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Aforismos
Inicialmente publicados em pequenas sérias na Fackel e depois reunidos pelo próprio em três livros, Aforismos constitui a quinta-essência do pensamento de Karl Kraus sobre a natureza e a sociedade, eros e arte, língua e literatura, dando aos leitores, ao mesmo tempo, uma impressão nítida do virtuosismo da sua prosa altamente condensada. Na história do género, os seus aforismos ocupam um lugar de destaque, graças à originalidade e agressividade dos seus pensamentos e à tensão e à energia da sua elaboração linguística. O que Goethe disse de Lichtenberg — «onde ele faz uma brincadeira, espreita um problema» — também se aplica a Kraus. Mas a afirmação contrária é igualmente válida: Será difícil nomearmos um problema que Kraus não tenha resolvido no humor de um aforismo. «A imprensa devastará o que a sífilis deixou. As causas dos amolecimentos cerebrais do futuro já não poderão ser determinadas com segurança.»
“Conquistar o mercado mundial”: porque os comerciantes falam assim, os soldados tiveram de agir assim. Desde então se conquista, ainda que não seja o mercado mundial.
“Democrático” significa poder ser escravo de toda a gente.
“Em função dos acontecimentos bélicos, precisamos, para nosso pesar, restringir temporariamente o tamanho dos nossos números; contudo, assim que as condições normais forem restabelecidas, empenhar-nos-emos em compensar os nossos assinantes com a publicação de números mais volumosos.” É o que promete a Österreichische Rundschau. Como se vê, há circunstâncias que poderiam levar o mais encarniçado pacifista a pensar de maneira menos preconceituosa acerca do valor da guerra.
“Espaço de tempo”: isso é um quodlibet de eternidade. Tentemos uma vez imaginar, sem ter dores de cabeça, o tempo de espaço.
A arte coloca a vida em desordem. Os poetas da humanidade restabelecem o caos continuamente.
A arte do escritor não o deixa balançar sobre a corda bamba de um período bem esticado, mas transforma-lhe um ponto final num problema. Ele pode atrever-se ao insólito; cada regra, porém, dissolve-se para ele num caos de dúvidas.
A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a animam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser meritório contar com o facto de que o céu é azul e o prado é verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu. Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um artista, diz a verdade.
A beleza passa porque a virtude fica.
A cabeça da mulher é apenas a almofada sobre a qual uma cabeça descansa.
A carreira é um cavalo que chega sem cavaleiro diante dos portões da eternidade.
A ciência é análise espectral. A arte é síntese luminosa.
A compreensão do meu trabalho é dificultada pelo conhecimento do meu material. As pessoas não compreendem que aquilo que aí está precisa de ser inventado primeiro, e que vale a pena inventá-lo. Assim como também não compreendem que um satírico para quem as pessoas existem como se ele as tivesse inventado precisa de mais força do que aquele que inventa as pessoas como se existissem.
A cosmética é a cosmologia da mulher.
A cultura chega ao fim com a evasão dos bárbaros.
A democracia divide os homens em trabalhadores e preguiçosos. Ela não está preparada para aqueles que não têm tempo para trabalhar.
A diferença entre psiquiatras e outros doentes mentais corresponde aproximadamente à relação entre loucura convexa e côncava.
A disseminação das doenças sexuais produziu a crença de que o sexo é uma doença.
A escola sem notas deve ter sido inventada por alguém que se embriagou com vinho sem álcool.
A ética cristã conseguiu transformar heteras em freiras. Infelizmente, ela também conseguiu transformar filósofos em libertinos. E graças a Deus, a primeira metamorfose não é assim tão confiável.
A exigência, feita pelos inimigos, de que a artilharia alemã se renda é uma insanidade. Apenas seria lógica a exigência de que a visão de mundo alemã se rendesse, e isso é irrealizável.
A expressão “laços de família” tem um ressaibo de verdade.
A formação é uma muleta com a qual o paralítico espanca o sadio para mostrar que também tem força.
A guerra só seria correta se apenas os não aptos fossem enviados para o campo de batalha.
A honra é o apêndice do organismo psíquico. Sua função é desconhecida, mas pode provocar inflamações. Nas pessoas inclinadas a se sentirem ofendidas, devemos extirpá-la sem receio.
A humanidade tornou-se histérica na Idade Média por não ter recalcado devidamente as impressões sexuais da sua infância grega.
A ideia de que uma obra de arte possa ser alimento para o apetite do filisteu enche-me de pavor. Recuso-me a ser digerido pelo burguês. Mas ficar no seu estômago também não é tentador. O melhor, talvez, seja não se lhe servir de forma alguma.
A imaginação tem o direito de gozar a sombra da árvore que transforma em bosque.
A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua enquanto mija sobre sepulturas.
A língua é a mãe, e não a criada do pensamento.
A linguagem é o material do artista literário; porém, ela não pertence só a ele, enquanto a cor pertence exclusivamente ao pintor. Por essa razão, as pessoas deveriam ser proibidas de falar. A linguagem de sinais basta perfeitamente para os pensamentos que têm para comunicar entre si. É permitido lambuzar as nossas roupas sem cessar com tinta a óleo?
A lógica é a inimiga da arte. Mas a arte não precisa ser a inimiga da lógica. A lógica precisa ter experimentado o gosto da arte e ter sido completamente digerida por ela. Para afirmar que dois vezes dois é cinco, é preciso saber que dois vezes dois é quatro. Todavia, quem sabe apenas isso, dirá que aquilo é falso.
A maioria dos críticos escreve críticas que são dos autores sobre os quais escreve críticas. Isto ainda não seria o pior. Só que a maioria dos autores também escreve obras que são dos críticos que escrevem críticas sobre elas.
A mais dolorosa imagem da civilização: um leão que estava acostumado com o cativeiro é devolvido à selva e nela caminha de um lado para outro como se estivesse atrás das grades.
A medicina: passe o dinheiro e a vida!
A moral é um pé de cabra que possui a vantagem de nunca ser deixado para trás na cena do crime.
A moralidade é aquilo que, sem ser impudico, ofende profundamente o meu pudor.
A mulher culta está incessantemente ocupada com a intenção de não ter nenhuma relação sexual, e também é capaz de praticá-la — a intenção, quer dizer. O homem culto nunca está ocupado com a intenção de não ter pensamentos, só que isso ocorre antes que se decida a fazê-lo.
A mulher toma um por todos; o homem, todas por uma.
A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica manifesta-se por toda a parte; neves estivais e calores invernais protestam contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da natureza onde quer que perceba as suas feições: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria o seu ocaso desde que não fosse impedido de ver a sua exibição cinematográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. Eu, porém, tomo facilmente um terramoto como protesto contra as conquistas do progresso e não duvido por um instante da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa indignar os elementos.
A perspicácia da polícia consiste no dom de considerar todas as pessoas capazes de um roubo e na sorte de a inocência de algumas não poder ser provada.
A política engana-nos com valores germano-austríacos de simpatia. Mas, exceto por brindes e libretos, nada há que prove uma comunidade de espírito entre esses dois povos. Diplomatas e agentes teatrais empenham-se na aproximação. Os de fora ficam a saber então que há um reino misterioso em que Itzig e Janosch dão o tom, e estimam-nos pela subvenção de sangue hussardo e amor cigano que o dia de trabalho berlinense recebe. Um teatro chamado judaísmo, que flutua entre a Ringstrasse e a Unter den Linden, atesta e representa a nossa vida intelectual perante a Alemanha. Que diz a política sobre o facto de não haver livro que provenha da Áustria que não seja posto em música? A proveniência vienense é tão odiosa que só lhe são perdoados os produtos da imbecilidade e da patifaria. Por estes, pelo menos, reconhece-se a origem e admite-se a autenticidade. Mas que esforço sobre-humano custa impingir a literatura austríaca como presente a um vendedor ambulante! Que diz a política sobre o facto de Die Fackel, que há tempos luta por não ser mais notória na Áustria, depois de apenas dez anos começar a tornar-se o que é: um facto alemão?
A psicanálise é aquela doença mental que se toma por sua terapia.
A psicanálise é mais uma paixão do que uma ciência: pois lhe falta a mão serena no exame, e essa falta constitui a única aptidão para a psicanálise. O psicanalista ama e odeia o seu objeto, inveja a sua liberdade ou a sua força e deriva-os dos seus próprios defeitos. Ele apenas analisa porque ele próprio é feito de partes que não resultam numa síntese. Ele acredita que o artista sublima uma enfermidade porque ele próprio ainda padece dela. A psicanálise é um ato de vingança por meio do qual a inferioridade adquire compostura, quando não superioridade, e procura equilibrar a desarmonia. Ser médico é mais do que ser paciente, e por isso todo imbecil procura hoje tratar todo génio. O que neste caso falta ao médico é a doença. Como quer que se comporte, nada mais conseguirá apresentar para explicar o génio do que a prova de que ele próprio não o possui. Porém, visto que o génio não precisa de uma explicação, e uma que defenda a mediocridade contra o génio é danosa, resta à psicanálise apenas uma única justificação para a sua existência: a muito custo, ela pode ser empregada para desmascarar a psicanálise.
A psicanálise: um coelho que foi engolido pela boa constritora apenas queria investigar como era lá dentro.
A quantidade diminui o lucro sob todos os aspectos. A atração que os trajes exercem sobre as mulheres diminuiu, e o que sobrou foi a desilusão erótica. Visto que às mulheres agrada apenas aquilo que chama a atenção, o homem que usa uma roupa civil voltou a ter hoje as melhores perspetivas, o que também vale para o trapalhão de quem se diz ter se destacado por uma covardia especial diante do inimigo; pois qualquer um pode ser herói. Ocorre exatamente o mesmo que nos bailes de máscaras, em que cada pessoa promete para si mesma causar a maior sensação; quando ele termina, porém, ela reconhece que se quisesse ter chamado a atenção deveria ter usado um fraque, pois o nariz postiço era comum a todos.
A reivindicação por um lugar ao sol é conhecida. Menos conhecido é o facto de ele se pôr tão logo ela seja alcançada.
A religião, a moral e o patriotismo são sentimentos que só se manifestam quando feridos. Quando se diz de alguém que se ofende facilmente que ele “gosta” de se ofender, tal expressão está correta. Esses sentimentos nada amam tanto quanto serem magoados, e revigoram-se a valer na queixa contra ateus, amoralistas e apátridas. Tirar o chapéu diante do ostensório não é de longe uma satisfação tão grande quanto arrancá-lo da cabeça daqueles que têm outra crença ou que são míopes.
A sátira não escolhe nem conhece objetos. Ela surge do facto de fugir deles e eles imporem-se a ela.
A satisfação erótica é uma corrida de obstáculos.
A sensualidade nada sabe do que fez. A histeria lembra-se de tudo o que não fez.
A sexualidade mal recalcada causou perturbações em muitas casas; a bem recalcada, no entanto, perturbou a ordem do universo.
A situação dos sexos é tão humilhante quanto o resultado do negócio amoroso individual: a mulher ganhou menos em prazer do que o homem perdeu em força. Aqui há diferença em vez de soma. Um menos desprezível, contente por se colocar em segurança, faz de um mais um menos. Eis aqui o verdadeiro logro. Pois nada se ajusta pior a um prazer que acaba de começar do que uma força que já acabou; nenhuma situação em que seres humanos possam encontrar-se é mais impiedosa e mais digna de piedade. Nessa lacuna mora toda a doença do mundo. Uma ordem social que não reconheça isso e não se decida a trocar a medida de liberdade renunciou à humanidade.
A sociedade precisa de mulheres de mau caráter. Aquelas que não têm caráter algum são elementos perigosos.
A solidão seria um estado ideal se pudéssemos escolher que pessoas evitar.
A superioridade de fogo é uma vantagem se por meio dela se devem proteger bens culturais ainda mais importantes do que ela. Porém, visto que a superioridade de fogo exclui a existência de bens culturais mais importantes, não resta nada para explicar a vantagem da superioridade de fogo senão a consideração de que a superioridade de fogo serve para proteger a superioridade de fogo.
A superioridade masculina na aventura amorosa é uma vantagem mesquinha, por meio da qual nada se ganha e apenas se violenta a natureza feminina. Deveríamos permitir que cada mulher nos introduzisse nos mistérios da vida sexual.
A tristeza e a vergonha deveriam cobrir todas as pausas da verdadeira virilidade. Fora da criação, o artista tem a experimentar apenas a sua insignificância.
A única concessão que poderíamos fazer seria a de nos guiarmos pelos desejos do público a ponto de fazermos o contrário do que ele deseja. Mas não faço isso, pois não faço concessões e escrevo determinadas coisas mesmo quando o público as espera.
A vantagem da mulher de sempre poder atender aos desejos foi estorvada pela natureza com a desvantagem do homem.
A verdadeira metafísica repousa na crença de que um dia haverá sossego. O pensamento de uma ressurreição da carne lhe repugna.
A vida em família é uma invasão da vida privada.
A volúpia estéril do homem nutre-se do espírito estéril da mulher. Porém, o espírito masculino nutre-se da volúpia feminina. Esta cria as obras dele. Por meio de tudo aquilo que não foi dado à mulher, ela age de maneira a que o homem aproveite os seus próprios dons. Os livros e os quadros são criados pela mulher — mas não por aquela que escreve ou pinta. Uma obra vem ao mundo: foi a mulher que gerou aquilo que o homem deu à luz.
Agora as crianças têm sinfonias na idade em que no passado tinham sarampo. Não acredito que escapem.
Agora os especialistas em doenças nervosas precisam lidar com os escritores que vêm à consulta depois de mortos. Bem feito para os escritores, visto que não foram realmente capazes de levar a humanidade a um estádio que exclua o surgimento de especialistas em doenças nervosas.
Ainda não tentei, mas acho que para ler um romance eu precisaria primeiro encorajar-me e então fechar bem os olhos.
Alegrias de homem — agonias de mulher.
Alguém que nunca conheci cumprimenta-me na esperança de que, após tanto tempo, eu já tenha esquecido que nunca o conheci e retribua o cumprimento do novo conhecido como se ele fosse um conhecido antigo. Na verdade, não sei exatamente quem conheço; sei exatamente, porém, quem não conheço. Não há possibilidade de erro. No entanto, se isso alguma vez acontecesse, o cumprimento lembrar-me-ia a tempo de que não conheço o sujeito, e então lembrar-me-ia dele até ao fim dos meus dias. Quem foi que acabaste de — pergunta um velho conhecido. Tu não o conheces? Esse é aquele que acreditou que eu tinha esquecido que não o conheço!
Alguns partilham os meus pontos de vista comigo. Mas eu não os partilho com eles.
Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Pois cada um é o próximo de si mesmo.
Anseio ardentemente por aquela condição psíquica em que, livre de toda responsabilidade, sentirei a estupidez do mundo como um destino.
Antes alguém te perdoar pela baixeza que cometeu contra ti do que pelo favor que de ti recebeu.
Antes de nos submetermos à vida deveríamos ser anestesiados.
Antes os cenários eram de cartão e os atores eram de verdade. Agora os cenários são completamente convincentes, e os atores, de cartão.
Antes um cavalo do campo se acostumar a um automóvel do que um passante da Ringstrasse se acostumar comigo. Pessoas assustadiças já provocaram muitos acidentes.
Ao sadio basta a mulher. Ao erotista basta a meia para chegar à mulher. Ao doente basta a meia.
Apenas no deleite da geração das palavras surge um mundo a partir do caos.
Após madura reflexão, prefiro fazer o caminho de volta ao país da infância com Jean Paul do que com S. Freud.
Aquele suicídio foi cometido durante um acesso de clareza intelectual. Às vezes, as pessoas cheias de alegria de viver refletem; e em alguma delas poderia ter havido tantas vidas que ela sacrifica uma sem hesitação. O suicídio pode significar a sangria de uma natureza puro-sangue. Quem se limpa a boca dos deleites da vida tão calmamente a fim de fechá-la para sempre por certo se destaca dos seus companheiros de mesa. Não me livro da suspeita, sobretudo, de que hoje alguém já deve ser um homem se a vida atual o derruba. Aquilo que tiver fogo e um ímpeto ligeiro, queima. Apenas homens sem medula e mulheres com cérebro estão à altura da ordem social.
Aquele sujeitinho interesseiro, exclamou ela, deixou-me em estado interessante!
Aqueles dois não se casaram: vivem desde então em mútua viuvez.
As bailarinas têm a sexualidade nas pernas; os tenores, na laringe. É por isso que as mulheres se dececionam com os tenores e os homens com as bailarinas.
As camas de Hamburgo têm bordas altas. Estamos seguros de que não cairemos quando o mar estiver agitado. Um uso sem sentido, com o qual o povo conserva a tradição do camarote. O enjoo do mar reproduz-se em terra firme por gerações de marceneiros, e nada é mais doloroso ao acordar do que a recordação de que os hamburgueses são um povo de navegadores.
As crianças não entenderiam porque os adultos se defendem contra o prazer; os velhos, por sua vez, entendem menos ainda.
As épocas morrem da gordura ou da magreza. A atual quer zombar da morte por meio de uma pobreza superalimentada.
As experiências são economias guardadas por um avarento. A sabedoria é uma herança da qual um esbanjador não dá conta.
As instituições humanas precisam tornar-se tão perfeitas a ponto de podermos pensar sem ser perturbados sobre a imperfeição das divinas.
As mulheres decentes consideram o maior dos atrevimentos que as apalpemos debaixo de suas consciências.
As mulheres exigem o direito de voto ativo e passivo. Seria o direito de escolher qualquer homem e de não serem recriminadas por se deixarem escolher por quem quer que seja? De jeito nenhum: elas estão falando de política! Mas foram os homens que as levaram a ter esses pensamentos desesperados. Agora nada restará a eles senão exigir do governo que lhes outorgue o direito de menstruar.
As mulheres nunca estão com a cabeça no lugar, e por isso também querem que os homens não estejam com a sua no lugar, mas no lugar onde elas estiverem.
As mulheres pelo menos possuem cosméticos. Mas com o que os homens encobrem o seu vazio?
As opiniões reproduzem-se por divisão; os pensamentos, por brotação.
As penas servem para intimidar aqueles que não querem cometer crimes.
As putas na rua se comportam tão mal que disso se pode tirar uma conclusão do comportamento dos cidadãos dentro de casa.
As qualidades intelectuais e morais da mulher também podem estimular a sexualidade fútil do homem. Pode ser comprometedor se mostrar na rua em companhia de uma mulher honrada, mas praticamente beira o exibicionismo conversar com uma rapariga sobre literatura.
