Lista de Poemas

Ausência

Em Paris, no ano de 1790.

Pode o Fado cruel com mão ferrenha,
Eulina amada, meu encanto e vida,
Abafar este peito e sufocar-me!
Que pretende o Destino? em vão presume
Rasgar do meu o coração de Eulina,
Pois fazem sós um coração inteiro!
alma impressa,
Tu desafias, tu te ris do Fado.
Embora contra nós ausência fera,
Solitárias campinas estendidas,
Serras alpinas, áridos desertos,
Largos campos da cérula Amphitrite
Dois corpos enlaçados separando,
Conspirem-se até mesmo os Céus Tiranos.
Sim, os Céus! Ah! parece que nem sempre
Neles mora a bondade! Escuro Fado
Os homens bandeando, como o vento
Os grãos de areia sobre a praia infinda
Dos míseros mortais brinca e os males
Se tudo pode, isto não pode o Fado!
Sim, adorada, angelical Eulina.
Eterna viverás a esta alma unida,
Eterna! pois as almas nunca morrem.
Quando os corpos não possam atraídos
Ligarem-se em recíprocos abraços,
(Que prazer, minha amada! O Deus Supremo,
Quando fez com a voz grávido o Nada,
Maior não teve) podem nossas almas,
A despeito de mil milhões de males,
Da mesma morte. E contra nós que vale?
Do sangrento punhal, que o Fado vibre,
Quebrar a ponta; podem ver os Mundos
Errar sem ordem pelo espaço imenso;
Toda a Matéria reduzir-se em nada,
E podem ainda nossas almas juntas,
Em amores nadar de eterno gozo!


Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).

In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similiar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.63-64. (Coleção Afrânio Peixoto
1 202

Ode aos Baianos

(...)

Duas vezes, Bahianos, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.

Porém enquanto me animar o peito,
Este sopro de vida, que ainda dura
O nome da Bahia, agradecido
Repetirei com júbilo.

Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.

Cingida a fronte de sangrentos loiros
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me o esposo,
Nem seu pai a criança.

Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.

Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.

(...)


Publicado no livro Poesias (1861).

In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.157-158. (Coleção Afrânio Peixoto)

NOTA: Poema composto de 136 quadra
1 948

Sonetos

Eu vi Narcina um dia, que folgava
Na fresca borda de uma fonte clara:
Os peitos, em que Amor brinca e se ampara,
Com aljofradas gotas borrifava.

O colo de alabastro nu mostrava
A meu desejo ardente a incauta avara.
Com ponteagudas setas, que ela ervara,
Bando de Cupidinhos revoava.

Parte da linda coxa regaçado
O cândido vestido descobria;
Mas o templo de amor ficou cerrado:

Assim eu vi Narcina. — Outra não cria
O poder da Natura, já cansado;
E se a pode fazer, que a faça um dia.


Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).

In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.77. (Coleção Afrânio Peixoto
1 630

Ode

As nítidas maminhas vacilantes
Da sobre-humana Eulina,
Se com fervidas mãos ousado toco,
Ah! que me imprimem súbito
Elétrico tremor, que o corpo inteiro
Em convulsões me abala!
O sangue ferve: em catadupas cai-me...
Brotam-me lume as faces...
Raios vibram os olhos inquietos...
Os ouvidos me zunem!
Fugir me quer o coração do peito...
Morro de todo, amada!
Fraqueja o corpo, balbucia a fala!
Deleites mil me acabam!
Mas ah! que impulso novo, ó minha Eulina!
Resistir-lhe não posso...
Deixa com beijos abrasar teu peito:
Une-te a mim... morramos.


Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).

In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.12. (Coleção Afrânio Peixoto
1 609

Improvisado

DERMINDA, esses teus olhos soberanos
Têm cativado a minha liberdade;
Mas tu cheia, cruel, de impiedade
Não deixas os teus modos desumanos.

Por que gostas causar dores e danos?
Basta o que eu sofro: tem de mim piedade!
Faze a minha total felicidade,
Volvendo-me esses olhos mais humanos.

Já tenho feito a última fineza
Para ameigar-te a rija condição;
És mais que tigre, foi baldada empresa.

Podem meus ais mover a compaixão
Das pedras e dos troncos a dureza,
E não podem abrandar um coração?


Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).

In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.80. (Coleção Afrânio Peixoto
1 265

É impossível. Vossa Excelência não teria suas manhas se tivesse meus talentos

 

37

Os brasileiros mostram altivez nas baixezas, amor-próprio nas bagatelas e obstinação em puerilidades

 

39

A maior corrupção se acha onde a maior pobreza está ao lado da maior riqueza

 

38

Ode aos Baianos

Altiva musa, ó tu que nunca incenso
Queimaste em nobre altar ao despotismo;
Nem insanos encômios proferiste
De cruéis demagogos;

Ambição de poder, orgulho e fausto
Que os servis amam tanto, nunca, ó musa,
Acenderam teu estro — a só virtude
Soube inspirar louvores.

Na abóbada do templo da memória
Nunca comprados cantos retumbaram:
Ali! vem, ó musa, vem: na lira doiro
Não cantarei horrores.

