Ferréz

Ferréz

n. 1975 BR BR

Ferréz é um poeta e escritor brasileiro, conhecido por ser um dos expoentes da literatura marginal e da periferia. A sua obra retrata a realidade social e urbana, utilizando uma linguagem direta e acessível que ecoa as vozes e as experiências das comunidades marginalizadas. É também ativista cultural e um importante divulgador da literatura produzida nas periferias.

n. 1975-01-01, São Paulo

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Eu Queria Ter e Ser

Eu queria ter tipo um campo pra jogar com todos os meus amigos.

Eu queria ter tipo uma vida menos corrida.

Eu queria ter uma vida menos confusa.

Eu queria acordar vendo uma cachoeira, todo dia.

Eu queria poder tomar banho nela quando quisesse.

Eu queria poder parar de procurar o amor.

Eu queria poder dormir abraçadinho com alguém.

Eu queria poder morar dentro daquela musica do John Lennon.

Eu queria poder abrir a janela e olhar grandes montanhas forradas de verde.

Eu queria poder dizer que sou feliz.

Eu queria poder dar aula numa escolinha no interior, pra um monte de criança inocente.

Eu queria ter tipo uma mensagem que fizesse as pessoas desistirem de carrões, de grandes sonhos de consumo.

Eu queria ter tipo o poder de convencer que as pequenas coisas são as mais gostosas.

Eu queria ser tipo mais compreensivo.

Eu queria ser tipo mais amigo.

Eu queria ser tipo um morador de uma casinha dentro de um cenário qualquer.

Eu queria ser tipo um menino brincando de Falcon novamente.

Eu queria acordar só mais um dia vendo meu pai e minha mãe juntos.

Eu queria poder dizer a eles que estou indo bem na escola da vida.

Eu queria ter participado mais da vida familiar.

Eu queria ter podido dar mais condições a eles.

Eu queria poder trocar o que conquistei por um único olhar daquela menina.

Eu queria que minhas poesias a conquistassem.

Eu queria que pessoas como o Renato e o Cazuza tivessem tido o que tanto cantavam, o amor.

Eu queria ter conhecido o Plínio Marcos, o João Antônio, o Raul Seixas e o Chico Science.

Eu queria estar escrevendo o que eu queria ter um dia.

Eu queria ter nascido num cenário do Star Wars.

Eu queria ter conhecido a Emilia e o Visconde.

Eu queria ter um poço de pesca pra mim e pros meus amigos.

Eu queria ter tipo um máquina do tempo, para poupar tanto sofrimento.

Eu queria ter uma cabana, com gelo no teto e arvores em volta.

Eu queria nem saber o que é dinheiro.

Eu queria ser tipo um cara conquistador.

Eu queria ter a certeza que conquistadores são felizes.

Eu queria saber cantar.

Eu queria ser tipo um viajante.

Eu queria acordar com um grande café da manhã na minha cama.

Eu queria registrar aquele sorriso naquele dia para sempre.

Eu queria poder saber o que será do meu povo amanhã.

Eu queria poder saber porque ela não conseguiu ficar ao meu lado.

Eu queria saber a fórmula de um grande sucesso.

Eu queria saber porque a fórmula do fracasso é agradar todo mundo.

Eu queria ter um robozinho daqueles de plástico que minha mãe me dava em datas especiais.

Eu queria ver meu pai chegando e fingir que estava dormindo novamente.

Eu queria saber dizer mais coisas agradáveis.

Eu queria que todos comemorassem o Natal de verdade.

Eu queria um dia poder voar como um pássaro.

Eu queria ser tipo uma frota contra o mal.

Eu queria saber o que é o mal.

Eu queria ser tipo um cara em que as idéias valessem algo.

Eu queria ser tipo um cara que deixou algo pra alguém.

Eu queria poder mostrar aquele momento em que o menino dividiu com todo mundo o pão velho que comia numa viela.

Eu queria poder entender como os engravatados podem comer numa mesa onde o almoço é mais caro que o salário da maioria dos brasileiros e mesmo assim dormem tranqüilos.

Eu queria ser tipo um cara ingênuo, a ponto de acreditar em Papai Noel, duendes e na polícia.

Eu queria ser tipo um cara sem insônia, sem gastrite, sem dores tão fortes na alma.

Eu acho que ainda queria ser só um desenhista.

Eu acho que ainda queria ser só alguém num mundo legal.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que não via as coisas como elas eram.

Eu acho que ainda queria ser aquele chato que sempre levantava a mão primeiro na hora das perguntas.

Eu acho que ainda queria ser mais um da turma.

Eu acho que ainda queria brincar de banca de gibis com minha irmã.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que andava de banca em banca procurando aventuras em quadrinhos.