As revistas de humor são uma prova de que o filisteu não tem sentido de humor. Elas fazem parte da seriedade da vida como a bebida faz parte da refeição. “Dê-me todas as revistas de humor!”, ordena um idiota cheio de preocupações ao empregado de mesa, e atormenta-se para que um sorriso apareça no seu rosto. O humor que ele não tem deve chegar-lhe de todos os cantos da vida quotidiana, e ele desdenharia inclusive a caixa de fósforos que não trouxesse uma piada no seu rótulo. Li numa delas: “Aprendiz de ofício (que comprou uma linguiça casualmente enrolada num poema): Muito bem! Primeiro vou comer a linguiça para alimentar o corpo e depois leio o poema para alimentar o espírito!”. Coisas assim alegram o filisteu, e ele nem sequer percebe o método do aprendiz de ofício como uma indireta.
As sátiras que o censor compreende são proibidas com razão.
As verdadeiras verdades são aquelas que se pode inventar.
Às vezes lemos que uma cidade tem tantas centenas de milhares de “almas”, mas isso soa exagerado. Pela mesma razão, também se deveria romper finalmente com o sistema de recenseamento por “cabeças”. Mas não alimentaríamos mais desconfiança em relação à estatística das cifras gigantescas se uma outra parte do corpo fosse empregada como unidade de contagem. Ninguém mais poderia dizer que semelhante estimativa — no caso de uma metrópole como Viena, por exemplo — é exagerada. A assimilação e a eliminação do alimento são indiscutivelmente os interesses mais importantes que podem determinar a vida intelectual de uma população. Triste é apenas o facto de ela própria dominar tão mal aquilo que lhe é mais importante. A cultura dessa atividade vital não avança de forma alguma, e ainda que seja uma vantagem ser um bom garfo, não é vantagem alguma ser um garfo barulhento e se comportar de tal maneira que se ouçam os ruídos de bem-estar até no exterior.
Às vezes, uma mulher é um substituto bastante útil para a masturbação. No entanto, é preciso um excesso de fantasia.
Basta olhar uma mulher para ser tomado por um profundo desprezo pelos seus amantes. Jamais, porém, eu gostaria de responsabilizá-la por eles.
Bastaria, no devido tempo, ter proibido às crianças de se assoarem e os adultos já enrubesceriam ao fazê-lo.
Boas opiniões não têm valor. O que importa é quem as tem.
Cada frase deveria ser lida tantas vezes quantas fossem as correções que acompanharam o seu crescimento do manuscrito até à leitura. Porém, para poupar o leitor do que vai além das suas forças e da sua crença, gostaria de publicar cada frase nas suas dez metamorfoses, para que o todo, por fim, ainda fosse menos lido do que compreendido. Seria um caso raro na literatura. Mas poderia ser de alguma utilidade para compensar os danos de um século de tagarelice e de opiniões facilmente compreendidas.
Certamente não é só o exterior de uma mulher que interessa. A lingerie também é importante.
Certo sujeito disse que tentei colocá-lo contra a parede. Isso não é verdade. Eu simplesmente consegui.
Ciumentos são agiotas que cobram os juros mais altos do próprio dote.
Com as calculistas do amor é difícil chegar a um resultado. Ou elas temem que um mais um dê zero, ou esperam que dê três.
Com frequência as mulheres são um obstáculo para a satisfação sexual, mas, como tal, eroticamente utilizáveis.
Com frequência, o historiador é apenas um jornalista virado para o passado.
Com os meus horizontes estreitos, não li certa vez um jornal com as seguintes manchetes: As negociações secretas entre a Áustria, a França e a Itália em 1869. — O movimento reformista na Pérsia. — A nomeação do chefe do ministério croata. — A Sublime Porta contra o arcebispo de Monastir... Depois de não ter lido esse jornal, senti os meus horizontes alargarem-se um pouco.
Com o passar dos anos tornei-me um oportunista em busca de desvantagens sociais. Espreito, farejo e caço as ocasiões em que poderia escandalizar um conhecido ou perder uma relação influente. Talvez ainda alcance uma boa posição!
Com que soberania um imbecil trata o tempo! Ele simplesmente o mata. E o tempo tolera isso. Pois nunca ouvimos falar que o tempo tenha matado um imbecil.
Como leio as notícias da imprensa diária apenas de passagem, confundi duas manchetes próximas: “Visita de Iswolski à Áustria” e “Tentativa de roubo num bricabraque”.
Como o mundo é governado e conduzido à guerra? Os diplomatas mentem aos jornalistas e acreditam na mentira quando a leem.
Como surge a beleza — a vizinha sabe disso. Como surge o génio — isso ela também sabe, a análise.
Como? A humanidade imbeciliza-se em favor do progresso maquinal e nem sequer deveríamos fazer uso dele? Deveríamos manter diálogos com a estupidez quando podemos escapar dela num automóvel?
Comparada ao sabe-tudo, a enciclopédia tem uma vantagem: o orgulho. Ela comporta-se com reserva, fica à espera e nunca dá mais do que se quer. Ela contenta-se em responder quando Amenófis nasceu. O sabe-tudo folheia a si mesmo e logo informa também sobre as amebas, sobre o amperímetro, os anfictiões, a anfoterodiplopia, a amrita, que é a bebida dos deuses da doutrina hindu, os amschaspands, que são os sete espíritos de luz supremos da religião persa, o amschir, que como se sabe é o sexto mês do calendário turco, sobre o amuleto (do árabe hamala), sobre a amigdalina, a peculiar substância encontrada nas amêndoas amargas, que, misturada em solução aquosa com a emulsina (cf.), fornece ácido cianídrico, essência de amêndoas amargas e açúcar, e sobre a conhecida vela de acetato de amila, e é capaz de se interromper quando chega a Anaxágoras, justamente onde as coisas se tornam mais interessantes. E então ficamos insatisfeitos.
Compreender uma visão de mundo com um só olhar é arte. Porém, quanto não cabe num olho!
Compreendo que alguém sacrifique algodão por sua vida. Mas o contrário?
Comprometo-me a levar um homem ao patíbulo se exclamar na rua com uma entonação bastante resoluta: “Vejam só! E ainda por cima ele usa uma camisa colorida!”. Um grito indignado percorreria a multidão. A mesma multidão que agora procuram impressionar com sinfonias.
Conhecer o Diabo sem assar no inferno é algo que conviria a muita gente.
Conheci alguém que levava a sua formação no bolso do colete porque ali havia mais espaço do que na cabeça.
Conheci um cão que era tão grande quanto uma pessoa, tão ingénuo quanto uma criança e tão sábio quanto um ancião. O tempo que parecia ter era tanto que não caberia numa vida humana. Quando tomava sol e observava alguém enquanto isso, era como se quisesse dizer: “Porque têm tanta pressa?”. E certamente o diria; bastaria que se esperasse.
Conheci um Don Juan da castidade cujo Leporello nem sequer era capaz de compor uma lista das mulheres inacessíveis.
Considero a política uma maneira pelo menos tão excelente de liquidar a seriedade da vida quanto o jogo de cartas, e visto que há homens que vivem de jogar cartas, o político profissional é um fenómeno perfeitamente compreensível. Tanto mais que ele ganha sempre à custa daqueles que não tomam parte no jogo. Mas está correto que o apostador político pague as contas, já que a observação paciente constitui o conteúdo da sua vida. Se não houvesse política, o cidadão teria apenas a sua vida interior, ou seja, nada que o pudesse ocupar.
Considero meu direito inalienável colocar na forma artística que quiser o menor dos corpúsculos de sujeira que me tocar. Esse direito é um pobre equivalente do direito do leitor de não ler o que não lhe interessa.
Consta no dicionário que “Afrodite” é a deusa do amor ou uma espécie de verme.
Contar a piada inventada por uma pessoa engenhosa é o mesmo que apanhar uma seta do chão. A citação não diz como foi disparada.
Contra a acusação de que soldados alemães cortam pés de crianças a golpes de machado, jornalistas alemães apelam ao facto de esse povo ter produzido Lutero, Beethoven e Kant. Mas em relação a isso, esse povo é pelo menos tão inocente quanto em relação às atrocidades que lhe são atribuídas, e seria mais eficaz, contra tais acusações, apelar aos espíritos que a Alemanha ainda quer produzir no futuro. Se chegamos ao ponto de julgar que a pátria não exige dos seus génios outros serviços que dos seus lenhadores, e se aqueles, por um acaso mortal, podem ser dispensados da oportunidade de lhe prestar outros serviços voluntariamente, então por certo não surgirá mais génio algum. As façanhas intelectuais de Lutero, Beethoven e Kant, apesar de tudo o que a cultura alemã sabe a respeito e a ideologia alemã nelas inclui, não têm qualquer ligação com um estado do qual hoje, ao nível pessoal, talvez apenas se libertassem graças ao ofício sacerdotal, à surdez e a uma deformação da coluna vertebral.
Contra isso, a tendência deslocadora de valores do jornalismo nada pode fazer. Ele pode dar certificados de garantia válidos por um século para os relógios aos quais dá corda: eles já estão parados quando o comprador saiu da loja. O relojoeiro diz que a culpa é do tempo, e não do relógio, e gostaria de fazer aquele parar a fim de salvar a reputação do relógio. Ele fala mal da hora ou a condena a um silêncio de morte. Mas o génio da hora segue em frente e faz amanhecer e anoitecer, embora o mostrador queira outra coisa. Quando ele bate dez horas e mostra onze, podemos contar que é meio-dia, e o sol dá risada dos relojoeiros ofendidos.
Conversas de barbeiro são a prova irrefutável de que as cabeças existem por causa dos cabelos.
Crianças brincam de soldado. Isto é razoável. Mas por que brincam os soldados de criança?
Cuidado com as mulheres! Poderás apanhar uma visão de mundo que te devorará a medula.
De início, a guerra é a esperança de que as coisas corram melhor para si mesmo; depois, a expectativa de que as coisas corram mal para o outro; então, o contentamento com o facto de as coisas também não correrem melhor para o outro, e, por fim, a surpresa com o facto de as coisas correrem mal para ambos.
De onde tiro tanto tempo para não ler tanta coisa?
Decidiu-se em favor das mães e contra as heteras que nada produzem, no máximo génios.
Desde que maçãs podres serviram certa vez de estímulo no drama alemão, o público receia usá-las como meio de intimidação.
Desprezemos as pessoas que não têm tempo. Lastimemos as pessoas que não têm trabalho. Mas invejemos os homens que não têm tempo para trabalhar!
Deus tomou a costela da mulher, fez o homem, tirou-lhe o fôlego vital e transformou-o num torrão de terra.
Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos a estrear.
Devemos ler todos os escritores duas vezes, os bons e os maus. Uns serão reconhecidos, e os outros, desmascarados.
Dificilmente haverá um escritor que em tão pouco tempo se tenha tornado tão desconhecido quanto esse X.
Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não as comprometer. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto delas. Com estas é ainda mais difícil de lidar. E, por fim, há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto de mim mesmo. Isso exige um cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavelmente estabelecida e, pela maneira como não cumprimento, sei expressar de tal modo cada uma destas nuanças que não sou injusto com ninguém.
Dizem que o meu estilo capturou todos os ruídos da época atual. Isso torna-o aborrecido aos contemporâneos. Mas pessoas de outra época talvez o coloquem ao ouvido como uma concha na qual um oceano de lama toca música.
Dizemos “amante” e não vemos mais a altura do páthos de que essa palavra desceu até as planícies da ironia — muito abaixo da respeitada condição intermédia das mulheres que não amam. Quer o espírito da língua que a amante seja uma decaída. Mas se mulheres que amam fossem chamadas de “elevadas”, a nossa cultura logo também envolveria essa palavra com os tentáculos do escárnio.
Dói-me o coração quando vejo que a vantagem de me trair é menor do que o prejuízo de estar em relações comigo.
Durante a semana, conseguimo-nos fechar para o mundo. Mas há um sentimento dominical penetrante do qual não conseguimos escapar nem mesmo num porão, no topo de uma montanha ou dentro de um elevador.
É com razão que sempre se afirma nas reflexões sobre cultura e guerra que os utilitários são os outros. Essa concepção provém do idealismo alemão, que também transfigurou os géneros alimentícios e os laxantes.
É considerado normal santificar a virgindade em geral e ansiar pela sua destruição em particular.
É de bom tom não falar sobre uma má ação. Se um patife te confia a intenção de trair teu amigo, a discrição é uma questão de honra.
É de ficar megalomaníaco: o reconhecimento que se recebe é tão escasso!
E do último cantinho de uma folha de jornal que ainda tenho nas mãos, já me espreita, visto que apenas passo os olhos, a carantonha de Judas do século, sempre a mesma, quer se trate do jornalista ou do médico, do vendedor ambulante ou do adepto da política social, do vendedor de especiarias ou do esteta. Sempre o mesmo estupor, com os cabelos frisados da moda e empanturrado de cultura. Com a toalha de barbeiro da época sobre os ombros, todos os idiotas são iguais, mas quando se levantam e começam a falar sobre a sua especialidade, um deles é filósofo e o outro é corretor da bolsa. Tenho essa capacidade funesta de não poder distingui-los, e reconheço o rosto primordial sem me esforçar pelo desmascaramento.
É inegável que sou alguém que escreve muito. Mas, na verdade, isso deve-se a uma compulsão irresistível. É certo que nenhuma máquina de escrever se pode queixar de que a sobrecarreguei. Mas é correto dizer que a minha mão nem sempre consegue acompanhar as ordens da minha cabeça. Como invejo os autores cuja cabeça não consegue acompanhar as necessidades da sua mão! Eles pelo menos podem descansar.
É melhor que não nos roubem nada. Assim pelo menos não teremos problemas com a polícia.
É natural morrer por uma pátria na qual não se pode viver. Mas nesse caso, enquanto patriota, eu preferiria o suicídio de uma derrota.
É preciso gozar a graça feminina fora das relações de parentesco, pois não podemos garantir que a insuficiência dos traços não se revele subitamente. Eu me esvaio e faço a síntese — eis que chega o pai e faz a análise!
É provável que o riacho de Grinzing tenha estimulado Beethoven a compor a Sinfonia Pastoral. Mas isso não prova nada a favor do riacho de Grinzing e tudo a favor de Beethoven. Quanto menor a paisagem, tanto maior pode ser a obra de arte, e vice-versa. É tolice, porém, dizer que a atmosfera que o riacho transmite a um caminhante qualquer é a mesma recebida pelo ouvinte da sinfonia. Caso contrário, também poderíamos dizer que o cheiro de maçãs podres nos dá o Wallenstein de Schiller.
E se a Terra apenas suspeitasse do quanto o cometa teme o contacto com ela!
É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que as suas qualidades também merecem censura. No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor eleva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lastimável essa falsa óptica de uma crítica que primeiro precisa inventar as qualidades de um povo para depois levá-las a mal. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a mais fiel guardiã das realidades, pelo facto de o vienense viver num mundo irreal. A história “quis experimentar se o espírito podia governar sozinho”, e instituiu os Habsburgos. Eles criaram o mundo a partir do seu espírito. E semelhante panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errónea de uma essência popular que se esgota exclusivamente em pequenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Perante essa solidez que se mede em quilos, toda a imaginação capaz de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito criativo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na história austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, quando se constatou que não havia montanha à disposição para construir o túnel que uma Alteza desejava — e o túnel foi construído.
E visto que agora ela quer todos e ele não quer mais nenhuma, alarga-se o abismo entre os sexos para dar espaço a tanto tormento e a tanta moral.
Eis a verdadeira relação entre os sexos, quando o homem confessa: “Meus pensamentos são sempre sobre você, e por isso são sempre novos!”.
Eis algo que não consigo superar: que uma linha inteira possa ter sido escrita por um meio homem. Que uma obra fosse construída sobre a areia movediça de um caráter.
Eis como uma mulher apta para a vida celebra sua paz duvidosa com o mundo: renuncia à personalidade e recebe galanterias em troca.
Eis o triunfo da moralidade: um ladrão que invadiu um quarto afirma que o seu pudor foi ferido e, ameaçando fazer uma acusação de imoralidade, consegue livrar-se da acusação de invasão.
Eis precisamente a diferença entre os sexos: os homens nem sempre se deixam enganar por uma boca pequena, mas as mulheres sempre são ludibriadas por um nariz grande.
Eis uma coisa que eu gostaria muito de saber: o que tantas pessoas fazem com o seu horizonte ampliado?
Ela começou o casamento com uma mentira. Era virgem e não disse isso a ele!
Ela disse a si mesma: «Dormir com ele, tudo bem — mas nada de intimidades!».
Ela disse que ia levando a vida. Bem que eu gostaria de ir levando a vida com ela!
Deu rédeas soltas, que tomou emprestadas, a uma megalomania que não era sua.
Ele domina a língua alemã — isso vale para o caixeiro. O artista é um criado da palavra.
Ele era tão ciumento que tomou as dores do homem que ludibriava e quis esganar a mulher.
Ele foi muito imprudente ao tirar as pedras do caminho dela a cada passo. Levou um pontapé.
Ele morreu picado pela serpente de Esculápio.
Ele não deixa o seu aborrecimento durante as refeições ser estragado por nenhum apetite.
Ele pintava os vivos como se estivessem mortos há dois dias. Quando certa vez quis pintar um morto, o caixão já tinha sido fechado.
Eles ficaram-me devendo a mais autêntica e mais profunda prova da sua veneração: reconhecer a própria superfluidade e aposentar-se, pelo menos literariamente, durante a minha vida. Enquanto não tiver obtido esse efeito, não acredito na durabilidade da minha influência. Oderint, dum metuant. Que amem, desde que não escrevam!
Eles julgam para não serem julgados.
Eles metem a mão em nosso sonho como se fosse a nossa carteira.
Eles passam o tempo com cálculos mentais: ele extrai a raiz da sensualidade dela, e ela o eleva à potência.
Eles têm a imprensa, eles têm a bolsa de valores — e agora também o subconsciente!
Tratam uma mulher como se fosse um refresco. No entanto, não admitem o facto de as mulheres sentirem sede.
Em algum lugar, encontrei a seguinte inscrição: “Pede-se deixar o lugar assim como se deseja encontrá-lo”. Se os educadores da vida falassem às pessoas com a metade da ênfase dos donos de hotéis!
Em caso de dúvida, decida pelo correto.
