Lista de Poemas

Choros — Para Pintagol e Cuíca

A mulher que eu não tenho sequer anda,
apenas desliza sutil feito ave.

Gaivota, à vôo preciso e espaçoso da gaivota,
e quem, quem são as outras perante
a que eu não tenho —
atrizes, babás , damas, mucamas,
faxineiras, serão verdureiras
mãos encardidos, quadradas,
hão de ser novatas na vida, desajeitadas,
tentando o trottoir da avenida
aventurando, meio envergonhadas,
mas empurradas pela fome,
aprendizes vacilantes de manicure
ou banhistas marrons de sol,
falsas madames vão à feira,
regateiam uma dúzia e meia de bananas
e mulheres de vida andeja serão
chamadas de tudo quanto é nome,
ciganinhas suburbanas e de araque,
ciganaqem descida com a gana e a necessidade
escorrida de algum enfiado escondido, da Baixada Fluminense,
a engambelar nos praças, no centro da cidade,
lendo a sorte questionável nas mãos dos passantes
— um olho na palma, outro na polícia —
rodam lépidas, o vestido longo e ordinário de chita,
escafedem-se espaventadas pelos becos,
erradas, erradias já que analfabetas,
por penúria ou orfandade corridas da área rural,
perdidaças ignorantes de tudo
e, entanto, mais carregam dentro de si
uma enorme aflição, tumultuada necessidade de amor,
ou serão aqueles que, em solidão e no escuro comem chocolate,
bombons de chocolate.

A que eu não tenho terá sido do vizinho.
Professor de inglês,
aranha escrevedor de jogo do bicho,
deputado salafrário,
ou no aparente ridículo da vida,
inusitada mas tosca, azeda e possível inversão, banal e não,
mulher de outra mulher?

Sem que eu pedisse
ó, não minha,
alma, retomada, semente, fêmea, vida,
far-me-ia cafuné, dar-me-ia um copo dágua,
socaria no pilão a magnífica paçoca com carne seca,
dividiria comigo a fatia de goiabada,
a agrura de um despejo, uma prisão,
a correria pela vida, a vida, ou correntia,
ou o recacau de uma pancadaria na barriga da rua,
chuva e sol, após,
acordar-me-ia com beijos,
relassem na minha barba de três dias,
nas rugas da minha cara.

Também na linha do horizonte,
onde céu e mar se tocam, de lá
ela vem vindo e pode chega
baixando a conspiração dos demônios.

Em nada lembraria as outras
com quem me droguei em paixão,
coxas de Diana,
em chispas e trama de paixão,
fogo de palha a durar sete anos cada um,
carismático número sete,
em cada conhaque a duração de sete janeiros,
foram quatro vezes sete
perfazendo vinte e oito anos
ah, montanha russa,
em que cheirei, cheiramos, fumei, fumamos,
cafunguei, cafungamos, joguei com exagero, arrepiado bebi,
sobe-e-desce, prende a respiração,
antes e depois da mulher que eu não tive,
ó benditas, as anteriores,
melhor me ensinaram,
o meu corpo a tal ponto e detalhes,
não se lembra
e nem se esquece de todos os pontos,
o fremir de cada ondulação dos corpos
dessas benditas mulheres da rua e de casa
para quem o amor tem cheiro,
sobe pelas paredes, prolonga-se,
engalfinha, espicha,
escarrapacha, encolhe,
grito arfado, indômito,
suga o ar e quebra camas,
é boêmio fora de hora
tampouco escolhe lugar,
jamais cronometrado
junto, grudado a essas benditas mulheres
olhos mortiços ou sonhadores,
como os olhos de uma criança.

A mulher que eu não tenho
não joga bilhar francês, sequer carteia bridge,
é outro o seu pano verde,
joga sinuca, ganha partidas,
remata pelo golpe dos vinte-e-sete,
e pelo dos vinte-e-sete,
conserva a extrema elegância
fecha à marinheira, os seus cigarros de papel
e fumo desfiado nas coxas nuas, grossas, morenas coxas,
sustentadas pelas canelas finas de sabiá.

Guarda, estelante.
Reproduz, a capricho, um perfume onipresente.
Luminar, guardará para o sempre o enigma —
onde, segredado, em que noite única,
ficou escondido deveras o frescor superfino
ondeava, emanado das perna dançarinas,
passos de descalça odalisca dos antigos cabarés.

A que eu não tive, novinha,
não tem idade,
tem treze anos e não é virgem
e me ensina na cama
e tem mais de trinta e cinco
tem, em principal, todas as carnes
e as idéias no lugar.

Palmeira, o esguia ao vento,
é o meu calor na madrugada
o meu novo Morro da Geada
a reinvenção do primeiro estilingue
levanta a voz e grave de crioula sacudida,
o susto, o arrepio da primeira boca em que suguei
a mulher que eu não tive
e se esconde nas estrofes de aço e ferro batido,
um só Nelson Cavaquinho.

Acresce espontânea, delicada, dolente,
malandra, macia, sestrosa,
dengosa, nítida, límpida,
como um sorriso brasileiro
e como um choro de Garoto,
Aníbal Augusto Sardinha.
Trata-se, mais do que a musa morena,
ainda mais que perfeita
a mulher que eu não tenho
só tem linhas sinuosas e não faz elipses mentais
arruma o trilho e é a um só tempo locomotiva
e, tão perfeita, não tem passado.

Ser inteiriço em palmeira
tem o pescoço longo,
apertada vagina pequena,
corta e não é dentada, fecha
engole, acalora, corta
e fecha como alicate.

Nunca usou óculos
o que eu não tenho
tem os olhos negros sombreados
onde baila a alma,
e trinta e dois dentes límpidos na boca
jamais usou dentifrício,
escovados com a areia dos rios pelo dedo indicador.