Arbitrária fortuna! desprezível
Mais quessas almas vis, que a ti se humilham,
Prosterne-se a teus pés o Brasil todo;
Eu, nem curvo o joelho.

Beijem o pé que esmaga, a mão que açoita
Escravos nados, sem saber, sem brio;
Que o bárbaro Tapuia, deslumbrado,
O deus do mal adora.

Não — reduzir-me a pó, roubar-me tudo,
Porém nunca aviltar-me pode o fado;
Quem a morte não teme, nada teme
Eu nisto só confio.

Inchado do poder, de orgulho e sanha,
Treme o vizir, se o grão-senhor carrega,
Porque mal digeriu, sobrolho iroso,
Ou mal dormiu a sesta.

Embora nos degraus do excelso trono
Rasteje a lesma para ver se abate
A virtude que odeia — a mim me alenta
Do que valho a certeza.

E vós também, BAIANOS, desprezastes
Ameaças, carinhos — desfizestes
As cabalas, que pérfidos urdiram
Inda no meu desterro.

Duas vezes, BAIANOS, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.

Porém enquanto me animar o peito
Este sopro de vida, que inda dura,
O nome da BAHIA, agradecido,
Repetirei com júbilo.

Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.

Cingida a fronte de sangüentos loiros,
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me esposo,
Nem seu pai a criança.

Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.

Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.

Vales e serras, altas matas, rios,
Nunca mais vos verei — sonhei outrora
Poderia entre vós morrer contente;
Mas não — monstros o vedam.

Não verei mais a viração suave
Parar o aéreo vôo, e de mil flores
Roubar aromas, e brincar travessa
Co trêmulo raminho.

Oh! país sem igual, país mimoso!
Se habitassem em ti sabedoria,
Justiça, altivo brio, que enobrecem
Dos homens a existência;

De estranha emolução aceso o peito,
Lá me ia formando a fantasia
Projetos vil para vencer vil ócio,
Para criar prodígios!

Jardins, vergéis, umbrosas alamedas,
Frescas grutas então, piscosos lagos,
E pingues campos, sempre verdes prados
Um novo Éden fariam.

Doces visões! fugi! — ferinas almas
Querem que em França um desterrado morra:
Já vejo o gênio da certeira morte
Ir afiando a foice.

Galicana donzela, lacrimosa,
Trajando roupas lutuosas longas,
De meu pobre sepulcro a tosca loisa
Só cobrirá de flores.

Que o Brasil inclemente (ingrato ou fraco)
As minhas cinzas um buraco nega:
Talvez tempo virá que inda pranteie
Por mim com dor pungente.

Exulta, velha Europa: o novo Império,
Obra-prima do Céu! por fado ímpio
Não será mais o teu rival ativo
Em comércio e marinha.

Aquele, que gigante inda no berço
Se mostrava às nações, no berço mesmo
É já cadáver de cruéis harpias,
De malfazejas fúrias.

Como, ó Deus! que portento! a Urânia Vênus
Ante mim se apresenta? Riso meigo
Banha-me a linda boca, que escurece
Fino coral nas cores.

"Eu consultei os fados, que não incutem
(Assim me fala piedosa a deusa):
"Das trevas surgirá sereno dia
"Para ti, para a pátria.

"O constante varão, que ama a virtude,
"Cos berros da borrasca não se assusta,
"Nem como folha de álamo rejeite
"Treme à face dos males.

"Escapaste a cachopos mil ocultos,
"Em que há de naufragar como até agora,
"Tanto áulico perverso — em França, amigo,
"Foi teu desterro um porto.

"Os teus BAIANOS, nobres e briosos,
"Gratos serão a quem lhes deu socorro
"Contra o bárbaro Luso, e a liberdade
"Meteu no solo escravo.

"Há de enfim essa gente generosa
"As trevas dissipar, salvar o Império;
"Por eles liberdade paz, justiça
"Serão nervos do Estado.

"Qual a palmeira que domina ufana
"Os altos topos da floresta espessa:
"Tal bem presto há de ser no mundo novo
"O Brasil bem-fadado.

"Em vão de paixões vis cruzados ramos
"Tentarão impedir do sol os raios —
"A luz vai penetrando a copa opaca;
"O chão brotará flores."

Calou-se então — voou. E as soltas tranças
Em torno espalham mil sabeus perfumes,
E os zéfiros as asas adejando
Vazam dos ares rosas.

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Identificação e contexto básico

José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido como o Patriarca da Independência do Brasil, nasceu na Vila de Santos, então Província de São Paulo, Brasil, em 13 de junho de 1763. Faleceu no Rio de Janeiro em 6 de abril de 1838. Era filho de família abastada, com forte ligação com a terra e a tradição colonial. Sua nacionalidade era brasileira e a língua de escrita, o português. Viveu um período crucial de transição histórica, marcado pelas ideias iluministas e pela iminência da emancipação das colônias americanas.

