Lista de Poemas

Miscasting

"So you think salvation lies in pretending?"
Paul Bowles



estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino


há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída


agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
2 126

Cabo Frio

Nuvens passageiras
miragens peregrinas enfunadas pelo Nordeste
queda de folhagem
muda retórica
O Sudoeste dá rédeas à repulsa
nuvens erráticas devoram rivais
Orfeu despedaçado por bacantes drapejadas de vapor
Em dia sem vento
a falta de engenho permite
purezas de sabão e macieiras em flor
talco no chão do banheiro
sorvete marca Aristófanes
Mas quase sempre ele pisa seus véus
Duas mãos de cinza desmaiado
sobre fundo esmaltado é perícia
renda
luxo magnífico e corrupto
realização elegante de algum mandarim
leque de plumas de avestruz tintas de rosa
levemente agitado diante da luz
(poemas publicados originalmente na revistaInimigo Rumor)
1 702

O nariz contra a vidraça

como a paisagem era terrível
mandou se fechassem as janelas
o nariz contra a vidraça e o fla-flu comendo lá fora
genocídios, promessas, plenilúnios
O festim de Nabucodonosor, a vitória dos pó-de-arroz
as dores do pai e os gritos de amor
são agora aquarelas pitorescas
O nariz contra a vidraça
melhor ainda atrás da persiana
ela com seus preciosismos
unhas feitas entre desfiladeiros de livros
barricadas contra o sublime e o medo
Discretavoyeuse
o sofá combinando com o tom das exegeses
a polidez dos móveis, avencas, decassílabos, filmes russos
perífrases sobre paninhos de crochê
e em vez de carne poemas no congelador
Anônima, dizia sempre à manicure
e apesar das mãos que enrugam
as unhas bem curtas e o esmalte claro, por favor
Um dia, o leite derramado na cozinha, saiu
garras vermelhas, bateu à porta do vizinho
1 219

O cineasta do Leblon

“Aquele que escavar em sua consciência
até a camada do ritmo e flutuar nela
não perderá o juízo.”
Nina Gagen-Torn
O brilho de laranja ao sol
amendoeira rubra e pavão
oculta sobressaltos faustianos
encenam-se dramas na alma
suadas peripécias
lágrimas
mímesis
em sítios escusos está a mocinha raptada por um turco
e a nudez do missionário espancado
folheia-se uma antologia de acidentes
títulos afundam
e no lodo
personagens sem nome
e escândalos de fancaria
O comércio incessante
distrai das caudalosas sociologias do fracasso
idades do ouro perdidas
terror espetacular
recorta o esforço de colosso trágico
alçar-se acima da imensa massa de vencidos
violinos pela indesejada que fatalmente alcança e ceifa
carnaval exterior que é dublagem
Nos domingos de lua cheia
um infante sôfrego obriga a minuciosos tratados
miuçalhas
monopólio
asperezas
contrabando
e então
razias de corsário
na lua nova cruzo a cidade pra beijar a sua boca
transpor morros e encontrar a elevação
tropeça-se em pétalas de rosas
em trufas
visitas ao paraíso
as quartas-feiras são turvas
e trazem as penas do inferno
telefonemas seus
telefonemas meus
telefonemas da outra
e a ex
compomos o obrigatório conflito
repetir com honestidade a velha trama
até que ao fim do primeiro bimestre
erra-se no açúcar
escorrega-se na farsa
e mudam-se todos para a novela das 7
Homem da lua
fantasia de rudes hormônios
o bicho se coça
fervor marcial e bico de passarinho
cavalo rampante que rasga com as patas convenções de estilo
atravessa pontes queimadas
alcançou o vale feroz
terremoto maior que o de Lisboa arrasa cidadelas
afrouxa parafusos
e do colchão abala a mola-mestra
ouviu, carro?
tribos bárbaras desabam sobre a minha Europa
ouviu, montanha?
mudaram os livros que eu agora levo pra cama
antigas lendas fabulosas
uma grosseira rapsódia
cinco escritos libertinos
eu bebo como num banquete em Siracusa
e gozo como as prostitutas de Corinto
palmeira, ouviu?
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Identificação e contexto básico

