Lista de Poemas

E se eu disser

E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.

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Palimpsesto

A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.

Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.

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Esse punhado de ossos

A Moacyr Félix

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.

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Identificação e contexto básico

Ivan Junqueira foi um poeta, jornalista, tradutor e crítico literário brasileiro, nascido no Rio de Janeiro. Sua obra, escrita em português, insere-se no contexto da literatura brasileira da segunda metade do século XX e início do século XXI, marcada por reflexões sobre a vida urbana e a condição humana.

Infância e formação

Ivan Junqueira teve uma formação intelectual sólida, que incluiu o gosto pela leitura e pela escrita desde cedo. A vivência na cidade do Rio de Janeiro, com suas particularidades culturais e sociais, foi um elemento formativo importante para a sua visão de mundo e para a sua obra.

Percurso literário

O percurso literário de Ivan Junqueira começou com a publicação de seus primeiros poemas, que gradualmente conquistaram um espaço no cenário literário brasileiro. Ao longo de sua carreira, ele desenvolveu um estilo próprio e consistente, consolidando-se como um poeta de voz lírica e observadora. Além da poesia, dedicou-se ao jornalismo e à tradução, atividades que complementaram sua atuação literária.

Obra, estilo e características literárias

A obra poética de Ivan Junqueira é caracterizada pela abordagem de temas como a metrópole, a cidade, a passagem do tempo, a memória, o amor e as relações interpessoais. Sua linguagem é geralmente clara, precisa e imagética, combinando lirismo com um olhar aguçado sobre o cotidiano. Utiliza recursos como a metáfora e a ironia para construir seus versos. O tom de sua poesia pode variar entre o contemplativo, o melancólico e o reflexivo. Junqueira explorou tanto o verso livre quanto formas mais tradicionais, sempre com uma sensibilidade moderna. Sua obra dialoga com a tradição literária brasileira e, ao mesmo tempo, reflete as inquietações da vida contemporânea.

Contexto cultural e histórico

Ivan Junqueira viveu e produziu em um período de intensas mudanças culturais e sociais no Brasil e no mundo. Sua obra, ao retratar a vida urbana, reflete as dinâmicas e os desafios das grandes cidades. Manteve contato com outros escritores e participou de círculos literários, contribuindo para o debate cultural de sua época.

Vida pessoal

Sua vida foi marcada pela dedicação à escrita, ao jornalismo e à tradução. As experiências vividas, as observações do cotidiano e as reflexões sobre a existência humana moldaram sua produção literária. A cidade do Rio de Janeiro foi um cenário importante em sua vida e obra.

Reconhecimento e receção

Ivan Junqueira foi um poeta reconhecido em seu tempo, com sua obra publicada e comentada pela crítica. Sua atuação como tradutor e jornalista também lhe conferiu destaque. A sua poesia é valorizada pela sua qualidade estética e pela relevância dos temas abordados.

Influências e legado

O legado de Ivan Junqueira reside em sua contribuição para a poesia brasileira contemporânea, com um olhar lírico e crítico sobre a vida urbana e a condição humana. Sua obra inspira pela clareza de expressão e pela profundidade de suas reflexões. Sua atividade como tradutor também enriqueceu o panorama literário brasileiro, ao trazer para o público obras importantes de outros idiomas.

Interpretação e análise crítica

A obra de Ivan Junqueira tem sido analisada sob a ótica da poesia urbana e da reflexão existencial. As críticas frequentemente destacam a sua habilidade em captar a atmosfera da cidade e em traduzir em verso as complexidades das emoções humanas.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Sua multifacetada carreira, abrangendo poesia, jornalismo e tradução, demonstra uma versatilidade e um profundo amor pela palavra em suas diversas manifestações. A observação atenta do cotidiano, que permeia sua poesia, revela um olhar sensível para os detalhes da vida.

Morte e memória

Ivan Junqueira faleceu no Rio de Janeiro. Sua memória é preservada através de sua obra poética, seus trabalhos de tradução e seus escritos jornalísticos, que continuam a ser lidos e apreciados.