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Juião Bolseiro

Juião Bolseiro

n. 1250 PT PT

n. 1250-01-01

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Aquestas Noites Tam Longas Que Deus Fez Em Grave Dia

Aquestas noites tam longas que Deus fez em grave dia
por mim, por que as nom dórmio, e por que as nom fazia
       no tempo que meu amigo
       soía falar comigo?

Porque as fez Deus tam grandes, nom posso eu dormir, coitada,
e, de como som sobejas, quisera-m'outra vegada
       no tempo que meu amigo
       soía falar comigo.

Porque as Deus fez tam grandes, sem mesura, desiguaes,
e as eu dormir nom posso, por que as nom fez ataes
       no tempo que meu amigo
       soía falar comigo?
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Biografia
Jogral galego, exerceu a sua actividade poética nas cortes de Castela e Portugal, no terceiro quartel do século XIII. Pensa-se que terá permanecido algum tempo na corte de D. Afonso III. Cultivou os três géneros da poesia lírica galego-portuguesa, e embora nos cancioneiros lhe sejam atribuídos trinta textos, apenas dezoito poemas são reconhecidos como sendo da sua autoria: quinze cantigas de amigo, duas tenções (com os nobres João Soares Coelho e Mem Rodrigues Tenoiro) e uma cantiga de amor. Entre as suas cantigas destaca-se uma, intitulada «Mal me tragedes, ay filha», história de uma mãe que, em vez de confidente da filha, é a sua própria rival. São também notáveis algumas das suas cantigas de amigo, quer pela originalidade, quer pela vivacidade com que os temas habituais do género (ciúme e despeito) são tratados.

Poemas

18

Aquestas Noites Tam Longas Que Deus Fez Em Grave Dia

Aquestas noites tam longas que Deus fez em grave dia
por mim, por que as nom dórmio, e por que as nom fazia
       no tempo que meu amigo
       soía falar comigo?

Porque as fez Deus tam grandes, nom posso eu dormir, coitada,
e, de como som sobejas, quisera-m'outra vegada
       no tempo que meu amigo
       soía falar comigo.

Porque as Deus fez tam grandes, sem mesura, desiguaes,
e as eu dormir nom posso, por que as nom fez ataes
       no tempo que meu amigo
       soía falar comigo?
1 564

Partir Quer Migo Mia Madr'hoj'aqui

Partir quer migo mia madr'hoj'aqui
quant'há no mund', u outra rem nom jaz:
de vós, amig', ũa parte mi faz,
e faz-m'outra de quant'há e de si;
       e, pois faz esto, manda-m'escolher;
       que mi mandades, amigo, fazer?

Partir quer migo como vos direi:
de vós mi faz [i] ũa parte já
e faz-m'outra de si e de quant'há
e de quantos outros parentes hei;
       e, pois faz esto, manda-m'escolher;
       que mi mandades, amigo, fazer?

E de qual guisa migo partir quer
a partiçom, ai meu amig', é tal:
ũa me faz, senhor, de vós, sem al,
outra de si e de quant'al houver;
       e, pois faz esto, manda-m'escolher;
       que mi mandades, amigo, fazer?

De vós me faz ũa parte, ai senhor
e meu amig'e meu lum'e meu bem,
e faz-m'outra de grand'algo que tem
e pom-me demais i o seu amor;
       e, pois faz esto, manda m'escolher;
       que mi mandades, amigo, fazer?

E, poilo ela part', a meu prazer,
em vós quer'eu, meu amig', escolher.
871

Que Olhos Som Que Vergonha Nom Ham

Que olhos som que vergonha nom ham,
dized', amigo, doutra, ca meu nom,
e dized'ora, se Deus vos perdom:
pois que vos já com outra preço dam,
       com[o] ousastes viir ant'os meus
       olhos, amigo, por amor de Deus?

Ca vós bem vos devía[des] nembrar
em qual coita vos eu já por mi vi,
fals', e nembra[r]-vos qual vos fui eu i;
mais, pois com outra fostes começar,
       com[o] ousastes viir ant'os meus
       olhos, amigo, por amor de Deus?

Par Deus, falso, mal se mi gradeceu,
quando vós houvérades de morrer
se eu nom fosse, que vos fui veer;
mais, pois vos outra já de mim venceu,
       com[o] ousastes viir ant'os meus
       olhos, amigo, por amor de Deus?

Nom mi há mais vosso preito mester,
e ide-vos já, por Nostro Senhor,
e nom venhades nunca u eu for;
pois começastes com outra molher,
       com[o] ousastes viir ant'os meus
       olhos, amigo, por amor de Deus?
814

Ai Madre, Nunca Mal Sentiu

Ai madre, nunca mal senti[u],
nem soubi que x'era pesar,
a que seu amigo nom viu,
com'hoj'eu vi o meu, falar
       com outra, mais poilo eu vi,
       com pesar houvi a morrer i.

E, se molher houve d'haver
sabor d'amigo, u lho Deus deu,
sei eu que lho nom fez veer,
com'a mi fez vee'lo meu,
       com outra, mais poilo eu vi,
       com pesar houvi a morrer i.
798

Vej'eu, Mia Filha, Quant'é Meu Cuidar

- Vej'eu, mia filha, quant'é meu cuidar,
as barcas novas viir pelo mar,
       em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, se Deus vos empar,
       irei veer se vem meu amig'i.

