Lista de Poemas

Canto do Homem Cotidiano

Eu canto o homem vulgar, desconhecido
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O play-boy das mariposas
O imperador da contabilidade.

Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.

Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.

Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.

Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.

Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.

Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.

Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.

Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.

Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.

Esse que joga pelada
E é craque da canelada.

Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.

Esse que agüenta o rojão
Pro filho ter instrução.

Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.

Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.

Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor
(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,

Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.

1 285

O Tempo dos Homens

O tempo dos homens é feito de pedra,
É feito de carne, de sangue, de dor,
O tempo dos homens é feito de tempo
Que é tempo sem tempo, sem luz, sem amor.

Trezentos e sessenta e cinco dias,
Seis horas,
Uns tantos minutos
E segundos,
Leva o mundo
Para girar girando em torno ao sol,
Em sucessão de
Primavera, Verão, Outono, Inverno,
Sol e Sombra,
Noite e Dia.
Eterna imperturbável harmonia.

Os homens não cansam, não param, não dobram,
Comendo, comendo, sem ver, sem olhar,
Os homens não pensam, não falam, não dormem,
No tempo sem tempo do tempo a passar,

1 087

Água Brusca

Eis que de dentro de mim
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.

928

Partida ao Vento

Soltei meus braços ao vento
Numa noite ventivosa;
Esperei, sem ver o tempo,
Partir sem busca de volta.

Difíceis são as raízes,
Essas que sempre sugam,
Que se penetram nos mitos
Consolidados sem luta.

O vento, ventando força
Pelos tendões dos meus braços,
Irrompeu de muito arrojo,
Invadiu meu corpo, alçando.

Da partida, de repente,
Me senti no certo arranco,
As asas me deu o vento e
Se esfuracou vendavando.

Mas mil anos de raízes
Ficando ficaram surdas
Esmiuçando seus cílios
Na profundeza do inculto.

958

Restos

Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.

Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.

Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.

Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.

Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.

1 222

Soneto da posse

Amar é possuir. Não mais que o gozo
quero. Não sei porque desejas tanto
escravizar-me; escravizar-te. Quanto
menos me tens, mais me terás. Gostoso
é ser-me livre, alegre, escandaloso –
o peito aberto pra cantar meu canto;
os olhos claros pra ver todo encanto;
as mãos aladas, pássaros sem pouso.
Abre-me o corpo, vem dá-me o teu vale,
e a esconsa flor que ocultas hesitante,
pois o que falo o falo sem que fale
em tom de amor. Quero vaivem, espasmo -
um corpo a corpo num só corpo palpitante,
dois no galope até o sol de um só orgasmo.

1 191

Sonetinho de amor

Teu mamilo erecto
penetra-me a boca,
chupo, sorvo, mordo
e tu gozas louca.

Teu mamilo é um pênis,
minha boca vulva
onde escorre o leite
que tu me ejaculas.

Dá, minha senhora,
tua rija teta,
teu poeta implora
com a boca seca
a boca boceta
doida de Pandora.

1 123

Canto de Azul e de Verde

Canto
de azul e de verde e de verde e de azul
abertos ao deslumbre
dos olhos,
regaço
ao deslize do corpo.

Canto Leste,
mais forte,
Sudoeste,
meiguice
em salpico de ilhas
e clareza de sol
Canto Leste, no entanto, leva os ventos à fonte,
da magia e mistério.
Sudoeste, cercado
de antigos tesouros,
dorme paz de almadias
caravelas saveiros,
e desperta em tumulto;
motores e máquinas
gargalhando ao passado —
Canto azul, verde azul, esteirado
de branco,
espumado em silêncio
ao fermoso das quilhas.

844

Glosa

Mote
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente

Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "

Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."

Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.

Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "

"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.

1 108

Meu Poema de Chuva

Meu poema não visita a antologia
Dos momentos que a chuva salpicou
Nem se curva ao tip-top na janela
Onde sem mais querer
A chuva semissente se instalou, —
Ele se esgueira, calmo e contemplado,
Até a intimidade sem recursos da gota mais minúscula,
E em uniliquescência permanece;
E assim, as palavras feitas chuva
Se escorrem lá pra baixo da ladeira e
São sorvidas sem serem pressentidas
Pela terra,
Pelo lago,
Ou pelas tradicionais bocas de lobo.

