Lista de Poemas

Rotineiro

Ter que mastigar
o segredo encardido
que o sagrado não comporta.

Ter que expor ao cosmo
a pele trabalhada
e acomodar
entre os ossos carcomidos
o abominável.

Ter que cumprir o perpendicular
na estrada sem meta
quando os joelhos suplicam
o macio da terra.

809

Relicário

A noite do meu relógio
me manda arquivar mais um dia.
Um dia banal
ruminado a contragosto.

Mas sei
que este mesmo dia
há de ter seu momento
de glória
ao diluir-se na lágrima certa
dos guardados do meu futuro.

887

Fiat

Vestir a pele inconsútil da cariátide
e vencer o inseto obscuro
na noite definitiva.

Sorver a verticalidade nua
e transpirar o sol da estátua antiga
que a virtude não concebe.

Retalhar-se em moléculas de gozo
e consumir-se na luz.

834

Auto-Suficiente

Sei do meu pouco
sei das limitações do meu domínio.
Sei do que é meu
e sei do que não é meu.
Que não me venham precisar a chave
do sucesso trabalhado
no empirismo da bigorna.

Nem me venham ofertar motivações
da paz que não é minha.
Seja a sombra do meu nada
o Cirineu amigo
que a cada impulso do meu sangue
responda aos meus porquês.

830

Virtuose

Na vastidão de bocas desdentadas
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.

798

Segredo

Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.

884

Desencanto

O sonho realizado
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.

Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.

837

Aclive

A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.

837

Sêmen

Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.

O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.

A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.

921

Fastio

Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.

A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.

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Identificação e contexto básico

Gabriel Archanjo de Mendonça foi um poeta e escritor português, cuja obra se desenvolveu no século XX. Embora não seja um dos nomes mais proeminentes do cânone literário português, a sua produção poética e literária reflete uma voz singular e uma perspetiva particular sobre a realidade.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Gabriel Archanjo de Mendonça são limitadas. Sabe-se que teve acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver o gosto pela escrita e pela literatura. As suas influências literárias, embora não especificamente documentadas, parecem ter abarcado autores que exploravam a observação do real e a reflexão existencial.

Percurso literário

O percurso literário de Gabriel Archanjo de Mendonça é caracterizado pela sua dedicação à escrita poética e a outros géneros literários. A sua obra, que pode ter sido divulgada em publicações de menor circulação ou em edições mais restritas, revela um interesse em explorar temas do quotidiano e da condição humana. A sua evolução como escritor parece ter passado por um aprofundamento da sua capacidade de observação e pela busca de uma expressão autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Mendonça tende a focar-se em temas como a observação da vida quotidiana, as relações interpessoais, a passagem do tempo e a introspeção sobre a existência. O seu estilo poético pode ser descrito como um misto de lirismo contido e de uma abordagem direta e por vezes crua da realidade. Utiliza uma linguagem acessível, mas capaz de evocar imagens e sentimentos profundos. As suas poesias frequentemente captam momentos e sensações do dia-a-dia, transformando-os em reflexões sobre a condição humana. O tom da sua escrita pode variar entre o melancólico, o contemplativo e o irónico, refletindo a complexidade das emoções e das experiências humanas. A forma poética que adota pode ser flexível, adaptando-se ao conteúdo e ao sentimento que pretende expressar.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Gabriel Archanjo de Mendonça inseriu-se no panorama cultural português do século XX, um período de significativas mudanças sociais e políticas. A sua obra, ao retratar as vivências e as inquietações do seu tempo, dialoga implicitamente com o contexto histórico em que se insere, capturando as nuances da vida em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Gabriel Archanjo de Mendonça são escassos. Presume-se que a sua atividade literária tenha sido uma paixão e uma forma de expressão pessoal, possivelmente conciliada com outras atividades profissionais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Gabriel Archanjo de Mendonça na esfera literária parece ter sido mais modesto em comparação com outros autores contemporâneos. No entanto, a sua obra pode ser valorizada por aqueles que procuram vozes autênticas e perspetivas singulares sobre a experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas de Mendonça não são amplamente documentadas. O seu legado reside na sua contribuição para a diversidade da poesia portuguesa, oferecendo uma perspetiva única sobre a vida e as suas complexidades.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Gabriel Archanjo de Mendonça convida à análise da sua capacidade de transfigurar o quotidiano em matéria poética, explorando aspetos universais da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser um autor com menor visibilidade pública, muitos aspetos da sua personalidade e do seu percurso criativo permanecem menos conhecidos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há registos públicos detalhados sobre a morte de Gabriel Archanjo de Mendonça.