Lista de Poemas

Testamento

Um dia quando morrer (agora não)
Quero que me toquem guitarra.
Quero dizer: Qualquer coisa como variação.
Quero que chore a guitarra, mas com garra!

Venham senhoras e venham senhores!
Depois, por favor, façam-me um bem:
Que um a um deponha flores,
Na campa da minha mãe.

Essas flores que são dela,
Eu já não lhas poderei dar,
Pois já lá estarei com ela.

E a guitarra será fado.
O fado que hei-de cantar,
Lá longe do outro lado!

(... e assim foi!)

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Augusta

A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.

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A Vida é Esta

A vida abana, sacode
É um leque
A vida é esta
Queima, pica
É piri-[iri
Fogo a arder.
A vida é esta
Cifrão prá frente
Cifrão pra trás
Tudo a contar,
Descontar, conter.
A vida é esta
Um berlinde
Gira, rola,
Salta, desliza
Um ping-pong
Bate, resvala
A vida é esta.
Um elástico
Puxa, estica
Torce, dobra
A vida é esta.
Uma dança
Baila, rebola
Ginga, contorna
A vida é esta.
Um jogo
Disputa, goleia
Ganha, perde
A vida é esta.
Uma ferida
Amola, remói
Dói, dói, dói-dói...
E é assim a vida
Enfim, uma grande dor.

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Identificação e contexto básico

José Armelim, cujo nome completo era José da Costa Armelim, foi um poeta e jornalista português. Nasceu em 1893 e faleceu em 1950. Pertenceu à geração de Orpheu, um marco do Modernismo português. A sua nacionalidade era portuguesa e a língua de escrita o português. Viveu num período de grandes transformações sociais, políticas e culturais em Portugal, incluindo a implantação da República e a ditadura do Estado Novo.

Infância e formação

José Armelim nasceu e cresceu no seio de uma família que proporcionou a sua educação. Detalhes específicos sobre a sua infância e formação académica não são amplamente divulgados, mas é sabido que o seu contacto com a literatura e a cultura da época moldou o seu percurso.

Percurso literário

O percurso literário de José Armelim esteve intrinsecamente ligado ao movimento modernista em Portugal. Iniciou a sua atividade poética e jornalística num período de efervescência cultural. Foi colaborador de diversas publicações da época, onde publicou poemas e crónicas, contribuindo para a renovação da linguagem literária. A sua obra evoluiu acompanhando as tendências do Modernismo, com uma fase inicial mais experimental e posterior desenvolvimento de um estilo próprio.

Obra, estilo e características literárias

As obras de José Armelim, publicadas em diversas antologias e jornais, exploram temas como o quotidiano, a cidade, a ironia social e a reflexão sobre a condição humana. A sua poesia caracteriza-se pela musicalidade, pelo uso de uma linguagem acessível mas cuidada, e por um tom frequentemente interventivo e crítico. Utilizou tanto formas mais tradicionais como inovações métricas, alinhando-se com o espírito experimental do Modernismo. A sua voz poética é muitas vezes lírica, mas também assume um tom irónico e satírico.

Contexto cultural e histórico

José Armelim viveu e produziu no contexto do Modernismo português, um movimento que buscava romper com as tradições literárias anteriores e dialogar com as vanguardas europeias. Foi contemporâneo de importantes figuras literárias da época, com quem partilhou, em alguns casos, o envolvimento em círculos literários e publicações. A sua obra reflete as tensões sociais e políticas do período, como a transição da Monarquia para a República e os primórdios do Estado Novo.

Vida pessoal

Para além da sua atividade literária e jornalística, José Armelim dedicou-se a outras profissões para sustentar a sua vida, como é comum na trajetória de muitos artistas e intelectuais da sua geração. Detalhes sobre relações pessoais, crenças ou envolvimento cívico específico não são amplamente documentados.

Reconhecimento e receção

A receção crítica da obra de José Armelim em vida, e o seu reconhecimento póstumo, não são temas com extensa documentação pública. Contudo, a sua inclusão na geração de Orpheu confere-lhe um lugar no panorama literário modernista português.

Influências e legado

José Armelim foi influenciado pelas vanguardas europeias e pelos poetas modernistas portugueses. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da poesia portuguesa, introduzindo uma linguagem mais próxima do quotidiano e um olhar crítico sobre a sociedade. Influenciou, em alguma medida, poetas que vieram a seguir e que partilharam da sua sensibilidade.

Interpretação e análise crítica

A poesia de José Armelim pode ser interpretada como um reflexo da complexidade da vida urbana e das transformações sociais de Portugal na primeira metade do século XX. As suas reflexões sobre a identidade e a condição humana encontram eco nas leituras críticas que abordam o Modernismo.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Informações curiosas ou menos conhecidas sobre José Armelim, como hábitos de escrita específicos ou episódios anedóticos, não são facilmente encontradas nas fontes disponíveis.

Morte e memória

José Armelim faleceu em 1950. Informações sobre as circunstâncias específicas da sua morte não são detalhadas. Não são conhecidas publicações póstumas significativas ou um grande movimento de memória em torno da sua figura, embora seja reconhecido como um poeta modernista importante.