Hilda Machado é uma poetisa brasileira cujo nome completo e pseudónimos (se houver) não são amplamente divulgados na sua obra principal. A sua nacionalidade é brasileira e a língua em que escreve é o português. O contexto histórico em que viveu e produziu a sua obra insere-se na contemporaneidade, um período marcado por rápidas transformações sociais, tecnológicas e culturais.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Hilda Machado não são amplamente conhecidas publicamente. No entanto, a qualidade e a maturidade da sua poesia sugerem uma formação sólida e uma profunda imersão em leituras que podem ter incluído tanto a tradição literária clássica quanto as correntes literárias mais recentes.

Percurso literário

O percurso literário de Hilda Machado é marcado pela publicação de obras poéticas que têm vindo a conquistar um espaço significativo na literatura contemporânea em língua portuguesa. O início da sua escrita poética, assim como a evolução do seu estilo ao longo do tempo, não são detalhados em fontes acessíveis, mas a consistência temática e formal nas suas publicações indica um desenvolvimento ponderado da sua voz poética. A sua participação em antologias e publicações literárias contribui para a sua visibilidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Hilda Machado centra-se em temas como o amor, a fugacidade do tempo, a memória, a natureza e a reflexão sobre a condição humana. A sua poesia é caracterizada por um lirismo profundo, uma linguagem cuidada e uma forte capacidade de evocar sensações e imagens. O uso de recursos poéticos como a metáfora, o ritmo e a musicalidade confere às suas composições uma densidade e uma beleza singulares. A voz poética tende a ser introspectiva e confessional, mas com uma ressonância universal. O seu estilo pode ser associado a uma linha de continuidade com o lirismo moderno, adaptando-o a sensibilidades contemporâneas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Hilda Machado insere-se no panorama literário brasileiro contemporâneo, dialogando com as diversas correntes e preocupações estéticas que moldam a produção poética atual. A sua obra, ao abordar temas universais, conecta-se com a experiência humana em qualquer tempo e lugar, mas a sua recepção e o seu desenvolvimento estão intrinsecamente ligados ao contexto cultural do Brasil e do mundo lusófono no século XXI.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Hilda Machado, incluindo relações afetivas, familiares ou profissões paralelas, não são amplamente divulgados em fontes públicas, sendo a sua privacidade um aspeto a ser respeitado. As suas convicções filosóficas ou políticas, assim como o seu envolvimento cívico, não são temas centrais na divulgação da sua obra literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora possa não deter um reconhecimento institucional massivo ou prémios de grande projeção mediática, Hilda Machado tem vindo a consolidar o seu lugar na literatura contemporânea através da qualidade e da ressonância da sua poesia. A receção crítica, quando existente, tende a destacar a sua sensibilidade lírica e a sua habilidade técnica. A sua popularidade cresce entre leitores que apreciam uma poesia autêntica e reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências literárias específicas de Hilda Machado podem abranger uma vasta gama de poetas, tanto da tradição portuguesa e brasileira quanto da literatura universal. O seu legado reside na contribuição para a poesia contemporânea em língua portuguesa, enriquecendo-a com uma voz lírica distintiva e uma abordagem sensível aos temas da vida e da existência. A sua obra inspira leitores e potenciais escritores a explorar a profundidade da experiência humana através da linguagem poética.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Hilda Machado convida a uma interpretação centrada na exploração das emoções humanas, na contemplação da passagem do tempo e na busca por sentido. As análises críticas podem focar-se na sua capacidade de conciliar a aparente simplicidade formal com a profundidade temática, oferecendo uma perspetiva sobre a subjetividade e a relação do indivíduo com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser uma figura cuja vida pessoal é resguardada, aspetos curiosos sobre Hilda Machado são escassos em fontes públicas. A sua dedicação à poesia, a forma como o seu quotidiano se entrelaça com a sua criação literária e os seus hábitos de escrita são elementos que, embora não publicamente detalhados, constituem o núcleo da sua atividade criativa.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Hilda Machado encontra-se viva, portanto, não há registos de morte ou publicações póstumas. A sua memória será construída através da sua obra contínua e do impacto que esta terá na literatura e nos seus leitores.