Em caso de igual estupidez, importa a diferença de volume corporal. Um imbecil não deveria ocupar espaço demais.
Em estilística, falamos de metáfora quando algo “não é usado no sentido próprio”. Assim, as metáforas são as perversões da linguagem, e as perversões, as metáforas do amor.
Em qualquer caso, o não reconhecimento de uma vida mental é uma condição social. O homem fica satisfeito por ver respeitada a sua pele e atrás dela a chamada honra e a chamada moralidade. O olho e o ouvido não devem ser ofendidos, apenas as exigências que os mesmos fazem. O nariz precisa perceber cheiros que detesta, e quando o paladar se preparou para uma refeição, o empregado de mesa vem dez minutos depois e lamenta não poder mais servir. Qualquer imbecil pode encará-lo com os olhos arregalados, tu precisas tolerar o incómodo de qualquer palerma quando ele perguntou se não estás a incomodar, e exatamente quando corres até à secretária para anotar que vives na companhia de pessoas que se julgam eticistas por não te puxarem a carteira do bolso em plena rua, alguém certamente cruzará o teu caminho a pedir lume. O facto de a civilização se orgulhar da cortesia neste ponto, o facto de nenhum fumador ousar responder ao pedido indesejado com um brusco não — nada é capaz de desnudar melhor a estupidez da convenção que estabelecemos entre nós. Prometeu foi buscar o fogo aos céus. Mas, em razão disso, até ele foi acorrentado por ordem de Júpiter a um rochedo do Cáucaso onde um abutre lhe come o fígado.
Em relação à nata da sociedade, um gourmet disse-me que preferia a borra da humanidade.
Em relação às mulheres, a ordem social nos deixa apenas a alternativa de sermos mendigos ou ladrões.
Em torno da bela senhora, saltavam os cães como se fossem os pensamentos dele, e se deitavam aos pés dela como os desejos dele o faziam.
Em Viena, os zeros se colocam à frente do um.
Emerson: filosofia alemã que, ao ser transportada através dos mares, absorveu um tanto da sua humidade.
Empregar palavras incomuns é um vício literário. Devemos colocar apenas dificuldades de pensamento no caminho do público.
Enquanto o sexo do homem é o diminuendo e o da mulher o subtraendo, a conta acaba mal: o mundo é infinitamente negativo.
Entrar por um ouvido e sair pelo outro: nesses casos, a cabeça seria sempre uma estação de passagem. O que ouço tem de sair pelo mesmo ouvido.
Entre a língua e a guerra podemos constatar aproximadamente a seguinte relação: aquela língua que mais estiver enrijecida sob a forma de chavões também será responsável pela tendência e pela disposição para substituir a substância por um sucedâneo de entonação; com convicção, achar irrepreensível em si própria tudo aquilo que no outro apenas provoca censura; desmascarar com indignação aquilo que também se gosta de fazer; enredar qualquer dúvida num matagal de frases e repelir sem esforço, como um ataque inimigo, qualquer suspeita de que alguma coisa não esteja em ordem. Essa é sobretudo a qualidade de uma língua que hoje se parece com aquele produto acabado cuja venda constitui o conteúdo da vida dos seus falantes; ela brilha como uma auréola e tem apenas a alma óbvia do homem de bem que não tem tempo de cometer uma maldade porque a sua vida se limita aos negócios e, caso não seja suficiente, deixa uma conta em aberto.
Era ciumento e colecionava musgos. Queria que a sua mulher vivesse criptogamicamente.
Eros tem sorte no amor. O desperdício proporciona-lhe crescimento; a ofensa, honra. Magoe-o, e isso ser-lhe-á um prazer; difame-o, e isso ser-lhe-á útil. Podes fazer-lhe de tudo, só não lhe dizer a tua opinião na cara. Ele não é queixoso, mas também não é ávido de saber. Ele só é curioso e quer descobrir as coisas por conta própria. Ainda que saibas tudo melhor do que ele, sabe isto: ele toma parte de tudo no mundo, só não toma parte no tédio. O que dele escondes, ele partilhará contigo; mas ele desdenha a tua ciência.
Escrever um romance pode ser puro deleite. Viver um romance já apresenta as suas dificuldades. Porém ler um romance é algo que evito tanto quanto posso.
Escreve-se de tal maneira sobre o tempo e o espaço como se fossem coisas para as quais ainda não se tivesse encontrado qualquer aplicação na vida prática.
Espeto minha pena no cadáver da Áustria porque ainda acredito que ele viva.
Esse escritor só era despudorado por puro pudor. Ele envergonhava-se tanto da sua moralidade que se cobriu com temas que escandalizavam o público.
Esta época sempre prefere uma informação certa a uma morte heroica incerta. É por isso que o jornal, que fala a língua da época como ninguém, noticiou o seguinte: “Morte heroica iminente dos soldados alemães na China”.
Está mais do que na hora das crianças esclarecerem os adultos sobre os mistérios da vida sexual.
Estou sempre disposto a publicar aquilo que contei a um amigo sob o selo do mais profundo sigilo. Mas ele não o deve espalhar.
Estou sempre sob a forte impressão daquilo que penso de uma mulher.
Eu domino apenas a língua dos outros. A minha faz comigo o que ela bem entende.
Eu e a vida: o caso foi decidido cavalheirescamente. Os adversários se separaram irreconciliados.
Eu e o meu público entendemo-nos muito bem: ele não ouve o que digo e eu não digo o que ele gostaria de ouvir.
Eu falo de mim e refiro-me à coisa. Eles falam da coisa e referem-se a si próprios.
Gostaria de separar a minha existência da coexistência deles.
Alimento-me de escrúpulos que eu mesmo preparo.
Façamos a distinção entre mulheres culposas e dolosas.
Faltava-lhe apenas um defeito para ser perfeita.
Farto da vida, recorrer ao pensamento: um suicídio por meio do qual alguém se dá a vida.
Ficar triste da vida por haver encontrado no seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas a sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até às entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até ao instante em que ele dá a sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão da minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de o servir: assim pretende mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura a minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta das suas imperfeições, esse leitor considera que a sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem aos seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico aos meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade dos meus partos e a dificuldade do meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e divertem-se na sociedade. Eu divirto-me à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se esta ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.
Fico preocupado quando mando cortar os cabelos, pois o barbeiro pode me cortar um pensamento.
Foi uma fuga através dos milénios, quando, na mais fria noite de inverno, ela saiu seminua de um baile e correu pelas ruas, entrando nas profundezas do Prater, com criados de mesa, cavalheiros e cocheiros atrás dela... Uma pneumonia e a morte trouxeram-na de volta ao nosso século.
Fomos complexos o bastante para construir as máquinas e somos primitivos demais para nos deixarmos servir por elas. Praticamos o comércio internacional sobre trilhos cerebrais de bitola estreita.
Formação é aquilo que a maioria recebe, muitos passam adiante e poucos possuem.
Gostaria muito de requerer a concessão para a operação manual de uma guilhotina. Mas o imposto sobre o lucro que eu teria de pagar!
Gosto de monologar com mulheres. Mas o diálogo comigo mesmo é mais interessante.
Grandes traços: grande atração.
Há cabeças ocas rasas e profundas.
Há dois tipos de apreciadores da arte. Uns elogiam o que é bom porque é bom e criticam o que é mau porque é mau. Outros criticam o que é bom porque é bom e elogiam o que é mau porque é mau. A distinção entre esses tipos é simples pelo facto de o primeiro deles não existir. As coisas seriam fáceis de entender se não houvesse ainda uma terceira categoria. Ela é formada por aqueles que elogiam o que é bom apesar de ser bom e criticam o que é mau embora seja mau. É a essa espécie perigosa que se deve toda a confusão nos assuntos artísticos. O seu instinto diz-lhes que devem alvejar o que é errado, mas por precaução alvejam o que é certo. Possuem razões que se encontram fora da sensibilidade artística. O artista poderia viver sem o esnobismo que o exalta. Dificilmente, sem a estupidez que o degrada.
Há duas espécies de escritores. Aqueles que são e aqueles que não são. Nos primeiros, a forma e o conteúdo se harmonizam como corpo e alma; nos segundos, a forma e o conteúdo se ajustam como a roupa sobre o corpo.
Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas.
Há homens que conseguem unir as vantagens do mundo com os benefícios de serem perseguidos.
Há imitadores de originais. Quando dois têm um pensamento, ele não pertence àquele que o teve antes, mas àquele que o tem melhor.
Há lugares em que pelo menos se deixam os ideais em paz quando a exportação corre perigo, onde se fala tão honestamente dos negócios que eles não seriam chamados de pátria e em que se renuncia por precaução a ter uma palavra para ela. Nós, idealistas da exportação, chamamos tal povo de “nação de negócios”.
Há mulheres que levam estampadas no rosto mais mentiras do que nele cabem: a do sexo, a da moral, a da raça, a da sociedade, a do Estado, a da cidade e, se forem vienenses, a do bairro e a da rua.
Há pessoas que ficam roucas quando não falaram uma só palavra por oito dias seguidos.
Há também um exotismo temporal que socorre a falta de talento exatamente da mesma maneira que a abordagem de ambientes estrangeiros. A distância, em todo caso, não é um obstáculo, mas o mimetismo da falta de personalidade.
Há uma credulidade inferior da confiança e uma credulidade superior do ceticismo. Um sujeito é enganado, outro é homem o bastante para enganar a si próprio. Aquele é feito de bobo, este é um sabedor que não deixa aquilo que sabe estragar a sua brincadeira quando olha por cima do próprio ombro. (Eu queria a assinatura dela num postal. Pedi a um amigo que a falsificasse. Se ele acrescentar que é autêntica, certamente acreditarei.) Antes, quando eu ainda acreditava, não teria podido ter ideia da minha credulidade. Agora, fico frequentemente perplexo com as surpresas que me faço e com o facto de me surpreender. Desde que a minha desconfiança cresceu, sei o quanto acredito.
Há uma dúvida produtiva que vai além de um ultimato morto. Eu poderia encher cadernos inteiros com os pensamentos que pensei até chegar a um pensamento, e volumes inteiros com aqueles que pensei depois.
Há uma originalidade que provém da carência, que não é capaz de se elevar até à banalidade.
Há verdades cuja descoberta pode demonstrar que não se tem espírito.
Hamlet não compreende a sua mãe: “Olhos sem tato, tato sem visão, ouvidos sem mãos ou sem olhos, o mero olfato ou a parte mais enfermiça de um sentido verdadeiro não andaria assim às apalpadelas. Oh vergonha! Onde está o teu rubor?”. Isso é algo que o homem não pode compreender; ele sente a ideia de que uma mulher copule com o rei Cláudio como uma impertinência contra ele próprio. Ele mesmo se sente colocado no “suor fétido de um leito asqueroso”, e a sua consciência elevada se indigna. Mas é a partir dela que Shakespeare fala. E, por isso, Hamlet apenas se escandaliza com a idade da matrona, idade em que normalmente costuma “estar domado o auge do sangue”, este “espera pela razão” e um gosto discernente se impõe. Ele reconhece que a juventude da mulher não pode escolher entre um apolo e um miserável monarca remendado, que sexo e gosto quase sempre seguem caminhos diferentes, e “proclama que não é vergonha quando as paixões se lançam ao ataque”. Não fosse o seu filho, e ele concederia mesmo à mulher de mais idade que “o demónio que a vendeu de tal maneira no jogo da cabra-cega” é o mesmo sentido sexual que entorpece todos os outros sentidos da mulher — mais ainda do que no homem mais inclinado ao sexo — e age de maneira anestesiante sobre toda a compreensão.
Hoje em dia não é possível distinguir o ladrão da vítima do roubo: nenhum deles leva objetos de valor consigo.
Hoje, um original é aquele que roubou primeiro.
Homens criativos podem fechar-se à impressão das criações alheias. Por isso, muitas vezes assumem uma atitude de rejeição ao mundo, embora não raras vezes sintam a sua imperfeição.
Isto que se chama de homem agora pode ser raspado psicanaliticamente.
Já passei tantas vezes pela experiência de alguém partilhar a minha opinião e ficar com a metade maior para si que agora estou escaldado e só ofereço pensamentos às pessoas.
Kokoschka fez um retrato meu. É possível que aqueles que me conhecem não me reconheçam. Mas aqueles que não me conhecem certamente me reconhecerão.
Lichtenberg cava mais fundo do que qualquer outro, mas não volta à superfície. Fala sob a terra. Só o escuta quem também cava fundo.
Literatos alemães: os louros com que um sonha não deixam o outro dormir. Outro, por sua vez, sonha que os seus louros não deixam um outro dormir, e este não dorme porque o outro sonha com louros.
Logo apreendemos o conteúdo de uma mulher. Mas até chegarmos à superfície!
Logo se completarão dez anos que não recobro mais a consciência. A última vez que a recobrei, fundei um jornal polémico.
Mais de um já provou pelos seus imitadores que não é um original.
Maldita lei! A maioria dos meus próximos é a triste consequência de um aborto não feito.
Mas que amigo da vida em sociedade era aquele rei bávaro que se sentava sozinho no teatro! Quanto a mim, também atuaria.
Mas se abster da mulher não é lá um prazer assim tão especial, isso eu preciso reconhecer!
Megalomania não é considerarmos-nos mais do que somos, mas considerarmos-nos aquilo que somos.
Mesmo um homem decente, desde que isso nunca seja descoberto, pode conseguir um nome respeitado hoje em dia.
O meu desejo de que os meus textos sejam lidos duas vezes causou grande irritação. Sem razão; o desejo é modesto. Não peço sequer que sejam lidos uma só vez.
Os meus anseios são conhecidos pessoalmente. Por isso se acredita que a minha arte não valha grande coisa.
Os meus leitores acreditam que escrevo para o dia por escrever a partir dele. Assim, preciso esperar até que os meus escritos envelheçam. Então possivelmente adquirirão atualidade.
Os meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez. Não pretendo responsabilizar-me pelas congestões de um imbecil que não tem tempo.
A minha consciência tem um criado que está sempre atento para que nenhum intruso lhe atravesse o limiar. Os psicanalistas não têm nada a procurar abaixo dele. Caso o meu criado apanhe um desses que quer consultar o arquivo, ele fá-lo conduzir ao vestíbulo, onde, com a sua lanterna de ladrão, eu mesmo lhe ilumino a cara.
Minha língua é a puta de todo o mundo que transformo em virgem.
Minhas glosas necessitam de comentário. Caso contrário, são muito fáceis de compreender.
As minhas palavras nas mãos de um jornalista são piores do que aquilo que ele próprio pode escrever. Para que, portanto, o aborrecimento de citar? Eles acreditam que podem oferecer provas de um organismo. Para mostrar que uma mulher é bonita, arrancam-lhe os olhos. Para mostrar que a minha casa é habitável, colocam a minha varanda sobre as suas calçadas.
Muitas pessoas com quem mantive contacto ao longo de uma vida variada têm algo contra mim, sabem algo contra mim. E há algo que também poderão provar contra mim: que mantive contacto com elas.
Muitas vezes arranho a minha mão com a pena e só então sei que vivi aquilo que se encontra escrito.
Muitas vezes é difícil escrever um aforismo quando se é capaz de o fazer. Muito mais fácil é escrever um aforismo quando não se é capaz de o fazer.
Muitas vezes, a filosofia não é mais do que a coragem de entrar num labirinto. E quem se esquecer do portão de entrada, pode facilmente adquirir a reputação de pensador independente.
Muitos negociantes de cavalos agora alimentam esperanças em relação a Pégaso.
Muitos talentos conservam a sua precocidade até idade avançada.
Muitos têm a megalomania de ser loucos e são apenas cabeças-tontas.
Muitos têm o desejo de me matar. Muitos, o desejo de ter dois dedos de prosa comigo. Daqueles a lei protege-me.
Mulheres caridosas apresentam uma forma específica e muito perigosa de sexualidade modificada: a samaritíase.
Mulheres são casos-limite.
Na alegria e na tristeza, por fora e por dentro, em qualquer situação, a mulher precisa do espelho.
Na arte, pode ser custoso distinguir a autenticidade do embuste. Reconhecemos o embuste, quando muito, pelo facto de exagerar a autenticidade. A autenticidade, quando muito, pelo facto de o público não se deixar enganar por ela.
Na cidade de Echternach, no Luxemburgo, ainda hoje ocorrem as chamadas procissões saltitantes. Pelo facto de no passado os animais terem sido acometidos de tarantulismo, os camponeses locais fizeram o voto de saltar em honra de São Willibrord em lugar dos animais. Hoje, nem as pessoas nem o gado conhecem mais a origem da singular cerimónia, mas aquelas mantêm-se-lhe fiéis, e se a força do hábito continuar a afirmar-se entre os habitantes de Echternach, talvez chegue novamente o dia em que o gado salte em honra de São Willibrord. Por ocasião do Pentecostes, ainda hoje cerca de 15 mil pessoas dão “três pulos para a frente e dois para trás”. O clero não salta junto, mas assiste. O espetáculo não o agrada inteiramente; ele preferiria que fossem dois pulos para a frente e três para trás.
Na guerra, ou a mentira é uma embriaguez ou uma ciência. Esta última é mais prejudicial ao organismo.
Na linguagem erótica também há metáforas. O analfabeto as chama de perversões. Ele abomina o poeta.
Na maioria dos seres humanos não avanço até a alma, mas sou assaltado por dúvidas já nas entranhas. Pois não posso acreditar que esse magnífico mecanismo foi criado para compor um grande comerciante, e apenas por meio da autópsia me deixo convencer de que um agiota tem um baço.
Na poesia épica há algo de superfluidade congelada.
Na vida fácil também há um trágico conflito entre personalidade e sociedade, e um triste conflito entre inadequação e vocação. Mas a hetera intelectualmente soberana que sabe impor-se ao mundo na condição de grande amoureuse é apenas uma construção de desejos eróticos que gostariam de eternizar o espetáculo de um pôr do sol. Uma consciência superior que controlasse inclusive o desregramento, e que mediante a sublimação da vida dos sentidos também alcançasse a sua preservação, é uma possibilidade romanesca. A mulher com espírito é uma perigosa enxadrista da sexualidade. Ou é assexuada e representa a abominação de uma calculadora mental que resolve uma equação integral na noite do casamento sem ser capaz de elevar à potência.
Nada disso, não sou um resmungão; o meu ódio contra esta cidade não é um amor que perdeu o seu rumo, mas encontrei uma maneira inteiramente nova de a achar insuportável.
