonstrava um talento invulgar e uma maturidade precoce. No entanto, a sua produção poética e o seu modo de vida divergiam das normas do realismo socialista soviético, o que lhe causou dificuldades com as autoridades. Em 1964, foi acusado de "vadiagem social" e condenado a cinco anos de trabalhos forçados numa quinta remota na região de Arkhangelsk, uma experiência traumática que se reflete em poemas como "Gorbunok" (O Corcunda). Após ser libertado antecipadamente, continuou a escrever e a ser publicado em círculos dissidentes. Em 1972, foi forçado a emigrar da União Soviética e fixou-se em Viena, Áustria, antes de se mudar para os Estados Unidos, onde se tornou professor universitário e um dos mais proeminentes poetas de língua russa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Brodsky caracteriza-se pela sua densidade intelectual, pela riqueza vocabular e pela complexidade estrutural. Explorou temas como o exílio, a perda, o tempo, a memória, a condição humana, a relação entre a arte e a vida, e a busca por identidade num mundo fragmentado. A sua poesia é marcada por um diálogo constante com a tradição literária ocidental e russa, com referências culturais eruditas e uma perspetiva frequentemente irónica e melancólica. Utilizou uma vasta gama de formas poéticas, desde o soneto a formas mais livres, com uma atenção particular à musicalidade do verso e ao ritmo. A sua linguagem é precisa, económica e imagética, capaz de evocar profundos estados de alma e reflexões filosóficas. A sua voz poética é distintamente pessoal, mas transcende o autobiográfico para atingir uma universalidade existencial. As suas obras mais conhecidas incluem "Stikhotvoreniya i poemy" (Poemas e Poemas), "Chast' rechi" (Parte do Discurso) e "Soedinenie dlya odnogo" (Um Dueto para Um).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Joseph Brodsky viveu e escreveu num período de grandes convulsões históricas, nomeadamente a Guerra Fria, a repressão política na União Soviética e a subsequente queda do comunismo. O seu exílio forçado em 1972 marcou profundamente a sua vida e obra, tornando-o um símbolo da resistência à opressão e da liberdade de expressão. Foi contemporâneo de outros grandes poetas russos como Anna Akhmatova e Boris Pasternak, e manteve relações com figuras literárias e intelectuais internacionais, como W.H. Auden e Isaiah Berlin. A sua posição política era de crítica ao totalitarismo e defesa da liberdade individual, embora se mantivesse afastado de qualquer afiliação partidária.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Joseph Brodsky nunca casou nem teve filhos na Rússia. Nos Estados Unidos, casou-se com a bailarina italiana Maria Sozzani em 1977, com quem viveu até ao fim da sua vida. Manteve uma amizade próxima com outros escritores e intelectuais, como o poeta Derek Walcott e o crítico literário John Updike. As suas experiências de exílio e a saudade da pátria, aliadas a uma saúde frágil, marcaram a sua vida pessoal e influenciaram a sua visão do mundo e da arte.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento internacional de Joseph Brodsky culminou com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1987, "pela sua obra poética abrangente, imbuída de clareza de pensamento e intensidade de verso". Foi também laureado com o Prémio Pulitzer de Poesia em 1988 pelo seu livro "City of a Full Moon". A sua obra tem sido amplamente traduzida e estudada em todo o mundo, consolidando o seu lugar como um dos maiores poetas do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Brodsky foi influenciado por poetas como John Donne, Alexander Pope, Robert Frost, T.S. Eliot, W.H. Auden, e pelos poetas russos Mandelstam, Akhmatova e Tsvetaeva. Por sua vez, a sua obra influenciou gerações de poetas em língua russa e inglesa, admirados pela sua mestria formal, profundidade temática e visão existencial. O seu legado reside na sua capacidade de fundir a tradição com a modernidade, de explorar as complexidades da condição humana através de uma linguagem poética rigorosa e de defender a integridade do indivíduo perante as forças da história e da ideologia.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Brodsky é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a condição do homem moderno, marcado pela fragmentação, pelo exílio e pela busca incessante de sentido. As suas reflexões sobre o tempo, a memória e a linguagem convidam a uma análise filosófica profunda sobre a natureza da realidade e da existência. A sua poesia desafia o leitor a confrontar as ambiguidades da vida e a encontrar beleza e significado mesmo na adversidade. A tensão entre a ordem formal e o caos existencial é um tema recorrente na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Brodsky era conhecido pelo seu humor seco e pela sua erudição enciclopédica. Tinha um gosto particular por Shakespeare e por obras de ficção científica. A sua dedicação à poesia era absoluta, e ele descrevia a escrita como uma forma de lidar com o tempo e com a morte. A sua experiência no Gulag, embora traumática, foi também um período de intensa introspeção e amadurecimento poético. Foi um crítico feroz da burocracia e da conformidade, defendendo sempre a individualidade e a integridade artística.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Joseph Brodsky faleceu precocemente aos 55 anos, vítima de um ataque cardíaco. As suas cinzas foram transladadas para Veneza, Itália, um lugar que amava e onde passou muitos momentos felizes. A sua obra continua a ser celebrada e estudada, mantendo viva a sua memória como um dos mais importantes vultos da poesia contemporânea.

Poemas

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A Urânia

para I.K.
Tudo tem limite, inclusive a mágoa.
O olhar esbarra na vidraça como a folha na grade.
Podes engolir em seco. Agitar tuas chaves.
A solidão é o homem ao quadrado.
O dromedário franze o cenho ao farejar os trilhos.
O vazio se estende como uma perspectiva infinita.
E afinal o que é o espaço, senão
a ausência de um corpo a cada ponto dado?
Por isso é que Urânia é mais velha que Clio.
De dia, ou à luz de sebosos candeeiros,
veja: ela nada oculta
e, se olhares fixo para o globo, é a sua nuca que verás.
Ei-los, os bosques carregados de mirtilos,
os rios, onde se pode pescar esturjões com a mão,
e as cidades cujos catálogos telefônicos
já não te incluem. Mais para o sul,
melhor dizendo, para sudeste, erguem-se as escuras montanhas,
éguas selvagens correm entre as bétulas
e os rostos amarelecem. Mais adiante, singram os cruzadores
e a amplidão fica azul clarinho como roupa de baixo rendada.
Tradução de Lauro Machado Coelho.Poesia Soviética (São Paulo: Algol Editora, 2007)
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M.B.

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.
Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.
Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.
Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.
Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.
Tradução de Carlos Leite. Paisagem Com Inundação (Lisboa: Edições Cotovia, 2001).
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Odisseu a Telêmaco

Caro Telêmaco,
encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.

Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.

Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,*
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.


Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Quase uma elegia (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996).

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Anjo

Anjo
Há um anjo branco como algodão que tem estado pendurado, até hoje, na despensa, num cabide de metal. Graças a ele nunca nada de mal, em todos estes anos, me aconteceu — a mim ou, mais importante, à própria casa. O raio é modesto, pode dizer-se, mas a circunferência está bem desenhada. Como não foram criados à nossa imagem e semelhança — são seres incorpóreos —, os anjos possuem apenas cor e velocidade. Esta última permite-lhes estar em toda a parte. É por isso que ainda estás comigo. As asas e as correias dos ombros não precisam de um tronco para funcionar,
nem para apreciar o anonimato ou deixar que o corpo expanda de felicidade o seu diâmetro algures na amena Califórnia.

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