Lista de Poemas

Uma velha crença de idiotas concede ao “satirista” o direito de fustigar as fraquezas do forte. Só que a fraqueza mais fraca do forte ainda é mais forte do que a força mais forte do fraco, e por isso o satirista que se encontra no topo dessa concepção é um sujeito sórdido, e o fato de ser tolerado, um verdadeiro estigma da sociedade. Foi da necessidade infame da sociedade de tratar as personalidades como seus iguais e, por meio da sua degradação ao próprio nível, se tranquilizar acerca de sua baixeza, que surgiram os jornais humorísticos. Todas as carecas brilham porque Bismarck não tinha mais do que três fios de cabelo. Essa maldade enfadonha, a partir da qual o jornal humorístico acode à necessidade de vingança da sociedade, é por ela chamada de “inofensiva”. Porém ela abomina o homem positivo que destroça um mundo sem deuses. Não suspeita que o satirista seja alguém que apenas fustiga as fraquezas dos fracos e não vê as dos fortes porque elas não existem, e se existissem, as cobriria respeitosamente. Para as pessoas, a sátira é algo que alguém pode exercer como um segundo emprego, por exemplo, quando é oficial publicamente e possui humor em segredo. Mais autêntico, por certo, é praticar a sátira publicamente e ser um guerreiro em segredo. Pois, na verdade, a sátira só é compatível com uma função, a do homem, e ela até parece realmente exigi-la. O fato de o satirista ser um homem já é provado tão-só pela impertinência satírica da qual ele próprio precisa se defender. Pois o satirista não tolera brincadeiras. Mas se ele matar o inseto que tem em mira suas “fraquezas”, todos se espantam e perguntam por que afinal, e dizem que alguém que é ele próprio satirista também deveria tolerar que um outro — e assim por diante in infinitum da banalidade humana.
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Todos são ofendidos por mim, não os indivíduos. E quanto ao amor, todos devem ficar furiosos, e não aqueles que foram enganados.
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Os críticos e os apologistas são testemunhas indesejadas. Os que estão na margem metem seus pés na água para demonstrar que ela está suja. Os que estão na margem enchem a mão em concha para mostrar a beleza do elemento.
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A lógica é a inimiga da arte. Mas a arte não precisa ser a inimiga da lógica. A lógica precisa ter experimentado o gosto da arte e ter sido completamente digerida por ela. Para afirmar que dois vezes dois é cinco, é preciso saber que dois vezes dois é quatro. Todavia, quem sabe apenas isso, dirá que aquilo é falso.
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Cada frase deveria ser lida tantas vezes quantas fossem as correções que acompanharam seu crescimento do manuscrito até a leitura. Porém, para poupar o leitor do que vai além de suas forças e de sua crença, gostaria de publicar cada frase nas suas dez metamorfoses, para que o todo, por fim, ainda fosse menos lido do que compreendido. Seria um caso raro na literatura. Mas poderia ser de alguma utilidade para compensar os danos de um século de tagarelices e de opiniões facilmente compreendidas.
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Ainda não tentei, mas acho que para ler um romance eu precisaria primeiro me encorajar e então fechar bem os olhos.
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Eu domino apenas a língua dos outros. A minha faz comigo o que ela bem entende.
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O contador de histórias se distingue do político apenas pelo fato de ter tempo. Comum a ambos é que o tempo os tem.
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Ninguém que examine meus trabalhos impressos reconhecerá uma costura. E, no entanto, tudo foi descosido cem vezes, e de uma página que foi para a impressão tiveram de resultar sete. No fim, se é que há um fim, a articulação é tão evidente que não se vê a justaposição e não se acredita nela. Escritores que possuam tudo na cabeça, e que ao escrever tomam parte apenas com as mãos, são manipuladores infames com os quais nada tenho em comum a não ser o alfabeto, e mesmo isso apenas a contragosto. Eles não se alimentam, mas seguem vivendo porque têm tudo no estômago.
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Se a linguagem é apenas uma roupagem, ela se tornará andrajosa ou fora de moda. Até que chegue esse momento, pode-se andar entre as pessoas. Um smoking não torna imortal, mas popular. Mas o que vestem os jovens senhores ultimamente? Uma linguagem que consiste inteiramente de epítetos! Um traje sem tecido, mas todo feito de botões!
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.