Eu acho que ainda queria ter a esperança boba de achar que poderia fazer a diferença nessa bagunça de mundo.

Eu acho que vou dormir.

Eu também acho que amanhã bem cedo vou procurar realizar pelo menos algo disso tudo, e você o que acha?


Publicada na revista Caros amigos, São Paulo, n. 58, jan. 2002
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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Paulo Eduardo Dias Coelho. Conhecido pelo pseudónimo Ferréz, é um poeta, escritor e ativista cultural brasileiro. Nasceu e vive em São Paulo, onde desenvolveu grande parte da sua carreira literária. É uma figura proeminente da literatura marginal e da literatura periférica brasileira.

Infância e formação

Cresceu na periferia de São Paulo, numa realidade marcada por desafios sociais e económicos. A sua formação foi em grande parte autodidata, absorvendo as experiências do seu meio e utilizando a leitura como ferramenta de conhecimento e expressão. O contexto social da sua infância e juventude foi fundamental para moldar a sua visão de mundo e a sua escrita.

Percurso literário

Começou a escrever poesia na adolescência, como forma de dar voz às suas vivências e às da sua comunidade. Ganhou notoriedade com a publicação de livros de forma independente e através de coletâneas de literatura marginal. Tornou-se um dos nomes mais reconhecidos da chamada "Geração Mimeógrafo", caracterizada pela produção literária artesanal e pela circulação em meios alternativos. Além de poeta, é também contista e romancista, com uma obra que se expandiu para além da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ferréz caracteriza-se pela abordagem de temas como a vida nas periferias, a violência urbana, a desigualdade social, a resistência cultural e a busca por identidade. Utiliza uma linguagem coloquial, direta e muitas vezes crua, que reflete o cotidiano e o universo dos seus personagens. A sua poesia é marcada pelo ritmo, pela oralidade e pela força das imagens que evocam a realidade dura, mas também a esperança e a resiliência. Explora o verso livre e formas mais narrativas, próximas da prosa poética. Temas como a cidade, o concreto, a juventude marginalizada e a luta por dignidade são recorrentes. O seu estilo é considerado inovador pela forma como insere o universo periférico na literatura brasileira, rompendo com cânones estabelecidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ferréz emergiu num contexto de ressurgimento da literatura marginal e periférica no Brasil, especialmente em São Paulo, a partir dos anos 1990. Este movimento surge como uma resposta à exclusão social e cultural, buscando dar visibilidade às vozes silenciadas. A sua obra dialoga com as tensões sociais e políticas do país, refletindo as contradições de uma sociedade desigual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ferréz é também conhecido pelo seu ativismo cultural, promovendo eventos, oficinas literárias e feiras de livros em comunidades periféricas. A sua vida pessoal está intrinsecamente ligada à sua obra e ao seu compromisso com a causa da literatura como ferramenta de transformação social e empoderamento.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha começado com uma produção independente, Ferréz conquistou um reconhecimento crescente, tanto no circuito da literatura marginal quanto em círculos académicos e literários mais amplos. Os seus livros têm sido publicados por editoras de renome e a sua obra é estudada em universidades, sendo considerado um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ferréz bebeu de fontes diversas, incluindo a poesia de rua, a música (como o rap) e escritores que retrataram a realidade urbana e marginal. O seu legado reside na consolidação da literatura periférica como um campo legítimo e importante da produção literária brasileira, influenciando uma nova geração de escritores que emergem das periferias, inspirando-os a usar a literatura como ferramenta de expressão e luta.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ferréz é frequentemente analisada sob a ótica da sociologia da literatura, destacando o seu papel na denúncia social e na representação de grupos marginalizados. As críticas elogiam a autenticidade da sua voz e a sua capacidade de traduzir a complexidade da vida periférica em arte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ferréz também é conhecido pela sua atuação em projetos sociais e culturais voltados para a juventude em áreas de vulnerabilidade. A sua dedicação à promoção da leitura e da escrita em locais onde o acesso à cultura é limitado é um aspeto fundamental do seu trabalho.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória (Não aplicável no momento, pois o autor está vivo).

Poemas

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Eu Queria Ter e Ser

Eu queria ter tipo um campo pra jogar com todos os meus amigos.

Eu queria ter tipo uma vida menos corrida.

Eu queria ter uma vida menos confusa.

Eu queria acordar vendo uma cachoeira, todo dia.

Eu queria poder tomar banho nela quando quisesse.

Eu queria poder parar de procurar o amor.

Eu queria poder dormir abraçadinho com alguém.

Eu queria poder morar dentro daquela musica do John Lennon.

