Aforismos

Aforismos

Inicialmente publicados em pequenas sérias na Fackel e depois reunidos pelo próprio em três livros, Aforismos constitui a quinta-essência do pensamento de Karl Kraus sobre a natureza e a sociedade, eros e arte, língua e literatura, dando aos leitores, ao mesmo tempo, uma impressão nítida do virtuosismo da sua prosa altamente condensada. Na história do género, os seus aforismos ocupam um lugar de destaque, graças à originalidade e agressividade dos seus pensamentos e à tensão e à energia da sua elaboração linguística. O que Goethe disse de Lichtenberg — «onde ele faz uma brincadeira, espreita um problema» — também se aplica a Kraus. Mas a afirmação contrária é igualmente válida: Será difícil nomearmos um problema que Kraus não tenha resolvido no humor de um aforismo. «A imprensa devastará o que a sífilis deixou. As causas dos amolecimentos cerebrais do futuro já não poderão ser determinadas com segurança.»

“Em função dos acontecimentos bélicos, precisamos, para nosso pesar, restringir …

“Em função dos acontecimentos bélicos, precisamos, para nosso pesar, restringir temporariamente o tamanho dos nossos números; contudo, assim que as condições normais forem restabelecidas, empenhar-nos-emos em compensar os nossos assinantes com a publicação de números mais volumosos.” É o que promete a Österreichische Rundschau. Como se vê, há circunstâncias que poderiam levar o mais encarniçado pacifista a pensar de maneira menos preconceituosa acerca do valor da guerra.

A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a animam à chamada seriedade do…

A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a animam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser meritório contar com o facto de que o céu é azul e o prado é verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu. Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um artista, diz a verdade.

A compreensão de meu trabalho é dificultada pelo conhecimento de meu material. A…

A compreensão do meu trabalho é dificultada pelo conhecimento do meu material. As pessoas não compreendem que aquilo que aí está precisa de ser inventado primeiro, e que vale a pena inventá-lo. Assim como também não compreendem que um satírico para quem as pessoas existem como se ele as tivesse inventado precisa de mais força do que aquele que inventa as pessoas como se existissem.

A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialida…

A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica manifesta-se por toda a parte; neves estivais e calores invernais protestam contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da natureza onde quer que perceba as suas feições: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria o seu ocaso desde que não fosse impedido de ver a sua exibição cinematográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. Eu, porém, tomo facilmente um terramoto como protesto contra as conquistas do progresso e não duvido por um instante da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa indignar os elementos.

A política nos engana com valores germano-austríacos de simpatia. Mas, exceto po…

A política engana-nos com valores germano-austríacos de simpatia. Mas, exceto por brindes e libretos, nada há que prove uma comunidade de espírito entre esses dois povos. Diplomatas e agentes teatrais empenham-se na aproximação. Os de fora ficam a saber então que há um reino misterioso em que Itzig e Janosch dão o tom, e estimam-nos pela subvenção de sangue hussardo e amor cigano que o dia de trabalho berlinense recebe. Um teatro chamado judaísmo, que flutua entre a Ringstrasse e a Unter den Linden, atesta e representa a nossa vida intelectual perante a Alemanha. Que diz a política sobre o facto de não haver livro que provenha da Áustria que não seja posto em música? A proveniência vienense é tão odiosa que só lhe são perdoados os produtos da imbecilidade e da patifaria. Por estes, pelo menos, reconhece-se a origem e admite-se a autenticidade. Mas que esforço sobre-humano custa impingir a literatura austríaca como presente a um vendedor ambulante! Que diz a política sobre o facto de Die Fackel, que há tempos luta por não ser mais notória na Áustria, depois de apenas dez anos começar a tornar-se o que é: um facto alemão?

A psicanálise é mais uma paixão do que uma ciência: pois lhe falta a mão serena …

A psicanálise é mais uma paixão do que uma ciência: pois lhe falta a mão serena no exame, e essa falta constitui a única aptidão para a psicanálise. O psicanalista ama e odeia o seu objeto, inveja a sua liberdade ou a sua força e deriva-os dos seus próprios defeitos. Ele apenas analisa porque ele próprio é feito de partes que não resultam numa síntese. Ele acredita que o artista sublima uma enfermidade porque ele próprio ainda padece dela. A psicanálise é um ato de vingança por meio do qual a inferioridade adquire compostura, quando não superioridade, e procura equilibrar a desarmonia. Ser médico é mais do que ser paciente, e por isso todo imbecil procura hoje tratar todo génio. O que neste caso falta ao médico é a doença. Como quer que se comporte, nada mais conseguirá apresentar para explicar o génio do que a prova de que ele próprio não o possui. Porém, visto que o génio não precisa de uma explicação, e uma que defenda a mediocridade contra o génio é danosa, resta à psicanálise apenas uma única justificação para a sua existência: a muito custo, ela pode ser empregada para desmascarar a psicanálise.

A quantidade diminui o lucro sob todos os aspectos. A atração que os trajes exer…

A quantidade diminui o lucro sob todos os aspectos. A atração que os trajes exercem sobre as mulheres diminuiu, e o que sobrou foi a desilusão erótica. Visto que às mulheres agrada apenas aquilo que chama a atenção, o homem que usa uma roupa civil voltou a ter hoje as melhores perspetivas, o que também vale para o trapalhão de quem se diz ter se destacado por uma covardia especial diante do inimigo; pois qualquer um pode ser herói. Ocorre exatamente o mesmo que nos bailes de máscaras, em que cada pessoa promete para si mesma causar a maior sensação; quando ele termina, porém, ela reconhece que se quisesse ter chamado a atenção deveria ter usado um fraque, pois o nariz postiço era comum a todos.

A religião, a moral e o patriotismo são sentimentos que só se manifestam quando …

A religião, a moral e o patriotismo são sentimentos que só se manifestam quando feridos. Quando se diz de alguém que se ofende facilmente que ele “gosta” de se ofender, tal expressão está correta. Esses sentimentos nada amam tanto quanto serem magoados, e revigoram-se a valer na queixa contra ateus, amoralistas e apátridas. Tirar o chapéu diante do ostensório não é de longe uma satisfação tão grande quanto arrancá-lo da cabeça daqueles que têm outra crença ou que são míopes.

A situação dos sexos é tão humilhante quanto o resultado do negócio amoroso indi…

A situação dos sexos é tão humilhante quanto o resultado do negócio amoroso individual: a mulher ganhou menos em prazer do que o homem perdeu em força. Aqui há diferença em vez de soma. Um menos desprezível, contente por se colocar em segurança, faz de um mais um menos. Eis aqui o verdadeiro logro. Pois nada se ajusta pior a um prazer que acaba de começar do que uma força que já acabou; nenhuma situação em que seres humanos possam encontrar-se é mais impiedosa e mais digna de piedade. Nessa lacuna mora toda a doença do mundo. Uma ordem social que não reconheça isso e não se decida a trocar a medida de liberdade renunciou à humanidade.

A superioridade de fogo é uma vantagem se por meio dela se devem proteger bens c…

A superioridade de fogo é uma vantagem se por meio dela se devem proteger bens culturais ainda mais importantes do que ela. Porém, visto que a superioridade de fogo exclui a existência de bens culturais mais importantes, não resta nada para explicar a vantagem da superioridade de fogo senão a consideração de que a superioridade de fogo serve para proteger a superioridade de fogo.

A volúpia estéril do homem se nutre do espírito estéril da mulher. Porém, o espí…

A volúpia estéril do homem nutre-se do espírito estéril da mulher. Porém, o espírito masculino nutre-se da volúpia feminina. Esta cria as obras dele. Por meio de tudo aquilo que não foi dado à mulher, ela age de maneira a que o homem aproveite os seus próprios dons. Os livros e os quadros são criados pela mulher — mas não por aquela que escreve ou pinta. Uma obra vem ao mundo: foi a mulher que gerou aquilo que o homem deu à luz.

Alguém que nunca conheci me cumprimenta na esperança de que após tanto tempo eu …

Alguém que nunca conheci cumprimenta-me na esperança de que, após tanto tempo, eu já tenha esquecido que nunca o conheci e retribua o cumprimento do novo conhecido como se ele fosse um conhecido antigo. Na verdade, não sei exatamente quem conheço; sei exatamente, porém, quem não conheço. Não há possibilidade de erro. No entanto, se isso alguma vez acontecesse, o cumprimento lembrar-me-ia a tempo de que não conheço o sujeito, e então lembrar-me-ia dele até ao fim dos meus dias. Quem foi que acabaste de — pergunta um velho conhecido. Tu não o conheces? Esse é aquele que acreditou que eu tinha esquecido que não o conheço!