Nada é mais caro ao caixeiro do que a sua palavra de honra. Comprando um lote grande, porém, há desconto.
Nada é mais insondável do que a superficialidade da mulher.
Nada é mais tacanho do que o chauvinismo ou o ódio racial. Para mim, todos os seres humanos são iguais; há idiotas em toda a parte e tenho o mesmo desprezo por todos. Nada de preconceitos mesquinhos!
Não achei estranho que um sujeito que jurasse pela virgindade da sua adorada se deixasse convencer disso, mas que se deixasse convencer disso.
Não acredito que uma avalanche de atos infames alguma vez tenha causado no mundo tanta indignação moral quanto a insubornabilidade do meu pensamento causou na cidade em que moro. Vi pessoas às quais nunca fiz mal algum explodirem ao me ver e se desintegrarem nos átomos da banalidade universal. Numa estação ferroviária, a mulher de um redator embarcou num compartimento particular de primeira classe, me viu e morreu com uma maldição nos lábios. E isso porque não faço uso de passagens gratuitas nos comboios, o que provavelmente é o menor dos meus defeitos. Pessoas cujo sangue é mais lerdo cospem quando me enxergam e seguem o seu caminho. Todas são mártires; defendem a causa comum, sabem que o meu ataque não se dirige às suas pessoas, mas à coletividade de que fazem parte. É o primeiro caso em que essa sociedade aleijada, que leva as lascas dos seus ossos envoltas em ataduras, cobra ânimo para fazer um gesto. Há séculos não se cospe mais quando passa um escritor. A humanidade acorre a Messina, e a estupidez sente-se solidária perante Die Fackel. Não há antagonismos de classe, a questão nacional cala-se e a Associação de Defesa do Antissemitismo pode descansar as mãos no colo ao falar. Estou sentado no restaurante: à direita, uma mesa de gente mal vestida que mete os dedos no nariz, ou seja, evidentemente deputados alemães; à esquerda, selvagens com barbas pretas que dão a impressão de que a crença na morte ritual, no fim de contas, tem algum traço de legitimidade, mas que certamente são apenas adeptos da política social que passam a faca pela boca à maneira dos carniceiros judaicos. Dois mundos, entre os quais aparentemente não há conciliação. Wotan e Jeová dirigem olhares hostis um ao outro — mas os raios do ódio unem-se sobre a minha humilde pessoa. O facto de ainda não ter ocorrido a um governo austríaco a ideia de me reclamar para o seu programa somente pode ser explicado pela desorientação fundamental dos governos deste país.
Não basta à necessidade de solidão que se esteja sentado sozinho a uma mesa. Também precisa haver cadeiras vazias em volta. Quando o empregado de mesa tira uma dessas cadeiras nas quais não há ninguém sentado, sinto um vazio e a minha natureza sociável desperta. Não posso viver sem cadeiras vazias.
Não confio na máquina de impressão quando lhe entrego os meus manuscritos. Como pode um dramaturgo fiar-se na boca de um ator?
Não consigo livrar-me assim tão rápido da impressão que causei numa mulher.
Não cumprimentar não basta. Também não cumprimentamos pessoas que não conhecemos.
Não deixo de dar forma àquilo que me impede de dar forma.
Não devemos aprender mais do que o absolutamente necessário contra a vida.
Não nos devemos entristecer com o que a cultura fez da mulher num trabalho de dois milénios. Um bocadinho de curiosidade remedeia tudo.
Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada dos meus pensamentos. Vivo numa relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que bem quiser. Eu obedeço-lhe à letra. Pois das letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar pensamentos obriga-me a ficar de joelhos e transforma todo dispêndio de cuidado trémulo em dever. A língua é uma senhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem consegue inverter essa relação, mas fecha-lhe o útero.
Não é costume casar com uma mulher que antes teve um caso. Mas é costume ter um caso com uma mulher que se casou antes.
Não é preciso que sejam sempre as qualidades do caráter ou do espírito masculino que levem as mulheres a serem infiéis. O que é enganado é sobretudo o ridículo da posição oficial que o proprietário ocupa. E contra isso, nem mesmo qualidades físicas oferecem sempre proteção.
Não é verdade que não se pode viver sem uma mulher. Apenas não se pode ter vivido sem uma.
Não falemos publicamente sobre os problemas da vida sexual. Que a vivamos e lhe demos forma, mas nos calemos a respeito. Para resguardar a verdade é lícito ser hipócrita.
Não gosto das condições de vida no estrangeiro. Só fui ao exterior com frequência para não desaprender a língua alemã.
Não gosto de me intrometer nos meus assuntos privados.
Não há criatura mais infeliz sob o sol do que um fetichista que anseia por um sapato feminino e precisa contentar-se com uma mulher inteira.
Não há lugar mais público do que um elevador em que nos dirigem a palavra.
Não há melhor refutação de uma teoria do que o facto de ser realizável.
Não há mulheres incompreendidas. Elas são apenas a consequência de um equívoco das feministas, que não querem ser compreendidas, mas apreendidas. Há mulheres incompreendidas, afinal.
Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação intelectual, e não há tristeza que se compare ao estado em que o artista mergulha depois de concluída a obra. A segurança da inconsciência cria sempre a sua primeira obra e, por isso, sempre a melhor. Uma vez consumada, a insegurança da consciência vê que é a última e, por isso, a pior. Qualquer crítica leviana impressiona semelhante desânimo. Um juízo capaz de acompanhar a criação artística apenas na sobriedade e não no gozo é uma verdadeira maldição. Nada sabem da volúpia aqueles que apenas sabem que ela precede a tristeza.
Não há, então, nada a fazer contra o erro de impressão que sempre transforma uma erudição estúpida em estupenda?
Não me deixo mais enganar por nenhuma barba cerrada. Já sei qual é o sexo que usa calças nessa casa.
Não me relaciono de facto com pessoas que utilizam a palavra “efetivamente”.
Não obstante, aquele que retorna a casa não se deixará reintegrar facilmente na vida civil. Acredito, pelo contrário, que ele invadirá o interior do país e só então dará início à guerra. Ele arrebatará os êxitos que lhe foram negados e a guerra terá sido uma brincadeira de crianças comparada à paz que então irromperá. Que Deus nos proteja da ofensiva que então será iminente! Uma atividade medonha, não mais domada por comando algum, pegará em armas e em prazeres em todas as situações da vida, e haverá mais morte e mais doença no mundo do que a guerra alguma vez lhe exigiu.
Não obstante, jamais ataquei uma pessoa por ela mesma, ainda que a tenha chamado pelo nome. Se fosse um jornalista, orgulhar-me-ia de criticar um rei. Mas visto que ataco a turba dos cocheiros, seria megalomania que um indivíduo se sentisse atingido. Caso mencione um deles, isso apenas ocorre porque o nome intensifica o efeito plástico da sátira. Depois de dez anos de trabalho artístico, as minhas vítimas deveriam estar suficientemente instruídas para reconhecer isto e finalmente desistir de se lamentar.
Não peço fogo a ninguém. Não quero devê-lo a pessoa alguma. Não na vida nem no amor, nem na literatura. E, no entanto, fumo.
Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humanitário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores que até então não eram capazes de chegar a um juízo com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinhosamente na individualidade do estudante. O humanitarismo eliminou o pesadelo do medo de ser “chamado à frente”, mas a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que a perigosa. Entre “excelente” e “absolutamente insatisfatório” havia um espaço para experiências românticas. Eu não gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no passado o seu caráter antecipava inofensivamente como o corpo vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos transformar-se em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora devem deixar-se formar por ela. A beleza é banida juntamente com os arrepios, e o espírito jovem encontra-se diante da parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estudantes motivados pela estupidez de pais e professores irão cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.
Não se pode superestimar uma mulher o bastante.
Não tenho mais colaboradores. Tinha inveja deles. Eles afastam os leitores que eu mesmo quero perder.
Não tenho objeções à literatura romanesca pela razão de que me parece conveniente que aquilo que não me interessa seja dito de maneira prolixa.
Não ter pensamentos e ser capaz de os expressar — eis um jornalista.
Não, a alma não fica com cicatrizes. A bala entrará por um ouvido da humanidade e sairá pelo outro.
Nápoles é uma cidade altamente moralista em que se pode procurar mil rufiões até encontrar uma prostituta.
Negócio é negócio: porque uns disseram isto, outros disseram que eles são negociantes. Aqueles, porém, queriam dizer que negócio é negócio, e não que negócio também é vida e religião.
Nem de longe um bom escritor recebe tantas cartas anónimas ofensivas quanto normalmente se supõe. De cem asnos, nem dez admitem sê-lo, e no máximo um coloca isso por escrito.
Nem tudo que é condenado a um silêncio de morte vive.
Nenhuma fronteira seduz mais ao contrabando do que a fronteira representada pelo limite de idade.
Nessa espelunca em que ladrões de cavalo húngaros trocam as suas hipóteses, nessa fumaceira de tabaco e usura, ouço subitamente entre teschek e betschkerek a palavra: Glaucope. Dita por um boca-aberta, mas com um efeito que me arrasta através dos milénios. Volto rapidamente a mim quando me ocorre que a deusa devia ser um cavalo de corrida.
Ninfa — esse é também um estágio da vida de alguns insetos.
Ninguém acredita como muitas vezes é difícil traduzir uma ação num pensamento!
Ninguém que examine os meus trabalhos impressos reconhecerá uma costura. E, no entanto, tudo foi descosido cem vezes, e de uma página que foi para a impressão tiveram de resultar sete. No fim, se é que há um fim, a articulação é tão evidente que não se vê a justaposição e não se acredita nela. Escritores que possuam tudo na cabeça, e que ao escrever tomem parte apenas com as mãos, são manipuladores infames com os quais nada tenho em comum a não ser o alfabeto, e mesmo isso apenas a contragosto. Eles não se alimentam, mas seguem vivendo porque têm tudo no estômago.
No caminho pelo qual chegamos a nós mesmos também encontramos uma inoportuna fileira de curiosos que gostariam de saber como são as coisas por lá.
No caso do homem, o espelho serve apenas à vaidade; a mulher precisa dele para se assegurar da sua personalidade.
No começo era o exemplar para recensão, e alguém o recebeu da editora. Então escreveu uma recensão. Então escreveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como exemplar para recensão. O próximo que o recebeu fez o mesmo. Assim nasceu a literatura moderna.
No que se refere às invenções da pólvora e da tinta de impressão, deveríamos admitir sobretudo a importância que a sua simultaneidade tem para a humanidade.
A nossa cultura consiste em três gavetas, das quais duas se fecham quando uma está aberta: trabalho, diversão e instrução. Os malabaristas chineses dominam a vida toda com um só dedo. As coisas serão fáceis para eles, portanto. A esperança amarela!
Num domingo de inverno à tarde, num café de Viena, encurralados entre pais que jogam cartas, mulheres que berram e crianças que leem revistas humorísticas, podemos ser tomados por tal sentimento de solidão que ansiamos pela vida agitada que deve reinar por essa hora na Baía do Advento.
Num escritor podemos observar sintomas que deixariam um grande negociante maduro para a internação.
Num retrato de verdade, precisamos reconhecer qual pintor representa.
Numa cabeça oca cabe muito conhecimento.
Numa festa a fantasia, cada um espera ser o mais chamativo, mas apenas chama atenção aquele que não está fantasiado. Será que isso não daria uma comparação?
Nunca percebemos com tanta clareza a brutalidade da existência, a falta de fundamento de todas as coisas humanas do que quando temos a infelicidade de estar num veículo que precisa parar porque é envolvido pela música folclórica.
O voyeur passa na prova de força da sensibilidade natural: a vontade de ver a mulher com o homem supera inclusive a repugnância de ver o homem com a mulher.
O “masoquismo” é a incapacidade de ter prazer de outra forma a não ser na dor ou a capacidade de tirar prazer dela?
O “sedutor” que se gaba de iniciar as mulheres nos mistérios do amor: o estrangeiro que chega à estação ferroviária e se dispõe a mostrar as belezas da cidade ao guia turístico.
O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia.
O aforismo requer o fôlego mais longo.
O amor como ciência natural! A proibição do prazer continua em vigor, e agora também nos proíbem o romantismo da proibição. Mas imploramos: já que não nos livramos do cristianismo, então que pelo menos ainda tenhamos incenso, música de órgão e escuridão! Assim, a Igreja ainda nos oferece alguma compensação pelo que nos tira.
O amor do próximo não é o melhor, mas em todo caso é o mais cômodo.
O amor entre os sexos é um pecado na teologia, um acordo ilícito na jurisprudência e um insulto mecânico na medicina; quanto à filosofia, absolutamente não se ocupa de coisas desse gênero.
O analista transforma o ser humano em poeira.
O austríaco por certo tem a sensação de que nada lhe pode acontecer porque a consciência de ter nascido num lugar condenado o protege de surpresas.
O barbeiro conta novidades quando deveria apenas cortar o cabelo. O jornalista é espirituoso quando deveria apenas contar novidades. Dois sujeitos que querem subir na vida.
O beijo de Judas que a cultura cristã deu no espírito humano foi o último ato sexual que ela permitiu.
O bibliófilo tem aproximadamente a mesma relação com a literatura que o filatelista com a geografia.
O bicho-papão é um recurso pedagógico imprescindível na vida familiar alemã. Quanto aos adultos, são intimidados com a ameaça de que o psiquiatra virá buscá-los.
O bom senso diz que “ainda acompanha” um artista até determinado ponto. O artista deveria recusar a companhia mesmo até aí.
O burguês não tolera nada incompreensível dentro de casa.
O cão é fiel, não há dúvida. Mas será por isso que devemos tomá-lo como exemplo? Afinal, ele é fiel ao homem e não ao cão.
O casamento é uma mésalliance .
O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o mundo. Como ainda podemos inventar se atrás de cada carantonha surge um rosto que lhe é igual inclusive na fala? Como podemos exagerar se os factos se transformam em caricatura do exagero? A e B estão em conflito. Diz-se que A praticou um ato ilegal. Porém, visto que por alguma razão não se pode dizer isso em voz alta, o que se diz em voz alta é o seguinte: “O senhor já sabe do ato ilegal que B cometeu mais uma vez?”. Quando se diz isso, não se pensa no facto de B realmente poder tê-lo cometido. Também não se acredita que A, consciente do seu próprio delito, alguma vez pudesse censurá-lo a B, caso este também o tivesse cometido. Não se acredita nisso, pelo menos nesse caso especialmente crítico. Apenas a experiência geral de que algo semelhante por certo já aconteceu, de que se imputou a B aquilo que somente A cometeu, justifica a jocosa confusão: “Imagine só o senhor do que B não é capaz!”. No dia seguinte, publica-se um protesto de A contra o procedimento de B. Este teria cometido exatamente aquele ato ilegal, o pior numa série de crimes semelhantes. Desse modo, o próprio A assume o método parodístico com o qual se atribui a B os pecados de A porque não se tem outra saída. Resta assim apenas a explicação de que ele sentiu remorsos e, na esperança de ser corretamente compreendido, confessou a sua falta sob a forma de uma imputação a B. Caso B realmente tivesse cometido essa falta, A pelo menos deveria perceber a justa compensação e silenciar. O que constitui a comicidade do caso não é a indignação contra aquilo que também se fez, ou que se fez apenas sozinho, mas a exatidão com que A aproveita a distorção intencional empregada pela pessoa cautelosa que precisa dizer B quando se refere à A. Por conseguinte, não se evita apenas dizer a verdade; também se é cauteloso com a mentira, pois ela também é vã e serve no máximo para motivo de farsa.
O ciúme da matéria informe que diariamente se balança e se esfrega, transborda e tagarela diante do meu nariz, o ciúme de pessoas que infelizmente ainda existem, mas que ainda não foram criadas, dificilmente poderá ser compreendido por uma delas.
O ciúme do homem é uma instituição social, a prostituição da mulher é um impulso natural.
O ciúme é sempre injustificado, acham as mulheres. Pois ou ele é justificado ou injustificado. Se for injustificado, logo ele não se justifica. Mas se for justificado, ele não se justifica. Pois bem. E assim nada resta a não ser o desejo de alguma vez surpreender o instante em que ele seja justificado!
O ciúme é um ladrar de cães que atrai os ladrões.
O clero e a guerra: a casaca do amor ao próximo também pode ser virada.
O clichê e a coisa são uma coisa só.
O clichê é o peitilho engomado sobre uma mentalidade normal que nunca é trocada.
O contador de histórias distingue-se do político apenas pelo facto de ter tempo. Comum a ambos é que o tempo os tem.
O cristianismo enriqueceu o banquete erótico com o antepasto da curiosidade e o arruinou com a sobremesa do arrependimento.
O defeito que consiste no facto de o génio provir de uma família apenas pode ser reparado por ele ao não formar nenhuma.
O desenvolvimento das máquinas beneficia apenas a personalidade que, passando pelos obstáculos da vida exterior, chega mais rapidamente a si mesma. No entanto, as cabeças medianas não estão à altura da hipertrofia desse desenvolvimento. Hoje ainda não podemos fazer a menor ideia da devastação promovida pela máquina de impressão. O dirigível foi inventado, e a imaginação arrasta-se como uma diligência. O automóvel, o telefone e as gigantescas edições da estupidez — quem poderá dizer como serão os cérebros daqui a duas gerações? O afastamento em relação à fonte natural promovido pela máquina, a suplantação da vida pela leitura e a absorção de todas as possibilidades artísticas pelo espírito factual terão completado a sua obra com rapidez surpreendente. Apenas nesse sentido se deveria compreender o despontar de uma era glacial. Nesse meio-tempo, não nos intrometamos na política social, mas deixemos que se ocupe das suas pequenas tarefas; deixemos que lide com a educação popular e com outros sucedâneos e opiáceos. Passatempos até à dissolução. As coisas estão a desenvolver-se de uma maneira para a qual não há exemplo nos períodos historicamente verificáveis. Quem não sente isto em cada nervo pode prosseguir sem receio a cômoda divisão em Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna. De súbito aperceber-se-á que as coisas não avançam. Pois a época moderna começou com a produção de novas máquinas para o funcionamento de uma ética antiga. Nos últimos trinta anos aconteceram mais coisas do que nos trezentos anos anteriores. E um dia, a humanidade terá se sacrificado pelas grandes obras que criou para o seu alívio.
O desenvolvimento técnico deixará apenas um problema: a caducidade da natureza humana.
O Diabo é um otimista se acredita que pode tornar os seres humanos piores.