Eu queria poder abrir a janela e olhar grandes montanhas forradas de verde.

Eu queria poder dizer que sou feliz.

Eu queria poder dar aula numa escolinha no interior, pra um monte de criança inocente.

Eu queria ter tipo uma mensagem que fizesse as pessoas desistirem de carrões, de grandes sonhos de consumo.

Eu queria ter tipo o poder de convencer que as pequenas coisas são as mais gostosas.

Eu queria ser tipo mais compreensivo.

Eu queria ser tipo mais amigo.

Eu queria ser tipo um morador de uma casinha dentro de um cenário qualquer.

Eu queria ser tipo um menino brincando de Falcon novamente.

Eu queria acordar só mais um dia vendo meu pai e minha mãe juntos.

Eu queria poder dizer a eles que estou indo bem na escola da vida.

Eu queria ter participado mais da vida familiar.

Eu queria ter podido dar mais condições a eles.

Eu queria poder trocar o que conquistei por um único olhar daquela menina.

Eu queria que minhas poesias a conquistassem.

Eu queria que pessoas como o Renato e o Cazuza tivessem tido o que tanto cantavam, o amor.

Eu queria ter conhecido o Plínio Marcos, o João Antônio, o Raul Seixas e o Chico Science.

Eu queria estar escrevendo o que eu queria ter um dia.

Eu queria ter nascido num cenário do Star Wars.

Eu queria ter conhecido a Emilia e o Visconde.

Eu queria ter um poço de pesca pra mim e pros meus amigos.

Eu queria ter tipo um máquina do tempo, para poupar tanto sofrimento.

Eu queria ter uma cabana, com gelo no teto e arvores em volta.

Eu queria nem saber o que é dinheiro.

Eu queria ser tipo um cara conquistador.

Eu queria ter a certeza que conquistadores são felizes.

Eu queria saber cantar.

Eu queria ser tipo um viajante.

Eu queria acordar com um grande café da manhã na minha cama.

Eu queria registrar aquele sorriso naquele dia para sempre.

Eu queria poder saber o que será do meu povo amanhã.

Eu queria poder saber porque ela não conseguiu ficar ao meu lado.

Eu queria saber a fórmula de um grande sucesso.

Eu queria saber porque a fórmula do fracasso é agradar todo mundo.

Eu queria ter um robozinho daqueles de plástico que minha mãe me dava em datas especiais.

Eu queria ver meu pai chegando e fingir que estava dormindo novamente.

Eu queria saber dizer mais coisas agradáveis.

Eu queria que todos comemorassem o Natal de verdade.

Eu queria um dia poder voar como um pássaro.

Eu queria ser tipo uma frota contra o mal.

Eu queria saber o que é o mal.

Eu queria ser tipo um cara em que as idéias valessem algo.

Eu queria ser tipo um cara que deixou algo pra alguém.

Eu queria poder mostrar aquele momento em que o menino dividiu com todo mundo o pão velho que comia numa viela.

Eu queria poder entender como os engravatados podem comer numa mesa onde o almoço é mais caro que o salário da maioria dos brasileiros e mesmo assim dormem tranqüilos.

Eu queria ser tipo um cara ingênuo, a ponto de acreditar em Papai Noel, duendes e na polícia.

Eu queria ser tipo um cara sem insônia, sem gastrite, sem dores tão fortes na alma.

Eu acho que ainda queria ser só um desenhista.

Eu acho que ainda queria ser só alguém num mundo legal.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que não via as coisas como elas eram.

Eu acho que ainda queria ser aquele chato que sempre levantava a mão primeiro na hora das perguntas.

Eu acho que ainda queria ser mais um da turma.

Eu acho que ainda queria brincar de banca de gibis com minha irmã.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que andava de banca em banca procurando aventuras em quadrinhos.

Eu acho que ainda queria ter a esperança boba de achar que poderia fazer a diferença nessa bagunça de mundo.

Eu acho que vou dormir.

Eu também acho que amanhã bem cedo vou procurar realizar pelo menos algo disso tudo, e você o que acha?


Publicada na revista Caros amigos, São Paulo, n. 58, jan. 2002
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Comentários (30)

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kamila
kamila

eu amei esse artigo, isso serve para trabalho escolar :)

Mªriªnª 7 😻
Mªriªnª 7 😻

Amei vou fazer um trabalho :v

Mªriªnª 7
Mªriªnª 7

Gostei

kelvim
kelvim

faz mais livros rep meu nome e kelvim

brisabela sua amadas2
brisabela sua amadas2

muito bom maravilhoso bunito e bem legal por que fala tudo sobre o altor. Esse cara e mt gato/gostoso(0w0) eu queria pega;-;