Aquele suicídio foi cometido durante um acesso de clareza intelectual. Às vezes,…

Aquele suicídio foi cometido durante um acesso de clareza intelectual. Às vezes, as pessoas cheias de alegria de viver refletem; e em alguma delas poderia ter havido tantas vidas que ela sacrifica uma sem hesitação. O suicídio pode significar a sangria de uma natureza puro-sangue. Quem se limpa a boca dos deleites da vida tão calmamente a fim de fechá-la para sempre por certo se destaca dos seus companheiros de mesa. Não me livro da suspeita, sobretudo, de que hoje alguém já deve ser um homem se a vida atual o derruba. Aquilo que tiver fogo e um ímpeto ligeiro, queima. Apenas homens sem medula e mulheres com cérebro estão à altura da ordem social.

As mulheres exigem o direito de voto ativo e passivo. Seria o direito de escolhe…

As mulheres exigem o direito de voto ativo e passivo. Seria o direito de escolher qualquer homem e de não serem recriminadas por se deixarem escolher por quem quer que seja? De jeito nenhum: elas estão falando de política! Mas foram os homens que as levaram a ter esses pensamentos desesperados. Agora nada restará a eles senão exigir do governo que lhes outorgue o direito de menstruar.

As revistas humorísticas são uma prova de que o filisteu não tem humor. Elas faz…

As revistas de humor são uma prova de que o filisteu não tem sentido de humor. Elas fazem parte da seriedade da vida como a bebida faz parte da refeição. “Dê-me todas as revistas de humor!”, ordena um idiota cheio de preocupações ao empregado de mesa, e atormenta-se para que um sorriso apareça no seu rosto. O humor que ele não tem deve chegar-lhe de todos os cantos da vida quotidiana, e ele desdenharia inclusive a caixa de fósforos que não trouxesse uma piada no seu rótulo. Li numa delas: “Aprendiz de ofício (que comprou uma linguiça casualmente enrolada num poema): Muito bem! Primeiro vou comer a linguiça para alimentar o corpo e depois leio o poema para alimentar o espírito!”. Coisas assim alegram o filisteu, e ele nem sequer percebe o método do aprendiz de ofício como uma indireta.

Às vezes lemos que uma cidade tem tantas centenas de milhares de “almas”, mas is…

Às vezes lemos que uma cidade tem tantas centenas de milhares de “almas”, mas isso soa exagerado. Pela mesma razão, também se deveria romper finalmente com o sistema de recenseamento por “cabeças”. Mas não alimentaríamos mais desconfiança em relação à estatística das cifras gigantescas se uma outra parte do corpo fosse empregada como unidade de contagem. Ninguém mais poderia dizer que semelhante estimativa — no caso de uma metrópole como Viena, por exemplo — é exagerada. A assimilação e a eliminação do alimento são indiscutivelmente os interesses mais importantes que podem determinar a vida intelectual de uma população. Triste é apenas o facto de ela própria dominar tão mal aquilo que lhe é mais importante. A cultura dessa atividade vital não avança de forma alguma, e ainda que seja uma vantagem ser um bom garfo, não é vantagem alguma ser um garfo barulhento e se comportar de tal maneira que se ouçam os ruídos de bem-estar até no exterior.

Cada frase deveria ser lida tantas vezes quantas fossem as correções que acompan…

Cada frase deveria ser lida tantas vezes quantas fossem as correções que acompanharam o seu crescimento do manuscrito até à leitura. Porém, para poupar o leitor do que vai além das suas forças e da sua crença, gostaria de publicar cada frase nas suas dez metamorfoses, para que o todo, por fim, ainda fosse menos lido do que compreendido. Seria um caso raro na literatura. Mas poderia ser de alguma utilidade para compensar os danos de um século de tagarelice e de opiniões facilmente compreendidas.

Com meus horizontes estreitos, não li certa vez um jornal com as seguintes manch…

Com os meus horizontes estreitos, não li certa vez um jornal com as seguintes manchetes: As negociações secretas entre a Áustria, a França e a Itália em 1869. — O movimento reformista na Pérsia. — A nomeação do chefe do ministério croata. — A Sublime Porta contra o arcebispo de Monastir... Depois de não ter lido esse jornal, senti os meus horizontes alargarem-se um pouco.

Comparada ao sabe-tudo, a enciclopédia tem uma vantagem: o orgulho. Ela se compo…

Comparada ao sabe-tudo, a enciclopédia tem uma vantagem: o orgulho. Ela comporta-se com reserva, fica à espera e nunca dá mais do que se quer. Ela contenta-se em responder quando Amenófis nasceu. O sabe-tudo folheia a si mesmo e logo informa também sobre as amebas, sobre o amperímetro, os anfictiões, a anfoterodiplopia, a amrita, que é a bebida dos deuses da doutrina hindu, os amschaspands, que são os sete espíritos de luz supremos da religião persa, o amschir, que como se sabe é o sexto mês do calendário turco, sobre o amuleto (do árabe hamala), sobre a amigdalina, a peculiar substância encontrada nas amêndoas amargas, que, misturada em solução aquosa com a emulsina (cf.), fornece ácido cianídrico, essência de amêndoas amargas e açúcar, e sobre a conhecida vela de acetato de amila, e é capaz de se interromper quando chega a Anaxágoras, justamente onde as coisas se tornam mais interessantes. E então ficamos insatisfeitos.

Considero a política uma maneira pelo menos tão excelente de liquidar a seriedad…

Considero a política uma maneira pelo menos tão excelente de liquidar a seriedade da vida quanto o jogo de cartas, e visto que há homens que vivem de jogar cartas, o político profissional é um fenómeno perfeitamente compreensível. Tanto mais que ele ganha sempre à custa daqueles que não tomam parte no jogo. Mas está correto que o apostador político pague as contas, já que a observação paciente constitui o conteúdo da sua vida. Se não houvesse política, o cidadão teria apenas a sua vida interior, ou seja, nada que o pudesse ocupar.

Contra a acusação de que soldados alemães cortam pés de crianças a golpes de mac…

Contra a acusação de que soldados alemães cortam pés de crianças a golpes de machado, jornalistas alemães apelam ao facto de esse povo ter produzido Lutero, Beethoven e Kant. Mas em relação a isso, esse povo é pelo menos tão inocente quanto em relação às atrocidades que lhe são atribuídas, e seria mais eficaz, contra tais acusações, apelar aos espíritos que a Alemanha ainda quer produzir no futuro. Se chegamos ao ponto de julgar que a pátria não exige dos seus génios outros serviços que dos seus lenhadores, e se aqueles, por um acaso mortal, podem ser dispensados da oportunidade de lhe prestar outros serviços voluntariamente, então por certo não surgirá mais génio algum. As façanhas intelectuais de Lutero, Beethoven e Kant, apesar de tudo o que a cultura alemã sabe a respeito e a ideologia alemã nelas inclui, não têm qualquer ligação com um estado do qual hoje, ao nível pessoal, talvez apenas se libertassem graças ao ofício sacerdotal, à surdez e a uma deformação da coluna vertebral.

Contra isso, a tendência deslocadora de valores do jornalismo nada pode fazer. E…

Contra isso, a tendência deslocadora de valores do jornalismo nada pode fazer. Ele pode dar certificados de garantia válidos por um século para os relógios aos quais dá corda: eles já estão parados quando o comprador saiu da loja. O relojoeiro diz que a culpa é do tempo, e não do relógio, e gostaria de fazer aquele parar a fim de salvar a reputação do relógio. Ele fala mal da hora ou a condena a um silêncio de morte. Mas o génio da hora segue em frente e faz amanhecer e anoitecer, embora o mostrador queira outra coisa. Quando ele bate dez horas e mostra onze, podemos contar que é meio-dia, e o sol dá risada dos relojoeiros ofendidos.

Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumpr…

Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não as comprometer. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto delas. Com estas é ainda mais difícil de lidar. E, por fim, há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto de mim mesmo. Isso exige um cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavelmente estabelecida e, pela maneira como não cumprimento, sei expressar de tal modo cada uma destas nuanças que não sou injusto com ninguém.

Dizemos “amante” e não vemos mais a altura do páthos da qual essa palavra desc…

Dizemos “amante” e não vemos mais a altura do páthos de que essa palavra desceu até as planícies da ironia — muito abaixo da respeitada condição intermédia das mulheres que não amam. Quer o espírito da língua que a amante seja uma decaída. Mas se mulheres que amam fossem chamadas de “elevadas”, a nossa cultura logo também envolveria essa palavra com os tentáculos do escárnio.

E do último cantinho de uma folha de jornal que ainda tenho nas mãos, já me espr…

E do último cantinho de uma folha de jornal que ainda tenho nas mãos, já me espreita, visto que apenas passo os olhos, a carantonha de Judas do século, sempre a mesma, quer se trate do jornalista ou do médico, do vendedor ambulante ou do adepto da política social, do vendedor de especiarias ou do esteta. Sempre o mesmo estupor, com os cabelos frisados da moda e empanturrado de cultura. Com a toalha de barbeiro da época sobre os ombros, todos os idiotas são iguais, mas quando se levantam e começam a falar sobre a sua especialidade, um deles é filósofo e o outro é corretor da bolsa. Tenho essa capacidade funesta de não poder distingui-los, e reconheço o rosto primordial sem me esforçar pelo desmascaramento.