O dono não suporta tão dignamente a dignidade quanto o cavalo suporta o ultraje.
O elmo prussiano é mais cultivado do que o cossaco; este, porém, não vive tão longe de Dostoievski quanto aquele de Goethe.
O erotismo do homem é a sexualidade da mulher.
O erotismo é a superação de obstáculos. O obstáculo mais sedutor e mais popular é a moral.
O erotismo faz de um apesar disso um pois .
O erotismo relaciona-se com a sexualidade como o ganho com a perda.
O escândalo começa quando a polícia lhe dá um fim.
O esclarecimento sexual apenas é justificado na medida em que as meninas não possam saber cedo demais como as crianças não vêm ao mundo.
O esclarecimento sexual é aquele procedimento impiedoso por meio do qual se impede os jovens por motivos de higiene de satisfazer a sua curiosidade por conta própria.
O escravo! Ela faz com ele simplesmente o que ele quer.
O escritor está aí para as pessoas? Para quando as noites se tornam longas? Vamos encurtá-las de outro modo! Contar-lhes mais alguma coisa? Algo empolgante antes que anoiteça completamente? Algo em fascículos? Estricnina e tortura! A noite é longa demais.
O espírito alemão escarrou duas espécies: a bailarina e a meditativa. Heine é mais responsável por esta, Nietzsche por aquela. No segundo caso, também se descobrirá quem foi o precursor.
O desporto é um filho do progresso, e já contribui por conta própria para a imbecilização da família.
O esquecimento das mulheres às vezes é abalado pela discrição dos homens.
O esteta não vive tão longe do político quanto se pensa. Para aquele, a vida reduz-se a uma linha; para este, a uma superfície. O jogo frívolo que ambos praticam deixa-os igualmente distantes do espírito, num lugar em que absolutamente não entram mais em consideração. É trágico ser reclamado por aquele partido quando não se quer saber nada deste, e ter de pertencer a este porque se detesta aquele. Porém, da altura da verdadeira intelectualidade, vê-se a política apenas como uma futilidade estética e a orquídea como uma flor partidária. É a mesma falta de personalidade que leva uns a buscar a vida no conteúdo e outros a buscá-la na forma. Eles nada querem saber um do outro; ambos, contudo, fazem parte do mesmo esfoladouro.
O facto de mesmo os ciumentos permitirem que as suas mulheres se movam livremente nos bailes de máscaras mostra o quanto o sexual é secundário e ausente para o homem. Eles esqueceram o quanto puderam permitir-se outrora nesses bailes com as mulheres dos outros, e acreditam que desde que casaram a licença geral foi suspensa. Eles sacrificam o ciúme por meio da presença. Não veem que esta é uma espora e não um freio. Nenhuma mulher ciumenta deixaria o seu marido ir a um baile de máscaras.
O facto de um tema ser artístico não o deve prejudicar necessariamente junto do público. Superestima-se o público ao acreditar que ele leva a mal a excelência da representação. Ele de forma alguma lhe dá atenção, e também tolera com tranquilidade coisas valiosas desde que o objecto casualmente corresponda a um interesse vulgar.
O filósofo L. St., da Hungria: ele não é um líder, mas é o “primeiro-violino” entre os pensadores. Chamam-no à mesa e ele toca o transcendental aos ouvidos das pessoas.
O fraco duvida antes da decisão. O forte, depois.
O francês ainda não se afastou tanto de sua superfície quanto o alemão de sua profundidade.
O futuro dos futuristas é um pretérito perfeito.
O gosto moderno necessita das complicações mais rebuscadas para finalmente descobrir que a melhor forma para um copo de água é a redonda. Ele chega ao conveniente pelo caminho das incomodidades. Ele trabalha no suor do seu rosto para reconhecer que a Terra não é um cubo, mas uma esfera. Esse assombro indígena da civilização perante as conquistas da natureza tem algo tocante.
O herói é alguém que encara uma multidão. Na nova guerra, o primeiro a conquistar essa posição é o lançador de bombas aéreas, alguém que inclusive encara a multidão de cima.
O historiador nem sempre é um profeta voltado para o passado, mas o jornalista é sempre alguém que depois já sabia de tudo antes.
O homem canalizou a torrente selvagem da sensualidade feminina. Agora ela não inunda mais a terra. Mas também não a fertiliza mais.
O homem criativo vê Helenas em todas as mulheres. Só que ele fez a conta sem o analista, que primeiro lhe esclarece o que realmente ele deve ver em Helena.
O homem imagina preencher a mulher. Mas é apenas um tapa-buraco.
O homem pensa e o próximo dispensa. Este nem sequer pensa o suficiente para pensar que outro possa pensar.
O homem que não pensa, pensa que só temos um pensamento quando o temos e o vestimos com palavras. Ele não compreende que na verdade só o tem aquele que tem a palavra dentro da qual o pensamento cresce.
O homem tem cinco sentidos; a mulher, apenas um.
O humanitarismo é uma lavadeira que torce as roupas sujas da sociedade enquanto se desfaz em lágrimas.
O humanitarismo, a educação e a liberdade são bens valiosos que não foram comprados caro o bastante com sangue, entendimento e dignidade humana.
O ideal da virgindade é o ideal daqueles que querem desvirginar.
O imbecil que não pode passar diante de nenhum enigma do universo sem observar, desculpando-se, que se trata da sua humilde opinião, embolsa o elogio da modéstia. O artista que se deleita com os seus pensamentos junto a um bueiro, ufana-se.
O imitador segue os passos do original e espera que em algum momento o segredo da originalidade lhe seja revelado. Porém, quanto mais se aproxima dele, tanto mais se afasta da possibilidade de aproveitá-lo.
O imortal experimenta a calamidade de todas as épocas.
O incompreensível na arte da palavra — nas outras artes também não compreendo o compreensível — não deve tocar o sentido exterior. Este deve ser mais claro do que aquilo que fulano e sicrano têm a dizer um ao outro. O misterioso encontra-se atrás da clareza. A arte é algo tão claro que ninguém compreende. Qualquer alemão entende que sobre todos os cimos há paz; todavia, não há um que já o tenha apreendido.
O jogo de palavras, desprezível como fim em si mesmo, pode ser o recurso mais nobre de uma intenção artística na medida em que serve para abreviar uma intuição espirituosa. Ele pode ser um epigrama de crítica social.
O jogo infantil “nós brincamos de guerra mundial” é ainda mais desolador do que a realidade “nós brincamos de criança”. Seria desejável a essa humanidade que as suas crianças de colo começassem a matar com êxito as outras de fome e acabassem com a clientela das amas de leite.
O jornalismo empestou o mundo com talento; o historicismo, sem ele.
O jornalismo serve apenas aparentemente ao tempo atual. Na verdade, ele destrói a sensibilidade intelectual da posteridade.
O jornalismo, que conduz os espíritos para dentro do seu curral, conquista a sua pastagem entretanto. Jornalistas querem ser autores. Publicam-se antologias de folhetim nas quais nada causa mais espanto do que o trabalho não se ter desintegrado nas mãos do encadernador. Assa-se pão a partir de migalhas. O que lhes dá a esperança da permanência? O interesse permanente no material que eles “escolhem”. Alguém que tagarela sobre a eternidade não deveria ser ouvido enquanto a eternidade durar? Desta falácia vive o jornalismo. Ele tem sempre os maiores temas, e nas suas mãos a eternidade pode tornar-se atual; mas ela acaba envelhecendo com a mesma facilidade. O artista dá forma ao dia, à hora, ao minuto. Por mais limitado e condicionado temporal e espacialmente que seja o seu motivo, a sua obra cresce mais ilimitada e livremente quanto mais dele se afasta. Que ela envelheça serenamente no instante: ela rejuvenesce com o passar das décadas.
O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso com a sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em albanês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única premissa que o público não leva a mal, e um autor que humilha o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser recuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades! Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente. O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inteligente do que o autor culto, pois fica sabendo através da sua revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro.
O leitor com espírito alimenta a mais forte desconfiança contra aqueles escritores que vagueiam por ambientes exóticos. No melhor dos casos, eles não estiveram lá. Mas a maioria é feita de tal maneira que precisa fazer uma viagem para ter algo a contar.
O maior acontecimento local, que ocorre em todas as cidades simultânea e incessantemente, é o menos notado: a entrada do caixeiro na vida intelectual.
O mal nunca prospera melhor do que quando há um ideal à sua frente.
O monista deveria sacrificar-se pela sua verdade. Só então veríamos que a realidade nada perde e a imortalidade nada ganha, e a identidade estaria completamente demonstrada.
O mundo ainda se recusa a admitir sem reservas que a fome e o amor governam a sua economia. Pois ele por certo permite que a cozinheira dê as ordens, mas a prostituta é contratada meramente como ajudante.
O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram do inimigo quando agarram a sua mão, considera como cálculo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a detestar Hércules por dificultar a sua própria vida e a de três mil bois, ele sonda os seus motivos e pergunta: “O que o senhor tem contra Áugias?”.
O mundo é uma prisão em que é preferível a solitária.
O mundo está surdo das cadências. Tenho a convicção de que os acontecimentos absolutamente não acontecem mais, mas de que os clichés continuam a trabalhar automaticamente. Se, ainda assim, os acontecimentos devessem acontecer, sem serem intimidados pelos clichés, eles cessariam quando os clichés fossem destruídos. A coisa começa a apodrecer da língua. O tempo já cheira mal dos clichés.
O mundo externo é um sintoma secundário inoportuno de um estado de indisposição.
O nacionalismo é um turbilhão em que qualquer outro pensamento desaparece.
O naturalismo do cenário faz relógios de verdade baterem as horas. É por isso que temos a impressão de que o tempo passa tão devagar.
O novo esnobe: o retrato de Dori Gray.
O ódio deve tornar produtivo. Caso contrário, é mais sensato amar logo de uma vez.
O original sempre volta a absorver o que lhe foi retirado. Mesmo que venha ao mundo mais tarde.
O palavrório é conduzido por milhares de tubos à consciência popular. Um soldado ferido, que certamente jamais lera um livro ou mesmo um jornal, não obstante apropriou-se do tom com que uma consciência tranquila se despede. «Agora posso morrer em paz», disse ele, «hoje matei catorze!»
O palerma que não só não possui uma visão de mundo, mas também não a vê quando ela lhe é oferecida pela arte, precisa subtrair tanto de uma síntese satírica para a compreender até que sobre um nada, pois esse ele compreende, e pelo caminho do desmembramento, para ele transitável, chega aos motivos que o satírico deixou para trás e se identifica carinhosamente com o detalhe contra o qual, segundo a sua opinião, o satírico se dirigiu. O palerma também precisa sentir-se atingido por uma sátira que não lhe diz respeito ou acerta muito longe da sua esfera de interesses.
O pensamento é algo que se encontra, que se reencontra. E quem o procura é um encontrador honesto; ele é seu, mesmo que outro também já o tenha encontrado antes dele.
O pensamento é aquilo que falta a uma banalidade para ser um pensamento.
O pensamento está no mundo, mas não o temos. Ele está decomposto em elementos linguísticos pelo prisma da experiência material: o artista os compõe num pensamento.
O pensamento regula o mundo como o bíter faz com o estômago arruinado: ele não tem nada contra o órgão.
O pintor tem em comum com o pintor de paredes o facto de sujar as mãos. Precisamente isso distingue o escritor do jornalista.
O político está metido na vida, não se sabe onde. O esteta foge da vida, não se sabe para onde.
O prazer do homem seria apenas um ímpio passatempo e jamais teria sido criado se não fosse o acessório do prazer feminino. A inversão dessa relação, transformada numa ordem em que um mísero clímax se arvora de essencial e, depois de deflagrado, interrompe tiranicamente a rica epopeia da natureza, significa o fim do mundo: mesmo que o mundo, com a compensação técnica, intelectual e desportiva, não o perceba por algumas gerações e não tenha mais fantasia suficiente para o imaginar.
O prazer feminino compara-se ao masculino como uma epopeia a um epigrama.
O preconceito é um criado indispensável que expulsa impressões indesejáveis da soleira de nossa porta. Só não podemos deixar que nosso criado também nos expulse.
O progresso celebra vitórias de Pirro sobre a natureza.
O progresso faz porta-moedas de pele humana.
O progresso não se deixa deter por proibições. Na Engadina não é permitida a circulação de automóveis. A consequência? Os cocheiros dão sinais de buzina.
O propósito do jovem Jean Paul era “escrever livros para poder comprar livros”. O propósito dos nossos jovens escritores é ganhar livros de presente para poder escrever livros.
O psiquiatra reconhece sempre os loucos pelo facto de exibirem um comportamento agitado após a internação.
O público não tolera qualquer coisa. Ele repele com indignação uma obra imoral quando percebe as suas intenções culturais.
O quarto conjugal é a convivência da brutalidade e do martírio.
O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. Nos amolecimentos cerebrais do futuro, não se poderá mais constatar a causa com segurança.
O que as pessoas têm contra os internatos, afinal? É mais bela, por acaso, a convivência no curral da liberdade em que os jovens praticam psicologia mútua?
O que distingue Berlim de Viena ao primeiro olhar é a observação de que lá se consegue um efeito ilusório com o material mais desprovido de valor, enquanto aqui, na produção do kitsch, se emprega apenas material autêntico.
O que é um historiador? Alguém que escreve muito mal para poder colaborar num jornal.
O que entra no ouvido com facilidade também sai com facilidade. O que entra com dificuldade também sai com dificuldade. Isto vale muito mais para a escrita do que para a música.
O que faz de mim a maldição da sociedade à margem da qual vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam perante mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia o meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e odeia-me. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não me pode fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de carácter ou que de algum modo me torne suspeito: a mentalidade revela-se automaticamente. Se for verdade que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma o seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, correm sempre o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera o meu comportamento enquanto ele se mantém em limites académicos; se o demonstro numa acção, porém, ela assusta-se e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso relacionar-me com as pessoas mais tediosas sem o notar. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa me pode fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal me umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofre do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter a minha actividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque a minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam de ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que o poderia envergonhar. Mas eu, que em toda a minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar os meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante dos seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer piadas piores do que aquelas que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou um tiro em mim.
O que fazem os membros femininos das associações de bons costumes? Dedicam-se a eliminar a prostituição. O que importa é o incêndio, mesmo quando as mulheres não queimam mais, mas querem apagar o fogo. O que importa é o incêndio!
O que foi impresso num único dia dos últimos cinquenta anos fez mais contra a cultura do que a obra completa de Goethe fez a seu favor.
O que há de surpreendente na situação atual é que a mentira, com as suas pernas curtas, seja forçada a correr pelo mundo — e que o consiga.
O que me apresentam como objeção é com frequência a minha premissa. Por exemplo, que a minha polémica ataca a existência.
O que melhor deveria deleitar o espírito do que a tolice feminina que se esconde atrás de feições inteligentes? Quando a mulher é aquilo que deve parecer, o entendimento masculino esmorece. O prodígio da banalidade profunda mostra-se ao mundo desde os dias de Frineia; o mundo aprecia-o, mas não quer acreditar nele. Visto que os homens intelectualmente superiores da Grécia procuravam a companhia de heteras, as heteras devem ter sido mulheres intelectualmente superiores. Caso contrário, não teríamos respeito pelos gregos antigos. Por isso, os historiadores elevaram o quanto puderam o nível cultural das mulheres atenienses de vida fácil. A educação cristã veria com bons olhos que a histeria que pôs no mundo tivesse força retroativa. Mas terá de descobrir uma maneira de tirar as mênades do jogo e queimar apenas as bruxas em que transformou as mulheres do seu tempo.
O que não conseguem os costumes sociais! Apenas uma teia de aranha estendida sobre o vulcão, mas ele contém-se.
O que nos tortura são as possibilidades perdidas. Uma impossibilidade certa é um ganho.
O que os professores digerem, os alunos comem.
O que vive do tema morre antes do tema. O que vive na língua vive com a língua.
O rufião é o órgão executivo da imoralidade. O órgão executivo da moralidade é o chantagista.
O rufião é um sustentáculo da mulher. Caso o perca, pode acontecer facilmente que ela decaia.
O satirista nunca pode sacrificar algo mais elevado a um chiste, pois o seu chiste é sempre superior àquilo que sacrifica. Reduzido à opinião, o seu chiste pode causar injustiça; o pensamento tem sempre razão. Ele já coloca as coisas e as pessoas de tal modo que a nenhuma ocorra uma injustiça.
O segredo do agitador consiste em parecer tão idiota quanto os seus ouvintes, de modo que eles acreditem ser tão inteligentes quanto ele.
O senhor v. H. foi criticado por causa de uma frase ruim. Com razão. Pois descobriu-se que a frase era de Jean Paul e era boa.
O sentido tomou a forma, ela resistiu e entregou-se. Nasceu o pensamento, que leva os traços de ambos.
O sentimento que temos com a alegria do outro é de qualquer modo egoísta. Se nós mesmos lhe demos a alegria, reivindicamos a metade dela. Mas a alegria que um outro lhe dá diante dos nossos olhos, nós a sentimos inteiramente: uma metade é inveja, a outra é ciúme.
O ser humano objeta ao cão o facto de buscar a sujeira. O que o desacredita ainda mais é o facto de buscar o ser humano. Em todo o caso, o cão dá provas da sua superioridade por não correr à Dreimäderlhaus.
O sexo da mulher toma parte em todos os assuntos da vida. Às vezes, até no amor.
O sexo pode associar-se a tudo o que há no céu e também na Terra. Com o incenso e o suor das axilas, com a música das esferas e o realejo, com uma proibição e uma verruga, com a alma e um espartilho. Tais associações são chamadas de perversões. Elas oferecem a vantagem de que se precisa apenas da parte para chegar ao todo.
O sexual é apenas a subtração de duas forças. O voyeur soma três.
O Sol tem visão de mundo. A Terra move-se. Contradições no artista são contradições no observador, que não experimenta o dia e a noite ao mesmo tempo.
O sujeito gostava muito de citar um dito de Jean Paul: “Todo especialista é um asno na sua especialidade”. É que ele se sentia em casa em todas as especialidades.
O super-homem é um ideal prematuro que pressupõe o homem.
O tormento não me deixa escolha? Bem, eu escolho o tormento.
O trabalho intelectual assemelha-se tanto ao acto da volúpia que nele também obedecemos, de maneira involuntária, à convenção da vida sexual. Agimos discretamente, e quando recebemos a visita de uma mulher durante o trabalho, não a deixamos entrar para evitar um encontro embaraçoso. O filisteu ocupa-se com uma mulher, o artista corteja uma obra.