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Ao Poeta e Jornalista... que já nos deixou... para uma eternidade... escrever sobre nós. lindo descrever de um ser humano em sua luta cotidiana e seus sonhos diários. ademir.

Identificação e contexto básico

Ildásio Tavares foi um poeta, contista, jornalista e político brasileiro, nascido em Pernambuco. Foi uma figura proeminente no cenário cultural e político de sua região, especialmente associado ao movimento modernista pernambucano. Sua obra poética é reconhecida pela forte identidade regional, abordando temas ligados ao Nordeste brasileiro, à sua cultura e às suas questões sociais.

Infância e formação

Nascido em Pernambuco, Ildásio Tavares teve uma formação marcada pela efervescência cultural do estado na primeira metade do século XX. A sua juventude foi influenciada pelo contexto do modernismo brasileiro, que buscava novas formas de expressão e uma maior aproximação com a realidade nacional. Absorveu as influências das vanguardas literárias, mas sempre com um olhar voltado para as particularidades da cultura nordestina.

Percurso literário

Ildásio Tavares iniciou sua carreira literária como poeta e jornalista. Foi um dos fundadores da revista 'Presença', publicada em Recife a partir de 1924, que se tornou um importante espaço de divulgação das ideias modernistas em Pernambuco. Sua obra poética evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma constante ligação com as raízes culturais e sociais de sua terra, mas também demonstrando uma sensibilidade para as transformações do mundo moderno.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Ildásio Tavares, embora menos conhecidas nacionalmente em comparação com outros modernistas, ocupam um lugar significativo na literatura pernambucana. A sua poesia explora temas como a paisagem nordestina, a vida do sertanejo, a religiosidade popular, e a crítica social. O seu estilo é marcado por uma linguagem acessível, com forte sabor regional, e um tom ora lírico, ora engajado. A forma poética por vezes dialoga com as inovações do modernismo, mas sempre com uma preocupação de se conectar com a realidade e a cultura local.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ildásio Tavares atuou num período de grande efervescência cultural e política no Brasil, com o modernismo em plena consolidação. Em Pernambuco, o movimento modernista teve características próprias, com forte ênfase na valorização da cultura regional. Tavares esteve inserido nesse contexto, dialogando com outros escritores e intelectuais que buscavam uma arte mais conectada com a identidade brasileira. Sua atuação como jornalista e político demonstra um engajamento cívico e uma preocupação com os rumos do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Como jornalista e político, Ildásio Tavares esteve envolvido em diversas causas sociais e políticas de seu estado. Suas experiências de vida no Nordeste certamente moldaram sua visão de mundo e sua produção literária, conferindo-lhe uma autenticidade e uma profundidade de visão sobre a realidade regional.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Ildásio Tavares é mais proeminente no âmbito da literatura pernambucana e do estudo do modernismo regional. Sua contribuição para a consolidação do movimento modernista em Pernambuco através da revista 'Presença' é um marco importante. Embora possa não ter alcançado a mesma fama nacional de outros contemporâneos, sua obra é valorizada por sua autenticidade e pelo registro da cultura e das questões sociais de sua região.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Ildásio Tavares reside na sua capacidade de incorporar a cultura popular nordestina e as preocupações sociais em sua poesia, influenciando, sobretudo, a produção literária regional. Sua atuação na revista 'Presença' também deixou uma marca importante na história do modernismo em Pernambuco.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tavares pode ser analisada sob a perspectiva da literatura regionalista e do modernismo engajado. As críticas geralmente destacam a autenticidade de sua voz poética ao retratar o Nordeste e as suas gentes, bem como o seu compromisso com as questões sociais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucos detalhes sobre aspectos menos conhecidos da sua vida pessoal e hábitos de escrita são amplamente divulgados. Sua atuação multifacetada como poeta, jornalista e político indica uma personalidade dinâmica e engajada com os desafios de seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações detalhadas sobre as circunstâncias da morte de Ildásio Tavares e publicações póstumas não estão amplamente disponíveis na pesquisa geral, mas sua memória é preservada no contexto da literatura e da história cultural de Pernambuco.