É inegável que sou alguém que escreve muito. Mas, na verdade, isso se deve a uma…

É inegável que sou alguém que escreve muito. Mas, na verdade, isso deve-se a uma compulsão irresistível. É certo que nenhuma máquina de escrever se pode queixar de que a sobrecarreguei. Mas é correto dizer que a minha mão nem sempre consegue acompanhar as ordens da minha cabeça. Como invejo os autores cuja cabeça não consegue acompanhar as necessidades da sua mão! Eles pelo menos podem descansar.

É provável que o riacho de Grinzing tenha estimulado Beethoven a compor a Sinfon…

É provável que o riacho de Grinzing tenha estimulado Beethoven a compor a Sinfonia Pastoral. Mas isso não prova nada a favor do riacho de Grinzing e tudo a favor de Beethoven. Quanto menor a paisagem, tanto maior pode ser a obra de arte, e vice-versa. É tolice, porém, dizer que a atmosfera que o riacho transmite a um caminhante qualquer é a mesma recebida pelo ouvinte da sinfonia. Caso contrário, também poderíamos dizer que o cheiro de maçãs podres nos dá o Wallenstein de Schiller.

É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que suas qualid…

É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que as suas qualidades também merecem censura. No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor eleva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lastimável essa falsa óptica de uma crítica que primeiro precisa inventar as qualidades de um povo para depois levá-las a mal. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a mais fiel guardiã das realidades, pelo facto de o vienense viver num mundo irreal. A história “quis experimentar se o espírito podia governar sozinho”, e instituiu os Habsburgos. Eles criaram o mundo a partir do seu espírito. E semelhante panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errónea de uma essência popular que se esgota exclusivamente em pequenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Perante essa solidez que se mede em quilos, toda a imaginação capaz de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito criativo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na história austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, quando se constatou que não havia montanha à disposição para construir o túnel que uma Alteza desejava — e o túnel foi construído.

Em qualquer caso, o não reconhecimento de uma vida mental é uma condição social.…

Em qualquer caso, o não reconhecimento de uma vida mental é uma condição social. O homem fica satisfeito por ver respeitada a sua pele e atrás dela a chamada honra e a chamada moralidade. O olho e o ouvido não devem ser ofendidos, apenas as exigências que os mesmos fazem. O nariz precisa perceber cheiros que detesta, e quando o paladar se preparou para uma refeição, o empregado de mesa vem dez minutos depois e lamenta não poder mais servir. Qualquer imbecil pode encará-lo com os olhos arregalados, tu precisas tolerar o incómodo de qualquer palerma quando ele perguntou se não estás a incomodar, e exatamente quando corres até à secretária para anotar que vives na companhia de pessoas que se julgam eticistas por não te puxarem a carteira do bolso em plena rua, alguém certamente cruzará o teu caminho a pedir lume. O facto de a civilização se orgulhar da cortesia neste ponto, o facto de nenhum fumador ousar responder ao pedido indesejado com um brusco não — nada é capaz de desnudar melhor a estupidez da convenção que estabelecemos entre nós. Prometeu foi buscar o fogo aos céus. Mas, em razão disso, até ele foi acorrentado por ordem de Júpiter a um rochedo do Cáucaso onde um abutre lhe come o fígado.

Entre a língua e a guerra podemos constatar aproximadamente a seguinte relação: …

Entre a língua e a guerra podemos constatar aproximadamente a seguinte relação: aquela língua que mais estiver enrijecida sob a forma de chavões também será responsável pela tendência e pela disposição para substituir a substância por um sucedâneo de entonação; com convicção, achar irrepreensível em si própria tudo aquilo que no outro apenas provoca censura; desmascarar com indignação aquilo que também se gosta de fazer; enredar qualquer dúvida num matagal de frases e repelir sem esforço, como um ataque inimigo, qualquer suspeita de que alguma coisa não esteja em ordem. Essa é sobretudo a qualidade de uma língua que hoje se parece com aquele produto acabado cuja venda constitui o conteúdo da vida dos seus falantes; ela brilha como uma auréola e tem apenas a alma óbvia do homem de bem que não tem tempo de cometer uma maldade porque a sua vida se limita aos negócios e, caso não seja suficiente, deixa uma conta em aberto.

Eros tem sorte no amor. O desperdício lhe proporciona crescimento; a ofensa, hon…

Eros tem sorte no amor. O desperdício proporciona-lhe crescimento; a ofensa, honra. Magoe-o, e isso ser-lhe-á um prazer; difame-o, e isso ser-lhe-á útil. Podes fazer-lhe de tudo, só não lhe dizer a tua opinião na cara. Ele não é queixoso, mas também não é ávido de saber. Ele só é curioso e quer descobrir as coisas por conta própria. Ainda que saibas tudo melhor do que ele, sabe isto: ele toma parte de tudo no mundo, só não toma parte no tédio. O que dele escondes, ele partilhará contigo; mas ele desdenha a tua ciência.

Ficar triste da vida por haver encontrado em seu trabalho um erro que ninguém vê…

Ficar triste da vida por haver encontrado no seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas a sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até às entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até ao instante em que ele dá a sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão da minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de o servir: assim pretende mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura a minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta das suas imperfeições, esse leitor considera que a sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem aos seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico aos meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade dos meus partos e a dificuldade do meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e divertem-se na sociedade. Eu divirto-me à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se esta ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.

Há dois tipos de apreciadores da arte. Uns elogiam o que é bom porque é bom e cr…

Há dois tipos de apreciadores da arte. Uns elogiam o que é bom porque é bom e criticam o que é mau porque é mau. Outros criticam o que é bom porque é bom e elogiam o que é mau porque é mau. A distinção entre esses tipos é simples pelo facto de o primeiro deles não existir. As coisas seriam fáceis de entender se não houvesse ainda uma terceira categoria. Ela é formada por aqueles que elogiam o que é bom apesar de ser bom e criticam o que é mau embora seja mau. É a essa espécie perigosa que se deve toda a confusão nos assuntos artísticos. O seu instinto diz-lhes que devem alvejar o que é errado, mas por precaução alvejam o que é certo. Possuem razões que se encontram fora da sensibilidade artística. O artista poderia viver sem o esnobismo que o exalta. Dificilmente, sem a estupidez que o degrada.

Há uma credulidade inferior da confiança e uma credulidade superior do ceticismo…

Há uma credulidade inferior da confiança e uma credulidade superior do ceticismo. Um sujeito é enganado, outro é homem o bastante para enganar a si próprio. Aquele é feito de bobo, este é um sabedor que não deixa aquilo que sabe estragar a sua brincadeira quando olha por cima do próprio ombro. (Eu queria a assinatura dela num postal. Pedi a um amigo que a falsificasse. Se ele acrescentar que é autêntica, certamente acreditarei.) Antes, quando eu ainda acreditava, não teria podido ter ideia da minha credulidade. Agora, fico frequentemente perplexo com as surpresas que me faço e com o facto de me surpreender. Desde que a minha desconfiança cresceu, sei o quanto acredito.

Hamlet não compreende sua mãe: “Olhos sem tato, tato sem visão, ouvidos sem mãos…

Hamlet não compreende a sua mãe: “Olhos sem tato, tato sem visão, ouvidos sem mãos ou sem olhos, o mero olfato ou a parte mais enfermiça de um sentido verdadeiro não andaria assim às apalpadelas. Oh vergonha! Onde está o teu rubor?”. Isso é algo que o homem não pode compreender; ele sente a ideia de que uma mulher copule com o rei Cláudio como uma impertinência contra ele próprio. Ele mesmo se sente colocado no “suor fétido de um leito asqueroso”, e a sua consciência elevada se indigna. Mas é a partir dela que Shakespeare fala. E, por isso, Hamlet apenas se escandaliza com a idade da matrona, idade em que normalmente costuma “estar domado o auge do sangue”, este “espera pela razão” e um gosto discernente se impõe. Ele reconhece que a juventude da mulher não pode escolher entre um apolo e um miserável monarca remendado, que sexo e gosto quase sempre seguem caminhos diferentes, e “proclama que não é vergonha quando as paixões se lançam ao ataque”. Não fosse o seu filho, e ele concederia mesmo à mulher de mais idade que “o demónio que a vendeu de tal maneira no jogo da cabra-cega” é o mesmo sentido sexual que entorpece todos os outros sentidos da mulher — mais ainda do que no homem mais inclinado ao sexo — e age de maneira anestesiante sobre toda a compreensão.

