Lista de Poemas

Dizer Trevas

Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.

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Manobras de Outono

Manobras de Outono
Não digo: isso foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gondolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e meríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio-dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas cenas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo dos ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pôr-do-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.

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Identificação e contexto básico

Ingeborg Bachmann foi uma das mais importantes poetisas e prosadoras de língua alemã do século XX. Nasceu em Klagenfurt, na Caríntia, Áustria. Pseudónimos ou heterónimos não são proeminentes na sua obra.

Infância e formação

Bachmann teve uma infância marcada pelas dificuldades do pós-guerra e pela atmosfera política da Áustria na época. Frequentou a Universidade de Viena, onde estudou germanística, filosofia, arqueologia e psicologia, obtendo o doutoramento em 1945 com uma tese sobre a poesia de Martin Heidegger. As suas leituras iniciais incluíram autores da literatura alemã clássica e moderna, bem como filósofos como Heidegger e Wittgenstein. A atmosfera cultural e política da Áustria do pós-guerra, com o seu período de ocupação e a posterior neutralidade, influenciou a sua visão de mundo e a sua escrita.

Percurso literário

Bachmann começou a sua carreira literária ainda jovem, ganhando reconhecimento com a sua poesia. Em 1952, apresentou-se com o famoso poema "An die Sonne" (Ao Sol) no grupo literário "Gruppe 47", um evento crucial que a lançou para a cena literária de língua alemã. Publicou várias coleções de poemas, como "Die gestundete Zeit" (O Tempo Emprestado, 1953) e "Anrufung des Großen Bären" (Invocação do Grande Urso, 1956), que lhe valeram prémios importantes. Além da poesia, escreveu peças de rádio, como "Der gute Gott von Manhattan" (O Bom Deus de Manhattan, 1958), e prosas, incluindo o romance inacabado "Malina" (1971) e contos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Os temas centrais na obra de Bachmann incluem a culpa, a memória, a história, a desilusão após o nazismo, a linguagem como meio e limite da comunicação, o amor, a morte e a condição feminina. A sua poesia é caracterizada por um lirismo intenso, mas também por uma forte componente crítica e reflexiva. Utiliza frequentemente a metáfora, a aliteração e o ritmo para criar uma musicalidade particular. A sua linguagem é densa, muitas vezes ambígua, e procura desvendar as verdades ocultas sob a superfície da realidade. Bachmann foi associada ao pós-guerra da literatura de língua alemã e, embora não se filie estritamente a um movimento, a sua obra dialoga com o existencialismo e o simbolismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bachmann viveu num período de grande turbulência na Europa, com a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e a Guerra Fria a moldarem o seu tempo. A sua obra é profundamente marcada pela necessidade de confrontar o passado nazista e as suas consequências. Ela fazia parte de um círculo de intelectuais e artistas que discutiam as questões éticas e políticas da época, e a sua escrita refletia as tensões e desilusões do pós-guerra. A sua geração literária em língua alemã procurava encontrar novas formas de expressão após o trauma da guerra e da ditadura.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Bachmann foi marcada por relações intensas e, por vezes, conturbadas, nomeadamente a sua relação com o também escritor Max Frisch. A experiência de viver em diferentes cidades, como Viena, Roma e Berlim, também influenciou a sua perspetiva. Bachmann era conhecida pela sua inteligência aguçada e pela sua busca incessante pela verdade e pela autenticidade, o que se refletia na sua poesia confessional e questionadora.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ingeborg Bachmann foi amplamente reconhecida em vida, recebendo importantes prémios literários, como o Prémio Georg Büchner em 1964. A sua obra rapidamente se tornou parte do cânone da literatura de língua alemã e é estudada em universidades de todo o mundo. É considerada uma das vozes poéticas mais importantes do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bachmann foi influenciada por poetas como Rilke e pela filosofia de Heidegger. O seu legado reside na sua capacidade de explorar as profundezas da experiência humana com uma linguagem poderosa e inovadora. Influenciou gerações posteriores de poetas e escritoras, particularmente pela sua abordagem feminista e pela sua crítica às estruturas de poder e opressão.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bachmann tem sido objeto de vasta análise crítica, explorando a sua relação com a história, a linguagem e a identidade. As suas explorações da culpa e da responsabilidade, bem como a sua crítica à superficialidade da comunicação, continuam a ressoar. A sua abordagem à escrita como um ato de resistência e de busca de verdade é um tema recorrente.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bachmann era conhecida pela sua forte personalidade e pela sua dedicação à escrita. A sua busca por uma linguagem poética que pudesse expressar a verdade, mesmo quando esta era dolorosa, é um aspeto central do seu perfil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ingeborg Bachmann morreu prematuramente em Roma, em 1973, devido a um incêndio. Publicações póstumas continuaram a expandir o conhecimento da sua obra.