Lista de Poemas

Olhar do Tempo

Olhar do tempo. Como eu sinto a messe,
Safra da terra, sem semente fora!
Ceifem a messe, que a safra apodrece,
Tempo de sempre, que se faz de agora.
Olhar do tempo. Como eu sinto o rio,
Estrada líquida, sem outra estrada!
Bebam a estrada, que desponta o estio,
Tempo de todos, que se faz de cada.
Olhar do tempo. Como eu sinto o espaço,
Tapete imenso, sem limite ao norte!
Durmam o norte, norteando o passo,
Tempo de vida que se faz de morte.
Olhar do tempo, como eu sinto a cruz!
Tempo de sombra, que se faz de luz.

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Elegia da Ponte Descoberta

Sobre a ponte do meu ao teu retrato
O silêncio cantava silencioso.

Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.

Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.

Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.

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Elegia do Tempo e da Saudade

"Os espinhos de roseira contavam
histórias medievais
e não faltava ao menino
a nítida imagem do que é uma princesa".
ALEXANDRE GRAVINAS

"Ele sabe que rondas indiferente
O muro do seu jardim
.............
Ele está preso no jardim. Crê no jardim".
MÁRIO CHAMIE
I
Ah! não poder antecipar manhãs,
Circundado pelas noites do impossível...
Erguer as mãos inúteis para o céu,
Em súplica sincera,
E os olhos, para o inferno dirigidos,
Em lagoas de azul desesperado,
No silêncio, navegar...

Ó dunas transatlânticas,
desérticas,
Que o calor de teu contato, perdoe-me!

Destino sem destino. Meu destino.

II
Mistério do anterior. Pouco mais e nada.
O passado inexistia.
Futuro manchado de desejos,
Colorido de cores irreais.

Presente suspeitante foi a véspera,
Presente suspeitante, mas contente.
Era o sonho do calmo da existência,
Concretizado na falta de tormenta.

(Vivência da vida!
Quanta angústia refletida nas lembranças!
Ó arrependimento, que não cria
O quando inatural das coisas nuas,
Povoadas de mundos diferentes!)

E a marcha, não sentida, desvendava
Jardins adormecidos, sem princesa,
Na fragrância envitativa do repouso,
Para os que tinham sonhos a sonhar.

Era tudo irreal como o futuro,
Que o cerco do deserto circundante
Nunca veio a penetrar.

E, assim, embriagado,
O menino fez-se, ao toque da ambiência,
Poeta e descoberta,
Até que certa vez,
Sorridente, com a lira,
Partiu para o deserto conhecer.

III
Nasceu quando o tempo era da lua
E foi aurora sempre.

Imagem feita coração cansado,
Na invasão da filha do deserto.

(Pobre jardim intemporal da ingenuidade,
Fenecido, à distância,
Por onde o teu espectro silente!)

E o menino espantado percebeu
A sensação agonizante do infindável
Prender-lhe a alma sem resguardo
E levaram-lhe do peito a própria imagem,
Era o tempo da lua. A lua grande, no entretanto,
Trazia a lividez materna indissolúvel
Dos momentos da perda irreparável.
Ah! Morte no jardim.

Aurora de fogo surgida em tempo novo.
Dois mares de azul desesperado.
Montanhas sanguíneas entreabertas
A pedirem o sangue das irmãs,
Por que teus vultos pela areia quente?

Tudo longínquo e tudo perto do menino.
E o menino sentindo, então,
A sede da ilusão insaciável.
Ilusão, não mais que isto.
Todo o mal foi excesso de ilusão
E a pouca realidade das areias quentes.
Areias quentes, onde o menino
Veio a esquecer-se
Que foi poeta no jardim.
E o jardim dos tempos idos
Era mais descoberta que aventura!

Para que a nova descoberta?

Marinheiro sem viagem,
Tragado na viagem da tortura...

Foi aurora quando o tempo era da lua
E o brilho de seu rapto fugaz
Fez o ódio do menino no deserto,
Esquecido o jardim.

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Identificação e contexto básico

Ives Gandra da Silva Martins é um proeminente jurista, advogado, professor universitário e escritor brasileiro. Nasceu em São Paulo. É reconhecido nacional e internacionalmente por sua extensa obra e atuação nas áreas do Direito Tributário e Constitucional, sendo uma referência em seu campo de atuação. Sua produção intelectual abrange não apenas o campo jurídico, mas também reflexões sobre temas sociais, filosóficos e literários.

