Lista de Poemas

Fronteira

Por sobre a dobra viva
do teu colo
caminha e desliza
meu furor cadenciado,
frenesi ofegante de sussurros
fragmentados,
jactando-se em magma de um prazer
escandinavo
frente à nobreza daqueles países
baixos.

Linha divisória entre e a realidade
o imaginário,
curvo-me à onipresença
dos teus seios fartos,
enquanto procuro o fôlego
disperso, enredado,
preso em teus lábios
silenciosos.

A visão do paraíso
escancara meu sorriso
devasso, efêmero
- duração eterna de segundos
preciosos.

738

Passeio público

Esguio, um corpo flutua
acima do bem e do mal
em noites de lua
cheia, roçando a pele morena
no vestido molhado
em tafetá.

Balançando vagarosamente
a favor do vento
- a favor de tudo que transcende a natureza
do belo -
caminha em direção
à praça Visconde de Irajá,
num andar cadenciado
que ateia fogo em apaixonadas
retinas,
inspira poetas instantâneos
- rimadores de ocasião -
ao mesmo tempo em que desapruma
olhares enfeitiçados
num gozo coletivo
que vai
explodindo em surdina.

O calor da noite evapora
sonhos
e desejos
assim que o doce
bailar da menina
desaparece sob uma chuva de pálpebras
se fechando,
- ulular de machos
inquietos -
rastreando
o cheiro da fêmea
que indiferente ao movimento
vai-se embora,
sumindo por aquela impassível
esquina.

727

Delírio

Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.

Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.

Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.

Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.

885

Norte

Minha fome é outra.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.

Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.

Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.

Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.

863

À Espreita

Inventar uma lua cheia
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.

Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.

Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.

Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.

Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.

855

Separação

Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?

A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.

767

Sobressalto

Há de acontecer repentinamente
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.

Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.

Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.

901

Mistério

Uma só palavra tua
e o viver monótono
que me acompanha
ganhará as cores do arco-íris,
subirá as montanhas
do Nepal,
atravessará
a Cordilheira dos Andes,
cruzará o Canal da Mancha
e se perderá
no Triângulo das Bermudas.

Uma só palavra tua
e meus sentidos irão explorar
a Floresta Amazônica,
fotografar
o olho do furacão americano,
visualizar preces no Monte Sinai,
conferir a Muralha da China,
admirar as quedas do Niágara,
visitar as águas da romântica Veneza
e alcançar
as neves do Kilimanjaro.

Uma só palavra tua
e o muro de Berlim que me rodeia
cairá por terra,
libertando-me das garras
do inferno de Java,
abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
e, queimando meus temores,
fará pousar meus amores
na clareira recém-aberta, desenhada
pelo teu eterno sorriso
de Mona Lisa.

874

Estio

Mar alto, tanto mar... frágil ilha
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares

Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares

Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores

Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.

867

Relume

Pedra, sólida rocha
escondida sob
a terra
rodeada
pelo silêncio dos séculos
sozinha, quieta,
imóvel.

Formação natural
lava vulcânica
cristal de rocha
sedimentada,
preciosa
pedra,
mineral.

Tempo que tece a textura das cores
forja o reluzente reflexo
- diamante bruto,
instantâneo.
Sonho que salta
ofuscante, belo
- lavra de garimpeiro.

Mundo - negra mina
exaurida,
põe à nú vasta
desolação.
.............................
Uma réstia
de tua grande luz
permanece comigo
e vence
toda a escuridão.

861

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Flávio Villa-Lobos foi um poeta brasileiro. Informações sobre pseudónimos ou heterónimos, datas de nascimento e morte, origem familiar, classe social, contexto cultural de origem, nacionalidade e língua(s) de escrita, e o contexto histórico em que viveu não são amplamente disponíveis em fontes de fácil acesso. Sabe-se que escreveu em língua portuguesa.

Infância e formação

Dados específicos sobre a infância e formação de Flávio Villa-Lobos são limitados. Presume-se que, como muitos escritores, tenha tido acesso a leituras e experiências que moldaram o seu olhar sobre o mundo e a sua expressão poética.

Percurso literário

O percurso literário de Flávio Villa-Lobos envolveu a publicação de sua obra poética, na qual se observa uma evolução ao longo do tempo. A sua participação em revistas literárias ou antologias, bem como a sua atividade como crítico, tradutor ou editor, não são detalhadamente documentadas em fontes gerais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Flávio Villa-Lobos é marcada pela exploração de temas contemporâneos, incluindo a vida urbana, a condição humana, as relações interpessoais e questões existenciais. Seu estilo poético demonstra uma capacidade de transitar entre o lirismo e uma abordagem mais experimental, por vezes incorporando elementos da linguagem falada e da cultura popular. A forma e a estrutura dos seus poemas podem variar, com um provável uso do verso livre. Os recursos poéticos empregados visam criar um impacto sensorial e emocional no leitor. A voz poética de Villa-Lobos tende a ser reflexiva e observadora, abordando a realidade com uma mistura de sensibilidade e, possivelmente, ironia. A linguagem pode ser direta, mas também densa em imagens e significados. A relação da sua obra com a tradição e a modernidade é um aspeto a ser explorado, assim como possíveis associações a movimentos literários específicos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Como poeta brasileiro, Flávio Villa-Lobos esteve inserido no contexto cultural e histórico do Brasil. A sua obra reflete, direta ou indiretamente, as dinâmicas sociais, políticas e culturais do país, dialogando com outros escritores e com as tendências literárias da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de Flávio Villa-Lobos, como relações afetivas, familiares, amizades, profissões paralelas ou crenças, não são amplamente divulgadas em fontes públicas, dificultando uma análise detalhada de como estes aspetos moldaram a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Flávio Villa-Lobos no panorama literário brasileiro pode variar, com a sua obra sendo apreciada por um público específico que valoriza a sua abordagem poética. A receção crítica, embora não extensivamente documentada, seria fundamental para entender o seu lugar na literatura nacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências que moldaram Flávio Villa-Lobos e o legado que deixou para a poesia brasileira são aspetos que requerem pesquisa aprofundada. É provável que sua obra tenha dialogado com a rica tradição poética do Brasil e, por sua vez, tenha inspirado outros poetas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Flávio Villa-Lobos oferece um campo fértil para a interpretação, especialmente no que diz respeito às suas representações da vida urbana e da experiência humana contemporânea. As suas reflexões sobre a solidão, a identidade e a busca por significado em um mundo em constante transformação são temas centrais para a análise crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos curiosos ou menos conhecidos da vida e obra de Flávio Villa-Lobos podem residir em detalhes da sua trajetória, hábitos de escrita ou episódios marcantes que não chegaram a ser amplamente divulgados, mas que poderiam enriquecer a compreensão do seu perfil como artista.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações detalhadas sobre as circunstâncias da morte de Flávio Villa-Lobos. A sua memória é mantida viva através da sua produção literária, que continua a ser lida e apreciada por aqueles que se interessam pela poesia brasileira.