O valor da formação revela-se da maneira mais nítida quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um problema que se encontra fora do campo da sua formação.
O verdadeiro ciúme não quer apenas fidelidade, mas a prova da fidelidade como um estado imaginável. Não basta ao ciumento que a amada não seja infiel. Justamente aquilo que ela não faz é o que não lhe deixa sossegar. Porém, como não há provas daquilo que não se fez e o ciumento insiste numa prova, ele termina por se contentar com a prova da infidelidade.
Obras de arte são supérfluas. É necessário criá-las, é verdade, mas não é necessário mostrá-las. Quem possui arte em si não necessita da ocasião externa. Quem não a possui vê apenas a ocasião. A um o artista impõe-se, ao outro prostitui-se. Em ambos os casos, deveria envergonhar-se.
Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será que elas são vistas apenas pelas crianças? Quando eu tinha dez anos, convivia nos prados de Weidlingau exclusivamente com almirantes-vermelhos. Posso dizer que foi o convívio mais soberbo da minha vida. Antíopas, pavões-reais-diurnos e borboletas-limão também coloriam a vida da infância. Vanessa io, Vanessa cardui — vanitas vanitatum! Quando voltei depois de alguns anos, todas tinham desaparecido. O sol do meio-dia vibrava como antes, mas não se via nenhum fulgor colorido; em compensação, havia pedaços de jornal pelo prado. Mais tarde, fiquei a saber que a madeira dos bosques fora utilizada para produzir papel de impressão e que o excesso de informação não deixara muitas linhas para as borboletas. Um amigo do nosso jornal enviou-nos a última borboleta e um dos nossos colaboradores teve a oportunidade de a espetar na pena e lhe perguntar pelas causas da sua solidão. O mundo foge das cores da personalidade, as pessoas protegem-se ao organizarem-se. Apenas as borboletas deixaram de se organizar. É por isso que agora vemos redatores e folhetinistas iridescentes a bebericar nos cálices das flores. Mesmo as monótonas borboletas-da-couve, com as quais o jornalismo, graças a um certo parentesco, ainda poderia ter entrado num acordo, tiveram de fugir. A luta de extermínio contra as criaturas aladas significa o triunfo da cultura do jornal. As borboletas e as mulheres, a beleza e o espírito, a natureza e a arte passaram a sentir o facto de uma edição dominical ter cento e cinquenta páginas. A humanidade persegue as borboletas com matamoscas. Ela esfrega a poeira colorida dos dedos. Eles precisam de estar limpos para tocar na tinta de impressão.
Oh deleite das experiências da língua, devorador da medula! O perigo da palavra é o prazer do pensamento. O que foi que dobrou a esquina ali adiante? Ainda não divisada e já amada! Lança-me nessa aventura.
Olho por uma janela e o horizonte é obstruído por uma cara de basbaque. Isto é trágico. Nada tenho contra o facto de existirem caras repugnantes. Mas por que a óptica dispôs as coisas de tal modo que uma pessoa possa encobrir um bosque? Podemos, por certo, encobrir a pessoa com um porrete. Mas, em todo o caso, saímos prejudicados com a ilusão de óptica. E assim os raios luminosos servem para aumentar a misantropia.
Opiniões são contagiosas; o pensamento é um miasma.
Os “direitos da mulher” são deveres do homem.
Os alemães também se denominam o povo de Schopenhauer, enquanto Schopenhauer era tão modesto que não se considerava o pensador dos alemães.
Os artistas têm o direito de ser modestos e a obrigação de ser vaidosos.
Os autores são agora aconselhados a ter experiências. Isso não os poderia ajudar. Pois se precisam ter experiências para poder criar, eles não criarão. E se não precisam criar para poder ter experiências, eles não as têm. Mas os outros, os artistas, fazem as duas coisas ao mesmo tempo. E a eles não há o que aconselhar nem como ajudar.
Os cegos não querem admitir que eu tenha olhos, e os surdos dizem que sou mudo.
Os conhecimentos da vida erótica são próprios da arte, não da educação. Só às vezes eles precisam ser soletrados para os analfabetos. Importa, sobretudo, persuadir os analfabetos, já que são eles que fazem os códigos penais.
Os criadores de normas inverteram a relação entre os sexos: eles espartilharam o sexo da mulher com a convenção e deixaram livre o do homem. Assim, a graça e o espírito secaram. Ainda há sensualidade no mundo; mas ela não é mais o desenvolvimento triunfante de uma essência, e sim a deplorável degeneração de uma função.
Os críticos e os apologistas são testemunhas indesejadas. Os que estão à margem metem os pés na água para demonstrar que ela está suja. Os que estão à margem enchem a mão em concha para mostrar a beleza do elemento.
Os defeitos são os obstáculos em que Eros prova a sua valentia. Apenas as mulheres e os estetas fazem uma cara de desaprovação.
Os deleites de Tântalo fazem parte da mitologia do cristianismo.
Os doentes são a maioria. Mas só poucos sabem que se podem gabar disso. Esses são os psicanalistas.
Os filhos das pessoas andam por aí como gracejos que não foram reprimidos. São os chistes estéreis dos estéreis, incómodos para os genitores.
Os filhos de pais psicanalistas definham precocemente. Quando crianças de peito, precisam admitir que têm sensações voluptuosas ao evacuar. Mais tarde lhes perguntam que ideias lhes vieram à mente quando viram um cavalo defecando no caminho para a escola. Podemos falar de sorte quando uma criança dessas atinge a idade em que o jovem pode confessar um sonho em que violou a sua mãe.
Os hipócritas morais não são odiosos por agir diferente do que professam, mas por professar algo diferente do que fazem. Quem amaldiçoa a hipocrisia moral precisa estar muito atento para não ser tomado por um amigo da moral que aqueles, pelo menos em segredo, traem. O condenável não é a traição à moral, mas a moral. Ela é a própria hipocrisia. Não é o facto de aqueles tomarem vinho que deve ser desmascarado, mas o facto de pregarem água. Demonstrar contradições entre a teoria e a prática é sempre melindroso. O que significa o acto de todos comparado ao pensamento de um só? O moralista poderia estar a falar a sério ao lutar contra uma imoralidade da qual ele próprio se tornou vítima. E se alguém prega vinho, podemos até perdoá-lo por tomar água. Ele está em contradição consigo mesmo, mas faz com que se tome mais vinho no mundo.
Os jornalistas escrevem porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque escrevem.
Os jovens falam tanto da vida porque não a conhecem. Ela os deixaria sem fala.
Os moralistas ainda resistem ao facto de o valor da mulher determinar o seu preço. Entretanto, há muito que o preço determina o seu valor, e disso nenhuma moral dá conta.
Os neurologistas que patologizam o génio merecem que lhes partamos o crânio com as suas Obras Completas. Não devemos agir de forma diferente com os defensores da humanidade que deploram a vivissecção em cobaias e permitem a utilização de obras de arte para fins experimentais. Sempre que consigamos agarrá-los, chutemos a cara de todos os que se dispõem a provar que a imortalidade deve ser atribuída à paranoia, de todos os ajudantes racionalistas da humanidade normal que a tranquilizam por não ter inclinações para obras do engenho e da imaginação. Shakespeare louco? Então a humanidade ajoelha-se e, com medo da sua saúde, implora ao Criador por mais loucura!
Os pensadores gregos contentavam-se com putas. Os caixeiros germânicos não podem viver sem senhoras.
Os pensamentos são isentos de impostos. Mas acabamos tendo problemas do mesmo jeito.
Os povos que ainda adoram fetiches jamais descerão ao ponto de supor que a mercadoria tenha uma alma.
Os psicólogos modernos afirmam que tudo pode ser atribuído a causas sexuais. O seu método, por exemplo, poderia ser definido como erotismo de confessionário.
Os psicólogos modernos que ampliam os limites da irresponsabilidade ocupam um vasto lugar nela.
Os psicólogos são perscrutadores do vazio e embusteiros da profundidade.
Os touros de todos os partidos são unânimes acerca do facto de que faço propaganda da luxúria. Certamente é verdade que recomendo o reconhecimento da beleza como único remédio contra a estupidez e que atribuo todos os males deste mundo ao cruel soterramento e à malévola poluição, praticados por séculos, da fonte de toda a vida. Mas será que por isso me entusiasmei pela sexualidade dos touros?
Os vermes dizem: “Sem nós não haveria cadáveres!”.
Ouvi um alemão ligeiramente bêbado gritar as seguintes palavras atrás de uma rapariga que dobrou a esquina, declamando-as humoristicamente: “Lá vai ela, a vadiazinha!”. Não se pode supor que algum dia se aprove uma lei que permita abater a tiros os alemães que tenham provado com uma só frase a sua completa inutilidade neste planeta.
Ouvi uma mulher a elogiar outra: “Ela tem um quê de feminino”.
Pai, perdoa-lhes, porque sabem o que fazem!
Para a eternidade, a evolução é um passatempo. Não é coisa que leve a sério.
Para acertar com mais precisão numa estação ferroviária, eles deveriam fazer mira num Tiepolo.
Para mim é um enigma que se possa elogiar um teólogo porque ele conseguiu se decidir a não acreditar nos dogmas. Sempre me pareceu que merecia verdadeiro reconhecimento, como se fosse um ato heroico, a realização daqueles que se decidiram a acreditar neles.
Para o diabo com a tagarelice sobre o esclarecimento sexual dos jovens! Ele ainda é melhor quando ocorre por meio do colega de classe que sublinha a palavra “putativo” no livro de leitura do que por meio do professor que explica o assunto como sendo uma instituição estatal que seria tão importante e tão complicada quanto o pagamento de impostos.
Para o filisteu, a arte é o enfeite das fadigas e tormentos do quotidiano. Ele tenta abocanhar os ornamentos como o cão a linguiça.
Para que um artista deveria compreender o outro? O Vesúvio aprecia o Etna? No máximo, poderia estabelecer-se uma relação feminina de comparação invejosa: quem cospe melhor?
Para saber se o homem tem talento para o palco é preciso submetê-lo a um teste. A mulher está sempre em teste e é apta para o palco por natureza. Ela vive diante de espectadores. Ela sente que é o centro das atenções quando atravessa a rua, ainda que os figurantes saúdem a entrada de Napoleão. E ela relaciona todos os olhares com o centro.
Para se orientar em questões de política, bastam lembranças de opereta. Aquilo que pode ser dito contra a forma de governo absolutista, por exemplo, foi-nos ensinado pelas figuras de um rei Bobèche, de um príncipe herdeiro Kasimir ou de um general Kantschukoff. Se a exigência dos frasistas de que a arte se ocupe dos assuntos públicos possui mesmo um sentido, então ela só pode estar a referir-se à produção de operetas. Esta é criticada com razão por negligenciar há décadas os únicos assuntos humanos que não cabe levar a sério, ou seja, os assuntos públicos. Pois a forma artística da opereta é adaptada à essência de todos os desdobramentos políticos por conceder à estupidez uma improbabilidade redentora. Exigir que a criação artística se lance sobre os acontecimentos recém-saídos do forno é uma tolice; mesmo a sátira os desdenha, pois ainda que seja capaz de apreender os ridículos da política, estes ocorrem abaixo do nível de uma observação espirituosa de sentido superior.
Parece-me que toda arte é apenas arte para hoje se não for arte contra hoje. Ela é um passatempo — ela não passa por cima dele! A verdadeira inimiga do tempo é a língua. Ela vive num entendimento direto com o espírito a quem a época atual causa indignação. É aqui que pode materializar-se esta conspiração que é a arte. A complacência que rouba as palavras da língua vive nas graças dessa época. A arte pode vir apenas da recusa. Apenas do grito, não do sossego. Chamada para consolar, a arte deixa com uma maldição o quarto em que a humanidade agoniza. Ela realiza-se através do desespero.
Pediram-me muitas vezes para ser justo e observar uma coisa de todos os lados. E fiz isso, na esperança de que uma coisa talvez pudesse tornar-se melhor se eu a observasse de todos os lados. Mas cheguei ao mesmo resultado. De maneira que continuei a observar uma coisa apenas de um lado, poupando muito trabalho e desilusão. Pois é consolador considerar que uma coisa é má e, ao fazê-lo, poder desculpar-me apelando a um preconceito.
Pela desvantagem de não poder sempre atender aos desejos, o homem foi compensado com a sensibilidade para perceber cada imperfeição da natureza como uma culpa pessoal.
Pelo facto de no homem o prazer ser seguido pelo aborrecimento, deve seguir-se que na mulher a fidelidade seja seguida pelo arrependimento.
Pensamentos próprios não precisam ser sempre novos. Mas quem tem um pensamento novo, pode facilmente tomá-lo de outro.
Perífrase: «Ele preenche-me o ouvido inteiramente com a sua voz!», disse ela do cantor.
Pessoas que beberam para além da conta para saciar a sua sede de conhecimento são uma praga social.
Pestes e terremotos são grandes temas. Como é mesquinho reconhecer dores articulares como sintomas da peste e se deter junto à turvação da água de uma fonte que indica um terremoto! Como é mesquinho sentir nojo do mundo quando passa um poetastro!
Pode-se traduzir um editorial, mas não um poema. É verdade que se pode atravessar a fronteira nu, mas não sem pele, pois ao contrário da roupa, ela não volta a crescer.
Por meio dos seus fiascos políticos, a Áustria conseguiu chamar a atenção do grande mundo e, finalmente, deixar de ser confundida com a Austrália.
Por que a eternidade não abortou esta época aberrante? Sua marca de nascença é um carimbo de jornal, seu mecónio, tinta de impressão, e nas suas veias corre tinta de escrever.
Por que muitos escrevem? Porque não têm caráter suficiente para não escrever.
Por que o público é tão insolente em relação à literatura? Porque ele domina a língua. As pessoas se atreveriam exatamente da mesma maneira em relação às outras artes caso se dirigir cantando aos demais, lambuzar-se com tinta ou atirar gesso fossem meios de comunicação. A desgraça está justamente no facto de a arte da palavra trabalhar a partir de um material que passa todo dia pelas mãos da ralé. É por isso que a literatura não tem mais salvação. Quanto mais ela se afasta da compreensibilidade, tanto maior é a impertinência com que o público reclama o seu material. O melhor seria esconder a literatura do público até entrar em vigor uma lei que proíba as pessoas de usarem a linguagem coloquial e apenas lhes permita fazer uso de uma linguagem de sinais em casos de urgência. Mas até que essa lei entre em vigor, elas poderiam ter aprendido a responder à ária “Como vão os negócios?” com uma natureza morta.
Por que tantos me criticam? Porque me elogiam e apesar disso os critico.
Porque tomo o pensamento pela palavra, ele vem.
Posso dizer com orgulho que empreguei dias e noites em não ler nada e que com energia férrea aproveitei cada minuto livre para adquirir pouco a pouco uma falta de cultura enciclopédica.
Posso imaginar que uma mulher feia se veja ao espelho e se convença de que a imagem refletida é feia, e não ela própria. É dessa forma que a sociedade vê a sua baixeza num espelho e acredita, por idiotice, que sou eu o sujeito baixo.
Posso julgar o valor estético e cultural de um desfile ou de certa espécie de peças teatrais apenas quando não os assisti. Caso contrário, sucumbo a uma reação nervosa qualquer e falo das cores como faz o cego. A música suborna a crítica, e com que facilidade um repicar de sinos pode levar alguém a tolerar uma nulidade! Assim, para conservar um juízo objetivo, não posso deixar de ficar conscienciosamente longe do espetáculo.
Posso precisar de objetos femininos no máximo nas minhas leituras públicas. Lá eles apoiam o efeito e remedeiam nos meus nervos aquilo que contra eles pecaram na literatura. Mãos devem ser usadas para aplaudir e não para escrever. Com as minhas, eu preferiria esbofetear a escrever caso não existisse o risco de que isso fosse considerado como aprovação e uma voz meiga sussurrasse trémula: “De novo!”.
Posso provar que os alemães são mesmo o povo dos poetas e dos pensadores. Tenho um volume de papel higiénico, publicado em Berlim, que em cada folha traz uma citação de um clássico apropriada à situação.
Pouco antes de pegar no sono, podemos desenhar no ar toda espécie de caretas. São as visões hipnagógicas. Quem vê dessa forma as pessoas de carne e osso encontra-se próximo da morte.
Preciso estar outra vez entre seres humanos. Pois neste verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, a minha misantropia degenerou gravemente.
Preto no branco: é assim que se mente agora.
Primeiro foi criado o homem. Mas a mulher é um hísteron-próteron.
Primeiro o cão fareja, depois levanta a perna. Contra essa falta de originalidade compreensivelmente não se pode objetar nada. Mas o facto de o literato ler antes de escrever é desolador.
Primeiro se proteger das crianças, depois protegê-las!
Procura-se deserto apropriado para uma miragem.
Propostas para que esta cidade volte a conquistar a minha simpatia: mudança do dialeto e proibição de reprodução.
Prússia: liberdade de ir e vir usando focinheira. Áustria: solitária com permissão para gritar.
Qualquer criança vê o progresso que vai do Taigeto à incubadora.
Quando a estupidez se manifesta numa cidade, deve-se declará-la contaminada. E nenhum caso deve ser ocultado. Com que facilidade pode acontecer que um imbecil frequente uma casa em que haja crianças! Nessas épocas, recomenda-se o encerramento das escolas e não, como se poderia pensar, a sua abertura.
Quando a natureza quer estar a salvo de perseguições, trata de se refugiar na imundície.
Quando ainda não havia direitos humanos, estes pertenciam ao homem superior. Isso era inumano. Então produziu-se a igualdade pela recusa dos direitos humanos ao homem superior.
Quando alguém está diante do tribunal, não há certamente nenhum facto da chamada vida pregressa com o qual não se poderia produzir instantaneamente uma “impressão desfavorável” e proporcionar aquele “movimento” registado na ata da sala de audiências. Não é de crer como os delitos realmente se aglomeram em torno de um homem que alguma vez se meteu com algum deles! Aquilo que se dividiu ao longo de quarenta anos, quando projetado no lapso de tempo de uma audiência, age como uma ilustração viva; aquilo que passou pela peneira do tempo, obtém uma atualidade reforçada, como se tivesse acontecido durante a prisão preventiva. O passado não ilumina apenas o ato, com o qual nada tem a ver, mas também é iluminado por ele, e o carácter do réu é sempre contemplado de dois lados. Esse é o método que se adapta convenientemente ao pensamento não perspectivo das cabeças julgadoras medianas. Significa sentar o banco dos réus na cabeça de um homem perdido.