- Cuid'eu, mia filha, no meu coraçom,
das barcas novas, que aquelas som
       em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, se Deus vos perdom,
       irei veer se vem meu amig'i.

- Filha fremosa, por vos nom mentir,
vej'eu as barcas pelo mar viir
       em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, quant'eu poder ir,
       irei veer se vem meu amig'i.
779

Mal Me Tragedes, Ai Filha, Por Que Quer'haver Amigo

Mal me tragedes, ai filha, por que quer'haver amigo,
e, pois eu, com vosso medo, nom o hei nem é comigo,
       nom hajade'la mia graça,
       e dê-vos Deus, ai mia filha,
       filha que vos assi faça,
       filha que vos assi faça.

Sabedes ca, sem amigo, nunca foi molher viçosa,
e, porque mi o nom leixades haver, mia filha fremosa,
       nom hajade'la mia graça,
       e dê-vos Deus, ai mia filha,
       filha que vos assi faça,
       filha, que vos assi faça.

Pois eu nom hei meu amigo, nom hei rem do que desejo,
mais, pois que mi por vós vẽo, mia filha, que o nom vejo,
       nom hajade'la mia graça,
       e dê-vos Deus, ai mia filha,
       filha que vos assi faça,
       filha, que vos assi faça.

Per vós perdi meu amigo, por que gram coita padesco,
e, pois que mi o vós tolhestes e melhor ca vós paresco,
       nom hajade'la mia graça,
       e dê-vos Deus, ai mia filha,
       filha que vos assi faça,
       filha, que vos assi faça.
765

Nom Perdi Eu, Meu Amigo, Des Que Me de Vós Parti

Nom perdi eu, meu amigo, des que me de vós parti,
do meu coraçom gram coita, nem gram pesar, mais perdi
       quanto tempo, meu amigo,
       vós nom vivestes comigo.

Nem perderam os olhos meus chorar nunca, nem eu mal,
des que vos vós daqui fostes, mais vedes que perdi al:
       quanto tempo, meu amigo,
       vós nom vivestes comigo.
748

Juïão, Quero Contigo Fazer

- Juïão, quero contigo fazer,
se tu quiseres, ũa entençom:
e querrei-te, na primeira razom,
ũa punhada mui grande poer
eno rostro, e chamar-te rapaz
mui mao; e creo que assi faz
boa entençom quen'a quer fazer.

- Meem Rodriguiz, mui sem meu prazer
a farei vosc', assi Deus me perdom:
ca vos haverei de chamar cochom,
pois que eu a punhada receber;
des i trobar-vos-ei mui mal assaz,
e atal entençom, se a vós praz,
a farei vosco mui sem meu prazer.

- Juïão, pois [con]tigo começar
fui, direi-t'ora o que te farei:
ũa punhada grande te darei,
des i querrei-te muitos couces dar
na garganta, por te ferir peor,
que nunca vilão haja sabor
doutra tençom comego começar.

- Meem Rodriguiz, querrei-m'emparar,
se Deus me valha, como vos direi:
coteife nojoso vos chamarei,
pois que eu a punhada recadar;
des i direi, pois sô os couces for:
"Le[i]xade-m'ora, por Nostro Senhor",
ca assi se sol meu padr'a emparar.

- Juïão, pois que t'eu [ora] filhar
pelos cabelos e que t'arrastrar,
ah que dez couces te presentarei!

- Meem Rodriguiz, se m'eu trosquiar,
ou se me fano, ou se m'encostar,
ai, trobador, já vos nom tornarei!
746

Sem Meu Amigo Manh'eu Senlheira

Sem meu amigo manh'eu senlheira,
e sol nom dormem estes olhos meus,
e, quant'eu posso, peç'a luz a Deus
e nom mi a dá, per nulha maneira,
       mais, se masesse com meu amigo,
       a luz agora seria migo.

Quand'eu com meu amigo dormia,
a noite nom durava nulha rem,
e ora dur'a noit'e vai e vem,
nom vem [a] luz nem parec'o dia,
       mais, se masesse com meu amigo,
       a luz agora seria migo.

E segundo com'a mi parece,
u migo mam meu lum'e meu senhor,
vem log'a luz, de que nom hei sabor,
e ora vai noit'e vem e crece;
       mais, se masesse com meu amigo,
       a luz agora seria migo.

Pater Nostrus rez'eu mais de cento
por Aquel que morreu na vera cruz,
que el mi mostre mui ced[o] a luz,
mais mostra-mi as noites d'Avento;
       mais, se masesse com meu amigo,
       a luz agora seria migo.
735

Fui Hoj'eu, Madre, Veer Meu Amigo

Fui hoj'eu, madre, veer meu amigo,
que envio[u] muito rogar por en,
porque sei eu ca mi quer mui gram bem;
mais vedes, madre, pois m'el vio consigo,
       foi el tam ledo que, des que naci,
       nunca tam led'home com molher vi.

Quand'eu cheguei, estava el chorando
e nom folgava o seu coraçom,
cuidand'em mi, se iria, se nom,
mais, pois m'el viu, u m'el estava asperando,
       foi el tam ledo que, des que naci,
       nunca tam led'home com molher vi.

E, pois Deus quis que eu fosse u m'el visse,
diss'el, mia madre, como vos direi:
"Vej'eu viir quanto bem no mund'hei";
e vedes, madre, quand'el esto disse,
       foi tam ledo que, des que eu naci,
       nunca tam led'home com molher vi.
696

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