Lista de Poemas

Um escritor que eterniza um fato cotidiano compromete apenas a atualidade. Porém, quem jornaliza a eternidade tem perspectiva de ser reconhecido nas altas rodas.

 

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Meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez. Não pretendo me responsabilizar pelas congestões de um imbecil que não tem tempo.

 

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A linguagem é o material do artista literário; porém, ela não pertence só a ele, enquanto a cor pertence exclusivamente ao pintor. Por essa razão, as pessoas deveriam ser proibidas de falar. A linguagem de sinais basta perfeitamente para os pensamentos que têm para comunicar entre si. É permitido lambuzar nossas roupas sem cessar com tinta a óleo?

 

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O jogo de palavras, desprezível como fim em si mesmo, pode ser o recurso mais nobre de uma intenção artística na medida em que serve para abreviar uma intuição espirituosa. Ele pode ser um epigrama de crítica social.

 

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Ele domina a língua alemã — isso vale para o caixeiro. O artista é um criado da palavra.

 

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Devemos ler todos os escritores duas vezes, os bons e os ruins. Uns serão reconhecidos, e os outros, desmascarados.

 

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Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas.

 

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Escrever um romance pode ser puro deleite. Viver um romance já apresenta suas dificuldades. Porém ler um romance é algo que evito tanto quanto posso.

 

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Primeiro o cão fareja, depois levanta a perna. Contra essa falta de originalidade compreensivelmente não se pode objetar nada. Mas o fato de o literato ler antes de escrever é desolador.

 

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A evolução do escritor: no início não se está acostumado e por isso as coisas vão às mil maravilhas. Mas depois vai ficando sempre mais difícil, e quando enfim pegamos a prática, há muitas frases que não conseguimos concluir.

 

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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.