Quando alguém se comportou como um animal, ele diz: “Ora, eu sou só um ser humano!”. Mas quando é tratado como animal, ele diz: “Ora, eu também sou um ser humano!”.
Quando chamaram a atenção desse presente que ronca para o facto de alguém ter ficado dez anos sem dormir, virou-se para o outro lado e continuou a dormir.
Quando chegará o tempo em que se precisará informar no recenseamento o número de abortos feitos em cada casa?
Quando corrigimos um erro após muito tempo, os superficiais criticam o erro e os profundos chamam-nos de inconsequentes.
Quando Deus viu que era bom, a crença humana sem dúvida lhe atribuiu a vaidade, mas não a insegurança do criador.
Quando entramos em contacto com ele é como se tocássemos uma gosma. Desde que sei disso, nunca mais toco em gosmas.
Quando lemos um dos seus ensaios mitológico-políticos aprendemos a odiar a cultura mais do que o absolutamente necessário.
Quando o impressor me mandou as provas deste livro, vi a minha vida dividida no sumário. Observei que a mulher ocupava dez páginas, mas o artista trinta. Ele deve isto a ela.
Quando a madeira do telhado pega fogo não adianta rezar nem esfregar o soalho. Em todo o caso, rezar é mais prático.
Quando o pecado se atreve a avançar, é proibido pela polícia. Quando se esconde, recebe um alvará.
Quando o sr. Shaw ataca Shakespeare, age em legítima defesa.
Quando ocorrem as primeiras desilusões, saboreamos o desgosto pela vida em grandes goles, somos doidivanas da morte e estamos facilmente dispostos a sacrificar toda expectativa ao momento. Somente mais tarde amadurecemos para uma gastronomia do suicídio e reconhecemos que ainda é melhor ter a morte diante de si do que a vida atrás de si.
Quando os inquilinos souberam que a dona do prédio era uma cafetina, todos quiseram sair. Mas eles ficaram no prédio quando ela lhes garantiu que tinha mudado de ramo e agora se dedicava à agiotagem.
Quando se pensa que a mesma conquista técnica serviu à Crítica da razão pura e a uma reportagem sobre a viagem da Sociedade Vienense de Canto Coral, toda discórdia abandona nosso peito e louvamos a onipotência do Criador.
Quando se teme a ordem de batalha da vida burguesa não se deveria agarrar a oportunidade e desertar para a guerra?
Quando tomo a pena na mão, nada me pode acontecer. O destino deveria tomar nota disso.
Quando um conhecedor das mulheres se apaixona, assemelha-se ao médico que se infecta junto ao leito de um doente. Risco profissional.
Quando um pensador erige um ideal, todos gostam de se sentir tocados. Eu descrevi o sub-homem — quem deveria me seguir?
Quando um sacerdote declara repentinamente que não acredita no paraíso e que jamais desmentirá essa declaração, a imprensa liberal, cujos redatores, como se sabe, também não se deixam privar das suas crenças a preço nenhum, entusiasma-se. No entanto, um editor papal não divinizaria imediatamente um funcionário que tivesse a ideia de confessar diante dos leitores que acredita no paraíso? Eis a visão mais repulsiva que a modernidade oferece: um sacerdote possuído pela razão cercado por vira-latas da imprensa a ladrar e para os quais ele atira a costela de Adão.
Quando uma cultura sente que está a chegar ao fim, manda chamar o padre.
Quanto maior o material associativo, tanto menor a capacidade de associação. Não se precisa mais material do que aquele oferecido pelo ginásio. Quem, por exemplo, procura a citação “Ninguém caminha impunemente sob as palmeiras” em Natã, o sábio , foi mais longe do que aquele que a encontra, com acerto, em As afinidades eletivas .
Quanto mais forte a personalidade da mulher, tanto mais facilmente ela carrega o fardo das suas experiências. O orgulho sucede à queda.
Que material eu teria se não houvesse acontecimentos!
Quão limitada é a perfeição, quão ralo o bosque, quão insípida a poesia! Aula prática para os limitados, os ralos e os insípidos.
Quão pouca confiança merece uma mulher que se deixa apanhar numa fidelidade! Hoje ela é fiel a ti, amanhã a outro.
Que a mulher tenha tanto espírito quanto um espelho tem corpo.
Que a palavra escrita seja a corporificação naturalmente necessária de um pensamento, e não o invólucro socialmente aceitável de uma opinião.
Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redondezas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. Então ela viverá. Ouvimos o coração da língua a bater.
Que bonito quando uma rapariga esquece a sua boa educação!
Que confusão mitológica é essa, afinal? Desde quando Marte é o deus do comércio e Mercúrio o deus da guerra?
Que convocação de instrução! Editores têm a Cruz de Ferro, soldados escrevem folhetins e generais são doutores.
Que cortejo estranho! Ela vai atrás dele como um cadáver que segue um enlutado.
Que é a Nona Sinfonia comparada a uma canção popular tocada por um realejo e por uma lembrança?
Que para o artista e para o pensamento valham o dito de Nestroy: “Fiz um prisioneiro e ele não me larga mais”.
Que posso fazer se as alucinações e as visões vivem, têm nome e endereço?
Que posso fazer se M. realmente existe? Não o inventei, apesar disso? Se ele fosse um objeto, eu escolheria melhor. Caso reivindique ter sido ofendido pela sátira, ele a ofende.
Que são a consciência que um Nero tinha da sua força, o ímpeto destruidor de um Génghis Khan, a plenitude de poderes do Juízo Final comparados à altivez de um pequeno funcionário da Junta Geral de Alistamento do Distrito Judicial que, por desobediência a uma convocação para inscrição com fins de avaliação da taxação do imposto militar, nos condena a uma multa de duas coroas!
Que são todas as orgias de Baco comparadas à embriaguez daquele que se entrega sem freio à abstinência?
Que tormento é esta vida em sociedade! Muitas vezes alguém é tão amável em me oferecer fogo que preciso procurar um cigarro no bolso para ser amável com ele.
Que volúpia se deitar com uma mulher no leito de Procusto de sua visão de mundo!
Quem agora exagera, pode facilmente tornar-se suspeito de dizer a verdade. Quem inventa, de estar informado.
Quem deserdaria um erro que trouxe ao mundo e o trocaria por uma verdade adotada?
Quem é ela? É cega para o direito, olha de soslaio para o poder e é acometida pela doença de Basedow quando está diante da moral. E sacrificamos a nossa liberdade pelos belos olhos dessa mulherzinha!
Quem emite opiniões não se pode deixar apanhar em contradição. Quem tem pensamentos também pensa entre as contradições.
Quem exige que Xantipa seja mais desejável do que Alcibía–des é um porco que sempre pensa apenas na diferença sexual.
Quem levou a sua pele ao mercado tem mais direito a mostrar-se sensível do que aquele que lá comprou uma roupa pechinchando.
Quem não quiser fazer negócios com a vida, anuncie que pretende diminuir o seu stock de conhecidos e que está a vender as suas experiências abaixo do preço de compra.
Quem pensa profissionalmente nas razões do ser, nem sequer precisa realizar tanto a ponto de conseguir aquecer os seus pés com isso. Mas ao remendar sapatos, mais de um já chegou perto das razões do ser.
Quem precisa de experiências em tamanho grande certamente será encoberto por elas. Eu travo titanomaquias com vírgulas.
Quem quiser praticar ginástica cerebral, que procure reconstruir tão rápido quanto possível a conversa de um grupo quando, em dado momento, chamar a sua atenção o quanto essa conversa se afastou do tema original. Ele folheará essa enciclopédia e verá um caminho em ziguezague em cujas extremidades se encontram assuntos que fazem lembrar a divertida falta de relação dos títulos: De calefação a gótico e De Newton a pacífico.
Quousque tandem, Cato, abutere patientia nostra!
Refreia as tuas paixões, mas toma cuidado para não dar rédeas soltas à tua razão.
Religião e moralidade. O catolicismo ( kata e holos ) almeja o todo; mas o judaísmo é mosaico.
Respeitemos o campo e amemos a paisagem. Esta é mais nutritiva.
Responsabilidade moral é aquilo que falta ao homem quando a exige da mulher.
Rir da vaidade dos atores, da sua necessidade de aplausos e afins é ridículo. As pessoas de teatro precisam do aplauso para representar melhor; e para isso, também basta o aplauso fingido. O sentimento de felicidade que alguns atores mostram quando são aplaudidos por aqueles que pagaram para o fazer é uma prova do seu génio artístico. Dificilmente alguém teria-se tornado um grande ator se o público tivesse vindo ao mundo sem mãos.
Rubor, palpitações do coração, uma consciência pesada — isso acontece quando não se pecou.
São raros os livros antigos que, entre coisas incompreensíveis e óbvias, conservaram um conteúdo vivo.
São tempos difíceis aqueles em que o páthos da sensualidade encolhe até se transformar em galanteria.
Se a linguagem é apenas uma roupagem, ela tornar-se-á andrajosa ou fora de moda. Até que chegue esse momento, pode-se andar entre as pessoas. Um smoking não torna imortal, mas popular. Mas o que vestem os jovens senhores ultimamente? Uma linguagem que consiste inteiramente de epítetos! Um traje sem tecido, mas todo feito de botões!
Se alguém me quer dirigir a palavra, ainda espero até ao último momento que o medo de se comprometer o impeça de o fazer. Mas as pessoas são corajosas.
Se alguém tivesse dito ao Diabo, para quem a guerra desde sempre foi uma pura paixão, que alguma vez haveria homens com um interesse comercial na continuação da guerra, que eles nem sequer se dariam ao trabalho de ocultá-lo e que os seus lucros ainda lhes proporcionariam reconhecimento social, ele o mandaria contar essa história a outro. Porém, quando se tivesse convencido do facto, o Inferno envergonharia de vergonha e ele teria de reconhecer que durante toda a sua vida foi um pobre diabo!
Se ao menos a natureza finalmente se cobrisse de trevas! Essa penumbra miserável ainda vai arruinar os olhos a todos nós.
Se as mulheres que se maquilham são inferiores, então os homens que têm imaginação não valem nada.
Se causa deleite ao esteta o gesto com que alguém rouba cinco milhões do Tesouro Público, e ele afirma publicamente que a diversão que o escândalo traz aos “poucos apreciadores” tem mais valor do que o prejuízo total, então se deve dizer-lhe: Se o gesto dessa diversão é uma obra de arte, vamos ser generosos, e um milhão a mais ou a menos que o Estado perde não nos importa. Mas se isso se transforma num editorial, então a nossa sensibilidade social desperta e não damos nem cinco cêntimos pelo divertimento. Pois se a bancarrota do Estado se transforma numa obra de arte, o mundo faz um negócio com isso. Caso contrário, vamos perceber os efeitos no orçamento e condenar a estética popular que desculpa os ladrões sem indemnizar as vítimas do roubo.
Se dar presentes a uma mulher não dá prazer, deixemos isso de lado. Em comparação com algumas mulheres, o tonel de uma danaide é um autêntico cofre de economias.
Se devesse acreditar em algo que não vejo, ainda preferiria os milagres aos bacilos.
Se durante o dia a arte está a serviço do comerciante, a noite é dedicada à sua distração com ela. Isso é exigir bastante da arte, mas ela e o comerciante dão conta do recado.
Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berlinense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele poderia responder: “Isto serve para ter em conta o senso de beleza”. Se eu perguntasse a um catador de papéis quem é representado num monumento, ele poderia responder: “O homem fez algo pela educação”. Certo, isto são abominações da civilização. Mas com o tempo também ficámos fartos das vantagens dela que gozamos em Viena quando a estas perguntas recebemos sempre a mesma resposta: “Que te importam os frisos, seu fedelho imbecil!”.
Se lhe roubarem alguma coisa, não vá à polícia, à qual isso não interessa, e também não vá ao psicólogo, a quem só interessa, no fundo, o facto de ter sido você que roubou alguma coisa.
Se o conhecimento fosse um assunto do espírito, como poderia ele atravessar tantos espaços ocos para, sem deixar um traço da sua permanência, passar a tantos outros espaços ocos?
Se o convite de um cocheiro para andar em seu coche apenas se chocasse com o nosso desejo de não andar com ele, a vida seria fácil. Mas às vezes ele se choca com pensamentos melhores, e os destrói. Quem, afinal, pensa sempre em não andar de coche?
Se o sexo tomasse parte apenas na reprodução, o esclarecimento sexual seria sensato. Mas o sexo também toma parte noutras funções; por exemplo, no esclarecimento sexual.
Se os senhores tivessem reconhecido os direitos do corpo da mulher, se tivessem eliminado a servidão do baixo-ventre como eliminaram o trabalho servil, nunca teria ocorrido às mulheres a ideia ridícula de se vestir de homens para aumentar seu valor enquanto mulheres!
Se puder interpretar uma mulher como eu bem entender, isso é mérito dela.
Se uma mulher deixa um homem à espera e o homem se contenta com outra, ele é um animal. Se um homem deixa uma mulher à espera e a mulher não se contenta com outro, ela é uma histérica. Phallus ex machina — o Salvador.
Secularização: a Igreja tem um bom estômago. Apesar disso, deveria ser submetida a uma lavagem estomacal de tempos em tempos.
Sem dúvida, o artista é diferente. Mas justamente por isso deve ser igual aos outros no seu exterior. Só pode permanecer solitário se desaparecer na multidão. Se chamar a atenção sobre si através de alguma peculiaridade, torna-se vulgar e coloca os perseguidores no seu encalço. Quanto mais tudo dá razão ao artista para ser diferente, tanto mais necessário é que se sirva dos trajes da média como um mimetismo. A aparência chamativa é o alvo da embriaguez. Esta, normalmente zombada, julga-se alinhada e superior quando se compara com a excentricidade de cabelos compridos. Mesmo o bêbado de quem o populacho se ri, ri do homem que usa um casaco de bufão. Desleixar-se intencionalmente para se destacar da média, usar roupas sujas como uma insígnia da arte e da ciência, sacudir uma cabeleira despenteada sobre o absurdo da ordem social — um ideal dos poetas andarilhos medievais, há muito abandonado pelos nobres e hoje ao alcance de qualquer pequeno-burguês. A verdadeira boemia já não faz aos filisteus a concessão de os irritar, e os verdadeiros ciganos vivem segundo um relógio que nem sequer precisa de ser roubado. A pobreza continua não sendo uma vergonha, mas a sujeira já não é uma honra. A “mãe estrada” renega os seus filhos; mesmo ela já é mais cuidada hoje em dia.
Sempre considerei o facto de alguém não ser responsável como o mais forte dos agravantes.
Sentado de noite à escrivaninha, num estágio avançado de deleite intelectual, eu sentiria a presença de uma mulher como sendo algo mais incómodo do que a intervenção de um germanista no quarto de dormir.
Será a literatura nada mais do que a habilidade de apresentar ao público uma opinião com palavras? Então a pintura seria a arte de expressar uma opinião em cores. No entanto, os jornalistas da pintura são os pintores de paredes. E eu acredito que um escritor é aquele que diz ao público uma obra de arte. A maior honra que já recebi foi-me prestada quando um leitor me confessou embaraçado que só conseguia entender os meus textos na segunda leitura. Hesitou em me dizer isso, teve dificuldades em falar a minha língua. Esse era um entendido e não sabia. O elogio ao meu estilo deixa-me indiferente, mas as críticas que lhe fazem logo me deixarão orgulhoso. Durante muito tempo tive receio de que as pessoas tivessem prazer com os meus textos já na primeira leitura. Como? Uma frase deveria servir para o público enxaguar a boca com ela? Os folhetinistas que escrevem em alemão possuem uma considerável vantagem em relação aos escritores que escrevem a partir do alemão. Ganham à primeira vista e desiludem à segunda: é como se de repente estivéssemos nos bastidores e víssemos que tudo é de cartão. No caso dos outros, porém, é como se um véu cobrisse a cena. Quem já deveria aplaudir? Vão-se embora antes que a cena se torne visível. Assim se comporta a maioria; não têm tempo. E não têm tempo apenas para as obras da linguagem. No caso das pinturas, admitem que não devam representar apenas um processo apreendido pelo primeiro olhar: obrigam-se a dar um segundo olhar para chegar a perceber alguma coisa da arte das cores. Mas uma arte da construção de frases? Se lhes dissermos que isso existe, pensam na obediência às leis da gramática.
Será que também podemos pegar uma pitada de rapé da caixa de Pandora? Bom proveito, amigo W.!
Seria uma estatística interessante: quantas pessoas são levadas pelas proibições a violá-las. Quantos delitos são consequência das penas. Seria interessante saber se mais crianças são violadas apesar do limite de idade ou por causa dele.
O seu marido permite que ela faça teatro — a boemia não teria permitido que ela casasse. Portanto, na sociedade ainda há mais liberdade do que na boemia, que tem as suas normas imutáveis.
O seu riso é um regulador da insanidade do mundo.
Símbolo moderno: a morte com a buzina.
Só ama verdadeiramente uma mulher aquele que também estabelece uma relação com os seus amantes. No início, isso causa sempre a maior das preocupações. Mas habitua-se o ser humano a tudo, e chega o tempo em que ficamos ciumentos e não suportamos que um amante seja infiel.
Só é artista aquele que da solução pode fazer um enigma.
Somos cultos o bastante para evitar restaurantes que são “instituições de engorda”. Porém o pensamento de se deixar arrebatar às esferas celestes na companhia de mais quinhentas pessoas não perturba nenhum dos cultos frequentadores de concertos. Não me oponho a satisfazer as necessidades da vida junto com os meus concidadãos, mas a preço nenhum deste mundo gostaria de me encontrar com um único deles na ilha dos bem-aventurados.
Sonhei que não acreditavam que eu tinha razão. Eu dizia que eles eram dez. Não, doze, disseram. Tantos dedos quanto há nas duas mãos, eu disse. Então um deles levantou a mão, e veja só, ela tinha seis dedos. Onze, portanto, eu disse, e apelei à outra mão. E veja só, ela tinha seis dedos. Soluçando, corri para a floresta.
Sorrento, em agosto: por duas semanas não ouvi uma palavra em alemão e não entendi nenhuma em italiano. Assim é possível viver com as pessoas, tudo corre maravilhosamente bem e qualquer mal-entendido desgastante está fora de questão.
