Lista de Poemas

O Caipora

— No meio da mata, menino, não corras,
Que o vil caipora
Agora,
Nesta hora
Passeia montado no seu caititu;
E arteiro e malino
Se encontra o menino...
Ai dele! que o leva no seu grande uru!

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Seus olhos pequenos são negros, e feros,
Quais d'onça, luzentes,
Ardentes...
E os dentes
São como os do mero, ferinos, cruéis;
E o duro cabelo,
Assim, como o pêlo
Dos bravos queixadas, que são-lhe fiéis.

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Qu'ousado e valente o tal caboclinho,
De penas coberto,
Esperto...
Decerto
Se vê-te quer fumo, pedir-t'o lá vem;
Se acaso lh'o negas,
Se não lh'o entregas,
Quem é que te salva? Lá vais ao moquém!

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Se acaso te encontra... lá vais para a grota
Debalde lutando,
Gritando,
Chorando,
Na embira amarrado do seu grande uru!
Não corras menino,
Que o índio malino
Na mata passeia no seu caititu!

E o louco menino
Não quis escutar;
Fugindo de casa
Não pôde voltar.


In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
4 743

Alface

A alface das nossas hortas
É do ópio sucedâneo:
Acalma dores e tosses,
Seu efeito é instantâneo.

Serve o chá das suas folhas
Para curar os nervosos,
E para banhar os olhos
Inflamados, dolorosos.

Quem o tomar, ao deitar-se,
Logo o sono concilia:
Galeno ceava alfaces,
Pois de insônia padecia.

As urinas facilitam,
E servem de laxativo;
Finalmente, em muitos males
Não há melhor lenitivo.


In: GALENO, Juvenal. Medicina caseira. Apres. Oswaldo Riedel. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
3 164

As Formas de Governo

Logo após a indepêndencia
De minha pátria nação,
Sobre as formas de governo
Versou forte discussão:
Um queria monarquia
Sujeita à Constituição,
Outro — um rei absoluto,
E outro mais resoluto
Pedia a — federação!

Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!

Palavra puxa palavra...
Té que se escuta o canhão;
As balas voam ferinas...
De mortos cobrem-se o chão!
Quando o brado da vitória
Solta uma forte facção...
E gemidos consternados
A prole dos fuzilados
Aos olhos da multidão!

Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!

Como infante, a minha pátria
Não sabia o que escolher;
Era nóvel — só por isso
Ninguém devera morrer;
Pois é próprio das crianças
O querer e não querer;
Hoje, não — mestra exp'riência
Nos mostra a conveniência
Do que devemos fazer!
(...)
Assim pois com toda a calma,
Após muito meditar,
Vejamos qual dos governos
É o mais fácil de aturar:
A república?... Excelente!
Só ela vem-nos salvar!
Mas... se o chefe, ou presidente,
Como o Lopes, é ingente
No despotismo sem par?...

Então, então...
Já não sou republicano...
Já mudei de opinião!

O governo absoluto,
o rei não sendo cruel,
Sendo das letras esteio
Do povo amigo fiel...
Este sim... é excelente!
Mas, se como a cascavel,
Mau se torna e desumano...
E também fero tirano
Ódio todo... e todo fel?...

Então, então
Eu não quero tal governo,
Já mudei de opinião!

(...)


In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
2 261

A Moda

O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!

Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!

É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!

Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.

Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.

Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!

E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)

Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!

E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)

E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!

Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!


Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).

In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
2 521

Os Barões

I

Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.

(...)

III

Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...

Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!

As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;

E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!

E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!

Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...

(...)


Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).

In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969

NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
1 920

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Identificação e contexto básico

Juvenal Galeno, cujo nome completo era Juvenal de Almeida Galeno, foi um poeta, jornalista e professor brasileiro. Nasceu em Sobral, Ceará, em 1854, e faleceu em Fortaleza, Ceará, em 1932. É considerado um dos representantes da poesia cearense e brasileira do período pós-romântico, com forte inclinação para o regionalismo.

Infância e formação

Galeno teve uma infância modesta no interior do Ceará. Sua formação intelectual foi, em grande parte, autodidata, complementada por estudos que o levaram a se tornar professor primário. A vivência no ambiente rural e a observação da vida sertaneja foram fundamentais para moldar sua sensibilidade poética e seus temas.

Percurso literário

Iniciou sua carreira literária publicando poemas em jornais de Sobral e Fortaleza. Sua produção poética ganhou destaque ao retratar o cotidiano, a paisagem e os tipos humanos do sertão cearense. Além da poesia, atuou como jornalista, escrevendo para diversos periódicos, e como professor, dedicando-se à educação em sua região. Sua obra evoluiu de um lirismo mais genérico para uma expressão mais acentuada do regionalismo cearense.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Suas obras mais conhecidas incluem "O Sertanejo" (1887), "Cantos do Sertão" (1890) e "O Engeitado" (1928). A temática de sua poesia é predominantemente o sertão nordestino, explorando a figura do vaqueiro, a seca, a saudade, o amor e os costumes locais. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem simples, acessível e emotiva, com um lirismo que busca capturar a essência do povo e da terra nordestina. Utilizava com frequência o verso decassílabo e a rima, em uma forma poética mais tradicional, em sintonia com o gosto popular da época. Sua voz poética é a do homem sertanejo, expressando suas dores, alegrias e sua profunda ligação com a natureza.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Juvenal Galeno viveu em um período de grandes transformações no Brasil, incluindo o fim do Império e o início da República, além de eventos sociais e econômicos que afetaram o Nordeste, como as secas cíclicas e a abolição da escravatura. Sua obra é um retrato desse contexto, documentando a vida social e cultural do Ceará em um momento crucial de sua história. Ele se insere em um movimento de valorização do regionalismo na literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além de poeta e jornalista, Juvenal Galeno dedicou-se à educação, sendo um educador respeitado em sua comunidade. Sua vida foi marcada pela simplicidade e pela dedicação às artes e ao ensino. Manteve um forte vínculo com sua terra natal, o Ceará, sendo um defensor de sua cultura e de seu povo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Juvenal Galeno obteve reconhecimento em seu tempo, especialmente no Ceará, onde é considerado um poeta do povo. Sua obra foi divulgada em jornais e antologias, e sua poesia, por sua simplicidade e emotividade, conquistou um público leitor fiel. Embora não tenha alcançado o mesmo destaque nacional de outros poetas de sua época, seu legado é importante para a literatura regional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua poesia foi influenciada pelo romantismo tardio e pela valorização do regionalismo que se consolidava na literatura brasileira. O legado de Juvenal Galeno reside na sua capacidade de dar voz ao sertão e ao seu povo, registrando costumes, paisagens e sentimentos que marcaram a identidade nordestina. Ele é um dos pioneiros na representação literária do universo sertanejo no Ceará.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Juvenal Galeno é vista como um documento importante da vida e cultura cearense do final do século XIX e início do XX. Sua obra é analisada pela sua representação do regionalismo, pelo seu lirismo popular e pela sua capacidade de emocionar o leitor através da descrição do cotidiano sertanejo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Galeno também se destacou como um defensor da cultura popular e das tradições cearenses. Sua atuação como jornalista o aproximou de debates sociais e políticos de seu tempo, influenciando sua visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Juvenal Galeno faleceu em Fortaleza em 1932, deixando um importante legado para a literatura cearense. Sua obra continua a ser estudada e valorizada, especialmente no contexto do regionalismo brasileiro, mantendo viva a memória de um poeta que soube cantar as belezas e as agruras do sertão.