Na cidade de Echternach, em Luxemburgo, ainda hoje ocorrem as chamadas procissõe…

Na cidade de Echternach, no Luxemburgo, ainda hoje ocorrem as chamadas procissões saltitantes. Pelo facto de no passado os animais terem sido acometidos de tarantulismo, os camponeses locais fizeram o voto de saltar em honra de São Willibrord em lugar dos animais. Hoje, nem as pessoas nem o gado conhecem mais a origem da singular cerimónia, mas aquelas mantêm-se-lhe fiéis, e se a força do hábito continuar a afirmar-se entre os habitantes de Echternach, talvez chegue novamente o dia em que o gado salte em honra de São Willibrord. Por ocasião do Pentecostes, ainda hoje cerca de 15 mil pessoas dão “três pulos para a frente e dois para trás”. O clero não salta junto, mas assiste. O espetáculo não o agrada inteiramente; ele preferiria que fossem dois pulos para a frente e três para trás.

Na vida fácil também há um trágico conflito entre personalidade e sociedade, e u…

Na vida fácil também há um trágico conflito entre personalidade e sociedade, e um triste conflito entre inadequação e vocação. Mas a hetera intelectualmente soberana que sabe impor-se ao mundo na condição de grande amoureuse é apenas uma construção de desejos eróticos que gostariam de eternizar o espetáculo de um pôr do sol. Uma consciência superior que controlasse inclusive o desregramento, e que mediante a sublimação da vida dos sentidos também alcançasse a sua preservação, é uma possibilidade romanesca. A mulher com espírito é uma perigosa enxadrista da sexualidade. Ou é assexuada e representa a abominação de uma calculadora mental que resolve uma equação integral na noite do casamento sem ser capaz de elevar à potência.

Não acredito que uma avalanche de atos infames alguma vez tenha causado no mundo…

Não acredito que uma avalanche de atos infames alguma vez tenha causado no mundo tanta indignação moral quanto a insubornabilidade do meu pensamento causou na cidade em que moro. Vi pessoas às quais nunca fiz mal algum explodirem ao me ver e se desintegrarem nos átomos da banalidade universal. Numa estação ferroviária, a mulher de um redator embarcou num compartimento particular de primeira classe, me viu e morreu com uma maldição nos lábios. E isso porque não faço uso de passagens gratuitas nos comboios, o que provavelmente é o menor dos meus defeitos. Pessoas cujo sangue é mais lerdo cospem quando me enxergam e seguem o seu caminho. Todas são mártires; defendem a causa comum, sabem que o meu ataque não se dirige às suas pessoas, mas à coletividade de que fazem parte. É o primeiro caso em que essa sociedade aleijada, que leva as lascas dos seus ossos envoltas em ataduras, cobra ânimo para fazer um gesto. Há séculos não se cospe mais quando passa um escritor. A humanidade acorre a Messina, e a estupidez sente-se solidária perante Die Fackel. Não há antagonismos de classe, a questão nacional cala-se e a Associação de Defesa do Antissemitismo pode descansar as mãos no colo ao falar. Estou sentado no restaurante: à direita, uma mesa de gente mal vestida que mete os dedos no nariz, ou seja, evidentemente deputados alemães; à esquerda, selvagens com barbas pretas que dão a impressão de que a crença na morte ritual, no fim de contas, tem algum traço de legitimidade, mas que certamente são apenas adeptos da política social que passam a faca pela boca à maneira dos carniceiros judaicos. Dois mundos, entre os quais aparentemente não há conciliação. Wotan e Jeová dirigem olhares hostis um ao outro — mas os raios do ódio unem-se sobre a minha humilde pessoa. O facto de ainda não ter ocorrido a um governo austríaco a ideia de me reclamar para o seu programa somente pode ser explicado pela desorientação fundamental dos governos deste país.

Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada de…

Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada dos meus pensamentos. Vivo numa relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que bem quiser. Eu obedeço-lhe à letra. Pois das letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar pensamentos obriga-me a ficar de joelhos e transforma todo dispêndio de cuidado trémulo em dever. A língua é uma senhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem consegue inverter essa relação, mas fecha-lhe o útero.

Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação intelectual, e não há trist…

Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação intelectual, e não há tristeza que se compare ao estado em que o artista mergulha depois de concluída a obra. A segurança da inconsciência cria sempre a sua primeira obra e, por isso, sempre a melhor. Uma vez consumada, a insegurança da consciência vê que é a última e, por isso, a pior. Qualquer crítica leviana impressiona semelhante desânimo. Um juízo capaz de acompanhar a criação artística apenas na sobriedade e não no gozo é uma verdadeira maldição. Nada sabem da volúpia aqueles que apenas sabem que ela precede a tristeza.

Não obstante, aquele que retorna para casa não se deixará reintegrar facilmente …

Não obstante, aquele que retorna a casa não se deixará reintegrar facilmente na vida civil. Acredito, pelo contrário, que ele invadirá o interior do país e só então dará início à guerra. Ele arrebatará os êxitos que lhe foram negados e a guerra terá sido uma brincadeira de crianças comparada à paz que então irromperá. Que Deus nos proteja da ofensiva que então será iminente! Uma atividade medonha, não mais domada por comando algum, pegará em armas e em prazeres em todas as situações da vida, e haverá mais morte e mais doença no mundo do que a guerra alguma vez lhe exigiu.

Não obstante, jamais ataquei uma pessoa por ela mesma, ainda que a tenha chamado…

Não obstante, jamais ataquei uma pessoa por ela mesma, ainda que a tenha chamado pelo nome. Se fosse um jornalista, orgulhar-me-ia de criticar um rei. Mas visto que ataco a turba dos cocheiros, seria megalomania que um indivíduo se sentisse atingido. Caso mencione um deles, isso apenas ocorre porque o nome intensifica o efeito plástico da sátira. Depois de dez anos de trabalho artístico, as minhas vítimas deveriam estar suficientemente instruídas para reconhecer isto e finalmente desistir de se lamentar.

Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma gin…

Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humanitário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores que até então não eram capazes de chegar a um juízo com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinhosamente na individualidade do estudante. O humanitarismo eliminou o pesadelo do medo de ser “chamado à frente”, mas a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que a perigosa. Entre “excelente” e “absolutamente insatisfatório” havia um espaço para experiências românticas. Eu não gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no passado o seu caráter antecipava inofensivamente como o corpo vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos transformar-se em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora devem deixar-se formar por ela. A beleza é banida juntamente com os arrepios, e o espírito jovem encontra-se diante da parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estudantes motivados pela estupidez de pais e professores irão cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.

Ninguém que examine meus trabalhos impressos reconhecerá uma costura. E, no enta…

Ninguém que examine os meus trabalhos impressos reconhecerá uma costura. E, no entanto, tudo foi descosido cem vezes, e de uma página que foi para a impressão tiveram de resultar sete. No fim, se é que há um fim, a articulação é tão evidente que não se vê a justaposição e não se acredita nela. Escritores que possuam tudo na cabeça, e que ao escrever tomem parte apenas com as mãos, são manipuladores infames com os quais nada tenho em comum a não ser o alfabeto, e mesmo isso apenas a contragosto. Eles não se alimentam, mas seguem vivendo porque têm tudo no estômago.

O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o mundo. Como ainda podemos …

O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o mundo. Como ainda podemos inventar se atrás de cada carantonha surge um rosto que lhe é igual inclusive na fala? Como podemos exagerar se os factos se transformam em caricatura do exagero? A e B estão em conflito. Diz-se que A praticou um ato ilegal. Porém, visto que por alguma razão não se pode dizer isso em voz alta, o que se diz em voz alta é o seguinte: “O senhor já sabe do ato ilegal que B cometeu mais uma vez?”. Quando se diz isso, não se pensa no facto de B realmente poder tê-lo cometido. Também não se acredita que A, consciente do seu próprio delito, alguma vez pudesse censurá-lo a B, caso este também o tivesse cometido. Não se acredita nisso, pelo menos nesse caso especialmente crítico. Apenas a experiência geral de que algo semelhante por certo já aconteceu, de que se imputou a B aquilo que somente A cometeu, justifica a jocosa confusão: “Imagine só o senhor do que B não é capaz!”. No dia seguinte, publica-se um protesto de A contra o procedimento de B. Este teria cometido exatamente aquele ato ilegal, o pior numa série de crimes semelhantes. Desse modo, o próprio A assume o método parodístico com o qual se atribui a B os pecados de A porque não se tem outra saída. Resta assim apenas a explicação de que ele sentiu remorsos e, na esperança de ser corretamente compreendido, confessou a sua falta sob a forma de uma imputação a B. Caso B realmente tivesse cometido essa falta, A pelo menos deveria perceber a justa compensação e silenciar. O que constitui a comicidade do caso não é a indignação contra aquilo que também se fez, ou que se fez apenas sozinho, mas a exatidão com que A aproveita a distorção intencional empregada pela pessoa cautelosa que precisa dizer B quando se refere à A. Por conseguinte, não se evita apenas dizer a verdade; também se é cauteloso com a mentira, pois ela também é vã e serve no máximo para motivo de farsa.