A sua convicção estava acima de tudo, inclusive acima da vida. Mas como estava disposto a fazer sacrifícios, e surgiu ocasião para tanto, ele deu a convicção pela sua vida.
A sua criação artística oferecia um aspecto centauro: em baixo havia o desejo próprio de um garanhão, que se prolongava em cima no espírito de um homem.
Subestimam o meu comodismo quando dizem que antipatias pessoais me levaram a declarar que determinado literato é um charlatão. Ora, não vou gastar o meu ódio para liquidar uma mediocridade literária!
Tal como sempre surgem rostos novos, embora o conteúdo das pessoas pouco se distinga, assim deve haver sempre frases novas para o mesmo material intelectual. Isso dependerá do criador que tiver a capacidade de exprimir a mais ligeira nuance.
Talvez a guerra traga uma única mudança, mas uma mudança em razão da qual ela certamente não foi empreendida: as vítimas da psicanálise voltarão sadias para casa. Pois a guerra entende quase tão pouco de psicologia quanto a psicanálise, mas, diante do método individualizante desta, que na maioria dos casos se atém ao nada, a guerra pelo menos tem a vantagem de, na maioria dos casos, padronizar os indivíduos, e assim, proporcionar ao nada a sua verdadeira posição. É bom quando águas-vivas que nem sequer eram instrumentos sejam elevadas a tal condição.
Talvez as coisas andassem melhor se os homens recebessem focinheiras e os cães, leis; se os homens fossem conduzidos pela coleira e os cães pela religião. A hidrofobia poderia diminuir na mesma proporção da política.
Teatro de variedades. O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subitamente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma compreensão mais refinada já pressupõe a representação de um mestre de cerimónias que se esborracha no parquê. Seria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o humor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entre voando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter cerveja fazendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debaixo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio das outras e perguntam atenciosas: “O senhor notou isso?”. É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se um botão e um criado morre. O que for incómodo é tirado do caminho. Vigas dobram-se à vontade, tudo anda com desembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. Isso é incómodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a tiros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca vista é empregada para aquietá-lo. A vida tornou-se terrivelmente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar no sistema... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um defraudador trouxe lá da Europa.
Temas jornalísticos: não importa o tamanho do alvo, mas a distância.
Temos de pagar pelos defeitos que o Criador deixou nas mulheres? Por serem lembradas todo mês da sua imperfeição, nós precisamos esvair-nos em sangue?!
Tenho as experiências de que preciso diante da parede corta-fogo que vejo da minha secretária. Ali há espaço suficiente para a vida, e posso pintar Deus ou o Diabo nela.
Ter talento — ser um talento: essas coisas sempre são confundidas.
Tive uma visão medonha: vi uma enciclopédia aproximar-se de um sabe-tudo e abri-lo.
Toda a vida no Estado e na sociedade repousa sobre o pressuposto tácito de que o homem não pensa. As coisas são bem difíceis para uma cabeça que, em qualquer situação, não representa um espaço oco e receptivo.
Toda conversa sobre sexo é uma atividade sexual. O pai que esclarece o filho — esse ideal do esclarecimento — está envolto por uma aura de incesto.
Toda descoberta deveria ser tão perturbadora quanto a do camponês que certo dia fica sabendo que um conselheiro imperial nada aconselha e que um fornecedor da corte nada tem a fornecer. Ele torna-se desconfiado.
Toda espécie de educação tem o propósito de tornar a vida insípida, quer dizendo como ela é, quer dizendo que ela não é nada. Somos confundidos por uma alternância constante, esclarecem-nos para cá e acalmam-nos para lá.
Toda mulher parece maior à distância do que de perto. Nas mulheres, portanto, não apenas a lógica e a ética se encontram de pernas para o ar, mas também a óptica.
Todos são ofendidos por mim, não os indivíduos. E quanto ao amor, todos devem ficar furiosos, e não aqueles que foram enganados.
Tornei-me cauteloso. Quando certa vez expulsei um adorador, este quis denunciar-me por perturbação da liberdade religiosa.
Trata-se de um facto válido por toda a eternidade: que a força primordial da mulher não apenas atrai e aniquila os fracos, mas anima e rejuvenesce os fortes. Que as melhores cabeças foram nutridas por essa fraqueza do espírito, os maiores caracteres por essa leviandade. Que os mais poderosos senhores cumpriram incólumes os anos de serviço erótico. E que, de acordo com o magnífico plano da ordem do mundo, o deleite dos sentidos e a beleza sejam poções mágicas, e, de acordo com o plano diabólico da ordem social, sejam trancados no armário de venenos da humanidade.
Tudo o que no passado era paradoxal agora é confirmado pela grande época.
Um agitador toma a palavra. O artista é tomado por ela.
Um aprendiz de feiticeiro parece ter-se aproveitado da ausência do mestre. Só que em vez de água corre sangue.
Um artista que tem sucesso não deve baixar a cabeça. Ele só deve desesperar de si quando um embusteiro fracassa.
Um bom autor sempre receará que o público perceba quais foram os pensamentos que lhe ocorreram tarde demais. Mas quanto a isso, o público é muito mais indulgente do que se acredita, e também não percebe os pensamentos que aí estão.
Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso durante o seu trabalho. Deve ser capaz de objetivar a sua obra de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de inveja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o criador. Em suma, deve dar provas daquela objetividade suprema que o mundo chama de vaidade.
Um bom psicólogo é capaz de te colocar facilmente na situação dele.
Um cérebro criativo também diz por conta própria aquilo que outro disse antes dele. Em compensação, outro pode imitar pensamentos que apenas mais tarde ocorrerão a um cérebro criativo.
Um crítico literário que sempre encontra um juízo para as palavras certas.
Um dos caracteres sexuais voltou a ser inteiramente suficiente. Podemos distinguir uma sufragista de um bailarino.
Um erro jurídico da ordem social torna o outro necessário. Visto que encarcerou as prostitutas na família, ela precisa encarcerar as mães no bordel. É simplesmente uma questão de lugar.
Um escritor que eterniza um facto quotidiano compromete apenas a atualidade. Porém, quem jornaliza a eternidade tem perspetiva de ser reconhecido nas altas rodas.
Um esnobe não é confiável. A obra que ele elogia pode ser boa.
Um excelente pianista, mas a sua execução precisa superar os arrotos da boa sociedade após um jantar.
Um folhetinista — um corretor. O corretor também precisa ser rápido e conhecer a língua a fundo. Por que não o incluímos na literatura? A vida possui compartimentos. Aquele pode familiarizar-se com este e este com aquele, todos com todos. A fortuna é cega. Os acasos determinam o homem. Sabemos, por certo, o que somos, mas não sabemos o que poderemos vir a ser. Por que incluímos justamente o folhetinista na literatura?
Um empregado de mesa é uma pessoa que usa um fraque sem que o percebamos. Em contrapartida, há pessoas que tomamos por empregados de mesa assim que vestem um fraque. Logo, o fraque não tem valor em nenhum dos casos.
Um lobo em pele de lobo. Um patife sob o pretexto de sê-lo.
Um materialismo horripilante prega-nos que o amor nada tem a ver com o dinheiro, e o dinheiro, nada com o amor. A concepção idealista admite, pelo menos, um limite de preços em que começa o amor verdadeiro. Esse é simultaneamente o limite em que acaba o ciúme daquele que é amado por ser quem é. Tal limite acaba, embora pudesse começar nesse ponto. O terreno da concorrência está obstruído.
Um mendigo foi condenado por estar sentado num banco e “olhar tristemente”. Nesta ordem do mundo, os homens de olhar triste e as mulheres de olhar alegre tornam-se suspeitos. Em todo o caso, essa ordem prefere os mendigos às mulheres de vida alegre. Pois as mulheres de vida alegre são aleijões ilegítimos que tiram partido do defeito físico da beleza.
Um original cujos imitadores são melhores não é um original.
Um paradoxo surge quando um conhecimento precoce se choca com o absurdo de sua época.
Um pensamento só é legítimo quando temos a sensação de que nos surpreendemos plagiando a nós mesmos.
Um piadista: coceiras na cabeça não são atividade cerebral.
Um pintor inescrupuloso que, sob o pretexto de possuir uma mulher, a atrai ao seu ateliê e lá a retrata.
Um plagiador deveria copiar o autor cem vezes.
Um poeta alemão chamou o barulho das metralhadoras de “música das esferas” e um poeta austríaco observou como “todos os caules estão em posição de sentido”. Se os poetas obedecerem dessa forma, o cosmos e a natureza começarão a rebelar-se.
Um professor de literatura afirmou que os meus aforismos são apenas a inversão mecânica de frases feitas. Isto é inteiramente correto. Só que ele não apreendeu o pensamento que impele a mecânica: o facto de que da inversão mecânica de frases feitas resulta mais do que da repetição mecânica. Este é o segredo da época atual, e é preciso tê-lo experimentado. Ao mesmo tempo, a frase feita ainda se distingue, para sua vantagem, de um professor de literatura, de quem não sai nada se eu o deixar no seu lugar e menos ainda se o inverter mecanicamente.
Uma antítese parece apenas uma inversão mecânica. Mas que conteúdo de experiências, sofrimentos e discernimentos precisa ser adquirido até que possamos inverter uma palavra!
Uma aparência de profundidade surge com frequência pelo facto de uma cabeça rasa ser ao mesmo tempo uma cabeça confusa.
Uma bela rapariga ouve um ruído arranhante junto à parede de um quarto. Ela receia que sejam ratos, e só se acalma quando lhe dizem que ao lado há um estábulo e que um cavalo está agitado. “É um garanhão?”, ela pergunta, e adormece.
Uma certa psicanálise é a ocupação de racionalistas lúbricos que atribuem tudo no mundo a causas sexuais, exceto a sua ocupação.
Uma ciência que sabe tão pouco de sexo quanto de arte espalhou o boato de que a sexualidade do artista é “sublimada” na obra de arte. Poupar o bordel, eis uma bela finalidade para a arte! Ao poupar a sublimação por meio de uma obra de arte, a finalidade do bordel é bem mais refinada. O quanto o procedimento dos artistas, não considerada a sua prolixidade, é arriscado no seu efeito sobre os recetores, é algo provado justamente pelo caso do notável compositor que a referida ciência gosta de citar como exemplo de sublimação bem-sucedida. Os ouvintes da sua música sentem-se estimulados de tal modo pela sexualidade nela sublimada que muitas vezes não lhes resta outra saída senão aquela que o artista evitou, a não ser que eles próprios sejam capazes de fazer uma sublimação a tempo. Se o artista tivesse escolhido o caminho mais simples, esse efeito teria sido poupado aos ouvintes. Assim, por meio do mau hábito dos artistas de sublimar a sexualidade, esta é libertada de vez, e um assunto que deveria ficar restrito à vida privada do artista degenera num escândalo público.
Uma completa confusão tomou conta da vida amorosa dos seres humanos. Encontramo-nos em formas mistas das quais até agora não se fazia a menor ideia. Dizem que há pouco uma sádica berlinense deixou escapar: “Escravo miserável, ordeno-te que me dês uma bofetada imediatamente!...”. O assessor em questão fugiu apavorado.
Uma das doenças mais disseminadas é o diagnóstico.
Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvida o facto de que em Die Fackel falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada no meu nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou, a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre os dez anos de Die Fackel “no meu próprio jornal”. Tendo sido chamada a minha atenção, preciso confessar que é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tornou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso, ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo estar-por-dentro que descobre um calcanhar de Aquiles é, portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele desnudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o décimo ano da minha incorrigibilidade, então réplicas não adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e para a coincidência desse aparente interesse próprio com os fins universais da minha atuação. Eles não são capazes de compreender que se alguém se confunde com uma causa sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não são capazes de compreender que aquilo que chamam de vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se mede segundo a sua própria medida e a possui em si, aquela vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamento mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mulher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é imprescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação artística com o cuidado presunçoso que trabalha num penteado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social? Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a modéstia dos espíritos reprodutores.
Uma fábrica de guarda-chuvas expõe ao gosto público um cartaz que mostra Rómulo e Remo com guarda-chuvas abertos. Refleti muitas vezes sobre esse simbolismo. Sempre cheguei a essa mesma e triste explicação: em razão do mau tempo, a fundação de Roma foi suspensa.
Uma forma de sociedade que conduz à liberdade mediante a coação pode ficar atolada no meio do caminho. A outra forma, que conduz ao despotismo por meio da liberdade, sempre atinge a sua meta.
Uma formação universal é uma farmácia bem provida, porém não há qualquer garantia de que não venda cianureto de potássio para tratar um resfriado.
Uma individualidade pode resistir mais facilmente à coação do que um indivíduo à liberdade.
Uma mentira inocente exigida pelas circunstâncias é sempre perdoável. Mas aquele que diz a verdade sem coação não merece indulgência.
Uma mulher cuja sensualidade nunca cessa e um homem ao qual ocorrem ideias sem parar: dois ideais de humanitarismo que parecem mórbidos à humanidade.
Uma mulher deve parecer tão inteligente que a sua estupidez signifique uma surpresa agradável.
Uma mulher não deve ser sequer da minha opinião, que dirá da dela.
Uma mulher que se presta ao amor gozará na velhice as alegrias de uma alcoviteira. Uma natureza frígida apenas alugará quartos.
Uma mulher sem espelho e um homem sem autoconfiança — como poderão sobreviver neste mundo?
Uma obra da língua traduzida em outra língua: alguém que atravessa a fronteira sem sua pele e do outro lado veste o traje típico do país.
Uma pessoa que começou a contar-me as suas lembranças tinha uma voz que rangia como o portão do passado.
Uma prostituição moralmente aceite baseia-se no princípio da monogamia.
Uma relação amorosa que não ficou sem consequências. O homem deu uma obra ao mundo.
Uma velha crença de idiotas concede ao “satirista” o direito de fustigar as fraquezas do forte. Só que a fraqueza mais fraca do forte ainda é mais forte do que a força mais forte do fraco, e por isso o satirista que se encontra no topo dessa concepção é um sujeito sórdido, e o facto de ser tolerado, um verdadeiro estigma da sociedade. Foi da necessidade infame da sociedade de tratar as personalidades como seus iguais e, por meio da sua degradação ao próprio nível, se tranquilizar acerca da sua baixeza, que surgiram os jornais humorísticos. Todas as carecas brilham porque Bismarck não tinha mais do que três fios de cabelo. Essa maldade enfadonha, a partir da qual o jornal humorístico acode à necessidade de vingança da sociedade, é por ela chamada de “inofensiva”. Porém ela abomina o homem positivo que destroça um mundo sem deuses. Não suspeita que o satirista seja alguém que apenas fustiga as fraquezas dos fracos e não vê as dos fortes porque elas não existem, e se existissem, as cobriria respeitosamente. Para as pessoas, a sátira é algo que alguém pode exercer como um segundo emprego, por exemplo, quando é oficial publicamente e possui humor em segredo. Mais autêntico, por certo, é praticar a sátira publicamente e ser um guerreiro em segredo. Pois, na verdade, a sátira só é compatível com uma função, a do homem, e ela até parece realmente exigi-la. O facto de o satirista ser um homem já é provado tão-só pela impertinência satírica da qual ele próprio precisa se defender. Pois o satirista não tolera brincadeiras. Mas se ele matar o inseto que tem em mira as suas “fraquezas”, todos se espantam e perguntam por que afinal, e dizem que alguém que é ele próprio satirista também deveria tolerar que um outro — e assim por diante in infinitum da banalidade humana.
Uma verdade desprovida de arte acerca de um mal é um mal. Ela deve ser valiosa por si mesma. Assim ela reconcilia com o mal e com a dor de que haja males.
Uma vez que ornamentos e flores de retórica são ostentados com o maior gosto por uma época a cuja essência repugna o sentido perdido dessas formas — e com gosto tanto maior quanto mais essa época tiver ultrapassado tal sentido, sem que ela seja, no entanto, capaz de criar novos ornamentos e novas flores de retórica que correspondam ao seu próprio conteúdo —, um Estado ainda “lançará mão da espada” quando há muito já será comum lançar mão do gás. Podemos imaginar que semelhante decisão algum dia se transforme numa frase feita? Deveria ser esclarecedor acerca da técnica o facto de ela não ser capaz de criar novos chavões, mas de deixar o espírito da humanidade no estado de não poder prescindir dos antigos. O mal do mundo vive e cresce nessa duplicidade de uma vida transformada e de uma forma de vida que se arrasta consigo. A época não cria chavões, mas está cheia deles; e justamente por isso, por um conflito incurável consigo mesma, precisa lançar mão da espada repetidamente. Os novos acontecimentos não produzirão nenhuma frase feita, mas as velhas frases feitas produzirão os acontecimentos!
Uns acham isso belo, outros acham aquilo. Mas eles precisam “achá-lo”. Procurar ninguém quer.
Ver o trabalho individual ser suplantado em toda parte pelo maquinal é algo que nos toca de maneira melancólica. Apenas os defloradores ainda andam por aí, de cabeça erguida, convencidos de serem insubstituíveis. Os cocheiros falavam exatamente assim há vinte anos.
Vestimos sentimentos familiares apenas em ocasiões especiais.
Vi um poeta a correr atrás de uma borboleta num relvado. Pôs a rede sobre um banco em que um rapaz lia um livro. É uma infelicidade que normalmente seja o contrário.
Vista de perto, muitas vezes uma mulher desilude-nos. Sentimo-nos atraídos porque ela aparenta ter espírito, e ela tem-no.
Visto que é proibido por lei ter feras selvagens, e os animais domésticos não me dão prazer algum, prefiro continuar solteiro.
Vivemos numa sociedade que traduz monogamia por casamento.
Vós, oh deuses, sois propriedade do comerciante!
Woodie, um cãozinho de pelo comprido que conheci pessoalmente — ele ria quando as pessoas conversavam com ele e chorava porque não podia conversar com elas, e o seu olhar era em si e para elas a gratidão da criatura —, foi atropelado por um automóvel. Quem teria tanta pressa? Deveria o pouquinho de espaço entre os corpos humanos que um transeunte desses exigia — ele podia encolher-se como uma cobra — ser melhor empregado? Os dignos pagam para que os outros continuem vivendo indignamente. E para quê, afinal, já que esse exemplo não melhora os maus? Ele seguia o seu caminho e morreu por isso. Quando a mulher se voltou, ele jazia ao sol. Quando a vida não tem palavras, resta tanto silêncio.
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Aforismos · Karl Kraus
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