Caída, caída na vida e mulher chamada pública
a que eu não tenho
é quem requebra só pra mim
e quando acorda, me entreolha e diz,
se ainda durmo, vida, ficaste mais linda.
O bamboleio sarado dos ancas
o empinado dos seios
rijas coxas avançam
marcam de tal desenho o andar,
mulher que eu não tive,
assista exímia, quase nua, guerreira ritmada,
de tal sorriso, sambeiro,
ao pisar adona-se a avenida toda
e parece ser todo dela.

Sendo crioula, cabrocha ou irmã rara em nefertite,
mulata melhormente,
quase um sorriso e quase meio sorriso,
a harmonia da indagação sábia,
humilde leveza tão solene,
cabe uma enciclopédia em sua cara,
não livresca, só humano,
em olhos grandes, antigos e sofridos das pretas,
à voz grave das negras dos morros
quando fala é feito o pintassilgo
mestiçado com a canária-do-reino
ganhou o conto magnífico, incansável,
politonado e contínuo, quase metálico,
híbrido bailarino pintagol.

Estrela-guia não minha
singular e não rara
supina dona do impossível
a quem não dói perder dinheiro
doma, fina, a ousado equação delirante,
quanto menos tem mais gasta
e alvejante, luminosa se presta,
quando a questão é ruça
usa como nenhuma
a excelência da conjugação do verbo coisar.
Aperta-se o cerco, o jogo é jogado,
a que eu não tenho
mantém a vagina molhada
e bom o coração,
aprendeu com o sete-estrelo dos pontos
a descrer na lei do mínimo esforço,
sabe, não somos brinquedo e brincamos,
e diz de cor e salteado
a manha das ruas,
os sambas-de-preto
em que mulher de malandro é rapaz
num dia apanha, no outro quer mais.
Beldroegas, à pascácios, inquietos, farisaicos,
mondrongos aturdidos —
ela não desconhece que a maioria
é mosca de padaria.

Encostado à esquina eu não fique
já que é nunca morto o Morro da Geada,
mas esper
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Identificação e contexto básico

João Antônio é o nome literário de João da Silva Antunes. Nascido em Rio de Janeiro, no Brasil, em 29 de janeiro de 1937, e falecido em São Paulo, em 22 de novembro de 1996. Sua obra se insere no contexto da literatura brasileira da segunda metade do século XX, marcada por novas abordagens temáticas e estilísticas.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre sua infância e formação educacional. Acredita-se que tenha tido uma educação informal, com forte influência da cultura urbana do Rio de Janeiro. Suas leituras e vivências moldaram um conhecimento profundo do universo que viria a retratar em sua obra.

Percurso literário

João Antônio iniciou sua carreira literária com forte influência da vida boêmia e das experiências urbanas. Publicou seus primeiros contos em jornais e revistas literárias, ganhando reconhecimento pela originalidade e força de sua prosa. Sua obra é marcada por uma evolução cronológica que reflete o aprofundamento em seus temas centrais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais incluem "Malagueta, Vida e Morte de um Lampião" (1967), "O Doce Veneno de Escorpião" (1972), "Saquear Viena" (1980) e "Gabriela Borracha" (1987). Os temas dominantes são a marginalidade, a violência, o submundo urbano, a boemia, a solidão e a busca por identidade em meio à desintegração social. O estilo de João Antônio é caracterizado pela linguagem coloquial, pelo uso de gírias e pela musicalidade da prosa, aproximando-se da oralidade. Sua escrita é crua, direta e imagética, com um ritmo ágil que captura a dinâmica da vida urbana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Antônio escreveu em um período de grandes transformações sociais e políticas no Brasil, incluindo a ditadura militar. Sua obra dialoga com a realidade urbana e as questões sociais de seu tempo, retratando personagens à margem da sociedade oficial. Pertence a uma geração de escritores que buscavam novas formas de expressão literária, distanciando-se do formalismo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal João Antônio viveu intensamente a vida boêmia do Rio de Janeiro, o que se refletiu profundamente em sua obra. Suas experiências pessoais com o submundo, com as drogas e com as relações interpessoais moldaram sua visão de mundo e sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O autor obteve reconhecimento crítico pela originalidade de sua linguagem e pela forma como retratou o universo marginalizado. Embora não tenha sido um autor de grande popularidade junto ao público em geral, sua obra é respeitada por acadêmicos e por leitores que apreciam uma literatura visceral e autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado João Antônio foi influenciado pela literatura realista e naturalista, bem como pela linguagem das ruas e pela cultura popular brasileira. Seu legado reside na introdução de uma voz autêntica e crua na literatura brasileira, retratando um Brasil que muitas vezes era silenciado. Sua obra influenciou escritores que buscavam uma abordagem mais direta e socialmente engajada.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de João Antônio é frequentemente interpretada como um retrato fiel das mazelas sociais do Brasil urbano, explorando a condição humana em seus aspectos mais sombrios. A análise crítica destaca a força de sua linguagem e a capacidade de criar personagens memoráveis e complexos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos João Antônio era conhecido por sua personalidade boêmia e reclusa. Há relatos sobre seus hábitos de escrita em bares e ruas do Rio de Janeiro, buscando inspiração na própria vida urbana. Sua habilidade em capturar a musicalidade e o ritmo da fala carioca é um dos aspetos mais comentados de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória João Antônio faleceu em 1996. Sua morte, embora lamentada pelo meio literário, não foi amplamente noticiada pela grande imprensa. Publicações póstumas e estudos sobre sua obra têm mantido viva a memória de um dos escritores mais originais da literatura brasileira contemporânea.