O desenvolvimento das máquinas beneficia apenas a personalidade que, passando pe…

O desenvolvimento das máquinas beneficia apenas a personalidade que, passando pelos obstáculos da vida exterior, chega mais rapidamente a si mesma. No entanto, as cabeças medianas não estão à altura da hipertrofia desse desenvolvimento. Hoje ainda não podemos fazer a menor ideia da devastação promovida pela máquina de impressão. O dirigível foi inventado, e a imaginação arrasta-se como uma diligência. O automóvel, o telefone e as gigantescas edições da estupidez — quem poderá dizer como serão os cérebros daqui a duas gerações? O afastamento em relação à fonte natural promovido pela máquina, a suplantação da vida pela leitura e a absorção de todas as possibilidades artísticas pelo espírito factual terão completado a sua obra com rapidez surpreendente. Apenas nesse sentido se deveria compreender o despontar de uma era glacial. Nesse meio-tempo, não nos intrometamos na política social, mas deixemos que se ocupe das suas pequenas tarefas; deixemos que lide com a educação popular e com outros sucedâneos e opiáceos. Passatempos até à dissolução. As coisas estão a desenvolver-se de uma maneira para a qual não há exemplo nos períodos historicamente verificáveis. Quem não sente isto em cada nervo pode prosseguir sem receio a cômoda divisão em Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna. De súbito aperceber-se-á que as coisas não avançam. Pois a época moderna começou com a produção de novas máquinas para o funcionamento de uma ética antiga. Nos últimos trinta anos aconteceram mais coisas do que nos trezentos anos anteriores. E um dia, a humanidade terá se sacrificado pelas grandes obras que criou para o seu alívio.

O esteta não vive tão longe do político quanto se pensa. Para aquele, a vida se …

O esteta não vive tão longe do político quanto se pensa. Para aquele, a vida reduz-se a uma linha; para este, a uma superfície. O jogo frívolo que ambos praticam deixa-os igualmente distantes do espírito, num lugar em que absolutamente não entram mais em consideração. É trágico ser reclamado por aquele partido quando não se quer saber nada deste, e ter de pertencer a este porque se detesta aquele. Porém, da altura da verdadeira intelectualidade, vê-se a política apenas como uma futilidade estética e a orquídea como uma flor partidária. É a mesma falta de personalidade que leva uns a buscar a vida no conteúdo e outros a buscá-la na forma. Eles nada querem saber um do outro; ambos, contudo, fazem parte do mesmo esfoladouro.

O fato de mesmo os ciumentos permitirem que suas mulheres se movam livremente no…

O facto de mesmo os ciumentos permitirem que as suas mulheres se movam livremente nos bailes de máscaras mostra o quanto o sexual é secundário e ausente para o homem. Eles esqueceram o quanto puderam permitir-se outrora nesses bailes com as mulheres dos outros, e acreditam que desde que casaram a licença geral foi suspensa. Eles sacrificam o ciúme por meio da presença. Não veem que esta é uma espora e não um freio. Nenhuma mulher ciumenta deixaria o seu marido ir a um baile de máscaras.

O gosto moderno necessita das complicações mais rebuscadas para finalmente desco…

O gosto moderno necessita das complicações mais rebuscadas para finalmente descobrir que a melhor forma para um copo de água é a redonda. Ele chega ao conveniente pelo caminho das incomodidades. Ele trabalha no suor do seu rosto para reconhecer que a Terra não é um cubo, mas uma esfera. Esse assombro indígena da civilização perante as conquistas da natureza tem algo tocante.

O incompreensível na arte da palavra — nas outras artes também não compreendo o …

O incompreensível na arte da palavra — nas outras artes também não compreendo o compreensível — não deve tocar o sentido exterior. Este deve ser mais claro do que aquilo que fulano e sicrano têm a dizer um ao outro. O misterioso encontra-se atrás da clareza. A arte é algo tão claro que ninguém compreende. Qualquer alemão entende que sobre todos os cimos há paz; todavia, não há um que já o tenha apreendido.

O jornalismo, que conduz os espíritos para dentro de seu curral, conquista sua p…

O jornalismo, que conduz os espíritos para dentro do seu curral, conquista a sua pastagem entretanto. Jornalistas querem ser autores. Publicam-se antologias de folhetim nas quais nada causa mais espanto do que o trabalho não se ter desintegrado nas mãos do encadernador. Assa-se pão a partir de migalhas. O que lhes dá a esperança da permanência? O interesse permanente no material que eles “escolhem”. Alguém que tagarela sobre a eternidade não deveria ser ouvido enquanto a eternidade durar? Desta falácia vive o jornalismo. Ele tem sempre os maiores temas, e nas suas mãos a eternidade pode tornar-se atual; mas ela acaba envelhecendo com a mesma facilidade. O artista dá forma ao dia, à hora, ao minuto. Por mais limitado e condicionado temporal e espacialmente que seja o seu motivo, a sua obra cresce mais ilimitada e livremente quanto mais dele se afasta. Que ela envelheça serenamente no instante: ela rejuvenesce com o passar das décadas.

O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso com sua cultura geral. …

O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso com a sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em albanês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única premissa que o público não leva a mal, e um autor que humilha o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser recuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades! Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente. O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inteligente do que o autor culto, pois fica sabendo através da sua revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro.

O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais forte do que uma crença e no…

O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram do inimigo quando agarram a sua mão, considera como cálculo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a detestar Hércules por dificultar a sua própria vida e a de três mil bois, ele sonda os seus motivos e pergunta: “O que o senhor tem contra Áugias?”.

O mundo está surdo das cadências. Tenho a convicção de que os acontecimentos abs…

O mundo está surdo das cadências. Tenho a convicção de que os acontecimentos absolutamente não acontecem mais, mas de que os clichés continuam a trabalhar automaticamente. Se, ainda assim, os acontecimentos devessem acontecer, sem serem intimidados pelos clichés, eles cessariam quando os clichés fossem destruídos. A coisa começa a apodrecer da língua. O tempo já cheira mal dos clichés.

O palerma que não só não possui uma visão de mundo, mas também não a vê quando e…

O palerma que não só não possui uma visão de mundo, mas também não a vê quando ela lhe é oferecida pela arte, precisa subtrair tanto de uma síntese satírica para a compreender até que sobre um nada, pois esse ele compreende, e pelo caminho do desmembramento, para ele transitável, chega aos motivos que o satírico deixou para trás e se identifica carinhosamente com o detalhe contra o qual, segundo a sua opinião, o satírico se dirigiu. O palerma também precisa sentir-se atingido por uma sátira que não lhe diz respeito ou acerta muito longe da sua esfera de interesses.

O prazer do homem seria apenas um ímpio passatempo e jamais teria sido criado se…

O prazer do homem seria apenas um ímpio passatempo e jamais teria sido criado se não fosse o acessório do prazer feminino. A inversão dessa relação, transformada numa ordem em que um mísero clímax se arvora de essencial e, depois de deflagrado, interrompe tiranicamente a rica epopeia da natureza, significa o fim do mundo: mesmo que o mundo, com a compensação técnica, intelectual e desportiva, não o perceba por algumas gerações e não tenha mais fantasia suficiente para o imaginar.

O que faz de mim a maldição da sociedade a cuja margem vivo é o modo súbito como…

O que faz de mim a maldição da sociedade à margem da qual vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam perante mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia o meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e odeia-me. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não me pode fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de carácter ou que de algum modo me torne suspeito: a mentalidade revela-se automaticamente. Se for verdade que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma o seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, correm sempre o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera o meu comportamento enquanto ele se mantém em limites académicos; se o demonstro numa acção, porém, ela assusta-se e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso relacionar-me com as pessoas mais tediosas sem o notar. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa me pode fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal me umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofre do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter a minha actividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque a minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam de ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que o poderia envergonhar. Mas eu, que em toda a minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar os meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante dos seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer piadas piores do que aquelas que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou um tiro em mim.

O que melhor deveria deleitar o espírito do que a tolice feminina que se esconde…

O que melhor deveria deleitar o espírito do que a tolice feminina que se esconde atrás de feições inteligentes? Quando a mulher é aquilo que deve parecer, o entendimento masculino esmorece. O prodígio da banalidade profunda mostra-se ao mundo desde os dias de Frineia; o mundo aprecia-o, mas não quer acreditar nele. Visto que os homens intelectualmente superiores da Grécia procuravam a companhia de heteras, as heteras devem ter sido mulheres intelectualmente superiores. Caso contrário, não teríamos respeito pelos gregos antigos. Por isso, os historiadores elevaram o quanto puderam o nível cultural das mulheres atenienses de vida fácil. A educação cristã veria com bons olhos que a histeria que pôs no mundo tivesse força retroativa. Mas terá de descobrir uma maneira de tirar as mênades do jogo e queimar apenas as bruxas em que transformou as mulheres do seu tempo.

Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será que elas são vistas apenas…

Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será que elas são vistas apenas pelas crianças? Quando eu tinha dez anos, convivia nos prados de Weidlingau exclusivamente com almirantes-vermelhos. Posso dizer que foi o convívio mais soberbo da minha vida. Antíopas, pavões-reais-diurnos e borboletas-limão também coloriam a vida da infância. Vanessa io, Vanessa cardui — vanitas vanitatum! Quando voltei depois de alguns anos, todas tinham desaparecido. O sol do meio-dia vibrava como antes, mas não se via nenhum fulgor colorido; em compensação, havia pedaços de jornal pelo prado. Mais tarde, fiquei a saber que a madeira dos bosques fora utilizada para produzir papel de impressão e que o excesso de informação não deixara muitas linhas para as borboletas. Um amigo do nosso jornal enviou-nos a última borboleta e um dos nossos colaboradores teve a oportunidade de a espetar na pena e lhe perguntar pelas causas da sua solidão. O mundo foge das cores da personalidade, as pessoas protegem-se ao organizarem-se. Apenas as borboletas deixaram de se organizar. É por isso que agora vemos redatores e folhetinistas iridescentes a bebericar nos cálices das flores. Mesmo as monótonas borboletas-da-couve, com as quais o jornalismo, graças a um certo parentesco, ainda poderia ter entrado num acordo, tiveram de fugir. A luta de extermínio contra as criaturas aladas significa o triunfo da cultura do jornal. As borboletas e as mulheres, a beleza e o espírito, a natureza e a arte passaram a sentir o facto de uma edição dominical ter cento e cinquenta páginas. A humanidade persegue as borboletas com matamoscas. Ela esfrega a poeira colorida dos dedos. Eles precisam de estar limpos para tocar na tinta de impressão.

Olho por uma janela e o horizonte é obstruído por uma cara de basbaque. Isso é t…

Olho por uma janela e o horizonte é obstruído por uma cara de basbaque. Isto é trágico. Nada tenho contra o facto de existirem caras repugnantes. Mas por que a óptica dispôs as coisas de tal modo que uma pessoa possa encobrir um bosque? Podemos, por certo, encobrir a pessoa com um porrete. Mas, em todo o caso, saímos prejudicados com a ilusão de óptica. E assim os raios luminosos servem para aumentar a misantropia.

Os filhos de pais psicanalistas definham precocemente. Quando crianças de peito,…

Os filhos de pais psicanalistas definham precocemente. Quando crianças de peito, precisam admitir que têm sensações voluptuosas ao evacuar. Mais tarde lhes perguntam que ideias lhes vieram à mente quando viram um cavalo defecando no caminho para a escola. Podemos falar de sorte quando uma criança dessas atinge a idade em que o jovem pode confessar um sonho em que violou a sua mãe.

Os hipócritas morais não são odiosos por agir diferente do que professam, mas po…

Os hipócritas morais não são odiosos por agir diferente do que professam, mas por professar algo diferente do que fazem. Quem amaldiçoa a hipocrisia moral precisa estar muito atento para não ser tomado por um amigo da moral que aqueles, pelo menos em segredo, traem. O condenável não é a traição à moral, mas a moral. Ela é a própria hipocrisia. Não é o facto de aqueles tomarem vinho que deve ser desmascarado, mas o facto de pregarem água. Demonstrar contradições entre a teoria e a prática é sempre melindroso. O que significa o acto de todos comparado ao pensamento de um só? O moralista poderia estar a falar a sério ao lutar contra uma imoralidade da qual ele próprio se tornou vítima. E se alguém prega vinho, podemos até perdoá-lo por tomar água. Ele está em contradição consigo mesmo, mas faz com que se tome mais vinho no mundo.

Os neurologistas que patologizam o gênio merecem que lhes partamos o crânio com …

Os neurologistas que patologizam o génio merecem que lhes partamos o crânio com as suas Obras Completas. Não devemos agir de forma diferente com os defensores da humanidade que deploram a vivissecção em cobaias e permitem a utilização de obras de arte para fins experimentais. Sempre que consigamos agarrá-los, chutemos a cara de todos os que se dispõem a provar que a imortalidade deve ser atribuída à paranoia, de todos os ajudantes racionalistas da humanidade normal que a tranquilizam por não ter inclinações para obras do engenho e da imaginação. Shakespeare louco? Então a humanidade ajoelha-se e, com medo da sua saúde, implora ao Criador por mais loucura!

Os touros de todos os partidos são unânimes acerca do fato de que faço propagand…

Os touros de todos os partidos são unânimes acerca do facto de que faço propaganda da luxúria. Certamente é verdade que recomendo o reconhecimento da beleza como único remédio contra a estupidez e que atribuo todos os males deste mundo ao cruel soterramento e à malévola poluição, praticados por séculos, da fonte de toda a vida. Mas será que por isso me entusiasmei pela sexualidade dos touros?

Para se orientar em questões de política, bastam lembranças de opereta. Aquilo q…

Para se orientar em questões de política, bastam lembranças de opereta. Aquilo que pode ser dito contra a forma de governo absolutista, por exemplo, foi-nos ensinado pelas figuras de um rei Bobèche, de um príncipe herdeiro Kasimir ou de um general Kantschukoff. Se a exigência dos frasistas de que a arte se ocupe dos assuntos públicos possui mesmo um sentido, então ela só pode estar a referir-se à produção de operetas. Esta é criticada com razão por negligenciar há décadas os únicos assuntos humanos que não cabe levar a sério, ou seja, os assuntos públicos. Pois a forma artística da opereta é adaptada à essência de todos os desdobramentos políticos por conceder à estupidez uma improbabilidade redentora. Exigir que a criação artística se lance sobre os acontecimentos recém-saídos do forno é uma tolice; mesmo a sátira os desdenha, pois ainda que seja capaz de apreender os ridículos da política, estes ocorrem abaixo do nível de uma observação espirituosa de sentido superior.

Parece-me que toda arte é apenas arte para hoje se ela não for arte contra hoje.…

Parece-me que toda arte é apenas arte para hoje se não for arte contra hoje. Ela é um passatempo — ela não passa por cima dele! A verdadeira inimiga do tempo é a língua. Ela vive num entendimento direto com o espírito a quem a época atual causa indignação. É aqui que pode materializar-se esta conspiração que é a arte. A complacência que rouba as palavras da língua vive nas graças dessa época. A arte pode vir apenas da recusa. Apenas do grito, não do sossego. Chamada para consolar, a arte deixa com uma maldição o quarto em que a humanidade agoniza. Ela realiza-se através do desespero.

Pediram-me muitas vezes para ser justo e observar uma coisa de todos os lados. E…

Pediram-me muitas vezes para ser justo e observar uma coisa de todos os lados. E fiz isso, na esperança de que uma coisa talvez pudesse tornar-se melhor se eu a observasse de todos os lados. Mas cheguei ao mesmo resultado. De maneira que continuei a observar uma coisa apenas de um lado, poupando muito trabalho e desilusão. Pois é consolador considerar que uma coisa é má e, ao fazê-lo, poder desculpar-me apelando a um preconceito.

Por que o público é tão insolente em relação à literatura? Porque ele domina a l…

Por que o público é tão insolente em relação à literatura? Porque ele domina a língua. As pessoas se atreveriam exatamente da mesma maneira em relação às outras artes caso se dirigir cantando aos demais, lambuzar-se com tinta ou atirar gesso fossem meios de comunicação. A desgraça está justamente no facto de a arte da palavra trabalhar a partir de um material que passa todo dia pelas mãos da ralé. É por isso que a literatura não tem mais salvação. Quanto mais ela se afasta da compreensibilidade, tanto maior é a impertinência com que o público reclama o seu material. O melhor seria esconder a literatura do público até entrar em vigor uma lei que proíba as pessoas de usarem a linguagem coloquial e apenas lhes permita fazer uso de uma linguagem de sinais em casos de urgência. Mas até que essa lei entre em vigor, elas poderiam ter aprendido a responder à ária “Como vão os negócios?” com uma natureza morta.

Posso julgar o valor estético e cultural de um desfile ou de certa espécie de pe…

Posso julgar o valor estético e cultural de um desfile ou de certa espécie de peças teatrais apenas quando não os assisti. Caso contrário, sucumbo a uma reação nervosa qualquer e falo das cores como faz o cego. A música suborna a crítica, e com que facilidade um repicar de sinos pode levar alguém a tolerar uma nulidade! Assim, para conservar um juízo objetivo, não posso deixar de ficar conscienciosamente longe do espetáculo.

Posso precisar de objetos femininos no máximo em minhas leituras públicas. Lá el…

Posso precisar de objetos femininos no máximo nas minhas leituras públicas. Lá eles apoiam o efeito e remedeiam nos meus nervos aquilo que contra eles pecaram na literatura. Mãos devem ser usadas para aplaudir e não para escrever. Com as minhas, eu preferiria esbofetear a escrever caso não existisse o risco de que isso fosse considerado como aprovação e uma voz meiga sussurrasse trémula: “De novo!”.