Infância e formação

Nascido em São Paulo, Ives Gandra da Silva Martins teve uma formação educacional sólida. Graduou-se em Direito pela Universidade Mackenzie e posteriormente realizou cursos de especialização e aperfeiçoamento em diversas instituições, tanto no Brasil quanto no exterior. Sua formação acadêmica foi complementada por um intenso estudo autodidata, que lhe permitiu acumular um vasto conhecimento em suas áreas de interesse. Desde cedo, demonstrou aptidão para o estudo e a escrita, absorvendo influências de pensadores e literatos que moldariam sua visão de mundo.

Percurso literário

Embora mais conhecido por sua vasta obra jurídica, Ives Gandra da Silva Martins também cultiva a escrita literária, especialmente a poesia. Seu início na escrita literária, embora não datado com precisão, revela um interesse intrínseco pela expressão artística e pela reflexão sobre a condição humana. Sua obra literária, ainda que menos volumosa que a jurídica, reflete uma sensibilidade apurada e uma capacidade de transpor para o verso temas universais. Participou de diversas publicações e antologias, compartilhando sua visão poética com um público mais amplo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A produção literária de Ives Gandra da Silva Martins, focada na poesia, explora temas como a vida, a morte, o tempo, a fé e a condição humana. Seus poemas frequentemente abordam reflexões filosóficas e existenciais, com uma linguagem por vezes densa e imagética, mas sempre acessível. O estilo pode ser classificado como lírico e reflexivo, com um tom pessoal e confessional em muitos de seus versos. A busca pela profundidade e pela verdade é uma constante em sua obra, que dialoga com a tradição literária e com as inquietudes do homem contemporâneo. Embora suas obras jurídicas sejam mais proeminentes, seus textos poéticos revelam um lado sensível e contemplativo de sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ives Gandra da Silva Martins vive e atua em um período de profundas transformações sociais, políticas e tecnológicas no Brasil e no mundo. Sua atuação como jurista e acadêmico o coloca em contato direto com os debates e os desafios da sociedade contemporânea. Como intelectual, sua obra, tanto jurídica quanto literária, reflete uma preocupação com os valores éticos, a justiça e a busca por um ordenamento social mais justo. Sua geração, marcada por intensos debates sobre o futuro do país e a consolidação da democracia, encontra na obra de Martins um contraponto reflexivo e humanista.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ives Gandra da Silva Martins é casado e tem filhos, e sua vida pessoal é marcada pela discrição. A família e as relações afetivas são, sem dúvida, fontes de inspiração para sua obra, conferindo-lhe um tom pessoal e humano. Profissionalmente, sua vida é dedicada ao Direito, à docência e à escrita, atividades que desempenha com notável afinco e paixão. Sua trajetória é um exemplo de dedicação ao conhecimento e de busca por um legado intelectual e ético.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ives Gandra da Silva Martins é amplamente reconhecido em âmbito nacional e internacional por sua contribuição ao Direito. Recebeu inúmeras homenagens, títulos e prêmios ao longo de sua carreira jurídica. Embora sua obra literária seja menos divulgada que a jurídica, a qualidade de sua poesia tem sido apreciada por críticos e leitores que se debruçam sobre sua produção. Seu nome é sinônimo de excelência e rigor intelectual no meio jurídico e acadêmico.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A formação de Ives Gandra da Silva Martins foi influenciada por grandes juristas e pensadores, tanto brasileiros quanto estrangeiros. No campo literário, suas influências podem ser buscadas em poetas que exploram a profundidade da alma humana e a reflexão existencial. Seu legado principal reside em sua obra jurídica, que moldou gerações de advogados e estudantes de direito, mas sua produção poética contribui para uma visão mais completa e humanizada de sua personalidade e de sua visão de mundo. Sua obra continua a inspirar debates e a formar mentes.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra poética de Ives Gandra da Silva Martins pode ser interpretada como uma busca pela transcendência e pela compreensão dos mistérios da existência. Seus poemas frequentemente abordam a dualidade entre o material e o espiritual, o efêmero e o eterno. A análise crítica de sua obra literária, embora menos extensa que a jurídica, aponta para a profundidade de suas reflexões e a originalidade de sua expressão poética, que se distancia de modismos passageiros para focar em temas universais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto menos conhecido de Ives Gandra da Silva Martins é sua faceta como poeta. Enquanto sua atuação no mundo jurídico é amplamente documentada e reconhecida, sua produção literária revela um lado mais íntimo e contemplativo. A escrita poética, para ele, pode ser vista como um espaço de liberdade para explorar sentimentos e indagações que talvez não encontrem vazão em sua área de atuação principal. Sua dedicação a múltiplas áreas do saber demonstra uma mente inquieta e versátil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ives Gandra da Silva Martins está vivo e continua sua prolífica atuação nas áreas jurídica, acadêmica e literária.