Soneto [Nova forma, Senhor, nova figura
Nova forma, Senhor, nova figura
Estais à Paulicéia dando altiva
Já a vereda de escolhos mil nociva
Na planície oferece a formosura
Ali o triste templo da amargura
É dos olhos soberba perspectiva
Aqui marmórea fonte arroja esquiva
Em líquidos cristais a linfa pura
A gente de Mavorte que à defesa
Se destina, já tem terreno grato
De cômodo espaçoso na largueza
Mas quando não encante o aparato
Desses padrões perpétuos da grandeza
Em vós tem a cidade todo o ornato.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Os versos "Aqui marmórea fonte arroja esquiva/Em líquidos cristais a linfa pura" são provavelmente uma referência ao Chafariz do Piques, mandado construir pelo governador Bernardo José de Loren
Canto I [Cantem alguns da ilustre Mãe do Eterno
Cantem alguns da ilustre Mãe do Eterno
A ventura de ser: outros do Averno
Os troféus, que alcançou, mal que animada.
Aqueles a virgínea flor nevada,
E outros dons, que a fizeram na carreira
Mortal única ser, ou ser primeira;
Que eu canto, por nutrir minha ternura,
Sua Assunção ditosa à etérea altura.
(...)
E tu, Igreja, tu nunca invocada,
Musa do Céu, de estrelas coroada;
Nesta via escabrosa, e tão confusa
Ah! digna-te de seres minha musa.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.1-
Canto III [Pelas margens do lago, em passo lento
(...)
Pelas margens do lago, em passo lento,
Procura a nívea garça o seu sustento.
Geme a casta rolinha lá da inculta
Brenha, quando o calor do Sol avulta.
Curvada com seu peso, sobre a espiga
Já loira do arrozal, a doce intriga
Modula o coleirinho, e lá do ramo
Da aroeira responde o gaturamo.
(...)
O pequeno colibri, esta ave rara;
Troféu na pequenez da Mão, que a ornara,
Ostenta o peito d'oiro; e esvoaçando
Com susurro, e tremor, ainda libando
O néctar, e dulcíssimos sabores,
Que encerra o cálix das melífluas flores.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.77-7
Canto III [Ó Musa, dá a meus versos a doçura
(...)
Ó Musa, dá a meus versos a doçura
Dos frutos, de que vou dar a pintura.
(...)
Entre as folhas gigantes laceradas
Dos bananais espessos arranjadas
Lourejam suas filhas, aguçando
O apetite, e os olhos afagando.
(...)
No mesmo ramo encanta a formosura
Da fruta em flor, da verde, ou já madura:
Mostrando a natureza aqui reunido,
Quanto noutras sazões tem repartido.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.72-7
Este que vês, cadáver animado
I
Este que vês, cadáver animado,
Que sobre a dura terra jaz despido,
É da Itália o assombro venerado,
É o crédito de Assis esclarecido:
O Serafim Francisco, que o costado,
As mãos e pés o fazem conhecido,
Servindo de inscrição (de amor efeito)
Chagas nas mãos e pés, chagas no peito.
(...)
V
Ó seráfico espírito que amante
De Cristo intentas imitar os passos!
Pois vendo a Cristo padecer constante
Na cruz em que rompeu da vida os laços,
Para seres a Cristo semelhante,
A cruz para morrer formas os braços!
De amor invento foi, pra seres visto
Na vida e morte imitador de Cristo.
VI
Quem não dirá, de assombro suspendido,
Ao ver-vos, serafim crucificado,
Que ou em vós está Cristo convertido,
Ou estás vós em Cristo transformado!
Se Cristo em cruz por nós morreu ferido,
Por Cristo em cruz morreis também chagado.
Se em Cristo chagas fez o amor mais fino,
Em vós, chagas abriu o amor divino.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.101-102
NOTA: Poema composto de 12 oitavas, figura abaixo de um quadro representando a morte de São Francisco de Assis, atribuído a Frei Solano, no salão da portaria do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
Em Assis Belém se mostra
Em Assis Belém se mostra
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
Canto VI [Ali no débil feno reclinado
(...)
Ali no débil feno reclinado
Se via por dois brutos adorado,
O tenro Amor Jesus, recém-nascido;
Tritando ao ar, em fachas envolvido.
(...)
Pasmou a natureza de tal vista:
Tudo se reanimou: e o destro artista
O segredo encontrou maravilhoso,
Que faz seu atrevido, seu garboso.
E tu das artes todas que és princesa,
Muda eloquência, maga gentileza,
Pintura, teus pincéis santificaste,
Quando a primeira vez delineaste
Um Deus, tingindo os lábios na doçura
Do seio de uma débil criatura.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.172
NOTA: Esse trecho descreve um dos quadros pintados no carro que conduz Nossa Senhora ao céu, representando cenas de sua vid
Canto VI [Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
(...)
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
Canto VI [Não vedes acolá como apartada
(...)
Não vedes acolá como apartada
Colina, ora de silvas erriçada,
Ninho de serpes, plácida guarida
De feras? Será então no cume erguida
Casa à Virgem, medíocre na altura,
Mas no risco primor de arquitetura.
Que ostentará por timbre de memória,
O título pomposo desta Glória.
(...)
Por marmóreas escadas a subida
Conduz ao alto, e ao pórtico da ermida.
Sobre lajedos de granito em quadro
Descansa a base, que ali tem um adro.
Dos lados peitoris; descanso, e meio
Dos olhos pastearem seu recreio,
Situação risonha, sobranceira
Ao mar, entre a vaidosa cordilheira
De rochas e de serras mil erguidas,
De palmas e arvoredo abastecidas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.19
Soneto [Entre férreos grilhões preso, e seguro
Entre férreos grilhões preso, e seguro
Suspira o delinquente desvalido
Aguçando o punhal do seu gemido
A estreiteza cruel do cárcere escuro.
Sentistes bom Lorena, e o sangue puro
Que o peito vos inflama esclarecido
Determinou da mágoa condoído
Dar ao réu novo asilo, menos duro.
Remata-se a estrutura; e o triste passa
A sentir no pesar menor violência
E a lograr na prisão mais larga praça.
E para vossa glória alta Excelência
Beijando está nas aras da alegria
Os troféus que erigiu vossa clemência.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Referência à cadeia mandada construir pelo governador Bernardo José de Loren