Quando alguém está diante do tribunal, não há certamente nenhum fato da chamada …

Quando alguém está diante do tribunal, não há certamente nenhum facto da chamada vida pregressa com o qual não se poderia produzir instantaneamente uma “impressão desfavorável” e proporcionar aquele “movimento” registado na ata da sala de audiências. Não é de crer como os delitos realmente se aglomeram em torno de um homem que alguma vez se meteu com algum deles! Aquilo que se dividiu ao longo de quarenta anos, quando projetado no lapso de tempo de uma audiência, age como uma ilustração viva; aquilo que passou pela peneira do tempo, obtém uma atualidade reforçada, como se tivesse acontecido durante a prisão preventiva. O passado não ilumina apenas o ato, com o qual nada tem a ver, mas também é iluminado por ele, e o carácter do réu é sempre contemplado de dois lados. Esse é o método que se adapta convenientemente ao pensamento não perspectivo das cabeças julgadoras medianas. Significa sentar o banco dos réus na cabeça de um homem perdido.

Quando um sacerdote declara repentinamente que não acredita no paraíso e que jam…

Quando um sacerdote declara repentinamente que não acredita no paraíso e que jamais desmentirá essa declaração, a imprensa liberal, cujos redatores, como se sabe, também não se deixam privar das suas crenças a preço nenhum, entusiasma-se. No entanto, um editor papal não divinizaria imediatamente um funcionário que tivesse a ideia de confessar diante dos leitores que acredita no paraíso? Eis a visão mais repulsiva que a modernidade oferece: um sacerdote possuído pela razão cercado por vira-latas da imprensa a ladrar e para os quais ele atira a costela de Adão.

Que são a consciência que um Nero tinha de sua força, o ímpeto destruidor de um …

Que são a consciência que um Nero tinha da sua força, o ímpeto destruidor de um Génghis Khan, a plenitude de poderes do Juízo Final comparados à altivez de um pequeno funcionário da Junta Geral de Alistamento do Distrito Judicial que, por desobediência a uma convocação para inscrição com fins de avaliação da taxação do imposto militar, nos condena a uma multa de duas coroas!

Quem quiser praticar ginástica cerebral, que procure reconstruir tão rápido quan…

Quem quiser praticar ginástica cerebral, que procure reconstruir tão rápido quanto possível a conversa de um grupo quando, em dado momento, chamar a sua atenção o quanto essa conversa se afastou do tema original. Ele folheará essa enciclopédia e verá um caminho em ziguezague em cujas extremidades se encontram assuntos que fazem lembrar a divertida falta de relação dos títulos: De calefação a gótico e De Newton a pacífico.

Rir da vaidade dos atores, de sua necessidade de aplausos e afins é ridículo. As…

Rir da vaidade dos atores, da sua necessidade de aplausos e afins é ridículo. As pessoas de teatro precisam do aplauso para representar melhor; e para isso, também basta o aplauso fingido. O sentimento de felicidade que alguns atores mostram quando são aplaudidos por aqueles que pagaram para o fazer é uma prova do seu génio artístico. Dificilmente alguém teria-se tornado um grande ator se o público tivesse vindo ao mundo sem mãos.

Se alguém tivesse dito ao Diabo, para quem a guerra desde sempre foi uma pura pa…

Se alguém tivesse dito ao Diabo, para quem a guerra desde sempre foi uma pura paixão, que alguma vez haveria homens com um interesse comercial na continuação da guerra, que eles nem sequer se dariam ao trabalho de ocultá-lo e que os seus lucros ainda lhes proporcionariam reconhecimento social, ele o mandaria contar essa história a outro. Porém, quando se tivesse convencido do facto, o Inferno envergonharia de vergonha e ele teria de reconhecer que durante toda a sua vida foi um pobre diabo!

Se causa deleite ao esteta o gesto com que alguém rouba cinco milhões do Tesouro…

Se causa deleite ao esteta o gesto com que alguém rouba cinco milhões do Tesouro Público, e ele afirma publicamente que a diversão que o escândalo traz aos “poucos apreciadores” tem mais valor do que o prejuízo total, então se deve dizer-lhe: Se o gesto dessa diversão é uma obra de arte, vamos ser generosos, e um milhão a mais ou a menos que o Estado perde não nos importa. Mas se isso se transforma num editorial, então a nossa sensibilidade social desperta e não damos nem cinco cêntimos pelo divertimento. Pois se a bancarrota do Estado se transforma numa obra de arte, o mundo faz um negócio com isso. Caso contrário, vamos perceber os efeitos no orçamento e condenar a estética popular que desculpa os ladrões sem indemnizar as vítimas do roubo.

Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berlinense qual o significado do…

Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berlinense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele poderia responder: “Isto serve para ter em conta o senso de beleza”. Se eu perguntasse a um catador de papéis quem é representado num monumento, ele poderia responder: “O homem fez algo pela educação”. Certo, isto são abominações da civilização. Mas com o tempo também ficámos fartos das vantagens dela que gozamos em Viena quando a estas perguntas recebemos sempre a mesma resposta: “Que te importam os frisos, seu fedelho imbecil!”.

Sem dúvida, o artista é diferente. Mas justamente por isso ele deve ser igual ao…

Sem dúvida, o artista é diferente. Mas justamente por isso deve ser igual aos outros no seu exterior. Só pode permanecer solitário se desaparecer na multidão. Se chamar a atenção sobre si através de alguma peculiaridade, torna-se vulgar e coloca os perseguidores no seu encalço. Quanto mais tudo dá razão ao artista para ser diferente, tanto mais necessário é que se sirva dos trajes da média como um mimetismo. A aparência chamativa é o alvo da embriaguez. Esta, normalmente zombada, julga-se alinhada e superior quando se compara com a excentricidade de cabelos compridos. Mesmo o bêbado de quem o populacho se ri, ri do homem que usa um casaco de bufão. Desleixar-se intencionalmente para se destacar da média, usar roupas sujas como uma insígnia da arte e da ciência, sacudir uma cabeleira despenteada sobre o absurdo da ordem social — um ideal dos poetas andarilhos medievais, há muito abandonado pelos nobres e hoje ao alcance de qualquer pequeno-burguês. A verdadeira boemia já não faz aos filisteus a concessão de os irritar, e os verdadeiros ciganos vivem segundo um relógio que nem sequer precisa de ser roubado. A pobreza continua não sendo uma vergonha, mas a sujeira já não é uma honra. A “mãe estrada” renega os seus filhos; mesmo ela já é mais cuidada hoje em dia.

Será a literatura nada mais do que a habilidade de apresentar ao público uma opi…

Será a literatura nada mais do que a habilidade de apresentar ao público uma opinião com palavras? Então a pintura seria a arte de expressar uma opinião em cores. No entanto, os jornalistas da pintura são os pintores de paredes. E eu acredito que um escritor é aquele que diz ao público uma obra de arte. A maior honra que já recebi foi-me prestada quando um leitor me confessou embaraçado que só conseguia entender os meus textos na segunda leitura. Hesitou em me dizer isso, teve dificuldades em falar a minha língua. Esse era um entendido e não sabia. O elogio ao meu estilo deixa-me indiferente, mas as críticas que lhe fazem logo me deixarão orgulhoso. Durante muito tempo tive receio de que as pessoas tivessem prazer com os meus textos já na primeira leitura. Como? Uma frase deveria servir para o público enxaguar a boca com ela? Os folhetinistas que escrevem em alemão possuem uma considerável vantagem em relação aos escritores que escrevem a partir do alemão. Ganham à primeira vista e desiludem à segunda: é como se de repente estivéssemos nos bastidores e víssemos que tudo é de cartão. No caso dos outros, porém, é como se um véu cobrisse a cena. Quem já deveria aplaudir? Vão-se embora antes que a cena se torne visível. Assim se comporta a maioria; não têm tempo. E não têm tempo apenas para as obras da linguagem. No caso das pinturas, admitem que não devam representar apenas um processo apreendido pelo primeiro olhar: obrigam-se a dar um segundo olhar para chegar a perceber alguma coisa da arte das cores. Mas uma arte da construção de frases? Se lhes dissermos que isso existe, pensam na obediência às leis da gramática.

Somos cultos o bastante para evitar restaurantes que são “instituições de engord…

Somos cultos o bastante para evitar restaurantes que são “instituições de engorda”. Porém o pensamento de se deixar arrebatar às esferas celestes na companhia de mais quinhentas pessoas não perturba nenhum dos cultos frequentadores de concertos. Não me oponho a satisfazer as necessidades da vida junto com os meus concidadãos, mas a preço nenhum deste mundo gostaria de me encontrar com um único deles na ilha dos bem-aventurados.

Talvez a guerra traga uma única mudança, mas uma mudança em razão da qual ela ce…

Talvez a guerra traga uma única mudança, mas uma mudança em razão da qual ela certamente não foi empreendida: as vítimas da psicanálise voltarão sadias para casa. Pois a guerra entende quase tão pouco de psicologia quanto a psicanálise, mas, diante do método individualizante desta, que na maioria dos casos se atém ao nada, a guerra pelo menos tem a vantagem de, na maioria dos casos, padronizar os indivíduos, e assim, proporcionar ao nada a sua verdadeira posição. É bom quando águas-vivas que nem sequer eram instrumentos sejam elevadas a tal condição.

