Forough Farrokhzad

Forough Farrokhzad

1935–1967 · viveu 32 anos IR IR

Forough Farrokhzad foi uma poetisa, realizadora e intelectual iraniana, considerada uma das vozes mais influentes da poesia persa moderna. A sua obra é marcada pela ousadia, pela exploração da condição feminina, pela crítica social e pela intensidade lírica. Através de uma linguagem pessoal e transgressora, abordou temas como o amor, a liberdade, a religião e a alienação, desafiando as convenções sociais e literárias do seu tempo. A sua curta mas impactante vida e obra deixaram um legado duradouro na literatura e no cinema do Irão.

n. 1935-01-05, Teerão · m. 1967-02-13, Tafresh

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só o som permanece

por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, vertical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.
por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?
o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro... ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil,
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa das árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz.
é natural que moinhos desmoronem.
por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.
som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas som permanece.
na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.
o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Forough Farrokhzad foi uma poeta, argumentista e realizadora iraniana. Nasceu em 5 de janeiro de 1935 e faleceu em 13 de fevereiro de 1967. É amplamente considerada uma das figuras mais importantes e inovadoras da poesia persa moderna, bem como uma pioneira no cinema documental iraniano. Era conhecida por sua abordagem ousada e transgressora em relação aos temas do amor, da sexualidade, da liberdade e da condição feminina na sociedade iraniana do século XX. A sua nacionalidade era iraniana e a sua língua de escrita era o persa.

Infância e formação

Forough Farrokhzad nasceu numa família de classe média alta em Teerão. O seu pai era um oficial militar que, segundo relatos, era bastante rigoroso. A sua infância e juventude foram marcadas por um ambiente conservador, mas também por um crescente desejo de independência e expressão artística. Frequentou a escola secundária em Teerão e, mais tarde, uma escola profissional para costura e pintura. Desde cedo, mostrou uma inclinação para a poesia e a escrita, influenciada pela literatura persa clássica e pelas leituras de poetas modernos. A sua educação formal foi interrompida por casamentos precoces e pela necessidade de se adaptar às expectativas sociais da época.

Percurso literário

O início da escrita de Forough Farrokhzad remonta à sua adolescência. Começou a publicar os seus poemas em revistas literárias na década de 1950. A sua obra evoluiu significativamente ao longo do tempo, passando de uma fase inicial mais lírica e confessional para uma expressão mais madura, crítica e existencial. A sua poesia é conhecida pela sua voz feminina forte e autêntica, que aborda temas tabu com uma franqueza sem precedentes na literatura persa. Publicou quatro coleções de poesia em vida: 'O Captive' (1955), 'The Wall' (1957), 'Rebellion' (1958) e 'Let Us Believe in the Beginning of the Cold Season' (1961). Foi também uma figura ativa no circuito literário e artístico de Teerão, colaborando com outras figuras culturais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Forough Farrokhzad, notavelmente as suas coleções de poesia, exploram temas como o amor proibido, a opressão social e religiosa, a busca pela liberdade individual, a solidão, a mortalidade e a beleza da vida quotidiana, muitas vezes através de uma lente de forte intensidade lírica e confessional. A sua linguagem é direta, crua e imagética, afastando-se das formas poéticas mais tradicionais para abraçar uma expressão mais livre e moderna, embora muitas vezes mantivesse uma estrutura rítmica e métrica com influências clássicas. A sua voz poética é inconfundivelmente feminina, pessoal e desafiadora, rompendo com a tradição de retratar a mulher através de um olhar masculino. Ela inovou ao dar voz às aspirações, frustrações e desejos das mulheres iranianas, abordando a sexualidade e a independência de uma forma que era revolucionária para a época. Além da poesia, Forough Farrokhzad também se aventurou no cinema, realizando o aclamado documentário 'Khaneh Siah Ast' (A House is Black) em 1962, que aborda a vida num leprosário e é considerado um marco no cinema iraniano.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Forough Farrokhzad viveu e produziu a sua obra num período de significativas mudanças sociais e políticas no Irão. O Irão pós-Segunda Guerra Mundial viu um aumento da modernização e da influência ocidental, mas também uma forte resistência conservadora. A sua poesia refletiu as tensões entre tradição e modernidade, e as suas explorações ousadas da feminilidade e da sexualidade chocaram muitos na sociedade conservadora. Ela fazia parte de um círculo de intelectuais e artistas progressistas em Teerão, mas a sua obra muitas vezes a colocou em conflito com os valores estabelecidos. A sua vida e obra foram influenciadas pelo contexto de crescente nacionalismo, bem como pelas convulsões políticas que culminariam na Revolução Islâmica décadas mais tarde.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Forough Farrokhzad foi marcada por casamentos precoces e conturbados. O seu primeiro casamento, aos 16 anos, com o seu primo Parviz Shapour, durou até 1957 e resultou no nascimento do seu filho Kamyar. O segundo casamento, com o realizador Ebrahim Golestan, também foi complexo e não convencional. As suas relações pessoais, especialmente com Golestan, foram uma fonte de inspiração e, por vezes, de angústia, refletida na sua poesia. Ela era conhecida pela sua inteligência, intensidade emocional e uma forte determinação em viver a vida nos seus próprios termos, o que a distanciava das normas femininas esperadas na época.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Forough Farrokhzad gozou de reconhecimento entre os círculos literários e intelectuais, mas a sua obra também atraiu críticas e controvérsia devido à sua natureza explícita e desafiadora. Após a sua morte, o seu prestígio cresceu exponencialmente. É agora celebrada como uma figura literária icónica no Irão e internacionalmente, sendo vista como uma defensora da liberdade de expressão e da emancipação feminina. Os seus poemas são ensinados nas escolas, estudados em universidades e traduzidos para várias línguas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Forough Farrokhzad foi influenciada pela poesia clássica persa, mas também pelas correntes literárias ocidentais. O seu legado é imenso; ela abriu caminho para uma nova geração de poetisas iranianas, encorajando-as a expressar as suas próprias experiências e perspetivas. A sua obra continua a inspirar artistas, escritores e cineastas, e a sua figura é um símbolo de resistência e de busca pela liberdade. A sua abordagem inovadora à poesia e ao cinema influenciou profundamente a cultura iraniana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Forough Farrokhzad é frequentemente analisada sob a perspetiva do feminismo, da crítica pós-colonial e da existencialismo. As suas interpretações focam-se na sua exploração da identidade feminina num contexto patriarcal, na sua busca por autenticidade e na sua confrontação com a mortalidade. Alguns debates críticos giram em torno da sua relação com a tradição literária persa e do quão radicalmente ela a subverteu.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto pouco conhecido é o seu trabalho como tradutora e a sua paixão por pintar. Ela também era uma fumadora inveterada, um hábito que contrastava com a imagem esperada de uma mulher na sociedade iraniana. A sua curta vida, marcada por uma intensidade criativa e emocional, e a sua morte prematura num acidente de viação, contribuem para o seu estatuto quase lendário.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Forough Farrokhzad faleceu tragicamente em 13 de fevereiro de 1967, aos 32 anos, na sequência de um acidente de carro em Teerão. A sua morte prematura chocou o Irão e o mundo da arte. Publicações póstumas continuaram a expandir o conhecimento da sua obra, com edições das suas cartas e outros escritos a serem divulgados. A sua memória é celebrada através de estudos académicos, exposições, filmes e da contínua popularidade da sua poesia.

Poemas

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só o som permanece

por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, vertical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.
por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?
o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro... ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil,
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa das árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz.
é natural que moinhos desmoronem.
por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.
som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas som permanece.
na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.
o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
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