Infância e formação

Nascido em uma família de fazendeiros e comerciantes, José Bonifácio teve uma infância privilegiada em Santos. Recebeu a educação formal inicial em sua cidade natal e, posteriormente, foi enviado a Coimbra, Portugal, para estudar na Universidade de Coimbra, onde se formou em Direito em 1788. Durante sua estadia na Europa, absorveu as ideias iluministas que circulavam nos círculos intelectuais da época, além de se aprofundar em estudos científicos, como mineralogia e botânica. Eventos como a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas, que se desenrolaram durante sua juventude e vida adulta, influenciaram sua visão de mundo e seu pensamento político.

Percurso literário

O início da escrita de José Bonifácio remonta ao período de sua formação em Coimbra, onde participou de tertúlias literárias e produziu poemas de caráter arcádico e neoclássico. Sua obra poética evoluiu timidamente, sempre ofuscada por sua proeminente carreira política e científica. Publicou alguns poemas em jornais e em antologias da época, mas não se dedicou intensamente à produção literária em larga escala. Sua atividade como tradutor e editor foi modesta.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de José Bonifácio é escassa e, em sua maioria, de caráter mais pessoal ou em tom de ocasião. Não há obras principais publicadas em vida com a notoriedade de suas contribuições políticas. Os temas predominantes em sua poesia, quando presente, podem ser associados à natureza, à exaltação da pátria e a reflexões sobre a condição humana, muitas vezes com um toque didático ou moralizante, em consonância com o pensamento iluminista. Sua forma poética geralmente se alinha com os padrões da época, como o soneto, mas sem grandes experimentações. O tom poético varia entre o lírico e o didático. A linguagem é culta e alinhada com o português de seu tempo. Embora não tenha introduzido inovações formais radicais, sua obra reflete o diálogo entre a tradição clássica e as novas ideias que prenunciavam o Romantismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Bonifácio viveu em um período de intensas transformações históricas, incluindo a vinda da Família Real para o Brasil, a Independência e os primeiros anos do Império. Sua atuação política o colocou no centro desses eventos, sendo um dos principais arquitetos da emancipação brasileira. Pertenceu à geração que lutou pela independência e pela consolidação do Estado nacional. Sua posição filosófica era fortemente influenciada pelo Iluminismo, com ênfase na razão, no progresso e na importância da educação. A sociedade brasileira da época, com suas contradições e sua estrutura colonial, moldou profundamente sua visão e suas ações.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal José Bonifácio foi casado com Carlota Emília de Andrada e Paes de Alvarenga, com quem teve filhos. Manteve relações de amizade com importantes figuras intelectuais e políticas de sua época. Sua vida foi marcada por crises pessoais, como o exílio em tempo de guerra e as complexas disputas políticas pelo poder. Profissionalmente, além de sua atuação política, foi um notável cientista, dedicando-se à mineralogia e à botânica, o que lhe garantiu reconhecimento internacional. Sua crença na razão e no progresso era fundamental, e ele se envolveu ativamente em questões cívicas e de desenvolvimento para o Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção José Bonifácio é amplamente reconhecido como uma figura central na história do Brasil, especialmente por seu papel na Independência. Sua obra científica também lhe rendeu distinções em academias europeias. Na época, sua atuação política era objeto de grande debate e reconhecimento, mas sua obra poética teve uma recepção mais modesta, sendo vista mais como um complemento à sua figura pública do que como um corpus literário de grande impacto.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado José Bonifácio foi influenciado por autores do Iluminismo, como Rousseau e Montesquieu, e por poetas clássicos e arcádicos. Seu legado principal reside na sua contribuição política para a formação do Brasil. Como poeta, sua influência é menos direta, mas sua obra reflete o pensamento e a sensibilidade de um período de transição. Sua entrada no cânone literário é modesta, sendo mais lembrado como político e cientista. Seus escritos, no entanto, são importantes para a compreensão do contexto intelectual e cultural do Brasil no século XIX.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra poética de José Bonifácio pode ser interpretada à luz de suas convicções iluministas e de sua visão de um Brasil em formação. Os temas existenciais e filosóficos estão presentes, mas frequentemente sob o prisma de uma moralidade pública e de um ideal de civilidade. As análises críticas de sua poesia geralmente a colocam como um reflexo de seu tempo e de sua personalidade multifacetada, mais do que como uma expressão lírica de vanguarda.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto menos conhecido de José Bonifácio é sua profunda dedicação à ciência, que o levou a viagens de exploração e a estudos detalhados da flora e fauna brasileira. Apesar de sua figura pública austera, há relatos de seu envolvimento em debates intelectuais e de sua personalidade forte e por vezes controversa. Seus hábitos de escrita eram provavelmente regrados pela sua intensa atividade política e científica. Manuscritos e correspondências suas, especialmente sobre temas científicos e políticos, existem em acervos importantes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Bonifácio de Andrada e Silva faleceu no Rio de Janeiro em 6 de abril de 1838, após uma vida dedicada ao Brasil. Sua memória é celebrada como um dos grandes vultos da história brasileira, o Patriarca da Independência. Não há publicações póstumas de grande relevância de sua obra poética, sendo sua figura eternizada por suas contribuições políticas e administrativas.