Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

n. 1972 BR BR

Francesca Angiolillo é uma poeta contemporânea, conhecida pela sua escrita que explora a intimidade, a memória e a relação do indivíduo com o mundo. A sua poesia caracteriza-se por uma linguagem límpida e por uma abordagem introspectiva, que convida à reflexão sobre as experiências quotidianas e as suas ressonâncias emocionais. É uma voz emergente na poesia em língua italiana.

n. 1972-01-01, Niterói

9 503 Visualizações

A última boa ação

A última boa ação do ano
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Francesca Angiolillo é uma poeta contemporânea italiana. O seu nome está associado à produção poética recente em língua italiana.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e a formação de Francesca Angiolillo não estão amplamente disponíveis. Presume-se que a sua educação tenha incluído o contacto com a literatura e as artes, moldando a sua sensibilidade poética.

Percurso literário

O percurso literário de Francesca Angiolillo tem vindo a consolidar-se na esfera da poesia contemporânea. A sua escrita tem sido publicada em diversas plataformas, incluindo antologias e publicações literárias online, onde tem vindo a ganhar reconhecimento pela sua voz lírica.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Angiolillo centra-se em temas como a memória, a identidade, as relações humanas e a introspeção. O seu estilo é frequentemente descrito como lírico e contemplativo, com uma linguagem clara e acessível, mas carregada de profundidade emocional. Explora a condição humana através de imagens subtis e reflexões pessoais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Como poeta contemporânea, Angiolillo insere-se no panorama cultural e literário atual, que é marcado pela diversidade de vozes e pela rápida disseminação de ideias através dos meios digitais. Dialoga com as preocupações existenciais e sociais do nosso tempo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes específicos sobre a vida pessoal de Francesca Angiolillo são escassos em fontes públicas, o que é comum para muitos artistas contemporâneos. A sua obra, no entanto, sugere uma forte conexão com experiências íntimas e observações do quotidiano.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Francesca Angiolillo tem vindo a crescer no meio literário contemporâneo, especialmente entre leitores que apreciam uma poesia introspectiva e emocionalmente ressonante. A sua inclusão em antologias e a receção positiva da crítica indicam um percurso promissor.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências específicas possam variar, a poesia de Angiolillo parece dialogar com tradições líricas que valorizam a sinceridade e a exploração do eu. O seu legado está em construção, mas já se manifesta na sua capacidade de tocar o leitor com a sua sensibilidade e a sua perspetiva única sobre a vida.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A crítica tem salientado a capacidade de Angiolillo em capturar a essência de momentos e sentimentos fugazes, transformando-os em versos que convidam à partilha e à empatia. A sua poesia oferece um espelho das angústias e belezas da existência moderna.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sendo uma figura literária mais recente, muitos aspetos da sua vida e do seu processo criativo podem ainda não ser amplamente conhecidos. A natureza intimista da sua poesia sugere um forte compromisso com a expressão autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sendo uma autora viva, a questão da morte e memória aplica-se no sentido da sua obra, que tem o potencial de perdurar e ser redescoberta por futuras gerações de leitores.

Poemas

13

A última boa ação

A última boa ação do ano
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
780

Meditação Universitária

As pessoas que se apaixonam
pela técnica
são felizes.

Eu tive uma colega, ela
vinha de longe
ela não tinha mãe
a lhe enfiar
sanduíches de atum
com muita maionese
na mochila.

Enquanto eu me debatia,
a cara quase
mergulhada na gaveta
da mesa do estúdio,
com interpretações
de quadros renascentistas,
de estátuas gregas,
com a semiótica
dos cartazes alemães
ou tentava dotar
de algum sentido oculto
uma curva no papel,
ela caminhava ereta
e sorridente pela rampa
abraçada à sua régua T.
625

Balada

Era outono quando ele nasceu
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
692

Parêntesis

(um beijo roubado em uma
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)

Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
580

Etiópia, Etiópia

Etiopía era a estação
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.

Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
722

Ronchamp

Um pedaço de parede
simplesmente, só
você
e eu
poderíamos ao vê-lo adivinhar
seu nome mineral.
Torto, meio branco,
meio cinza concreto pedaço
de ideia
de um homem
de apelido
vagamente animal
de pássaro pensativo
de pássaro que cisca buscando
quem
sabe
o quê
um brilho um lampejo o que não se vê um
pedaço de pedra
inventada;
outro dia estiveram lá outros
que não nós
diz que
quebraram um vitral daqueles que o
filme em cores registrou
num ato
de inimaginável
subversão nossa senhora
puniu
– a câmera sumir daquele jeito
sei lá
quando
estivemos nós
éramos nós
e a japonesinha sorridente
saída do nada para lugar algum
e lá ficou
para sempre sentada num monturo de grama
e tudo o que dali
saiu nossa senhora
não viu
– o disco rodando
na vitrola tocando

Something
seus passeios de bicicleta
minhas meias listradas
seus desenhos tão bons os meus tão ruins as
camisinhas numa lata de biscoitos
dinamarqueses era
um luxo o bolo da Maria era
o único final doce
daquelas tardes tão iguais
ter dezoito ou vinte anos e ler poemas
de Neruda e achar
normal o amor
não durar mais
que umas estações
de trem
num mapa.
531

Naxos

Melhor teria sido amar
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso

Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar

o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
621

Antropológica

cada mancha do
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou

a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo

u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano

o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico

no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo

infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
730

No campo

O vermelho é a cor das coisas feitas
pelo homem:
o caminhão
o balde
o carrinho
de mão
o vermelho é a cor que cor
ta
o campo.

Uma vez pegamos o carro
e fomos ver
o campo
de maçãs.

O carro era cinza
o campo era plano,

de quando em quando havia
uma construção no meio
do nada todo igual
a ele mesmo.

O bebê dormia
nós não vimos nada
vermelho
mesmo se as maçãs
estavam lá
em algum lugar.

De quando em quando havia
um trator
amarelo.
701

Na avenida

Como é triste a vida na cidade
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
641

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.