Teatro de variedades . O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor c…

Teatro de variedades. O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subitamente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma compreensão mais refinada já pressupõe a representação de um mestre de cerimónias que se esborracha no parquê. Seria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o humor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entre voando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter cerveja fazendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debaixo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio das outras e perguntam atenciosas: “O senhor notou isso?”. É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se um botão e um criado morre. O que for incómodo é tirado do caminho. Vigas dobram-se à vontade, tudo anda com desembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. Isso é incómodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a tiros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca vista é empregada para aquietá-lo. A vida tornou-se terrivelmente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar no sistema... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um defraudador trouxe lá da Europa.

Trata-se de um fato válido por toda a eternidade: que a força primordial da mulh…

Trata-se de um facto válido por toda a eternidade: que a força primordial da mulher não apenas atrai e aniquila os fracos, mas anima e rejuvenesce os fortes. Que as melhores cabeças foram nutridas por essa fraqueza do espírito, os maiores caracteres por essa leviandade. Que os mais poderosos senhores cumpriram incólumes os anos de serviço erótico. E que, de acordo com o magnífico plano da ordem do mundo, o deleite dos sentidos e a beleza sejam poções mágicas, e, de acordo com o plano diabólico da ordem social, sejam trancados no armário de venenos da humanidade.

Um folhetinista — um corretor. O corretor também precisa ser rápido e conhecer a…

Um folhetinista — um corretor. O corretor também precisa ser rápido e conhecer a língua a fundo. Por que não o incluímos na literatura? A vida possui compartimentos. Aquele pode familiarizar-se com este e este com aquele, todos com todos. A fortuna é cega. Os acasos determinam o homem. Sabemos, por certo, o que somos, mas não sabemos o que poderemos vir a ser. Por que incluímos justamente o folhetinista na literatura?

Um materialismo horripilante nos prega que o amor nada tem a ver com o dinheiro,…

Um materialismo horripilante prega-nos que o amor nada tem a ver com o dinheiro, e o dinheiro, nada com o amor. A concepção idealista admite, pelo menos, um limite de preços em que começa o amor verdadeiro. Esse é simultaneamente o limite em que acaba o ciúme daquele que é amado por ser quem é. Tal limite acaba, embora pudesse começar nesse ponto. O terreno da concorrência está obstruído.

Um professor de literatura afirmou que meus aforismos são apenas a inversão mecâ…

Um professor de literatura afirmou que os meus aforismos são apenas a inversão mecânica de frases feitas. Isto é inteiramente correto. Só que ele não apreendeu o pensamento que impele a mecânica: o facto de que da inversão mecânica de frases feitas resulta mais do que da repetição mecânica. Este é o segredo da época atual, e é preciso tê-lo experimentado. Ao mesmo tempo, a frase feita ainda se distingue, para sua vantagem, de um professor de literatura, de quem não sai nada se eu o deixar no seu lugar e menos ainda se o inverter mecanicamente.

Uma ciência que sabe tão pouco de sexo quanto de arte espalhou o boato de que a …

Uma ciência que sabe tão pouco de sexo quanto de arte espalhou o boato de que a sexualidade do artista é “sublimada” na obra de arte. Poupar o bordel, eis uma bela finalidade para a arte! Ao poupar a sublimação por meio de uma obra de arte, a finalidade do bordel é bem mais refinada. O quanto o procedimento dos artistas, não considerada a sua prolixidade, é arriscado no seu efeito sobre os recetores, é algo provado justamente pelo caso do notável compositor que a referida ciência gosta de citar como exemplo de sublimação bem-sucedida. Os ouvintes da sua música sentem-se estimulados de tal modo pela sexualidade nela sublimada que muitas vezes não lhes resta outra saída senão aquela que o artista evitou, a não ser que eles próprios sejam capazes de fazer uma sublimação a tempo. Se o artista tivesse escolhido o caminho mais simples, esse efeito teria sido poupado aos ouvintes. Assim, por meio do mau hábito dos artistas de sublimar a sexualidade, esta é libertada de vez, e um assunto que deveria ficar restrito à vida privada do artista degenera num escândalo público.

Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvid…

Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvida o facto de que em Die Fackel falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada no meu nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou, a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre os dez anos de Die Fackel “no meu próprio jornal”. Tendo sido chamada a minha atenção, preciso confessar que é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tornou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso, ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo estar-por-dentro que descobre um calcanhar de Aquiles é, portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele desnudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o décimo ano da minha incorrigibilidade, então réplicas não adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e para a coincidência desse aparente interesse próprio com os fins universais da minha atuação. Eles não são capazes de compreender que se alguém se confunde com uma causa sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não são capazes de compreender que aquilo que chamam de vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se mede segundo a sua própria medida e a possui em si, aquela vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamento mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mulher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é imprescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação artística com o cuidado presunçoso que trabalha num penteado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social? Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a modéstia dos espíritos reprodutores.

Uma velha crença de idiotas concede ao “satirista” o direito de fustigar as fraq…

Uma velha crença de idiotas concede ao “satirista” o direito de fustigar as fraquezas do forte. Só que a fraqueza mais fraca do forte ainda é mais forte do que a força mais forte do fraco, e por isso o satirista que se encontra no topo dessa concepção é um sujeito sórdido, e o facto de ser tolerado, um verdadeiro estigma da sociedade. Foi da necessidade infame da sociedade de tratar as personalidades como seus iguais e, por meio da sua degradação ao próprio nível, se tranquilizar acerca da sua baixeza, que surgiram os jornais humorísticos. Todas as carecas brilham porque Bismarck não tinha mais do que três fios de cabelo. Essa maldade enfadonha, a partir da qual o jornal humorístico acode à necessidade de vingança da sociedade, é por ela chamada de “inofensiva”. Porém ela abomina o homem positivo que destroça um mundo sem deuses. Não suspeita que o satirista seja alguém que apenas fustiga as fraquezas dos fracos e não vê as dos fortes porque elas não existem, e se existissem, as cobriria respeitosamente. Para as pessoas, a sátira é algo que alguém pode exercer como um segundo emprego, por exemplo, quando é oficial publicamente e possui humor em segredo. Mais autêntico, por certo, é praticar a sátira publicamente e ser um guerreiro em segredo. Pois, na verdade, a sátira só é compatível com uma função, a do homem, e ela até parece realmente exigi-la. O facto de o satirista ser um homem já é provado tão-só pela impertinência satírica da qual ele próprio precisa se defender. Pois o satirista não tolera brincadeiras. Mas se ele matar o inseto que tem em mira as suas “fraquezas”, todos se espantam e perguntam por que afinal, e dizem que alguém que é ele próprio satirista também deveria tolerar que um outro — e assim por diante in infinitum da banalidade humana.

Uma vez que ornamentos e flores de retórica são ostentados com o maior gosto por…

Uma vez que ornamentos e flores de retórica são ostentados com o maior gosto por uma época a cuja essência repugna o sentido perdido dessas formas — e com gosto tanto maior quanto mais essa época tiver ultrapassado tal sentido, sem que ela seja, no entanto, capaz de criar novos ornamentos e novas flores de retórica que correspondam ao seu próprio conteúdo —, um Estado ainda “lançará mão da espada” quando há muito já será comum lançar mão do gás. Podemos imaginar que semelhante decisão algum dia se transforme numa frase feita? Deveria ser esclarecedor acerca da técnica o facto de ela não ser capaz de criar novos chavões, mas de deixar o espírito da humanidade no estado de não poder prescindir dos antigos. O mal do mundo vive e cresce nessa duplicidade de uma vida transformada e de uma forma de vida que se arrasta consigo. A época não cria chavões, mas está cheia deles; e justamente por isso, por um conflito incurável consigo mesma, precisa lançar mão da espada repetidamente. Os novos acontecimentos não produzirão nenhuma frase feita, mas as velhas frases feitas produzirão os acontecimentos!

Woodie, um cãozinho de pelo longo que conheci pessoalmente — ele ria quando as p…

Woodie, um cãozinho de pelo comprido que conheci pessoalmente — ele ria quando as pessoas conversavam com ele e chorava porque não podia conversar com elas, e o seu olhar era em si e para elas a gratidão da criatura —, foi atropelado por um automóvel. Quem teria tanta pressa? Deveria o pouquinho de espaço entre os corpos humanos que um transeunte desses exigia — ele podia encolher-se como uma cobra — ser melhor empregado? Os dignos pagam para que os outros continuem vivendo indignamente. E para quê, afinal, já que esse exemplo não melhora os maus? Ele seguia o seu caminho e morreu por isso. Quando a mulher se voltou, ele jazia ao sol. Quando a vida não tem palavras, resta tanto silêncio.
Aforismos · Karl Kraus
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